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Por Lau Siqueira
A poesia que vem sendo produzida nesses tempos de blogs, sites, orkut e twitter começa a revelar características muito particulares. A internet desencadeou um processo que ainda está em fase de assimilação pelos pensadores da história e da teoria literária do nosso tempo. A princípio, havia uma inexplicável desconfiança e um parcial desinteresse em relação a esses meios por parte significativa dos escritores. Muito especialmente pelos poetas.
Nos primeiros momentos houve uma tentativa de desqualificar esta produção. Como se a facilidade de veiculação e a interatividade da internet somente permitisse a divulgação de poetas de águas rasas. Certamente que havia um fundo de verdade nisso todo. A internet servia e ainda serve para divulgar muita coisa de qualidade bastante duvidosa. Nos primórdios da rede, as desconfianças eram muitas e a mitificação da nova mídia nos remetia sempre às reflexões de Umberto Eco e seus apocalípticos e integrados.
Em pleno agosto de 2009, me pego pensando nisso em frente ao meu computador. Naturalmente, com uma necessidade enorme de compreender esse processo e refletir um pouco sobre a influência que essa verdadeira revolução nas mídias tradicionais possa ter provocado não apenas na forma de divulgação da poesia, mas também e principalmente nas perspectivas para a construção de uma nova linguagem para a poesia.
A verdade é que o virtual passou a se aproximar com maior intensidade do cotidiano, confundindo-se com ele exatamente através da escrita. Para Pierre Levy, “a tela informática é uma nova ‘máquina de ler’ o lugar onde uma reserva de informação possível vem se realizar por seleção, aqui e agora, para um leitor particular. Toda leitura em computador é uma edição, uma montagem singular.” Segundo o próprio Levy, seria um erro fatal considerar o computador apenas uma máquina de escrever e de ler. Existe toda uma cultura sendo formulada através dessa nova forma de conhecimento.
Na verdade o que se pode perceber é que no meio de um lixo acumulado e natural, produzido por milhões de seres humanos sedentos de expressar publicamente suas angústias (e confundindo isso com poesia, tantas vezes) foi transbordando uma poesia de qualidade, densa, amparada no respeito às tradições, mas também sem medo de experimentar e não ser exatamente como o que já se dava por estabelecido na circunstância poética brasileira e pelo mundo afora.
Para desmistificar esse rolo compressor inicial, eu pergunto: que mal faz um mau poeta ao escrever versos ruins? Ou que mal há, por exemplo, em publicá-los nos sites e nas ainda existentes listas de discussões sobre literatura e poesia? Certamente que nenhum. O bom leitor haverá de saber selecionar os bons textos. Há, com certeza, uma seleção natural e os poetas, sejam eles novos ou já reconhecidos, foram e continuam sendo naturalmente peneirados. Agora não mais pelos cânones e pela crítica fardada. Quem começa a dar as cartas é, também, esse mau poeta que, muitas vezes, acaba sendo um bom leitor.
Podemos observar com certa clareza que existe um fato novo na poesia contemporânea que precisa ser analisado com maior profundidade. Os poetas que foram surgindo, muito especialmente após o início do século XXI, são poetas que também são leitores da poesia que circula na rede. Isso gerou algo extraordinário, pois aniquilou as “verdades absolutas”. Ser louvado publicamente por A ou B possuía um valor inestimável que hoje já começa a gerar profundas dúvidas. Não que isso tenha aniquilado a crítica. Muito pelo contrário. Agora basta ter um blog para que o exercício da crítica possa receber as atenções devidas. Ou seja, em tempos de capitalismo selvagem, aumentou a concorrência e só se estabelece quem tem competência. Até mesmo a pseudo-crítica peçonhenta ganha a oportunidade de trocar de pele, de se renovar.
Poetas que nunca publicaram um livro impresso ou mesmo os que somente conseguiam publicar edições com distribuição regional, passaram a disputar palmo a palmo os espaços e as atenções dos críticos e leitores do país e do mundo. Uma disputa que os coloca em pé de igualdade com nomes que vinham sendo incensados de forma pouco justificada pela mídia burguesa. Tanta vez pagando caro para ter livros distribuídos nacionalmente (com pouca racionalidade) pelas grandes redes de distribuição.
Agora as coisas estão em maior ou menor escala, no mesmo ponto de partida. Passamos a perceber o surgimento de poetas que são, na verdade, leitores e leitoras da produção poética de ilustres desconhecidos que abundam na rede. Com alguma qualidade alguns, com muita qualidade uns poucos e uma grande maioria com pouca qualidade. Ainda valem, logicamente, as indicações dos grandes mestres. Essa nova lógica não exclui a tradição. No entanto, naturalmente, cada um de nós foi tecendo as próprias leituras e com elas infringindo todos os códigos do comodismo pálido de uma cultura acadêmica dominante. Tudo precisou ser novamente observado, analisado, pesquisado e, finalmente digerido por todos. É claro que isso não determina o fim da cultura acadêmica, mas certamente que a coloca na obrigatoriedade de refletir sobre ela mesma.
No ensaio “Poesia nova – uma épica do instante”, em “O poeta e a consciência crítica” (Editora Perspectiva-SP, 2008), Affonso Ávila escreve um pouco sobre tudo isso. Segundo ele, “a situação atual da poesia no Brasil reflete, entre afirmações criadoras e perplexidades críticas, a mudança radical de concepção do fato poético que, nos últimos dez anos, se operou em nosso país. Essa transformação, intimamente vinculada à modificação mais abrangente das estruturas de conscientização de nosso povo, não se restringiu a um fenômeno de linguagem como parecerá à primeira vista. Suas implicações são mais profundas e traduzem simultaneamente, uma nova atitude do poeta diante da realidade que suscita o ato criando e a adequação do seu instrumento ao imperativo das modernas técnicas de comunicação”.
Além de ser uma das mais representativas expressões da arte de vanguarda no Brasil, Affonso Ávila nos remete a reflexões que certamente deverão retorcer os ferros da crítica tradicional, mesmo aquela que usa a internet não como um poderoso instrumento interativo, mas como mais um veículo para difusão de uma tendência da “política literária”. Todavia, lamentavelmente, abrindo mão de receber a imensa carga de informações da novíssima produção poética e crítica que aflora também a partir das universidades, embora extrapolando limites geográficos e metodológicos.
A nova poesia, portanto, passou a contar não apenas com a sua natural evolução a partir da perda total do controle das informações pelos “babalorixás”, mas também com a análise lúcida de pensadores e teóricos da poesia que, na verdade, sempre estiveram mergulhados para muito além do nosso tempo. Como Affonso Ávila, Amador Ribeiro Neto, Anelito de Oliveira e outros poucos que sabem que a poesia não sobreviveria se todos os olhares estivessem fixados no passado. Aqui na Paraíba, por exemplo, existem “doutores” que se negam a reconhecer inclusive a produção literária do século XX. Isso me faz ter dúvidas acerca do mau cheiro exalado pelos banheiros do CCHLA. Seriam necrotérios?
Infelizmente, boa parte dos estudiosos da poesia não passa de funcionários públicos preguiçosos que não ousam sequer realizar uma única leitura conseqüente da evolução da linguagem poética. Para eles, a cena atual não existe. Triste dos que pensam assim. Morreram para um mundo que os torna naturalmente desnecessários. O que se conclui é que a nova poesia é leitora dela própria. Pratica naturalmente a antropofagia oswaldiana que designou os destinos de um modernismo que não estancou na semana de 22. A nova poesia foi beber nos mestres, certamente. Mas, não cometeu o suicídio de desconhecer o surgimento de novos horizontes a partir das janelas abertas pelo futurismo deflagrado no final do século XIX, pelas vanguardas. O caminho é continuar experimentando, arriscando, buscando compreender o presente. Traduzindo de forma mais apurada as idéias de José Paulo Paes: “somente não envelhece o que já nasceu velho.”
sábado, 29 de agosto de 2009
Antropofagia e linguagem poética no século XXI
sábado, 22 de agosto de 2009
O que é que o governador Maranhão tem contra a cultura?
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Por Lau Siqueira
Na verdade, não foi nenhuma surpresa a saída do artista plástico Flávio Tavares da Subsecretaria de Cultura do Estado. Afinal, somente os acomodados não se incomodam com circunstâncias comprovadamente criadas por mera pirotecnia política. A insatisfação de Flávio no governo era de uma pulsação impressionante. Artista de amplo reconhecimento e cidadão exemplar, Flávio Tavares deve ter percebido que a mentalidade do governador em relação às políticas de cultura permanecia exatamente a mesma dos seus dois primeiros governos.
De perfil conservador, o arcaico José Maranhão já fez escolhas acertadas para dirigir a cultura do Estado. Não se pode negar. Isso no caso de Flávio e, anteriormente, do poeta Sérgio de Castro Pinto. Entretanto, também Sérgio percebeu que tinha um nome a zelar e que as políticas de cultura estavam desvinculadas das ações prioritárias do marqueteiro Zé, o proclamado mestre de obras. Entre Sérgio e Flávio, nos seus três períodos de governo, Maranhão encontrou o nome adequado para o seu nível de mentalidade. O também artista plástico Chico Pereira. Chico notabilizou-se por chamar os artistas de “mendigos” e por conduzir a consagrada inanição do Estado no setor. Foram anos de mediocridade, pedantismo e parcos investimentos. Mas, não há nome que represente melhor a relação do governador Maranhão com a cultura da Paraíba.
Quando da indicação de Flávio Tavares cheguei a ficar um tanto quanto esperançoso. Em primeiro lugar porque jamais torço contra. Segundo porque Flávio (assim como Sérgio) é, em todos os sentidos, um exemplo de dignidade e inteligência na terra de Augusto dos Anjos. Uma das melhores antenas da nossa raça. Pensei até que talvez as coisas tivessem mudado na cabeça dura do governador, nos últimos anos. Afinal, eu próprio em 2006 participei do guia eleitoral maranhista, através do meu partido, o PSB. Lembro que fomos convidados a participar. Predominava, naquele momento, o desejo de avançarmos dentro do governo do Estado em direção a construção de políticas públicas. Eram inegáveis os avanços na prefeitura. Fomos, então, “mostrar a cara” no guia. Entregamos nossa proposta ao então candidato que, assim, assumia um compromisso público que, certamente, agora vai para o tambor de lixo da história.
Lembro muito bem que levamos dois ônibus lotados de artistas plásticos, escritores, atores, músicos, produtores, segmentos como hip-hop, cultura popular e outros. Pensei que lá chegando encontraríamos os partidários do governador para juntos realizarmos a gravação. Ledo engano. Não havia uma única alma consagrada da espiral maranhista. Fomos nós e apenas nós, socialistas, que gravamos o programa eleitoral do então candidato José Maranhão. Ainda assim acreditei que a demonstração de força com aquela mobilização, sensibilizaria o nosso então candidato.
Quando da escolha de Flávio Tavares, cheguei até mesmo a pensar que tínhamos dobrado o conservadorismo do ex-senador. Cheguei a acreditar que Maranhão havia, finalmente, reconhecido que a cultura tem um papel estratégico, inclusive na economia e na construção de políticas transversais e intersetoriais. Afinal, um setor que movimenta 5% do Produto Interno Bruto brasileiro não pode passar despercebido num governo minimamente democrático e que tenha compromisso com o desenvolvimento integrado e sustentável. Em Toronto, no Canadá, as estratégicas econômicas se orientam a partir da política de cultura. Em Paris, a cultura é um dos pilares da economia. Até quando a terra de Ariano Suassuna suporta ser relegada ao estágio de colônia de Pernambuco? Para mudar a vida é preciso mudar de atitude, transformando a mentalidade imposta pelo neo-coronelismo.
Não quero aqui declarar nenhum arrependimento por ter participado e incentivado a participação de artistas e grupos de cultura na eleição de 2006. Afinal, as políticas de aliança são importantes estratégias para o avanço do campo democrático e popular. Não devem jamais ser confundidas com adesismo se conduzidas de forma madura e transparente. A participação política dos artistas e dos fazedores de cultura de um modo geral é uma questão de cidadania. Como dizia Gramsci, “viver é tomar partido”. No entanto, percebo agora o quanto o governador Maranhão exige-nos uma reação. Nem mesmo com o seu vice-governador, Luciano Cartaxo, sendo também um produtor cultural a visão maranhista para a cultura foi alterada. O mais interessante é que o abalo que qualquer governo teria com a saída de um quadro imprescindível como Flávio Tavares se dá exatamente no momento em que é anunciada a criação da Secretaria de Cultura. No entanto, para quê criar uma Secretaria de Cultura se o governo se empenha em consolidar uma “subpolítica” de cultura? O injustificável descaso do governador, certamente, tem sérias implicações no processo de desenvolvimento do Estado. Um bom mestre de obras deveria compreender que não é exatamente com marqueting de cimento e cal que se produz desenvolvimento.
Logicamente que não trago aqui um discurso de imparcialidade. Nunca fui imparcial. Não acredito em imparcialidade. Sempre tive lado. Afinal, somos produto das nossas escolhas. Pautei minha vida inteira na construção de ideais estéticos, do ponto de vista da arte e políticos, do ponto de vista humano. Também não quero dizer que o governador Cássio Cunha Lima tenha sido generoso com a cultura. Muito pelo contrário. Cássio praticamente desmoralizou o FENART, um dos mais importantes festivais de cultura do Nordeste. Maranhão ratificou essa desmoralização. Iguala-se a Cássio ao cancelar o FENART 2009 e anunciando o FENART para o ano eleitoral de 2010. (Isso se chama oportunismo patológico)
Com todas as limitações impostas pelas regras do poder público, entre erros e acertos, o fato é que a Prefeitura Municipal de João Pessoa avançou na democratização das políticas da cultura a partir de 2005. Não quero dizer aqui que atingimos o Ponto G das nossas necessidades. O fato é que estabeleceu-se um processo de inclusão nunca antes vivenciado. Sobrou gás, inclusive, para uma relação de proximidade com o interior do Estado. Não foi por acaso que, em 2008, estivemos em Cajazeiras e Sousa, apresentando as ações da Fundação Cultural de João Pessoa, a convite do Fórum de Cultura do Alto Sertão. Também em Campina Grande, onde a política de cultura tem se resumido ao “Maior São João do Mundo”, participamos de debates com o segmento cultural. Logicamente que isso foi o reflexo de uma ação desenvolvida por um grupo de militantes e não por prestígio pessoal. Lembro que em Cajazeiras, os artistas destacavam duas políticas sólidas da Prefeitura de João Pessoa: o Empreender-JP e o Circuito Cultural das Praças. Em Sousa, no meio do debate um artista levantou e disse: “isso só vai acontecer por aqui quando Ricardo Coutinho for o governador.” E agora, José? O sonho está apenas começando.
Agora é pagar para ver. Nossa esperança está no setorial de cultura do PT que, neste momento, passa a assumir a responsabilidade de abalar a mentalidade medieval de um governador que, provavelmente, acha que política de cultura se resume na liberação de recursos para os artistas. Não, governador! O objeto de uma política pública de cultura não é o artista, mas a memória (passada e futura) do povo. O grande desafio é conjugar tradição e modernidade, integrando a cultura nos processos de desenvolvimento. Mas, cá pra nós, precisamos definitivamente reconhecer que os artistas são os principais parceiros para a implementação de ações que visem edificar o espírito crítico e lúdico nas futuras gerações. Ou seja: o espírito transformador que haverá de melhorar a nossa sociedade. Acolher, incluir, criar, trabalhar, superar. Estes são alguns dos verbos que movimentam a cena e que do discurso maranhista parecem ter sido suprimidos. Na prática, sumariamente aniquilados.
A nossa esperança permanece intacta. Todavia, quando falo de esperança não falo de inércia. Falo de uma esperança que constrói e que busca estabelecer uma relação das três esferas da área pública (municípios, estados e união), com a sociedade civil e com a plenitude cidadã. É lógico que isso não é fácil. No entanto, como diz o poeta Chacal, “só o impossível acontece. O possível apenas se repete.”
Para finalizar, destaco a elegância com a qual Flávio Tavares soube se retirar da cena, desligando sutilmente os aparelhos de uma agonia. Flávio deu para todos nós, um exemplo de dignidade e coerência. Que este ato cidadão do artista não passe impune pelo nosso aprendizado. Nem pela composição e pelas diretrizes dos próximos governos. O que nos preocupa é que não se trata de um governo novo, mas de um governo que já passou oito anos ignorando completamente os processos culturais na terra de Sivuca e Jackson do Pandeiro.
domingo, 26 de julho de 2009
Parrá – a elegância do ritmo.
Lau Siqueira
A boemia pessoense ainda preserva seus mais alinhados personagens. Principalmente no anonimato turbulento das ruas da Cidade Antiga. Na Ladeira da Borborema guardamos boas memórias do poeta Manuel Caixa D’água. Nos escambos temporais deste início de século, ainda há quem nos faça sonhar com a velha Parahyba do Norte - “morena brasileira”. A eterna Cidade das Acácias. Um lugar onde os sagüis pululam pelos resquícios da Mata Atlântica e onde as prostitutas retomam o simbolismo histórico da luta pelo reconhecimento da profissão. Assim a cidade vai se organizando politicamente no movimento das águas e dos tempos. Convulsionando uma urbanidade que nasceu nas margens de um rio para desaguar nas memórias do futuro.
Foi numa cidade assim, ali no Roger - mais exatamente na Rua Anísio Salatiel número 60 - que nasceu Severino Ramos de Oliveira. Isso foi no ano de 1938. Ainda na primeira infância o irmão lhe conferiu o apelido de Parrá, sem saber que estava realizando um batizado artístico. Nascia um personagem da cultura de uma cidade absorvida, naquele momento, pela era do rádio. Um tempo em que as ondas médias e as ondas curtas determinavam o todo poderoso veículo da comunicação popular. Um talho de modernidade no provincianismo de uma cidade que presenteou o Brasil e o mundo com personalidades importantes da cultura brasileira. Como o cidadão do mundo, Ariano Suassuna. Um litorâneo de alma sertaneja. Um homem que trafega sua existência nas raízes da expressividade cultural do povo nordestino. Tudo dentro de uma rotina de invenções. Numa plasticidade de cores e ritmos. Elementos para o cenário de uma vida dura que gerou a alma delicada dos seus artistas.
Parrá representa o glamour e o estigma de uma geração que construiu os maiores referenciais da chamada Música Popular Brasileira. Na verdade, uma geração que abriu as comportas para o nascedouro da MPB enquanto conceito, dentro da universalidade natural da música de qualquer região do planeta. Um tempo de grandes ritmistas como Jackson do Pandeiro que esteve para a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, na mesma proporção que Parrá esteve para a época de ouro da Rádio Tabajara, aqui na Paraíba. Com absoluta convicção do seu destino, Parrá soube traçar (na base da “marmota”, tantas vezes) os seus próprios caminhos. Sempre com a simplicidade de um homem que fez da música a sua forma de transcendência no tempo. Preservando-se enquanto menino, em cada leitura do mundo que o cerca. Tudo isso compõe o inventário de uma vida que não guardou espaços para a tristeza, mesmo que estas tenham sido tantas e muitas vezes, tão profundas.
Parrá está situado na história da música nordestina, entre os grandes nomes do seu tempo. É certo que não teve o seu trabalho reconhecido lá fora, principalmente no vigor da juventude. Até porque muito pouco saiu da Paraíba. Principalmente porque nunca saiu do Nordeste. Somente este detalhe apartou o cantor de um reconhecimento público muito semelhante aos artistas que foram consagrados nacionalmente pela mídia, abrindo os olhos do país para a efervescência cultural da Paraíba. Mesmo assim, Parrá influenciou e influencia as novas gerações de músicos paraibanos. Com sua elegância, com suas convicções estéticas, com suas marmotas, com sua alegria perene e sua dignidade. Ele faz parte de um grupo seleto que reúne nomes como Livardo Alves e outros que, mesmo sem sair da cidade, conseguiram uma consagração e um reconhecimento raro para os chamados “santos de casa”. Parrá não é e nunca foi santo. Todavia, está na área e “obra milagres” - como se costuma dizer por aqui - com a inventividade da sua arte. Sua natureza é criativa e musical. Um artista que soube eternizar-se na memória da cidade. Seja pela sua simplicidade conjugada com sua irreverência, mas principalmente pelo seu inquestionável talento e pela organicidade da sua atividade intelectual.
Logicamente que se torna um tanto quanto redundante ressaltar as influências jacksonianas. Aliás, essas influências do grande mestre de Alagoa Grande chegaram também para Alceu Valença, Zé Ramalho, Lenine, Zeca Baleiro, Chico Cesar e até mesmo aos roqueiros conterrâneos do Rei do Ritmo da banda Jackson Envenenado, de Alagoa Grande. Mas, com Parrá, foi diferente. Não se trata apenas de uma influência. Trata-se da absorção geral de todos os mimos, trejeitos, manejos e traquejos de uma tradição rítmica bem nordestina e, sobretudo, genuinamente paraibana. Algo que esteve representado na existência artística de Jackson, mas que também está em Parrá, Biliu de Campina e outros artistas importantes desta terra de grandes artistas. Este é o diferencial que coloca o nome de Parrá sempre na vanguarda quando o assunto é Jackson do Pandeiro. E é exatamente isso que diferencia o nosso Severino Ramos de Oliveira. Não seria ele um cover do mestre. Falando assim, num tom bem nordestino, o morador da Rua Anísio Salatiel número 60, no Roger, seria a mais perfeita “parêa” musical e existencial do velho Jackson do Pandeiro.
Na cena musical contemporânea do Estado, o cantor e compositor ainda resiste ao lado de grupos como Burro Morto, Chico Correa, Cabruêra, cantores como Escurinho, Erivan Araújo e Gláucia Lima que, com certeza, souberam e sabem beber na fonte inesgotável que é a musicalidade deste artista cujas levadas e cujo suingue transpiram no cotidiano da cidade, de onde ele sempre arrancou o barro, o fogo e a água, para esculpir canções que marcaram a história musical do Nordeste. A musicalidade de Parrá está muito mais viva que nunca!
Em 2006, na festa de aniversário da cidade, a homenagem foi para Jackson do Pandeiro. As escolhas da Fundação Cultural de João Pessoa não poderiam ser mais exatas. A Orquestra de Câmara Cidade de João Pessoa, criada e regida pelo maestro argentino radicado na cidade, Gustavo de Paco, tocou 11 músicas de Jackson. Todas interpretadas de forma impecável pelo irreverente Parrá. Um show de competência e identidade cultural. Na verdade aquele show representou certo redimensionamento da relação entre a música erudita e a música popular. Naquele momento, Parrá se mostrava digno da consagração na memória do seu povo. O público cantava entusiasmado os sucessos de Jackson, como se o show fosse com o próprio. O Canto da Ema, Sebastiana, Um a Um, Forró em Limoeiro e outras. Naquele momento Parrá selava em sua carreira um reconhecimento que vinha sendo, injustificadamente, sonegado. Em um show realizado anteriormente, no São João, ele fez uma declaração pública que vale como alerta para os gestores de cultura que não se preocupam com a preservação da memória dos seus artistas: “eu estava morto e vocês me ressuscitaram”, disse Parrá. Na verdade, Parrá, a cidade é que andou entorpecida, desmemoriada, fora do eixo... Você representa o espírito e o corpo de uma cultura que não se rende, independentemente da sensibilidade de quem a governa. Uma cultura de resistência que transita soberanamente entre a tradição e a modernidade.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
A alma fêmea do poema.
Lau Siqueira
Não é por acaso que a poesia brasileira vem conquistando - cada vez mais - leitores e leitoras. Na mesma proporção, seguramente, vai suscitando espaços respeitáveis no mercado do livro. Este é um fenômeno que se faz sentir de forma acentuada a partir da segunda metade dos anos 90. Entrementes, não é um fenômeno brasileiro. No mundo inteiro a internet passou a exercer um papel determinante na difusão da poesia. Mas, não apenas isso. Sem romper com a necessidade precisa dos clássicos, a poesia contemporânea passou a se alimentar dela mesma. Talvez esta seja a melhor tatuagem de um tempo de contrapontos bravios quanto aos conformismos decadentes. Verdadeiras porradas no baixo-ventre dos eunucos saciados, fiéis devotados aos cleros e reinados da literatura e, principalmente, da ausência de literatura.
Foi nesse contexto que o Brasil descobriu Valéria Tarelho. Uma escritora que traduz e ao mesmo tempo constrói sua artesania, na multiplicidade das suas leituras. Da mais plena percepção dos trovadores medievais, dos simbolistas, dos barroquistas, dos concretistas... aos poetas marginais de poesia sem pele. É como se estivesse reafirmando Jorge Luiz Borges: “todas as teorias poéticas são meras ferramentas para a construção do poema”. Uma poeta que estréia em livro com uma poesia que é pura pulsação. Seja de linguagem ou da existência. Uma poesia que soube construir seus próprios caminhos sentenciando-se dentro de um rigor que se traduz num jogral de iluminuras. Percorrendo de Rimbaud à Rodrigo de Sousa Leão, de Kaváfis à Márcia Maia... Por isso estréia com substância e ousadia. Questões que se interpenetram na abordagem de temas resgatados a partir de um mergulho profundo no raso da condição humana. Um foco indissociável cravado no universo da alma fêmea. Uma poesia radicalmente mulher. É o cotidiano que emerge com sua sensualidade, suas opressões, suas desditas e, sobretudo, com suas linguagens de eternidades construídas na perenidade do acaso. Valores tão fundamentais à metalurgia do poema.
Em uma das suas últimas entrevistas, Haroldo de Campos dizia que não era mais um poeta concreto, mas um poeta da concretude. Não há nada mais pertinente nesta apresentação que esta leitura avessa da profecia de um mestre. Valéria Tarelho é, também, uma voz da concretude. Dona de uma dicção que se reconhece na fala dos silêncios. Da imensidão de silêncios que inundam esse tempo de velocidades e usuras midiáticas. Uma voz que não precisa de outras e ao mesmo tempo se multiplica em tantas. Por isso, não pede licença para que reconheçamos sua nitidez dentro de um palheiro de agulhas esquecidas num soberbo disfarce pessoano. Concisa na sua sensibilidade inteligente. Uma explosão de prazer que sacode o hímen das palavras para a construção de uma poesia de consistência e derme arrancada dos anseios e dos devaneios.Tudo isso ancorado numa lucidez visceral.
Escrevendo poemas há sete anos apenas, sem pedir licença aos babalorixás de crachá que se fecham em círculos cada vez mais contritos, inflados de suas substâncias desgastadas e pastiches purulentos. Este livro conta uma história de poemas que descem da estopa para a laje fria da expressão. Ardendo coisas ditas e não ditas. Como nos contou Leminski em seus Anseios Crípticos, o mestre Mishima já sentenciava: “Não sigam as pegadas dos antigos. Procurem o que eles procuraram.” Assim é Valéria Tarelho, dona de uma poesia que não segue pegadas. Uma poesia cuja certeza é uma busca e a universalidade da dúvida.
(apresentação do livro de Valéria Tarelho, a ser lançado em agosto, pela Editora Landy, SP - Brasil)
terça-feira, 30 de junho de 2009
A cultura dos que dominam pelo asco e as gerações abandonadas
“O mundo comum acaba quando é visto somente sob um aspecto e só lhe permite uma perspectiva.” (Hanna Arendt)
Por Lau Siqueira
A convivência com os movimentos da vida nos vai capacitando para pensar o mundo que nos cerca e o que nele pulsa. Seus dinamismos e perplexidades a partir de uma industrialização não apenas da cultura, mas também do pensamento e, principalmente, dos comportamentos da sociedade e suas representações. Não serão, pois, apenas os bons livros que nos salvarão da ignorância. O pior de tudo é, talvez, ler bons livros e continuar ignorante por incapacidade de reflexão. Pensando soberbamente, talvez, que a compartimentalização dos interesses sociais e dos saberes podem sustentar a credibilidade de um discurso maniqueísta por natureza e ausência de princípios. Claro que é através dos livros que o pensamento reflexivo sobre as mais diferentes abordagens cumpre o seu papel. Colabora sim, mas geralmente de um ponto eqüidistante entre o oceano e o pacífico. Por isso a leitura da realidade interessa como ponto de partida para qualquer impulso crítico acerca da aldeia globalizada onde se estabelece o germe urbano.
Não quero com isso diluir o direcionamento das reflexões já realizadas em estudos de grande relevância que foram produzidos pelos mais diversos meios - universitários ou não. Que fique claro! Somente alerto para a insensatez dos que defendem questões específicas de forma descontextualizada. Até porque pensar universalmente significa estabelecer laços sutis, mas seguros, com uma teia incapaz de diluir-se porque guarda os mistérios da existência humana. Fato que muito interessa no debate da realidade, por exemplo, de uma cidade como João Pessoa. Uma cidade tão igual a tantas, litorâneas ou não, com acrobatas violentados pela lógica capitalista da sociedade, exibindo pelas esquinas um futuro atomizado. Uma cidade que ruge pelos becos, cuja cartografia social preocupa os que preferem pensá-la com dignidade e respeito. Mas, a realidade está aí, batendo as tamancas, como se diz. Tudo a ser transformado, transborda. Lutamos contra a impunidade num país onde um juiz criminoso, não vai para a cadeia. É condenado ao prêmio de uma aposentadoria com vencimentos integrais. Lutamos por políticas públicas para a criança e o adolescente, com conselheiros tutelares sendo acusados pelas esquinas de violar o Estatuto da Criança e do Adolescente. Lutamos em defesa da vida, muitas vezes, quando se pretende mascarar a violência sofrida, com a religiosidade ditando diretrizes onde o que deveria se fazer valer era o direito justo.
Tenho me deparado com questões relativas à criança e ao adolescente em situação de vulnerabilidade social no meu cotidiano. Penso nisso com muita preocupação e partilho meus pensamentos. Não amparado no que ainda não foi feito para sanar essa imensa ferida social que vem de um percurso histórico. Penso que não há como pensar qualquer processo histórico apenas na perspectiva institucional. Porque nesse sentido a cidade já possui parâmetros para gesticular contra um passado em que até o auxílio funeral para famílias carentes era motivo de uma partilha macabra entre os vereadores da bancada servil. Aquela que serve a todos os governos, independentemente do matiz ideológico dos ocupantes dos divinos tronos nas salas refrigeradas, geralmente muito distantes da realidade anterior ao portão de acesso.
Vivemos numa cidade como tantas. Uma cidade com um universo arquitetônico diversificado, mas que apresenta um traçado histórico do poder tanto na sua área urbana, com seus latifúndios de concreto (em contraponto aos casarões tombados e caídos), quanto numa zona rural perdida no sumidouro de um tempo onde a tecnologia colhe mais batatas que as mãos campesinas, rachadas como a terra seca. Não podemos conceber uma política pública para a criança e o adolescente que lave as mãos quanto à desestruturação da família moderna, não mais amparada pelo patriarcalismo. A modernidade comeu os olhos do pai, do filho e do espírito samba. A estrutura familiar das ruas e das periferias, junta (no mais das vezes) a violência com a inocência nos mesmos espaços já violentados pela miséria. Sem a possibilidade de uma reação imediata para uma proteção mínima. Para isso, na cidade, até mesmo alguns setores dos movimentos sociais colaboram com o infortúnio, comercializando apoios políticos e interesses afins.
Este é o contexto aproximado de onde hoje se discute políticas públicas nas cidades brasileiras. Uma caminhada com pegadas recentes, cujas mazelas sempre contaram com conivências de todo tipo para sustentação de um coronelismo com cabine dupla e GPS, pintado de modernidade, mas ainda escancarado diante dos fatos que transbordam pelas esquinas e que fermentam nas comunidades periféricas - e nem tão periféricas assim. O debate frio acerca do preço de cada compartimento relativo às questões sociais, muitas vezes não passam de apelo midiático para quem faz do abandono de gerações inteiras um espelho para vaidades pessoais incompatíveis com o interesse público.
Estamos diante de um lago, com águas rasas, algo turvas, mas correntes. O que espelham essas águas reflete-se na areia do fundo. Por isso penso que cabe tudo nesse debate, menos a hipocrisia que pula a cerca e se agiganta num país que de dois em dois anos vai às urnas na tentativa de construir uma democracia real, esquecendo de jogar luz sobre todos os atores e todos os interesses que existem por trás das tradições burguesas, profundamente enraizadas no Nordeste e em capitais como João Pessoa que, neste artigo, vem sendo citada como referência de uma circunstância global que atinge de La Paz e Feira de Santana à Teerã, onde grupos comandados por aiatolás fascistas e assassinos saem pelas ruas vitimando pessoas inocentes de todas as idades.
Logicamente que não se esgotam por aqui as possibilidades de análise da questão. Existem outros vetores do mesmo naipe, como os canais que são concedidos por interesses que raramente levam em consideração o papel da comunicação na educação das populações acerca dos seus direitos. Porque o que irá transformar a sociedade não é governo algum. Os governos podem, no máximo, atrapalhar pouco para que a sociedade se organize melhor em busca dos seus direitos e deveres. A cesta básica cuja falta exibe a desnutrição de crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos, banca a sustentação do luxo e da ostentação como princípio de vida em algumas casas grandes e mesmo em confortáveis senzalas. Este é o meu ponto de partida para pensar qualquer questão relativa às mazelas cuja responsabilidade é de todos e todas. Até mesmo dos irresponsáveis que nada mais fizeram que maquiar uma realidade social que cada vez se degrada com maior virulência e velocidade. Marx dizia que só a verdade é revolucionária. Cristo dizia que a verdade é a vida. E isso não é outra coisa se não a tentativa de elucidação permanente do próprio conceito de verdade. Mais do que sempre se faz necessário ao enfrentamento dos que defendem a cultura dos que dominam pelo asco, o contraponto de uma realidade que vem produzindo gerações e gerações abandonadas ao relento de mudanças de moscas em cenários fétidos que, comumente, não mudam de lugar para não mudar absolutamente nada. Como diz Caetano Veloso*, “eu não sou religioso. Mas desejo mudanças do tamanho de milagres. As mudanças que tenho visto desde a minha adolescência são muito rápidas e muito grandes para que os mais letrados entre nós só repitam que não andamos”. É um erro grosseiro pensar que na base da pirâmide social essas mudanças dependem fundamentalmente dos governos. O que a sociedade produz em termos de mudanças vem dela própria, dos abalos sísmicos das suas próprias diferenças e da capacidade cada vez maior de movimentos sociais amparados no pensamento, na reflexão e não apenas em interesses, no geral, muito particulares.
* em entrevista à Revista Cult número 135
sexta-feira, 12 de junho de 2009
12 de junho – Dia do Namoro com Políticas Públicas
Lau Siqueira
A virada do milênio vem sendo marcada com a propositura permanente de políticas públicas integradas. Intersetoriais e transversais. Um pensamento que avança na perspectiva do ser humano. Não mais das corporações, como nos regimes totalitários. Na verdade se trata de uma concepção democrática para os nossos dias e para os dias do futuro. Nenhum dos problemas da nossa sociedade pode ser tratado isoladamente. Menos ainda do ponto de vista histórico. Todos (sociedade, corporações e governos) somos responsáveis, por exemplo, pela qualidade do ensino público. Também pela saúde pública, pelo desenvolvimento cultural e pela qualidade de vida nas cidades. Tudo isso compõe um cenário onde a criança e o adolescente, podem (ou não) vislumbrar algo diferente do que se vive nos becos de comunidades como a Maria de Nazaré, em João Pessoa. Uma área de alta vulnerabilidade social e, ao mesmo tempo, de bom nível de organização dos movimentos populares.
Mobilizações no país inteiro nos lembram o dia 12 de junho como marco da luta contra o trabalho infantil. Acho importante destacarmos que o que se pode comemorar nesta data é a luta de alguns abnegados - no serviço público ou no voluntariado - abraçando a responsabilidade de fazer prevalecer a inteligência, o talento, a dignidade e o esforço pessoal como valores fundamentais do desenvolvimento humano. É isso que temos a ensinar e aprender o tempo inteiro. No caso específico do trabalho infantil, existe um fator cultural determinante. Em várias sociedades, o limite de dez anos para o trabalho infantil é considerado parte das necessidades da família. Seja ele doméstico ou não. Recentemente, em seminário realizado na UFPB, vi um representante do povo Potiguara explicar que o menino índio acompanha os pais para até a roça, para aprender um ofício que garantirá a sua sobrevivência. Portanto, a visão criminalista do assunto deve dar lugar para a ação pedagógica continuada, focada na evolução cultural dos povos.
Na prática, o que determina realmente o trabalho infantil (não podemos esquecer) é o grau vulnerabilidade social em que vivem milhares e milhares de famílias nesta e em outras cidades. Famílias, muitas vezes, geradas fora da tradicional cultura patriarcal, mas ainda com pesadas influências. Tudo isso sob a regência de um sistema monopolista e padronizador de valores. Sobretudo, concentrador de riquezas. Por isso acreditamos que todos os processos de desenvolvimento de políticas públicas para a criança devem ser observados e planejados a partir dos processos de consolidação do Sistema Único de Assistência Social – SUAS que abriga várias políticas públicas. Entre elas o Programa de :Erradicação do Trabalho Infantil - PETI, o Bolsa Família, o Centro de Referência em Assistência Social – CRAS e outras não menos importantes. Certamente que o CRAS aparece como articulador estratégico de toda lógica do SUAS. Uma vez que trata dos problemas sociais das cidades a partir das realidades locais vivenciadas pelas comunidades. Além de ser a porta de entrada das políticas de assistência, os CRAS devem cumprir o papel de elemento catalisador de toda política de assistência e seus laços intersetoriais. Tudo a partir do acompanhamento individualizado da situação e das perspectivas das famílias referenciadas em sua área de atuação, como já vem sendo feito com 8 mil famílias em 8 unidades do CRAS.
A duras penas o PETI tem cumprido o seu papel de política pública de proteção da criança em vários sentidos. Na verdade se trata de um programa que deveria ter um diálogo mais aprofundado com as políticas de educação porque focaliza exatamente de um dos grandes desafios da Escola Pública neste início de milênio, que é o atendimento ao aluno em tempo integral. Aqui em João Pessoa, o atendimento do PETI já chega a 2440 crianças em 28 núcleos espalhados pela cidade. Uma boa amostragem para avaliação do programa. Até mesmo como complemento dos processos da chamada educação formal. Não são poucas as histórias de sucesso que fazem parte do cotidiano do PETI. Como a recente medalha de bronze recebida por um aluno residente na comunidade Ana Clementina de Jesus, no conjunto Valentina de Figueiredo. Uma conquista obtida no campeonato nacional de judô sub-13, realizado em Vitória, no Espírito Santo. Os alunos do PETI da capital da Paraíba arrastaram o 3º e o 5º lugar. Ainda este ano, chegaremos a marca de 100 alunos de música lendo partitura. Teremos ainda o lançamento de um CD que deverá referenciar-se nacionalmente. Estes, entre outros fatores, nos obrigam a manter um olhar muito carinhoso para com este programa. Bem como para com os aguerridos educadores e oficineiros que nos permitem sonhar com a ampliação planejada do programa.
O PETI, na verdade, enquanto política de Estado centrada nas normas estabelecidas pelo SUAS representa a articulação global das políticas públicas que partem de procedimentos estruturantes para as necessárias melhorias da qualidade de vida do nosso povo. Certamente que o que devemos entender é que um programa tão novo (criado em 1996) começa a surtir seus efeitos na sociedade e, portanto, não pode passar despercebido, por exemplo, nos planejamentos escolares que pensem o aluno para além dos muros escolares numa prática efetiva da intersetorialidade. Aliás, podemos citar um bom exemplo de ação intersetorializada. A que atende o PETI e seus objetivos, com as oficinas de leitura oferecidas nos bairros São José e Chatuba. Uma ação da Fundação Cultural de João Pessoa – FUNJOPE, articulada a partir do CRAS.
Um programa que busca estabelecer laços com a família para a sua execução, atende os anseios de quem luta por uma sociedade mais justa. Uma vez que se trata de uma ação empreendida no mais profundo enraizamento dos valores que sustentam uma sociedade em lenta - mas, segura - transformação como a sociedade do nosso tempo. Portanto, não há como desvinculá-lo de outros programas. Até porque além do trabalho sócio-educativo o PETI trabalha também a transferência de renda para as famílias.
Mas, estamos apenas começando a pensar o Brasil a partir da realidade do povo. Estamos começando a pensar a cidade de João Pessoa a partir de uma realidade que será revelada em breve pelo Mapa da Exclusão e da Inclusão. Instrumento fundamental para o planejamento de políticas públicas. Será possível visualizar melhor as demandas, por exemplo, referentes ao trabalho infantil e a outras situações às quais estão expostas não apenas as crianças, mas as pessoas de um modo geral. Pensar situações específicas significará igual proporção de esforços para relacioná-las com outras situações, dentro de uma rede de atendimento integral ao cidadão, conforme (na prática) propõe o SUAS. Uma política de Estado tão importante e necessária quanto o Sistema Único de Saúde – SUS. Isso precisa estar permanentemente em pauta, pois pensar o desenvolvimento da sociedade significa democratizar esta sociedade. Como dizia o poeta Mário Quintana, “democracia é dar à todos o mesmo ponto de partida. A chegada, depende de cada um.” A consolidação do SUAS e seus programas significa, sobretudo, o avanço da sociedade em direção à uma democracia referenciada na universalização dos direitos essenciais do ser humano.
terça-feira, 2 de junho de 2009
O caminho das borboletas...
Lau Siqueira
No século VI a.C., o legislador grego Sólon, criou muitas leis. Uma delas considerava crime se acovardar diante de uma discussão. Mas, ele não parou por aí. Entre outras coisas, institucionalizou a distinção entre “boas mulheres” e “prostitutas”. Um fato jurídico que simboliza até hoje o patriarcado. Certamente que vem daí também o casamento civil. Pois as “boas mulheres” eram aquelas que procriavam e constituíam família. Certamente, também, a engrenagem que estabelece os diversos níveis (ou seriam desníveis?) sociais da prostituição. Uma força estranha que atravessou os milênios e se espalha pelas calçadas e pelos prostíbulos de João Pessoa e do mundo.
A prostituição era um componente fundamental na vida social da Velha Grécia. Nas cidades mais desenvolvidas - geralmente localizadas nos portos - o ‘setor’ empregava boa parte da população. A profissão era considerada uma atividade comercial de relevância. Dizem que Sólon também institucionalizou em Atenas, os primeiros bordéis. Os preços dos serviços eram regulados pelo Estado. Havia até cobrança dos impostos do que chamavam de “comércio de carne”. As prostitutas, nesse tempo eram classificadas segundo os impostos que pagavam. Havia prostitutas baratas (pornai), as “peripatéticas” e as prostitutas (hetaera*) de nível alto também chamadas de “companhia feminina”.
A antiguidade também guarda um espaço sagrado para a prostituição. A deusa Isthar, nascida na Suméria, foi revelada pelo historiador grego, Herótodo, quando este escreveu a respeito da Babilônia. Ela era o símbolo da hospitalidade com um preço simbólico. Ishtar tinha alguns rituais de carater sexual, uma vez que era a deusa da fertilidade. Alguns dos rituais tinham a ver com libações e outras ofertas corporais. Já a deusa Vesta, do Império Romano, exigia a virgindade total ou a entrega total. E todo o culto às deusas era feito através de rituais. Até mesmo na Bíblia o nome de Madalena coloca os fiéis de Jesus Cristo frente a uma grande contradição. Desta época, destacamos Herodes que também era chegado a um cabaré.
Algumas prostitutas de luxo acabaram virando mito. Como Messalina, por exemplo. Ela casou com o imperador romano, Cláudio, aos 16 anos (Ele tinha 49). Na Roma Antiga a depravação não era privilégio dos homens da corte. Algumas mulheres eram ainda mais chegadas ao excesso sexual. Messalina imitava as prostitutas profissionais da noite romana. Ela copiou as prostitutas, até mesmo ao receber no palácio todos os homens que a desejassem. Chegou a competir com outra prostituta profissional, apostando e vencendo uma maratona de sexo com 25 homens em uma única noite. Quando não se dava por satisfeita, saía pelas ruas à procura de amantes, mandando matar os que a recusassem.
Na literatura, são vários os exemplos. Mas, podemos citar Adriene Legay, personagem central no conhecidíssimo conto de Maupassant, Bola de Sebo. Conto, aliás, que foi adaptado de forma genial por Chico Buarque de Holanda. Bola de Sebo passou a chamar-se Geni, personagem da Ópera do Malandro, em música de sucesso nos anos 80. Nesse conto, Guy de Maupassant não poupa críticas ao cinismo e a hipocrisia da sociedade francesa do século XIX. Chico repete a dose em relação á sociedade brasileira dos anos 70.
Nesses dias iniciais do século XXI não mudou muita coisa. Em alguns casos, nem mesmo a relação com o Estado e com a sociedade. Os preços variam. Ora vale um emprego, ou uma ascensão profissional. Ora vale um casamento por interesse, com as benesses e títulos de madame. Ora vale nota em alguns cursos ditos superiores. As profissionais que cercam os hotéis gostam de ser chamadas de “acompanhantes executivas”. Mas, também são chamadas de rameiras, quengas, putas, pitombas... seja qual for o nome. Na realidade todas elas são apenas prostitutas. As meninas da Associação das Profissionais do Sexo – APROS, não gostam da nomenclatura “politicamente correta” de profissionais do sexo. Preferem mesmo ser chamadas de prostitutas. Mas, apenas são mulheres que lutam com determinação por seus direitos constitucionais ao exercício da cidadania plena.
As pessoas ditas “de família”, não raras vezes, se sentem incomodadas com a proximidade de pontos de prostituição e bordéis. Algumas das meninas afirmam que alguns desses “incomodados” são usuários dos seus serviços. Não podemos esquecer que o imposto que a classe média paga para morar em casas confortáveis, não chega aos pés do imposto social que a grande maioria das prostitutas sempre pagou pelo direito à sobrevivência. Outro dia, em trabalho de campo na praia de Cabo Branco, juntamente com a APROS e a Coordenadoria de Políticas Públicas para a Mulher, conversando com uma jovem prostituta, soube que tinha um filhinho de seis meses em casa, sendo guardado pelo marido desempregado. Percebe-se, então, o quanto muitas vezes somos cruéis quando viramos o rosto para a realidade que nos cerca. Impossível, pois, não termos este assunto no centro do debate no momento em que se comemora o Dia da Prostituta.
O que precisa ficar claro é que as prostitutas, em busca de reconhecimento profissional, deverão necessariamente manter uma postura profissional. Inclusive sem beber ou se drogar no trabalho. Sobretudo, buscando uma convivência harmoniosa com a comunidade onde vive ou onde trabalha. E por uma questão de sobrevivência, até mesmo com as engrenagens de consumo da sociedade capitalista que, sabemos, ao mesmo tempo em que condena, hipocritamente sustenta a prostituição nos mais diversos níveis.
*hetaera quer dizer prostituta, em grego. Mas, também é o nome de uma borboleta brasileira, hetaera-esmeralda. Foi descoberta na Amazônia em meados do século passado por um inglês.
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