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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

¿Qué pasa, Vargas Llosa? ( I )

Por Lau Siqueira



Esperar um voo em qualquer aeroporto não é tarefa divertida. As vitrines são as mesmas. As poucas livrarias exibem biografias e autoajuda. O ambiente é frio. Semana passada, em Guarulhos, entretanto, estanquei meu olhar num livro de Mario Vargas Lhosa. Admiro o peruano, autor de “A guerra do fim do mundo”. Então resolvi comprar “A civilização do espetáculo – Uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura”. O tema não é novidade. Edgar Morin e, muito especialmente Guy Debord já abordaram o assunto. Um tema, aliás, bem instigante e capaz de suscitar muitas reflexões. Os males da espetacularização midiática são por demais conhecidos. A notícia de fácil consumo substituiu o jornalismo crítico, reflexito, investigativo e isso tem um efeito devastador na cultura. É mais um fruto da globalização.

Uma frase na quarta capa do livro, todavia, é uma provocação: “A cultura, no sentido tradicionalmente dado a este vocábulo, está prestes a desaparecer”. Ele se refere à banalização das artes e da literatura. Algo que concordo discordando. O que ocorreu foi a retirada dos intelectuais e dos artistas das pautas de visibilidade. Os cadernos de cultura, majoritariamente, destacam a vulgaridade dos programas televisivos e a banalidade das colunas sociais. Mas, desprezar a qualidade da arte e da intelectualidade contemporânea é puro despeito. A chamada “alta cultura”, modismo dos salões aristocráticos, é que está morta. É um erro crasso afirmar que a cultura está prestes a desaparecer. Estamos sendo engolidos antropologicamente pela midialização, pela cultura do entretenimento. Todavia a arte é resistência em qualquer tempo. Não vamos esquecer que Van Gogh teve sua obra desprezada e ele não foi o único.

Desacreditar pensadores e artistas contemporâneos significa pensar fora do tempo da arte. A elevação da cultura não é propriedade de uma elite erudita ou de uma época determinada. É uma conexão da raça humana. Transborda junto com a história e nela se desloca. Em todas as épocas tivemos altos e baixos. Referendar a espetacularização como recorte do fim da história é frustração pessoal ou delírio neoliberal. Jamais uma realidade que não possa ser contestada e transformada. Depois de todas as vanguardas artísticas do final do século XIX e início do século XX, a história da arte e do pensamento não se afirmam mais pela novidade, mas pela densidade. A ideia de espetaculização em Vargas Lhosa me parece equivocada, especialmente quando compara Verdi com Rolling Stones. Como se o fato de existir o rock impedisse a evolução da música clássica. Entretanto, o livro merece outras abordagens. Faremos isso nas próximas colunas.

  Publicado no Jornal A União, na última sexta.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

DE QUEM É A CULPA?

Por Lau Siqueira


A notícia sobre o assassinato do ator e diretor de teatro Marcos Pinto veio na última terça-feira, em pleno Café em Verso e Prosa. A atriz e amiga Suzy Lopes revelou o triste fato. Pessoa muito querida no meio artístico e um dos profissionais mais dedicados e competentes que já conheci. Marquinhos não deixava espaço para falhas. Suas produções eram muito bem cuidadas. Gostava de ver a forma como se comportava. Era exigente e focado. Fora do trabalho, uma pessoa muito descontraída e carinhosa. A notícia da sua morte chegou fervendo nos meios culturais. A dor se mistura com a revolta. Basicamente nem é revolta contra o assassino. Um pobre diabo que se perdeu do destino. A revolta é contra a banalização da vida que a homofobia revela mesmo nas piadas consideradas “inocentes” e que de inocentes não tem nada.

Nossa sociedade homofóbica, machista e racista contabiliza mortes e mais mortes. Todavia parece que, finalmente, começa a acordar e criminalizar atitudes e ações discriminatórias. Mas, ainda é muito pouco. A impunidade é enorme. A homofobia transborda em programas de grande audiência e isso vai formatando um sentimento perverso em algumas pessoas. É como se assassinar gays, lésbicas, transexuais não fosse gerar culpa. Porque também as igrejas se mostram homofóbicas. Mesmo com tantos padres e pastores de tendência homoafetiva. A mídia escancara e banaliza os fatores humanos fora dos padrões que julga e impõe como normais. Isso tudo faz com que um ser qualquer, sombrio, sem amor, movido pelos sentimentos mais sórdidos, possa a vitimar pessoas decentes e dignas como o ator e diretor Marcos Pinto.


A comunidade artística da Paraíba nem bem se recuperou ainda do crime que tirou do nosso convívio o Palhaço Pirulito (Ismar). Também uma pessoa querida, artista competente e que, tal como Marquinhos, ainda faz uma falta enorme não apenas aos seus amigos e  familiares. Mas aos palcos da Paraíba. O assombroso disso tudo é que a morte por homofobia foi um dos temas abordados no Sarau da última terça, no Empório Café. Ismar foi lembrado e no final foi revelada publicamente mais esta má notícia. Marquinhos era assíduo no Café em Verso e Prosa. Nas redes sociais a tristeza com mais esta brutalidade contra um ser humano tão ímpar, tomou conta da Paraíba. Na verdade, sabemos que a revolta já não basta. O assassino precisa ser preso. Mas, sobretudo, homofobia precisa ser contida na mídia e na sociedade. A afetividade é uma opção, um direito humano. Não pode ser banalizada por uma sociedade que esconde suas crueldades no silêncio mais perverso. Marquinhos fará muita falta. Nos palcos e na vida.


Publicado no Jornal A União.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

PERSPECTIVAS CULTURAIS PARA 2015

Lau Siqueira
A Paraíba é, reconhecidamente, um dos estados que mais produz  arte e cultura no país. Uma terra de artistas imensos e intelectuais brilhantes. Vale citar Pedro Américo, Augusto dos Anjos, Paulo Pontes, José Lins do Rego, José Américo de Almeida, Celso Furtado, Sivuca, Jackson do Pandeiro, apenas como exemplo. Mas, não é só isso. Temos o quinto teatro mais antigo do Brasil. Teatros históricos espalhados pelo interior. Abrigamos o segundo maior centro cultural do mundo - o Espaço Cultural José Lins do Rego. O artesanato paraibano está entre os mais criativos do país. Basta lembrar as rendeiras do Cariri e Mestras como Zefinha, em Pitimbú. Além de abrigarmos sítios arqueológicos e uma história que passa pelo Cangaço e  pela Coluna Prestes. Enfim, a Paraíba possui lastro para desenvolver sua economia a partir do seu patrimônio histórico e das diversas vertentes da sua cultura.

Nossa capital já teve diferentes nomes em diferentes épocas e é a terceira cidade mais antiga do Brasil. Atualmente contamos com um dos mais modernos centros de convenções do país. O teatro Ariano Suassuna, em fase de conclusão, será um dos maiores e mais modernos do Brasil. O Sistema Estadual de Cultura e o Plano Estadual do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas colocarão a Paraíba na vanguarda das políticas públicas de cultura. Eventos como a FLIBO, SeCas, Extremo Cultural, Mostra Internacional de Teatro e Dança, Festival Mundo, Campus Festival, FestAruanda, Caminhos do Frio e outros tantos revelam a potencialidade do Estado para o turismo cultural. Um filão que jamais foi explorado do ponto de vista do planejamento econômico da cultura e do turismo. Aliás, como fazem alguns dos grandes centros econômicos da cultura na França, Canadá e outros países.


Estamos diante de um grande desafio. Esse desafio se refere à compreensão que as pessoas têm das coisas. Não bastam bons equipamentos culturais. A responsabilidade e os cuidados é tarefa coletiva. O preenchimento com conteúdos, também não depende apenas de decisões administrativas. Em 2015 a Paraíba terá 7 milhões para desenvolver projetos artísticos pelo seu Fundo de Incentivo à Cultura. Um volume de recursos nunca visto por aqui. O último edital lançado pelo governo Ricardo Coutinho chegou a 3 milhões e o anterior, lançado no governo Cássio Cunha Lima (e não totalmente pago), foi de apenas 1,6 milhões. Portanto, estamos com boas perspectivas de financiamento e com equipamentos culturais restaurados ou em fase de restauro. A possibilidade de darmos um salto de qualidade na cultura da Paraíba em 2015 é real. Boas sementes foram plantadas para essa nova colheita. Um novo tempo, certamente, nos espera.


Publicado na edição de 12/12/14

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A tristeza como espetáculo midiático

Por Lau Siqueira


Depois que uma adolescente foi assassinada por outro adolescente numa sala de aula da Escola Violeta Formiga em Mandacaru, começou um atabalhoado debate popular sobre a segurança na escola, a redução da maioridade penal (mais uma vez sob os mantos da emoção), os culpados subjetivos, a fatalidade do ocorrido, as coincidências históricas, etc.. Até que a mídia abandone de vez a notícia e que a dor e a indignação permaneçam apenas com a família da vítima. O certo é que em breve seremos afogados por  nova tragédia pautada nas redações. Afinal, a "sociedade do espetáculo" vive disso. É assim que tem sido dia após dia.
Pensamos muito pouco sobre as causas e dimensionamos exageradamente as consequências de fatos como este.  Situações semelhantes se diluem no cotidiano e a verdade é  que o machismo mata. Seja na idade adulta, seja na juventude ou mesmo na infância. Todo mundo sabe disso. Todavia, nem todo ato de violência contra a mulher vira notícia. Nem todo crime provoca comoção popular. Cinicamente o machismo tem trânsito livre no discurso dos mesmos "formadores de opinião" que repercutem esse tipo de notícia. Da mesma forma que a homofobia e o racismo. Preconceitos que também agridem o cotidiano de milhões de pessoas e produzem milhares de mortes. Tudo silenciado pela fome insaciável de audiência.
Em algumas situações a intolerância é apenas um crime  travestido de radicalismo. No caso da adolescente assassinada é inútil essa tentativa  das “autoridades competentes”  reparar o que não tem mais conserto. Uma menina foi assassinada dentro da sala de aula. Ponto. O resto é com a Justiça. Agora devemos ter atenção para com esta força estranha que leva as pessoas para a violência. Geralmente motivadas pela banalização da vida. A tristeza pela morte da menina não pode afetar uma reflexão madura. O fato é que a sociedade brasileira vive momentos de espantosa intolerância pessoal, política e social.

A vingança e qualquer raciocínio emocionado não ajudam em nada. Na verdade, atrapalham.  Precisamos de lucidez para compreender que fatos como este continuam alimentando audiências e popularizando a sangria social que atravessa os séculos. Isso acaba motivando os oportunistas patológicos, os pulhas carimbados que não perdem a oportunidade de até mesmo partidarizar a tragédia. Existem formadores de opinião movidos por sentimentos macabros, sem dúvida. Este caso, por exemplo, extrapolou a página policial revelando até mesmo  o obscurantismo intelectual de alguns. É triste pensar que certos profissionais da informação se alimentam de tragédias como esta. Mas, essas questões devem alimentar o debate antes  da próxima tragédia.



(Esse texto será publicado amanhã no Jornal A União, na minha coluna semanal. Todas as sextas um novo texto que sempre é armazenado aqui no Blog A Barca)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A LITERATURA COMO DIREITO SOCIAL E HUMANO

Por Lau Siqueira



Ontem a Secretaria de Cultura do Estado da Paraíba - SECULT, através da Fundação Espaço Cultural- FUNESC, lançou uma consulta pública sobre o Plano Estadual do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas durante a solenidade de abertura da quinta edição da Feira Literária de Boqueirão – V FLIBO, no Cariri paraibano. Uma proposta que vinha sendo discutida e construída pelos movimentos sociais e por instituições como o Curso de Biblioteconomia e a Associação dos Bibliotecários, desde 2007. Na verdade tudo começou numa reunião do Fórum Pessoense de Literatura realizada no Casarão 34 onde estavam presentes escritores, livreiros e bibliotecárias como a saudosa professora Jemima Marques de Oliveira.

De lá para cá aconteceram várias reuniões em períodos ora mais longos ora mais curtos. O fato é que uma proposta foi construída coletivamente e recuperada este ano pela coordenação do Sistema Estadual de Bibliotecas e pela direção da Biblioteca Juarez Gama Batista, sediada no Espaço Cultural José Lins do Rego. Algumas reuniões aconteceram ainda no primeiro semestre deste ano, com o objetivo de recuperar o debate e finalizá-lo para que finalmente pudesse ser encaminhado ao Governador para finalmente ser remetido para a Assembleia Legislativa e transformado em lei estadual.


De 2007 para cá muita coisa aconteceu. O debate sobre o livro e a literatura ampliou-se através da criação de programas como o PILLE – Programa de Incentivo à Leitura Literária na Escola lançado na Escola Estadual Gentil Lins, localizada em Sapé e que hoje é uma política pública de incentivo à leitura que está sendo implantado nas 40 escolas municiais de Sapé. Ontem uma consulta pública, através da internet, foi lançada na abertura da V FLIBO onde toda a sociedade paraibana poderá opinar, democratizando o debate para a sua finalização. A consulta aborda quatro eixos estratégicos para a implementação do plano, quais sejam: a democratização do acesso, o fomento à leitura e a formação de mediadores; a valorização institucional da leitura e incremento de seu valor simbólico e o desenvolvimento da economia do livro. Foi incluído ainda um quinto eixo que se refere à institucionalização do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas da Paraíba. Portanto a Paraíba está se preparando para dar um passo gigantesco no sentido de se tornar um estado de leitores e leitoras, assumindo assim a vanguarda no Ensino Público e na organização da cadeia produtiva do Livro.
Assim a V FLIBO ficará na história como um marco na institucionalização de uma política pública que trará muitos benefícios ao desenvolvimento intelectual da juventude paraibana.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

AS LIÇÕES DE JOÃO BALULA

Por Lau Siqueira



Quem conviveu minimamente com João Balula (João Silva de Carvalho Filho) militante de tantas causas sociais e culturais, guarda memórias de muito afeto. Não há quem possa falar do Carnaval Tradição de João Pessoa, da Federação Paraibana de Teatro Amador, do Movimento Negro, do Candomblé, da Lei Viva Cultura e de tanto legado coletivo sem que o nome de João Balula seja lembrado. Era o Príncipe Negro, elegante, inteligente e sincero que habitou o popular bairro da Torre e acampou por muito tempo no, infelizmente extinto, Teatro Cilaio Ribeiro. Em 2008, Balula refez suas rotas e foi morar com os Orixás. Faleceu precocemente, aos 48 anos. Mas deixou um legado que não pode ser esquecido.

Não há no estado da Paraíba quem possa discutir o teatro amador, por exemplo, sem que o nome de João Balula seja lembrado. Era o articulador de tudo que pudesse dizer respeito às movimentações nesta área. Seja no bairro Valentina de Figueiredo, seja no Alto Sertão, em Sousa ou Nazarezinho, em Cajazeiras ou Pombal. Ele sabia se espraiar pelo mundo e plantar boas sementes. Nas culturas populares não havia quem melhor circulasse. Era a principal âncora da Escola de Samba Malandros do Morro onde circulava com galhardia e sabia como ninguém explicar a existência de um “morro invisível” na Torre. Orientava os mestres das Tribos Carnavalescas, protegia, oferecia seus préstimos permanentemente. Sua passagem pelo mundo foi marcada pela generosidade.

No Movimento Negro surgia como uma liderança natural e incontestável. Sabia comportar-se diante da igualdade que exigia do mundo. Anarquista convicto, jamais se filou a partido  algum. No entanto suas ideias libertárias eram a base da sua existência. Pouco importava estar diante de um Juiz ou de um morador de rua. Balula comportava-se exatamente da mesma forma e tratava todo mundo com o mais profundo respeito. Sabia tudo sobre o Carnaval Tradição. Ia para a disputa e brigava pela  Malandro, mas era amado e admirado pelas escolas concorrentes, pelas Tribos Carnavalescas, pelas Orquestras de Frevo. Balula era a própria personificação do Carnaval pessoense.


Funcionário da Fundação Cultural de João Pessoa – FUNJOPE, jamais ocupou cargo de relevância. Mas, para os movimentos culturais da Paraíba ele era a própria FUJOPE. Não o presidente, mas o Príncipe Negro que a todos recebia e atendia. Foi embora cedo demais deste mundo. Mas, tornou-se imortal na memória do seu povo. Permanece entre nós. Virou nome de Anfiteatro na praça do conjunto Cidade Verde, em Mangabeira. Todavia, merece estátua em praça pública. Merece ter sua memória preservada e suas ideias sobre difundidas pelos quatro cantos do mundo.





texto que será publicado amanhã no Jornal A União.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Cultura da Casa Grande à Senzala

Por Lau Siqueira

Não é fácil trabalhar com cultura em lugar nenhum do planeta. Principalmente fora das grandes engrenagens comerciais, onde a cultura vira um produto descartável e onde raramente a arte se faz presente. Não é fácil trabalhar com cultura em Cachoeira dos Índios, no Alto Sertão da Paraíba e nem em Herval do Sul, cidadezinha perdida no extremo pampa do Rio Grande do Sul. Os desafios são idênticos e as demandas se aproximam. No entanto foi nessas dificuldades e sem qualquer resquício de política pública rondando pelos corredores palacianos que um estado pobre como a Paraíba produziu suas maiores referências culturais. Nomes que cruzaram muitas fronteiras.

Não são poucos os paraibanos de projeção nas artes e na intelectualidade brasileira. Podemos citar os grandes mestres como Augusto dos Anjos, Pedro Américo, Maestro José Siqueira, José Lins do Rego, Sivuca, Jackson do Pandeiro, Zé Ramalho, Elba Ramalho, Cassiano, Herbert Viana, Chico Cesar e muitos outros que se destacaram na própria batalha e mostraram-se às terras Tabajaras e Potiguaras entre os mais talentosos do País. Ainda hoje a Paraíba conta com artistas excepcionais. A terra de Linduarte Noronha e Vladmir Carvalho é mesmo coisa de cinema. No entanto a maioria dos grandes mestres vivem sob o manto do silêncio e da invisibilidade.

Entendo que o grande desafio na esfera estadual das políticas públicas é estabelecer os elos necessários para que o Sistema Estadual de Cultura e os sistemas municipais, passem a dialogar com o Sistema Nacional de Cultura de forma a efetivar ações de políticas públicas que garantam o fomento à produção de todas as áreas. Está posto o desafio, no entanto sabemos que não é assim tão fácil. Em qualquer esfera, no geral, os gestores administram muito mais as dificuldades que as possibilidades. Dizem que o “povo precisa de cultura”, mas esquecem de pedir para que a televisão seja desligada.


Alguns artistas, por sua vez, não conseguem absorver a realidade e a necessidade de confrontar o mercado e não submeter-se às suas regras. Uma política cultural não pode ser medida pela quantidade de ações e muito menos pelo percentual de diferença entre os cachês de um artista “comercialmente aceito” com os cachês de um Mestre de Reisado. Porque são distintas as bases de cálculo. Se existisse uma clareza por parte dos movimentos culturais sobre as possibilidades do todo, poderíamos caminhar diferente. Mas, o que se constata atualmente é uma corrida às facilidades da administração pública, na base do eterno “farinha pouca meu pirão primeiro.” Algo que pode até contentar alguns, mas não assegura sustentabilidade nem aqui nem na China.

Texto para o Jornal A União do próxima sexta.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O DAY AFTER DAS ELEIÇÕES 2014

Por Lau Siqueira


Participação popular  ainda é um aprendizado para a sociedade brasileira. Alguns setores até preferem que isso nem exista.  Mas, podemos dizer que a jovem e frágil democracia brasileira não é mais revelada pela dita liberdade de imprensa. A maioria dos jornais já não pratica o velho e bom jornalismo. São órgãos a serviço de interesses políticos ou econômicos, apenas. O que mede o grau de convivência democrática da sociedade brasileira hoje e, certamente da sociedade mundial, são as redes sociais. É o lugar onde cada cidadão e cidadã expressa livremente sua indignação, seus desejos, mas também seus preconceitos. O amor e o ódio transbordam em um português nem sempre muito polido.

Nessas últimas eleições as redes sociais foram o principal instrumento de expressão de grande parte da população. As preferências e as formas de repúdio aos seus contrários estiveram pipocando até o desaguadouro das urnas. Não que isso não esteja no cotidiano dos usuários da rede. Todavia, inegavelmente, no período pré-eleitoral tudo foi mais intenso. Os desejos individuais se tornaram mais claros e as opções passaram de democráticas a impositivas. Os excessos aconteceram de lado a lado. A sociedade brasileira se mostrou claramente dividida entre duas forças antagônicas e os próximos dias, certamente, não serão assim tão tranquilos.

Toda sorte de barbaridades foi proferida. Por exemplo, que Lula dividiu a sociedade brasileira entre ricos e pobres. Ou seja, Lula inventou a luta de classes. Coisa que seria risível se não fosse trágico. O olhar sobre a corrupção se tornou agudo. O que é positivo, mas lamentável por ter sido um olhar única e exclusivamente direcionado ao governo petista que, na verdade é um governo de composição com partidos tradicionais. Esqueceram os escândalos impunes da era PSDB, da era Collor e Sarney ou mesmo no império do silêncio do regime militar, quando o Brasil era conhecido no exterior como o país dos 10%.


Amizades foram desfeitas. Aconteceram brigas entre familiares. A dicotomia entre o bem e o mal, o amor e o ódio, a competência e a incompetência deram o tom do debate no Facebook. As emoções afloraram diante de uma razão cada vez mais frágil. Enfim, as redes sociais cumpriram um papel determinante não apenas para definir os resultados finais, mas para diagnosticar o momento atual da sociedade brasileira. A intolerância foi o destaque preocupante num pleito marcado pela tragédia que ceifou a vida de Eduardo Campos. Mas, o que assustou mesmo foi o tom fascista e o poder de influência que ainda exercem veículos de comunicação visceralmente comprometidos com o retrocesso social e político do Brasil e do mundo.



Artigo que será publicado na página 2 do Jornal A União do dia 31 de outubro de 2014.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A MÚSICA DA PARAÍBA NA WOMEX

Por Lau Siqueira

Que a Paraíba sempre foi um celeiro de grandes artistas e intelectuais, ninguém duvida. De Pedro Américo ao jovem Thiago Verde. Passando por Jackson do Pandeiro, Sivuca, José Lins do Rego, Augusto dos Anjos, Alexandre Filho, Miguel dos Santos e tantos outros em diferentes épocas e estilos. Na música, principalmente, sempre fomos soberanos. São inúmeros cantores, cantoras, bandas, compositores de incontestável qualidade. Alguns já reconhecidos pela mídia e pela crítica e outros ainda não.

A Primeira Coletânea do projeto Music From Paraíba foi lançada no ano passado na WOMEX, a maior feira de música do mundo. Além da capa primorosa feita pelo artista visual sertanejo Shiko, mostrou ao mundo o trabalho de vinte artistas selecionados pelas vias de um edital público. Lá estão Sandra Belê, Seu Pereira e Coletivo 401, Beto Brito, Os Gonzagas e outros artistas. Este ano foram setenta e um artistas selecionados para a segunda edição. São quatro discos num encarte com dimensão de LP, cuja arte da capa é assinada por Silvio Sá. Aliás, Silvio já desponta como uma promessa nas artes visuais paraibanas. A diversidade de gêneros e a colheita nas mais diferentes regiões do Estado revelam uma coletânea extremamente representativa da nova música paraibana.

Idealizado e desenvolvido por Arthur Pessoa, coordenador de música na Fundação Espaço Cultural da Paraíba, o projeto acabou se revelando também uma ação de circulação musical na terra de Chico Cesar e Lúcio Lins. Desde o dia 24 o álbum está sendo distribuído para produtores do mundo inteiro também na WOMEX que, este ano, está sendo realizada em Santiago de Compostela, na Espanha. No próximo dia 9 de novembro o projeto será lançado aqui em João Pessoa, pela SECULT-PB e pela FUNESC, no Teatro de Arena do Espaço Cultural. Será o começo de mais uma longa e produtiva jornada na contramão de um mercado fonográfico cada vez mais pasteurizado e mumificado pelas suas lucrativas razões. A FUNESC sustenta este projeto como uma ação de resistência cultural contra a globalização da mediocridade. Uma ação pública contra a barbárie do mercado.

É tempo de sonhar mais e realizar mais. Tempo de acreditar que as políticas públicas de cultura no Estado da Paraíba podem impulsionar o desenvolvimento do setor em todos os sentidos. Inclusive na base da economia da cultura numa terra cuja identidade é a criatividade o seu povo. A Paraíba pode se firmar como a Áustria brasileira neste terceiro século da era Cristã. Projetos como o Music From Paraíba revelam a potencialidade dos artistas para uma contribuição fundamental nos processos de desenvolvimento do Estado. Esta aposta, aliás, é muito segura.

texto que será publicado no dia 24 de outubro, no Jornal A Uniao.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

ENTRE A DEMOCRACIA E O VOTO

Por Lau Siqueira


O poeta Mário Quintana tinha uma frase interessante sobre a democracia. Para ele “democracia é dar a todos o mesmo ponto de partida. A chegada depende de cada um.” Em Porto Alegre vi Mário em passeatas do Sindicato dos Jornalistas do RS por ocasião do fechamento do Jornal Correio do Povo. A redação inteira estava demitida. Inclusive o poeta. Certamente Mário nunca foi um militante. Em alguns momentos se posicionava de forma bastante conservadora. No entanto esta frase é tão emblemática quanto outra da sua campanha para a Academia Brasileira de Letras, quando disse: “a ABL é um tipo de associação recreativa e funerária.” Certamente com isso o poeta perdeu os votos que não teria.

O fato é que o voto livre e direto é uma conquista e um direito. A luta pelas Diretas Já foi uma das principais lutas do povo brasileiro. No entanto entre o voto e a democracia existe um hiato. Nossa democracia ainda é frágil. Ainda não temos o mesmo “ponto de partida” para todos. Estamos alavancando o futuro após 500 anos de favelização do país, de institucionalização da miséria enquanto instrumento de poder político. Mas precisamos reconhecer. Finalmente o Brasil saiu do mapa da fome feito pela ONU. Estamos caminhando para uma democracia. Aos reconhecer seus direitos e seu papel, aos poucos, o povo vai compreendendo seu papel neste novo cenário. O Nordeste e, especificamente a Paraíba, começaram um caminho sem volta para o desenvolvimento.

Todavia, ainda convivemos com a criminosa compra de votos. Também com a impunidade de políticos representantes da elite. Vivemos num tempo de desigualdades gritantes e preconceitos letais como o racismo e a homofobia. Estamos, pois, distantes de uma democracia verdadeira. Mas é este o destino do Brasil e da Paraíba. Temos um caminho já percorrido que diminui a distância entre os mais ricos e os mais pobres. Portanto, ainda não somos uma democracia plena. O rumo desta eleição nos mostra que somente os interesses particulares ou corporativos sustentam qualquer tipo de dúvida.


Por outro lado, não podemos esquecer que a extrema-direita avançou nestas eleições. O fascista declarado Bolsonaro já adiantou que será candidato a presidente nas próximas eleições. Na região mais rica do país as urnas revelaram as mais desagradáveis surpresas. Por isso o Nordeste precisa se posicionar firme. Juntamente com os demais segmentos populares do país. No caso específico da Paraíba temos escolhas casadas e em campos ideológicos muito bem definidos. Não existe espaço para o meio termo. Não existe espaço para as posições covardes dos que se escondem da própria verdade.  Mais do que nunca, “é preciso estar atento e forte”.





Texto que será publicado na página 2 do Jornal A União, em 17 de Outubro de 2014.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

CRIANÇAS NO ESPAÇO CULTURAL DA PARAÍBA

Por Lau Siqueira


Sempre que vejo o Espaço Cultural da Paraíba cheio de crianças sinto uma emoção imensa. As políticas de cultura, historicamente, deram pouca ou nenhuma atenção às crianças. Outro dia li um comentário do meu amigo Petrônio Souto, jornalista respeitado, sobre a indústria fonográfica: “enchem nossas crianças de besteirol e depois querem resolver a com a redução da maioridade penal.” A cultura oferecida para as crianças durante décadas foi a cultura do consumo. A violência impera nas programações da TV. A erotização da infância tomou proporções assustadoras a partir de apresentadores como Xuxa e  Gugu.

Mesmo os movimentos sociais da cultura quando fazem suas reivindicações, geralmente, não ultrapassam o nó do próprio umbigo. Cada qual que se limite às suas reivindicações corporativas. Pouco ou nada é pensado para as crianças na sociedade do espetáculo. Daí a recorrente presença de adolescentes bêbados ou drogados em shows que seriam para adultos. Falta nas políticas de cultura a formação cidadã. Isso começa, sem dúvidas, com uma priorização de investimentos para os pequenos. Seja com bibliotecas e formação de leitores, teatro, cinema, música ou outra área qualquer. Esse  gancho, aliás, vai medir as reais intenções de algumas cobranças quase truculentas em relação à gestão pública.

Outro dia ouvi do Chico Cesar, secretário de Cultura da Paraíba, que “tem muita gente no palco e pouca gente na plateia”. Captei imediatamente a observação perspicaz do nobre catolaico. Há uma necessidade infame de visibilidade. Seja qual for essa visibilidade. Talvez por isso vejamos jovens sedentos de palco tentando imitar seus ídolos de forma pífia e achando que temos a obrigação de aplaudir. Cada vez mais estou convicto que não se faz política de cultura para os artistas, mas para o público. Os artistas são os agentes dessa política pública. Da mesma forma que os professores são os agentes das políticas de educação.


O Espaço Cultural da Paraíba tem buscado essa inversão. Ao contrário do que pensam alguns, o Espaço é um lugar de arte e cultura e não uma casa de shows. Lá existem documentos assinados por Dom Pedro I e uma biblioteca com cem mil títulos. O conhecimento é a sua principal missão. Existe museu, escola de dança, escola de música, planetário, etc. Em fase de finalização depois da sua grande reforma, o Espaço está cada vez mais vivo e cada vez mais com as portas abertas para a formação cidadã do povo paraibano. A meta é traçar uma política de democratização do conhecimento para crianças e jovens. Neste momento a reforma que se inicia no maior equipamento cultural da América Latina é conceitual. Não temos tempo a perder. Cada momento pode ser a nossa última chance.


Artigo que será publicado no Jornal A União do próximo dia 10/10.14

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O RENASCIMENTO DO CINE SÃO JOSÉ

Por Lau Siqueira

Semana passada o Cine São José, em Campina Grande, retomou seu tempo de glórias. Foi ampliado e modernizado. É verdade que ainda não chegaram os equipamentos e mobiliários. Entretanto, depois de 30 anos de abandono e algumas “ordens de serviço” não cumpridas, finalmente a população de Campina Grande viu uma luz no fim de tudo. A restauração do Cine São José foi uma decisão de governo. Mas, não apenas isso. É, também, fruto de uma luta. Uma batalha de muitos braços, mentes e corações. Não há qualquer heroísmo personalista nessa conquista coletiva. Foram muitos heróis e heroínas. O povo do audiovisual, teatro, música, cultura popular, dança, artes visuais,  hip-hop... Enfim, foi uma representação imensa que desbravou os escombros e desafiou o abandono. Agora o sentimento coletivo, finalmente, tomou posse do novo centro cultural da Borborema. Com um Conselho Consultivo eleito democraticamente, o Cine abre suas portas numa lógica mais acolhedora aos artistas e ao público.

Fundado em 1945 o Cine São José foi palco de muitas jornadas, até fechar suas portas em 1983. Grandes artistas passaram por lá. Existe uma memória amorosa da cidade e principalmente do bairro São José para com o Cine. Bastou o equipamento ser inaugurado pelo Governo do Estado e já apareceram seus antigos frequentadores. Pessoas com cópias em DVD dos filmes que lá assistiram. Moradores do bairro que entram e se emocionam. Eles sabem o que representa a restauração de um prédio que já tinha sido dado como perdido por muitos. O que foi revitalizado, na verdade, foi a história. Todos sabem que se trata de um equipamento público e não uma propriedade de governo ou de grupos. Este é o sentimento majoritário neste momento.


Havia uma expectativa enorme. Especialmente no movimento audiovisual da cidade. Afinal, a Rainha da Borborema carece de espaços para exibições da sua bela produção. Mas, a história nos mostra que aquele espaço sempre foi um palco para muitas artes. Lá aconteciam shows e espetáculos. Não cabe, pois, qualquer disputa mesquinha. O Cine São José é um espaço de convergência. Da mesma forma que o cinema faz convergir praticamente todas as linguagens para se configurar na Sétima Arte. O quinhão do audiovisual está assegurado da mesma forma que a gestão democrática do espaço será garantida para todas as linguagens. É tempo de ir em frente. Em breve teremos mais uma edição do “Cine Cultura”. A programação prosseguirá abrindo as cortinas para quem faz arte erudita,  popular ou  para a cena alternativa. Pelo que vimos na abertura, a partir de agora a população de Campina começa a sonhar com novos caminhos nas políticas culturais da cidade.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

OS NÓS E OS LAÇOS DA LEITURA

Por Lau Siqueira




Cresce cada vez mais no Brasil e, consequentemente aqui na Paraíba, o número de militantes por uma política pública de leitura. Na verdade, uma política pública para o livro, a leitura, a literatura e as bibliotecas. Uma luta mais do que justa, aliás. Precisamos eliminar o analfabetismo. Todavia, o que mais preocupa é o analfabetismo funcional que frequenta há muito até mesmo o chamado “ensino superior”.  Este se revela como consequência direta da carência de uma política pública voltada para a formação de leitores. Uma falha que começa no ensino fundamental e se estende pela vida do estudante. Apesar da urgência  na efetivação de um marco legal não é um problema que se resolva por decreto. O chamado “povo do livro”  no país inteiro convive com alguns conflitos que precisam ser superados. O principal deles é o corporativismo. O típico “farinha pouca meu pirão primeiro”.  Esse é o gargalo do momento, pois devemos considerar de forma igualitária todos os segmentos da cadeia da leitura, ao escritor ao leitor.

O fato é que o “povo do livro” ainda não se entendeu plenamente sobre os caminhos da leitura. Qual seria o nosso primeiro passo? Precisamos estabelecer uma estratégia para o funcionamento das bibliotecas públicas que são, a rigor, o eixo central para uma política de leitura. Mas, precisamos ainda de tanta coisa. A literatura contemporânea cumpre um papel determinante nesta configuração. Que o diga o Programa de Incentivo à Leitura na Escola – PILE, aplicado pela Secretaria de Educação de Sapé-PB. Este programa avança trabalhando quase que exclusivamente com autores paraibanos.  Sapé cumpre sua missão de estabelecer uma estratégia e uma prática cotidiana em direção às políticas de leitura. No entanto, esta não é a regra. Em alguns casos, talvez na maioria, nos deparamos com uma escandalosa apatia por parte dos gestores, escritores e professores.


Também as vaidades e os interesses particulares atrapalham a mobilização. O desconhecimento de um segmento acerca das necessidades e possibilidades do outro são evidentes. Cada qual permanece olhando visceralmente para o próprio umbigo. É aí que reside a maior dificuldade para que uma política pública para a leitura seja solidificada na Paraíba ou em qualquer parte do Brasil. Os benefícios da leitura para a qualidade do ensino e consequentemente para a qualidade de vida da população são inquestionáveis. Questionável é ainda não termos a leitura como diretriz prioritária nas políticas públicas para a Educação. Esse debate interessa a sociedade. A Colômbia combate o crack com bibliotecas. Nossa juventude necessita de bons conteúdos. A leitura e as demais políticas públicas para a cultura são as melhores saídas para o combate à violência e às desigualdades.


Texto publicado no Jornal A União.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A REVOLUÇÃO CULTURAL DA PERIFERIA

Por Lau Siqueira


A mídia globalizou-se. Chegou às comunas do mundo. Todavia, a intensidade da difusão continua privada. O eco maior é propriedade de poucos. Mesmo assim as periferias do mundo resistem. Se a mídia banalizou a cultura do povo, as ruas a consagraram. Existe uma pulsação imensa por fora das grandes cadeias midiáticas. Afinal, é cada vez mais fácil gravar um disco em qualquer lugar do país. Nem sempre com as melhores estruturas. Pouco importa, pois um ouvinte atento é capaz identificar os melhores  conteúdos.  “Da minha cabeça cuido eu”, já dizia um sábio andarilho dos anos 70. Difícil mesmo é fazer com que o trabalho  feito “na tóra”, como se diz, tenha repercussão até mesmo regional. As emissoras de rádio e TV, apesar de serem concessões públicas, funcionam na lógica do lucro fácil e da audiência conquistada a qualquer preço. Os que não podem pagar o jabá, os que estão fora das grandes máfias fonográficas.

Há resistência em qualquer periferia do mundo. Lugares onde a expressão artística é a forma do conhecimento adquirido através das batidas, dos traços e da ginga do Hip-Hop. Assim é o disco do CGzoo, “Bem Vindos à Selva”. Uma pancada de rimas e de som bancados na batalha. Uma agulha no removedor de impactos das muitas nações-coxinha da Paraíba. O discurso é o traçado do REP (aprendi), ritmo e poesia. A vida árida no  efeito dominó de uma estratificação social traduzida em versos. Mais que uma possibilidade é  uma linguagem dialogando com o mundo. Máquina acelerada, cabelos e bocas celebrando a vida. Assim é a selva onde nada mais surpreende ou pode surpreender, além da arte e suas possibilidades enquanto conhecimento e encantamento. O CGZoo sabe das mazelas e inventa suas próprias curas com sua cara negra-ameríndia pintada para a guerra nossa de cada dia.


O  CGzoo traz a ideologia das ruas brasileiras. As disposições mambembes do som que circula e se bifurca nas quebradas e na cena alternativa. Os motivos profundos ou banais da existência. As lutas silenciosas do povo contra a opressão cínica das elites. Assim vai ganhando o passo a passo da caminhada. Sem espelhos que não sejam os mesmos espelhos de cada esquina. Onde somos todos da mesma raça humana, com seus defeitos e suas taras por perfeição.  No Quarenta, no Zepa, nas Malvinas, nas histerias da fome e na saciedade da alma. Não podemos deixar de reconhecer que diante de imensas dificuldades, de castrações, de soluções impróprias, há uma capacidade abismal de conduzir o sim e o não. O movimento Hip-Hop, em Campina Grande, em João Pessoa, em Natal, Porto Alegre ou Cajazeiras, sabe por onde o sapato aperta. Talvez por isso esse jeito descalço de caminhar. 

Esse texto será publicado no Jornal A União, edição de amanhã, sexta-feira, 26/09/14.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

AS TRAMAS SONORAS DO SILÊNCIO

Por Lau Siqueira

A Paraíba construiu uma das mais ricas estradas musicais no país do samba e da bossa nova. São muitos os caminhos percorridos por gênios como Jackson do Pandeiro e Sivuca. Daqui saíram expoentes que se consagraram no mercado fonográfico em diversos gêneros. Zé e Elba Ramalho, Chico Cesar, Cassiano, Herbert Viana, entre tantos nomes que trafegam nas idas e vindas de um rebuliço cultural brasileiro que dialoga com o mundo.

Nos dias de hoje essa efervescência cresce em diversidade e qualidade. O Projeto Música da Paraíba traduz com plenitude essa nova onda criativa espalhada em todos os gêneros. É o RAP na idade do metal, o rock na pesquisa do coco de roda, o forró da rabeca ao tímpano. Um oceano de possibilidades rompendo as barreiras invisíveis da vida.  Transgressões inventivas e poéticas que fomentam uma cena local que se permite transbordar.

O segundo edital do projeto Música da Paraíba revela mais uma vez a força de um movimento musical independente que cada dia  mais se fortalece na Paraíba e no Brasil, por fora dos canais midiáticos que reproduzem a pastagem ruminada da indústria fonográfica. São as tramas sonoras do silêncio que pedem passagem. Algo que um generoso nicho do mercado espera, mas muitas vezes sequer abre os braços para alcançar.


Numa luta permanente de resistência e sobrevivência estética por fora das estradas lamacentas da globalização, com a força ancestral e ao mesmo tempo futurista da música do mundo, a Paraíba pede passagem num planeta que aproxima o Senegal do Curimataú, a musicalidade indígena do litoral norte da Paraíba, com a mestiçagem dos becos de Nova Iorque. Tudo aqui tem jeito e força para ir mais longe. Eis uma música com cheiro de liberdade.  


Texto de apresentação do álbum Music From Paraíba que levará, em outubro, a música de 71 artistas paraibanos para a maior feira de música do mundo, a Womex. Este ano será na Espanha, em Santiago de Compostela. Após o lançamento do CD na Espanha haverá o lançamento em João Pessoa do projeto Música da Paraíba, incluindo os artistas os 71 artistas contemplados.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O PARAÍSO EM BREJO DAS FREIRAS

Por Lau Siqueira


Um roteiro de turismo Paraíba afora está muito além de um litoral paradisíaco. O Sertão também conta com belezas escondidas e únicas. Lugares onde o Sol e a Lua dimensionam com nitidez os movimentos e as cores do dia e da noite. Nem mesmo o clima quente e seco diminui o encanto. Ao contrário, o clima é um dos mais fortes elementos na sedução sertaneja. Serras íngremes e vales imensos fazem parte de uma paisagem onde nascem e se espalham as cores do arrebol e do poente. Uma dessas preciosidades, certamente, pode ser encontrada na Estância Termal de Brejo das Freiras, no município de São João do Rio do Peixe, localizada há 478 quilômetros de João Pessoa. Uma distância que vale a pena ser percorrida até mesmo pelo que pode revelar no meio do caminho.  O Parque dos Dinossauros, por exemplo. Um equipamento totalmente revitalizado pelo Governo do Estado.

Às vezes comento com  amigos acerca do que perdem alguns nordestinos em relação à exploração turística e cultural da Paraíba. Escolhem a beleza artificial de Gramado e não conhecem Areia, Bananeiras, Monteiro, Serra da Raiz, Cabaceiras e outros municípios que oferecem opções diversificadas para um agradável passeio. No Sertão não é diferente. Em especial na Estação Termal de Brejo das Freiras, onde encontramos um hotel extremamente aconchegante, com  excelente atendimento e boa comida. Que o digam Jane e Helena, que cuidam do atendimento e da cozinha. Administrado pelo poeta Nivaldo Amador o Hotel de Brejo das Freiras possibilita o contato direto com a natureza. Tudo com muita naturalidade e conforto. Inaugurado pelo Governo do Estado em 1944, o hotel mantém-se de pé e conservado. O fato contraria a ideia de que esse tipo de equipamento precisa ser privatizado para ter funcionalidade.


A descoberta das fontes de águas termais em Brejo das Freiras remonta ao ano de 1719 quando uma expedição comandada por um cidadão chamado Manoel Garro, com objetivo de quebrar a resistência indígena, avançou pelo Sertão realizando a grande descoberta. Nas escavações do hotel, mais precisamente  onde foi construída a piscina, encontraram uma ossada de dinossauro que ainda hoje está exposta no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Fatos semelhantes, ainda hoje despertam a expectativa de pesquisadores em diversas áreas, especialmente na arqueologia. Os milênios passados e a estrutura geográfica da região, além das suas belezas naturais, guardam a história do mundo. A exploração daquela região e, especialmente, do Brejo das Freiras, ainda é uma opção barata e agradável tanto para a realização de pesquisas quanto para desfrutar das belezas, das evocações curativas ou da tranquilidade reinante no Brejo das Freiras. 

Artigo publicado no Jornal A União, 12.09.14

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

MEMÓRIAS DO CANGAÇO NA PARAÍBA

por Lau Siqueira


As histórias do Cangaço não são as mais elogiáveis. Mas, também não diferem de histórias recentes. O que está posto é uma sofisticação midiática separando o passado do futuro. Eram duros os tempos do Cangaço. Extorsão, violência, corrupção e conluios políticos. Mas, por acaso hoje é diferente? Mudaram os métodos, mas as práticas pouco foram alteradas.  Há uma maquiagem modernizante encobrindo as fissuras do tempo. O fato é que, inegavelmente, o mito do Cangaço existe e bate com firmeza nas portas do futuro. São as memórias do medo e da sedução pulsando na identidade Nordestina. Herança de um tempo onde a valentia, o heroísmo popular e a indignação diante das injustiças era a moeda corrente. O Cangaço cumpre um papel fundamental na compreensão da história do povo nordestino. Apesar de tudo, as lutas sangrentas nas caatingas se mostram aos olhos do mundo moderno esbanjando altivez.

A herança de Lampião, Corisco e outros personagens é tão robusta que há um inegável receio - principalmente em rodas oficiais - de mexer no vespeiro. Mas, talvez já seja tarde demais.  Pesquisadores do Nordeste inteiro e mesmo de outros rincões brasileiros já acenderam o estopim. O Grupo de Estudos “Cariri Cangaço” é um bom exemplo. Pelo segundo ano consecutivo realizou o Seminário Parahyba Cangaço. No final de agosto, pesquisadores e simpatizantes da causa estiveram reunidos em Sousa, Nazarezinho e Lastro para debater o tema. O evento foi mais uma provocação à história oficial e uma lição de coragem e lucidez perpetrada pelo Cariri Cangaço e pelos militantes do Grupo Paraibano de Estudos do Cangaço. Acontecimentos que pulsam tão fortemente quanto estes até podem e devem ser questionados. Mas, não podem nem devem ser relegados ao esquecimento. Principalmente pelo que representam em termos de perspectiva para um desenvolvimento sustentável no Sertão da Paraíba.

Um exemplo muito claro da localização geográfica desta história é o Sitio Jacu, em Nazarezinho. Entre todas as moradas do Cangaço na Paraíba esta parece a mais estratégica. O lugar foi propriedade e morada do Coronel Chico Pereira e possui uma história que revela as razões dos confrontos do Cangaço com o sistema dominante na época. Todavia, enquanto se discute a viabilização do Memorial do Cangaço, o tempo passa e a degradação aumenta. Aquelas paredes crivadas de bala, sem dúvidas, atrairiam para o local uma legião apaixonada de turistas em substituição aos morcegos e ao esquecimento. Aliás, essa é a história contada pelos que sonham com um futuro de dignidade e respeito para o povo paraibano. Com a viabilidade do semiárido sustentada nos pilares da história e da cultura, o passado será a grande novidade. 







O texto acima será publicado pelo Jornal A União, no próximo dia 05/11, página 2.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A FARSA DO FECHAMENTO DE ESCOLAS NA PARAÍBA

Por Lau Siqueira
Quando as intenções não são as melhores a primeira vítima é a verdade. Apesar da absoluta falta de fundamento, a falácia do fechamento de escolas permanece em alguns blogs. Imaginem o caos que seria o fechamento de trezentas e onze escolas na Paraíba.  Como seria possível fechar escolas e manter os alunos em sala de aula? A mentira é tão descarada que sequer em relação ao número de escolas esses inimigos da educação pública chegam a uma conclusão. São trezentas e onze, cento e sessenta e uma ou duzentas e cinquenta? Não é isso que importa aos que buscam apenas distorcer a realidade. Se dez escolas fossem fechadas, sem motivo algum, já teríamos um escândalo. Por que será que a Rede Globo perdeu essa pauta tão “grave”? O Ministério Público estaria literalmente desmoralizado enquanto instituição de defesa da sociedade se calasse diante de tamanho descalabro. Afinal de que serviria o MP se permanecesse alheio ao fechamento de escolas? Ou seja: estão zombando da capacidade de mental do povo paraibano.

Na verdade é ao reordenamento escolar que se referem. Algo legal e necessário na busca de uma educação de qualidade. Foram duzentas e vinte e três as escolas submetidas ao reordenamento escolar. Destas, 12 eram escolas geminadas. Ou seja, duas escolas estaduais funcionando no mesmo prédio. Neste caso, a secretaria de educação encerrou uma das unidades e manteve o atendimento. Foram encontradas vinte escolas paralisadas há anos, mesmo assim mantendo um quadro de funcionários. Dezenove Unidades de Trabalho possuíam dois registros na secretaria de Administração e no SAP – Sistema de Acompanhamento de Pessoal, Mesmo que não possuíssem registro no EDUCACENSO. Duas escolas foram municipalizadas por atenderam os primeiros anos do Ensino Fundamental.

Mas, isso não é tudo. Cento e setenta escolas foram mesmo fechadas. Algumas delas funcionando na casa do professor com um ou com pouquíssimos estudantes. Outras tinham sérios problemas de infraestrutura. Falta de banheiro, de janelas, divisões de salas feita por armários e coisas do tipo. Quarenta e seis dessas escolas funcionavam em uma ou duas salas de escolas municipais e em apenas um turno. Depois do reordenamento a Secretaria de Educação do Estado da Paraíba fez a municipalização de quarenta e sete escolas em trinta e dois  municípios, realizando convênios e repassando recursos. Por que escola para os filhos do povo tem que ser desse jeito? Por que alguns políticos tem a cara de pau de defender esse quadro tão caótico? Como obter bons resultados na Educação maquiando dados? Qualificar a escola pública é uma obrigação de qualquer governo e a secretária de Educação, Professora Márcia Lucena, sabe disso.

 
Texto que será publicado no Jornal A União da próxima sexta-feira.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A ESCOLA PÚBLICA MERECE RESPEITO

Por Lau Siqueira


A luta dos movimentos sociais por uma escola pública de qualidade vem de longe. Aconteceram e acontecem avanços que não podem ser desprezados. Mas, no geral, ainda permanece um escandaloso débito para com o povo brasileiro. A verdade é que um dos maiores estragos que a ditadura militar fez em nosso país foi exatamente na Educação. Os milicos tinham medo de uma sociedade pensante, alerta, consciente dos seus direitos. Isso, para eles, representava o risco do comunismo. Uma bobagem sem precedentes. Colocaram a Educação no pau-de-arara. Apostaram na falência da educação pública e no fortalecimento da rede privada. Depois dos milicos tivemos ainda Sarney, Collor, Itamar e FHC. Ou seja: a ditadura fez o sucessor, ancorada no “medo de ser feliz”. Na era Lula e depois, com Dilma, a Educação não deu o salto esperado. Aqui e ali presenciamos avanços pontuais. Mas não sentimos os efeitos de uma política nacional.

O fato é que não se pode sobrecarregar a rede pública. O atendimento aos mais pobres deve ser prioridade em tudo. As escolas da rede privada não se responsabilizam por absolutamente nada além de ensinar. Algumas, ainda assim, precariamente.  Mas, devemos compreender que a qualidade do ensino público depende de muitos fatores externos. Coisas que ocorrem e devem ocorrer fora da sala de aula. Por exemplo, em relação à política habitacional, assistência social, cultura, saúde e de segurança alimentar. É bem complexo, mas não temos dúvidas: tudo isso tem uma relação direta com a formação da nossa juventude. A escola não pode mais ser o lugar onde a criança vai apenas para cumprir as condicionalidades do Bolsa Família.


A escola é o lugar da aprendizagem e deve ser preparada para isso. E mais: as estratégias pedagógicas devem fazer com que essa aventura do saber se torne sedutora para a juventude. Vejo com alegria algumas escolas seguindo esse caminho. Tal como a Escola Estadual Auzani Lacerda, em Patos, ou a Escola Estadual Gentil Lins, em Sapé, onde certamente o fator humano faz a diferença. Experiências como a que está em curso em algumas regiões fazem a diferença. Mas, ainda é muito pouco. A coragem da Secretária de Educação do Estado, Márcia Lucena, ao desmantelar os códigos eleitorais de escolas que serviam para mero cabide de emprego foi fundamental. Temos visto escolas sendo renovadas não apenas fisicamente. Há um investimento e uma visível opção pela qualidade. Mas, ainda faltam os demais atores cumprirem os seus papéis. A carga não pode ser colocada apenas nas costas dos professores, apesar da injustificada apatia de alguns. É tempo de ampliar esse debate. Não podemos permitir que a mentira supere a verdade, como no caso do “fechamento das 300 escolas”.

O texto acima será publicado no Jornal A União do dia 22 de agosto de 2014.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

UMA NOVA ORDEM FORA DA ORDEM

Por Lau Siqueira


Quando o show de Criolo foi anunciado na programação de reabertura do Espaço Cultural da Paraíba, não faltou quem desdenhasse. “Ninguém conhece”, diziam alguns. “Vai ser um fiasco”, diziam os mais exaltados. Mas, esses mesmos críticos, quando viram aquela multidão alegre, na maior paz, curtindo o show, se renderam. Compreenderam que existe uma nova ordem fora da ordem. Em 2006, quando a FUNJOPE  lançou em Mangabeira o projeto Estação Nordeste, também houve quem desdenhasse. Afinal, eram 6 bandas do próprio bairro. A crítica local, no entanto, reconheceu o sucesso do empreendimento devido à multidão que se aglomerava em frente ao Mercado de Mangabeira. No palco bandas do bairro, como Mobiê, Realidade Crua e uma multidão cantando as músicas do SDS.

É certo que não há reconhecimento dessa resistência permanente. Mas, ela existe. Não foi diferente a história de Augusto dos Anjos. Um poeta que desafiou as possibilidades. Primeiro da linguagem. Depois, da província. Ainda que os traçados locais não fossem os mais favoráveis. Também o Hip-Hop brasileiro evoluiu e não esperou pela indústria para criar seus próprios fenômenos. Em todas as suas linguagens: no RAP, no grafite, na dança de rua e na discotecagem, naturalmente, foram brotando fenômenos. No grafite, por exemplo, temos nomes como Shiko e Giga Brown. Artistas que estão impondo pela arte os sabores das quebradas. Shiko, inclusive, já se destacando nacional e internacionalmente. Alex, da Nação Hip-Hop, de Campina Grande, demonstra expressividade na força da palavra. Afronordestinas deixou sua marca em importantes festivais brasileiros. Dumato e Camila Rocha, SH, TioDall  e outros tantos vão se firmando numa cena que, cada vez mais, busca a profissionalização e firma-se no discurso dos direitos humanos e sociais.


Na dança de rua, o  nome de Vant já é um clássico. Na discotecagem, a incrível DJ kilt vai brilhando entre os marmanjos. Mas, em conversas com o mano Pablo Scobá descobri que o Hip-Hop, hoje, trabalha ainda com um quinto elemento: o conhecimento. Nascido da exclusão social e da resistência política, o Hip-Hop já sofreu todo tipo de preconceito. Seja por abarcar uma maioria pobre e negra. Seja por trabalhar a estética da realidade cotidiana. Mas, foi a partir desses desfavorecimentos contemporâneos, da exclusão e da fratura exposta da violência da burguesia brasileira que eles emergiram e dizem a todo instante que estão nas ruas, mas são capazes de dominar os melhores palcos e galerias. Essa onda há muito já bateu na praia. Quem não quiser se afogar, que pule sete vezes. (O artigo de hoje é dedicado ao grande mestre do Hip-Hop, Cassiano Pedra)

artigo para minha coluna do Jornal A União da próxima sexta.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

ALGUMAS IDEIAS PARA AS BIBLIOTECAS

por Lau Siqueira

Algumas ideias para as bibliotecas

O fechamento da biblioteca Juarez Gama Batista durante a reforma do Espaço Cultural da Paraíba despertou atenção sobre a sua demanda real. A verdade é que até o momento apenas as pessoas que estudam para concursos públicos exigem, com muita propriedade e com todo direito, a reabertura da biblioteca. Mas, essas pessoas necessitam quase que exclusivamente do espaço físico da biblioteca. Seus temas de interesse não estão, necessariamente, disponíveis entre os mais de cem mil títulos do acervo. A maioria traz de casa os livros e apostilas que precisa para estudar. Não que essa não seja uma demanda legítima. Não se trata absolutamente disso. Não vamos aqui confundir as coisas. O fato é que esta não pode nem deve ser a sua única demanda e muito menos a maior prioridade.

Uma biblioteca pode e deve cumprir um papel determinante na formação cidadã. Precisa buscar os caminhos da sedução para que o futuro usuário não a frequente apenas devido às exigências escolares. Precisa se tornar um lugar de fruição, de prazer e de grandes descobertas. Logicamente que não iremos imaginar que bastaria implantarmos algumas políticas compensatórias e tudo estará resolvido. Em primeiro lugar a biblioteca precisa ser vista como um equipamento fundamental para a consolidação de uma política cultural capaz de reaproximar a cultura da educação. Não nos basta a cultura do espetáculo.

As formulações futuras devem apontar para ações permanentes. Os investimentos na renovação do acervo, em mediadores de leitura e bibliotecários devem ser prioritários.. Política pública é processo contínuo. A ação da biblioteca em direção ao leitor deve ser cotidiana. Uma ação que depende de um conjunto de fatores profissionais e estruturais, mas fundamentalmente depende de um olhar apaixonado. Principalmente em direção à formação de leitores. Especialmente para a literatura contemporânea que cumpre um papel fundamental neste processo de sedução. Até mesmo pela possibilidade da presença física do escritor.


Esses são alguns dos fatores que podem dar uma nova dimensão à Biblioteca Juarez Gama Batista e que podem e devem se estender para outras bibliotecas a partir do Sistema Estadual de Bibliotecas. A biblioteca cumprirá assim o seu papel na formação cultural, social e intelectual, principalmente da criança e do jovem. Uma biblioteca deve se tornar necessária não pelas demandas setoriais que possa abrigar. Mas,  sobretudo, por estabelecer um nível de exigência mais agudo por parte dos seus usuários e um pensamento crítico em relação à sociedade. Algo capaz de determinar um tratamento prioritário para as políticas do livro e da leitura.

texto que será publicado amanhã, 08.08.2014, na minha coluna do Jornal A União.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

PARA QUE SERVEM AS BIBLIOTECAS?

Por Lau Siqueira


Apesar do crescimento das ações direcionadas ao livro, leitura e bibliotecas nos últimos anos, o Brasil ainda possui  um débito enorme na formação de leitores. O impacto pode ser observado na qualidade do ensino. Principalmente quanto ao “analfabetismo funcional” que frequenta algumas universidades e expõe a necessidade urgente de mais investimentos no setor. O fato é que não temos uma tradição de bibliotecas em nosso país. Tanto que João Pessoa, capital da Paraíba, ainda não possui uma biblioteca pública municipal. Pior que isso: não possui uma demanda. A população não pauta a necessidade desse equipamento. As bibliotecas deveriam ser o principal centro de formação cidadã. Mas, não é isso que se vê. Algumas situações, inclusive, revelam a gravidade do problema. A biblioteca de Malta, no Sertão da Paraíba, por exemplo, virou banheiro público. Outras tantas não passam de depósitos de livros. A mais importante Biblioteca da Paraíba, a Juarez Gama, se tornou um local específico para pessoas que estudam para concurso. Todavia, se esta é sua maior demanda, certamente, não  pode ser sua única função.

O distanciamento entre a maioria das bibliotecas e o público leitor é alguma coisa espantosa e é muito fácil explicar. Afinal, as bibliotecas deveriam existir a partir de uma demanda: a popularização do hábito da leitura. Deveriam surgir a partir da ampliação das necessidades do público leitor. Algo que poderia ser natural em um país que é um dos maiores fabricantes e compradores de livros do mundo. Essa deficiência na formação do leitor, especialmente do leitor lúdico é, provavelmente, o maior abismo entre as bibliotecas e as escolas públicas. Sejam elas bibliotecas públicas, escolares ou comunitárias. Há um sentimento patrimonialista sobre o livro. Mesmo que, em geral,  todo livro acabe relegado após ser lido. Há um inexplicável sentimento de posse sobre o objeto quando o que importa é o conteúdo.


Mesmo assim é possível perceber que estamos caminhando. Em algumas escolas as políticas de incentivo à leitura já são uma realidade. Não é por acaso que essas são as que possuem o IDEB mais elevado. As conferências de cultura, cada vez mais, se deparam com as demandas do livro e da leitura. Militantes apaixonados no país inteiro nos fazem acreditar que estamos vivendo momentos transformadores. Mas se iremos lidar com isso dentro de um sistema, precisamos entender o que as aranhas já sabem. Um sistema é uma teia, ligando e religando circunstâncias num objetivo que é único: alimentar a cidadania através da mais ajustada ponte de acesso ao único meio de combater as desigualdades: a democratização do conhecimento. 


COLUNA DO JORNAL A UNIÃO - para publicação em 01/08/2014,

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O RETORNO TRIUNFAL DA SINFÔNICA

Por Lau Siqueira


O dia 17 de julho de 2014 marcou a história da Orquestra Sinfônica da Paraíba - OSPB. Uma história que começou em 1945 e soma muitas glórias.  Conta, também, com períodos difíceis. Esta é a trajetória de uma  orquestra que já foi considerada uma das melhores do país. Regida por maestros renomados como Eleazar de Carvalho e Isaac Karabichewsky. Tocou com solistas reconhecidos internacionalmente como Aldo Parisot. A OSPB estava parada há um ano e meio, após cumprir determinação do Ministério Público Estadual. O convênio mantido com a Universidade Federal da Paraíba era considerado ilegal.

Nesse hiato de tempo a OSPB realizou o primeiro concurso público da sua história para a contratação de músicos. O concerto do dia 17 marcou a estreia desses músicos. A maioria muito jovens.  Os contratados vieram compor o quadro com juntamente com os remanescentes. Verdadeiras revelações como o Spalla Thiago Formiga e outros muito experimentados. Músicos paraibanos, mineiros, chilenos, argentinos, franceses... Esta é a nova Orquestra Sinfônica da Paraíba, regida pelo competente e carismático Luiz Carlos Durier.  O maestro já regia há 17 anos a Orquestra Sinfônica Jovem da Paraíba. Durier foi, sobretudo, o grande aglutinador. O grande elo para este retorno triunfal.

O público da orquestra estava saudoso.  As pessoas foram chegando quase ao mesmo tempo. No final, pudemos observar cerca de sete mil pessoas na Praça do Povo para assistir um concerto que começou com música erudita, fez um passeio pelas belas canções da tropicália (com arranjos do maestro Rogério Duprat), terminando no bom e velho forró de Dominguinhos e outros mestres. Essa última parte foi conduzida  pela voz e pela simpatia do sanfoneiro Cezzinha. Era visível o encantamento no olhar das pessoas. Era possível sentir a emoção coletiva. Tanto pelo Espaço Cultural restaurado quanto pelo retorno da Orquestra. Deu para sentir o quanto é imenso o carinho do público paraibano pela sua grande orquestra. Os músicos sentiram aquele grande momento. Estavam radiantes. O próprio solista, Cezzinha, percebeu que estava participando de um momento histórico.


Agora é seguir em frente. A Orquestra Sinfônica da Paraíba retorna com grandes perspectivas. Está de casa nova. Tanto as dependências administrativas, quanto a moderna Sala de Concertos Maestro José Siqueira – uma das mais modernas do país. São novos tempos que aguardam a OSPB. É possível e é preciso sonhar com a possibilidade de colocá-la novamente entre as melhores do país. O bom senso, o equilíbrio e o respeito pelos músicos demonstrados pelo Maestro Luiz Carlos Durier é um caminho seguro para um futuro que começa agora.


O texto acima será publicado no Jornal A União do dia 25/07/14.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O GUARDIÃO DA MEMÓRIA

por Lau Siqueira

Waldemar Bispo Duarte faleceu em 2004. Deixou um dos maiores acervos bibliográficos já vistos na Paraíba.  Entre 2006 e 2007 estive em sua residência, a convite da sua filha Teresa. Pude testemunhar, então, uma vida inteira dedicada aos livros. Na época, ocupava o cargo de diretor executivo da Fundação Cultural de João Pessoa – FUNJOPE. Planejava criar a primeira biblioteca municipal da capital juntamente com o  então secretário de Educação, Walter Galvão.  Realizamos a catalogação dos livros, mas tanto eu quanto Galvão, deixamos os cargos que ocupávamos logo após. E o projeto da Biblioteca Pública Municipal Waldemar Duarte não prosperou. Percebi já naquela época o quanto a herança de Waldemar Duarte  é importante  para formação do povo paraibano.

Nascido no município paraibano de Uiraúna, no dia 23 de julho de 1923, Waldemar foi escritor e jornalista. Membro da Academia Paraibana de Letras e uma referência fundamental na preservação da memória histórica da Paraíba.  Cursou  Contabilidade, Direito e Biblioteconomia tendo sido o primeiro bibliotecário formado do Estado. Todavia, uma infinidade de motivos não descritos aqui nos levam a buscar a biografia de Waldemar Duarte, resgatando a importância das suas pesquisas e do seu legado para a compreensão da Paraíba dos dias de hoje e dos dias que ainda virão.

Ele foi o idealizador e o criador de um dos mais delicados e preciosos equipamentos do Espaço Cultural José Lins do Rego.  Falo do Arquivo Histórico inaugurado em 1987, pelo então governador Tarcísio de Miranda Burity.   Uma preciosidade que conta com documentos do período colonial, do império e da república. Um local onde se pode buscar a história da demarcação de terras na Paraíba, por exemplo.  O arquivo histórico guarda também o acervo de Walfredo Rodrigues, com algumas fotos do final do século XIX. Um olhar atento sobre o tempo nos primeiros passos da capital da Paraíba.


O Espaço Cultural guarda esse tesouro entre tantos outros. Dentro dele, a própria memória de Waldemar Duarte e sua importância para a cultura do Estado. Infelizmente, dentro de um equipamento de cultura como o Espaço Cultural, onde historicamente o espetáculo sobrepõe-se à pesquisa e a troca de saberes. O Arquivo Histórico nem sempre teve a melhor atenção dos gestores e usuários. Conta-se que parte do acervo desapareceu. Levado como suvenir. É irreparável o prejuízo para a história brasileira esse descuido com um espaço que guarda, inclusive, cartas de Dom Pedro I. Objeto das nossas atenções, o Arquivo Histórico guardou-se da poeira durante a primeira grande reforma da sua “nave mãe”. Retornará, entretanto, como um dos recantos mais nobres do Espaço Cultural. 

texto publicado no Jornal A União do dia 19.07.2014.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O LEGADO DE JOSÉ SIQUEIRA

por  Lau Siqueira


Natural de Conceição, cidade do Vale do Piancó, o Maestro José Siqueira está na memória de poucos aqui na Paraíba. Nenhuma surpresa quanto a isto. Afinal, parece que nos dias de hoje a mídia ensina mais que a escola. A juventude está alheia a Pedro Américo, José Lins do Rego, Sivuca, Jackson do Pandeiro, mas conhece muito bem Aviões do forró e Garota Safada. Aqui e ali tentam amenizar o impacto dessa  avalanche midiática. Tentam até justificá-la. Mas, se trata de um talho profundo na diversidade cultural do planeta. A verdade é que estamos forjando o futuro na base do volúvel, da diluição dos valores históricos, culturais, artísticos. A banalidade vai tomando conta dos nossos dias e muitas vezes até nos sentimos impotentes diante dela. A indústria do entretenimento concentra e dilui a economia da cultura. Algo que já passa de 5% do Produto Interno Bruto Brasileiro fomentado, muitas vezes, por recurso público.

A ampla reforma do Espaço Cultural José Lins do Rego oferece a oportunidade reativarmos a memória do Maestro José Siqueira.  Ainda que na mesma instituição já exista um centro de pesquisas com seu nome. Porém, a dimensão da vida e obra do grande  Maestro paraibano exigem a ampliação do nosso reconhecimento. José Siqueira, seguramente, foi uma das figuras mais relevantes do ambiente cultural brasileiro no Século XX. Tão importante quanto Heitor Villa-Lobos. Regente e compositor de prestígio internacional. Regeu orquestras na França, nos Estados Unidos, na Bélgica, em Portugal, na Russia e em outros países de grande tradição musical. Fundou a Orquestra Sinfônica Brasileira, Orquestra de Câmara Brasileira, a Orquestra Sinfônica da Rádio MEC e viabilizou junto ao então prefeito Miguel Arraes, a Orquestra Sinfônica de Recife, a mais antiga do país. Entre outras instituições, fundou a Ordem dos Músicos do Brasil.

No entanto o que mais encanta é sua obra. Quem escuta “Suíte Sertaneja”, uma peça magnífica para flauta e piano que junta o Baião, o Aboio e o Coco de Engenho, sabe. São sonoridades colhidas com imensa sensibilidade entre os currais de Conceição e as partituras mais complexas da música do mundo. Uma obra viva. Uma invenção erudita da musicalidade sertaneja.  Uma Suíte que, certamente, nasceu para compor a magnífica história da música universal. Um encontro com o sublime. Ou “II Sonata para violino e piano”,  digna, também, das melhores salas de concerto. Mas, a vida segue em frente. Nunca é tarde para exercitarmos a memória coletiva. A história da arte no Brasil tem em José Siqueira um capítulo importante. Algo que foi criminosamente suprimido da memória do povo brasileiro pelo regime militar que se instalou em 64.


Texto que será publicado na página 2 do Jornal A União da próxima sexta.


quinta-feira, 26 de junho de 2014

A REABERTURA DO ESPAÇO CULTURAL

Por Lau Siqueira

No próximo dia 4 de julho o Espaço Cultural da Paraíba estará reabrindo suas portas. O maior espaço cultural do país e o segundo maior do mundo retoma o caminho das suas possibilidades. Recebeu o grande e necessário investimento na sua história de 32 anos. Nunca havia passado por uma reforma tão substancial. Também não soube preservar-se da ação predatória do tempo. Já começava a oferecer perigos reais. O comprometimento da rede elétrica, por exemplo, já poderia ter provocado uma tragédia. Intervir no Espaço Cultural foi, portanto, um ato de necessária ousadia do Governador Ricardo Coutinho.  Mas, o fato é que  a grande e necessária reforma é conceitual e não física.

Com urgência, por exemplo, devemos resgatar algumas das suas memórias e sepultar outras. Sobretudo, lá deve ser o espaço de todas as artes, todas as linguagens, todas as tribos. Um esteio de plena representação da diversidade cultural paraibana. Um ponto de convergência dos que fazem arte e produzem cultura. Os que produzem e reproduzem conhecimento. Um lugar assim não haverá de abrir as portas para a banalidade, para a estupidez. Será objeto de reflexão permanente um espaço que assume a potencialidade de conjugar os interesses e a lógica da produção criativa. Claro, com todos os seus problemas, todas as suas mazelas. Todas as infestações abstratas da humanidade.

Porém estamos aqui apenas no campo das ideias. E sabemos que nenhuma ideia sobrevive sem que uma experimentação prática seja começada. Não há mais espaço para uma instituição de cultura que não esteja inserida na sociedade com o claro objetivo de desenvolvê-la econômica, social, estética e politicamente. Não haverá uma condução possível das atividades do Espaço, se não a partir da harmonia entre suas diversas ilhas de conhecimento.  Muito menos, sem que por lá as regiões paraibanas escrevam suas próprias histórias. Seja num Boi de Reis de Poço José de Moura, um aboio de São José dos Ramos ou a poesia de Manoel Monteiro.


A cultura contemporânea a e a cultura erudita precisam, finalmente, se mirar de frente. Buscar os diálogos da diversidade do hip-hop ao coco de roda, da literatura ao Sistema Estadual de Bibliotecas. Algo que poderá conduzir e semear  novos frutos. Todavia, o momento é de disputa. Por isso mesmo “é preciso estar atento e forte”. O pensamento precisa ter asas e ser claro para que possa ser visto nesta infinita noite da midiatização e da padronização dos costumes. Mas, com tantas leituras do mundo estaremos aptos a escrever uma nova história e permitir que essa história permaneça sendo escrita. No mais, para os bons entendedores basta a intensidade e a profundidade do silêncio.


Texto que será publicado no Jornal A União, edição de 27.06.14 - João Pessoa-PB.