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sábado, 24 de agosto de 2013

CULTURA, MERCADO E DIVERSIDADE.

por Lau Siqueira

As demandas culturais envolvem muitos fatores. Por exemplo, a economia e seus arredores. Em algumas cidades do Canadá o debate sobre o orçamento público começa na cultura. Em Paris é a cultura que ordena o desenvolvimento do turismo. No Brasil a questão fica praticamente resumida ao repasse de verbas para projetos culturais individuais ou coletivos e aos percentuais gastos pelos governos. Estas são questões que estão postas e devem mesmo ser debatidas. Mas, não serão determinantes. Existem caminhos silenciosamente esquecidos. Por exemplo, na relação da mídia com a cultura. Na verdade, na relação da mídia com o mercado e deste com a cultura. Algo interessante se observarmos que os canais de difusão são concessões públicas que acabam literalmente privatizados e determinando os modelos culturais da sociedade e seus segmentos tribais.

A cultura representa 5% do Produto Interno Bruto - PIB nacional. Precisamos, pois, dar um pouco mais de atenção aos seus espaços de difusão. Desta forma, equivoca-se o gestor público de cultura que pensa estar "democratizando" quando abre espaço para expressões musicais inventadas pela mídia ou mesmo para um segmento gospel com sede de se tornar objeto de consumo dos fiéis. Afinal, os canais de mídia que inventaram verdadeiras empresas de espetáculos como Aviões do Forró e Garota Safada não abrem o mínimo espaço para a riquíssima diversidade cultural brasileira. Da mesma forma que as emissoras de rádio e TV evangélicas ou católicas não tocam um Flávio José.

Concluímos que as religiões devem ser respeitadas. A liberdade religiosa deve ser respeitada. Todavia, quando se trata de veicular e mercantilizar um produto, mesmo com mensagem bíblica, já não estamos mais falando de religião. Da mesma forma seria conveniente para as gestões culturais focadas na preservação da memória e da diversidade a convivência até mesmo com a mais absurda diluição plastificada nas suas programações, caso os canais que as produziram também estivessem disponíveis para a cultura popular ou erudita. O mesmo se poderia falar das emissoras religiosas. Aí sim, teríamos uma democracia cultural estabelecida. Não é o que ocorre. Os melhores espaços de mídia são absolutamente fechados. Portanto não se trata do "gosto pessoal" na determinação de uma programação cultural. O que está em jogo é a visão de mundo. A forma como se comporta atualmente a mídia quanto ao condicionamento cultural da sociedade, nos faz acreditar que dificilmente veremos bombar um novo Jackson do Pandeiro ou um novo Luiz Gonzaga. As portas estão fechadas para a cultura viva das diferentes regiões deste país de tantas expressões. E olha que aqui estamos falando apenas de música.

domingo, 13 de janeiro de 2013

O espelho azul de Ana Luisa Kaminski

 por Lau Siqueira

O que nos interessa no desbravamento dos conceitos de forma e conteúdo é a diminuição das lonjuras. A persistência de um olhar desfragmentado no discurso silencioso da arte. Foi nessa busca, percorrendo versos pelos caminhos da Idade Mídia, que encontrei o lirismo das cores e das formas na obra de Ana Luisa Kaminski - uma artista gaúcha, de Erechim,  que vive em Florianópolis. A delicadeza, a sensualidade, a espiritualidade feminina, a perplexidade de uma predominância azul aberta às tonalidades de cada cor. Ana Kaminski faz da sua arte um ato de serenidade, de ousadia, de liberdade, de paixão, de amor e de permanente inquietação. Elabora através das suas imagens, um discurso para as alcateias e passaredos da própria arte. Até que se cumpra o que dizia Mondrian: “a arte desaparecerá na medida que a vida adquirir mais equilíbrio.” Utopia que cabe  nas cores e na densidade temática que obra de Ana Kaminski  revela. Uma poética de imagens atentas aos desequilíbrios do mundo e buscando recuperá-los.

O auto-retrato é sempre um bom caminho para compreendermos a espinha dorsal de uma produção artística. O encontro ético e estético na distância entre o criador e a criação. Rembrandt foi o artista que mais pintou auto-retratos. Foram cerca de 100 obras neste formato. Mas, de certa forma, toda arte é autobiográfica. Revela com maior ou menor intensidade, a trajetória e talvez a consistência mais plena de uma vida. O artista por sua vez é um ser que transcende a partir dos seus acúmulos, das suas levezas, dos seus afetos e das suas jornadas impactantes. Todas as suas asas e principalmente todas as suas percepções sobre o mundo afinam seus instrumentos. Nossa leitura dos quadros de Ana Kaminski se dá nesta perspectiva. Observando as técnicas utilizadas pela artista lembramos o saudoso poeta concreto Décio Pignatari que dizia ser a poesia um segmento das artes plásticas. Ana Kaminski nos mostra que o inverso também procede. Talvez revelando os antagonismos apontados por Mondrian e os caminhos para a sua inevitável superação. Utopicamente a artista segue em frente, existindo além dos limites. Construindo-se pelos rastros de encantamento, inquietação ou mesmo repulsa que sua verdade artística possa provocar. Ana Kaminski busca suas utopias a partir de uma inegociável transversalidade. Tudo isso num tempo em que, permanentemente, o futuro se encontra com o passado. Todavia, com a suave condução dos rumos apontados pela energia que une os pincéis às suas mãos e às suas conexões sensoriais e lúdicas. É poesia o que brota nas cores de Ana Kaminski! Num profundo espelho de onde a artista extrai da sua existência, de forma sequencial e filosoficamente bem estruturada. Sua arte é uma permanente fotografia da sua alma fêmea.

Segundo Antônio Callado, “o principal problema da arte do nosso tempo, em que estala por todas as juntas a armadura do capitalismo, é criar uma ponte entre o povo e o artista – e por povo entenda-se todo mundo, todos os não-artistas.” Essa ponte, Ana Kaminski encontra de forma consciente e consistente nas redes sociais. Primeiro no Orkut e depois no Facebook ou mesmo no blog Âncoras e Asas (www.ancoraseasas.blogspot.com). O fato é que com estes instrumentos a artista vai encurtando a distância entre a sua obra e um público cada vez mais afinado com seus traços. O que transborda em Ana Luisa Kaminski é a plenitude da artista diante do seu universo criativo. Ela revela em cada pintura um firme propósito estético e uma permanente busca. Nada melhor para representar o que a vida tem de mais intenso, de mais verdadeiro.


Texto escrito para a minha coluna no portal repórterPB (www.reporterpb.com.br)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A MÍDIA SOU EU


por Lau Siqueira

As redes sociais cumprem um papel de tamanha relevância nas comunicações que até as grandes corporações da mídia tradicional estão no Facebook e no Twitter. As redes têm uma característica interessante: o sujeito abre uma conta  preenche um perfil, coloca uma foto para identificação e logo aparecem os seguidores. Em algum momento, no mesmo formato, na mesma rede social, o cidadão se depara, por exemplo, com o perfil do SBT ou do Estadão. A rigor, os padrões são idênticos. Também, nos últimos anos são milhares de blogs pessoais e portais que oferecem opções de acesso aos temas mais diversos. Logicamente que ainda estamos longe de uma revolução nas comunicações. Mas, ninguém pode negar que o momento é muito especial do ponto de vista da liberdade e da abertura de canais de expressão.
A “falta de apoio da imprensa” nunca teve muita consistência na justificativa de insucessos. Hoje, definitivamente, não salva a pele de ninguém. Para um cantor pouco conhecido que deseja mostrar seu trabalho, por exemplo, não existe caminho melhor que as redes. No Facebook, seguramente, o nosso jovem artista terá resultados mais seguros que na capa do melhor caderno de cultura da cidade. Isso lembra os cordelistas. Eles nunca esperaram as editoras e os jornais para encarar uma vida de frente pro verso. Logicamente que não cometeremos a ingenuidade de anunciar a  decadência da grande mídia. O poder é outro papo. Mas, podemos arriscar que para muitos segmentos esses gigantes já se tornaram irrelevantes faz tempo. É mais ágil e fácil a articulação de um público alvo através das redes sociais. Existe um novo traçado através da internet, radicalizando nas mudanças de hábito. O Jornal do Brasil já se tornou exclusivamente virtual. A banalidade e a consistência disputam espaços nas teias da Web. Logicamente que também as migrações do lixo cultural aceleraram o passo. Mas, sem dúvidas, abriram-se inúmeras outras portas. É natural que tudo isso gere uma esperança. Mesmo que o formato e a mediocridade das grandes corporações pareçam também, cada vez mais sólidas.
A “grande assembleia universal”, sonhada por Brecht na era do rádio, vai silenciosamente se cumprindo nesses tempos de velocidades. Sobretudo, está posta ideologicamente. Se alguém pode gravar uma cena de novela na sala da sua casa e colocar numa disputa (ainda que muito desigual) pela opinião pública, então o indivíduo pode dizer: “a mídia sou eu”. Se isso tem relevância? Bem... é dentro dessa nau de chips e bits que hoje navega a evolução da espécie humana. As mudanças são irreversíveis. Definitivamente, depois da invenção da roda o mundo anda cada dia mais rápido. É melhor não subestimar a Era Digital. 

Texto para o Jornal da Paraíba do próximo domingo.