sábado, 23 de julho de 2016

Políticas para o mercado ou para a leitura?

Uma pulga atrás da orelha me informa que o atual ministro da Cultura quer implantar bibliotecas comunitárias nos conjuntos financiados pelo programa Minha Casa Minha Vida. A desconfiança não vem apenas do fato de ser Caleiro, até o momento, interino em um governo cuja legitimidade é questionada nacional e internacionalmente. Parece que o ministro deseja apontar soluções simpáticas aos segmentos mais críticos da cultura. Entretanto, sem conhecer direito o chão da sua pisada. Ele não se “enturmou” com o segmento. Em cada declaração parece querer angariar simpatias. Compreensível, afinal, não deve ser fácil ser ministro da cultura de um governo golpista. O segmento, historicamente, não engole fácil esse tipo de circunstância. Caleiro pode até ser bem-intencionado, mas é um gestor cercado de nuvens. Não poderia ser diferente. Dadas as circunstâncias da sua ascensão como Ministro da Cultura. Ele aceitou o cargo no vácuo de honrosas recusas. Talvez precise mostrar para si mesmo que valeu o sacrifício.

Todavia, não desconfio do Caleiro por questões conjunturais, apenas. Mas, por razões bem pragmáticas. Algumas experiências semelhantes, inclusive nos governos do PT, me pareceram infrutíferas. Boas intensões isoladas e desarticuladas. Cito como exemplo o projeto Arca das Letras, do Ministério de Desenvolvimento Agrário. Um projeto cheio de boas intensões, mas com falhas estruturais gravíssimas. Pouca articulação com a militância leitora e uma fundamentação centrada no marketing e não na pedagogia. Esse erro crasso fez com que muitas Arcas, em comunidades rurais, sirvam hoje apenas como um móvel de suporte para a televisão. Não se trata aqui de crítica negativa. Absolutamente. Nos dois casos, vejo com bons olhos a preocupação com o acesso ao livro e leitura. Mas, como se trata de investimento público, penso que os dois formatos favorecem mais ao mercado do livro que a formação de leitores.

Pesquisas realizadas pelo Instituto Pró-Livro nos mostram números que não podem ficar fora deste debate. Em 2007 a primeira pesquisa dizia que o Brasil era o décimo maior produtor de livros do mundo e que o MEC era o terceiro maior comprador de livros do mundo. Já a pesquisa realizada em 2016 diz que trinta por cento dos brasileiros nunca comprou um livro e 44% da população brasileira não lê. Não vou entrar na análise da qualidade dos livros mais lidos. O quadro é desolador para a formação crítica do povo brasileiro. Podemos até observar que, num aspecto, a preocupação do ministro e dos ex-gestores do MDA procede. Precisamos facilitar o acesso ao livro. Porém, isso não pode ser feito de forma tão apressada. Assim, favorece apenas o mercado. Os investimentos públicos na área já são por demais vultuosos. Penso inclusive, que os tribunais de contas deviam prestar atenção ao fenômeno. Para uma política nacional de popularização da leitura o que não falta é livro. Que tal começarmos trabalhando com os livros já adquiridos? Em muitos casos, acervos e mais acervos espalhados na inércia. Que tal investir prioritariamente na estruturação das bibliotecas públicas, escolares e universitárias? Inclusive fiscalizando seus funcionamentos. Que tal investir nas experiências já existentes e exitosas de pontos de leitura?

Entendo que uma política para o livro e leitura não pode deixar de observar alguns fatores determinantes. Um deles é a transnacionalização do mercado livreiro conjugado com a marginalização da literatura nacional. Mesmo a canônica. Também a literatura contemporânea não pode estar fora desse debate pois, potencialmente, o autor é um dos principais agentes na formação de leitores. Principalmente num quadro de professores não-leitores. Todavia, devemos reconhecer que o pouco de política para o livro que tivemos desde o governo Lula estabeleceu uma militância em defesa do livro, da literatura brasileira e da leitura. Planos estaduais e municipais de leitura foram e estão tomando corpo. Reapareceram os contadores e contadoras de história, não mais como cultura familiar, mas como profissionais da mediação. A literatura brasileira contemporânea está com uma produção estonteante, efervescente, mesmo fora do mercado formal e fora das políticas públicas. Existe, pois, uma diversidade de fatores que precisam ser levados em conta.

Faço essas observações por entender que não estamos mais no tempo de gerar expectativas e repetir os mesmos erros. Antes de anunciar o varejo como se fosse o grande projeto, cabe ao ministro Caleiro ou qualquer outro que venha a ocupar o seu lugar, fortalecer o Plano Nacional do Livro, Leitura e Literatura. Nesse contexto, a aproximação com a Educação é indispensável, uma vez que nas últimas décadas o Brasil formou professores distanciados da leitura e da literatura. Essas políticas precisam ser articuladas com os Estados e municípios e ancoradas, especialmente, em milhares de pequenas experiências exitosas espalhadas pelos rincões brasileiros. Chega de pensar políticas para o livro apenas para fortalecer um mercado que não reconhece a literatura brasileira e despreza a formação cidadã a partir da leitura literária. Caso contrário, daqui a pouco teremos um fundamentalista lunático propondo políticas para a leitura, sem literatura.


Lau Siqueira  

segunda-feira, 23 de maio de 2016

E AGORA O PROBLEMA É A CULTURA?

Por Lau Siqueira
De uma hora para outra aparecem pessoas revoltadas com os artistas e criminalizando a cultura. Me pergunto se acham mesmo que podemos resolver os problemas da saúde, educação, segurança, etc, suprimindo cerca de 0,35% do orçamento que é, em média o que se gasta com cultura neste país. Quer dizer que a corrupção, mote inicial dos "revoltados on line", está fora de pauta? Quer dizer que a sonegação fiscal que é gigantesca e que sequer foi investigada ainda, não representa nada? Temos museus fechando, teatros desabando pelo país afora e o problema é os artistas lutando pela permanência de políticas públicas para a cultura? O mais engraçado é que a única coisa que esse presidente interino preservou foi a Lei Rouanet que o ministro Juca Ferreira lutava para transformar. Tem projeto sobre isso tramitando no Congresso, sabiam? E agora aparece uma matilha de desinformados raivosos que abraça uma causa sem saber sequer o que está falando. 
O fato é que o segmento mais conservador da nossa sociedade, depois de perceber a pegadinha que foi um impeachment comandado por uma quadrilha, está querendo pular fora do debate e não sabe como. Perceberam a "cagada" que foi ir para as ruas convocados por corruptos para lutar contra a corrupção. Foram enganados e não sabem como voltar atrás. Já perceberam que quem defende a democracia de verdade, não são os "petralhas", mas uma multidão expressiva de cidadãos e cidadãs que pensa um país mais justo. Não precisamos apoiar Dilma para defender a legitimidade do seu mandato e perceber a farsa que foi essa manobra de espertalhões, de oportunistas trapalhões, impulsionados por uma imprensa vil que sempre esteve à serviço de forças contrárias aos interesses do povo brasileiro.
Os trabalhadores da cultura, principalmente os artistas, são aqueles que definem civilizações inteiras. Como entender Portugal, sem Camões. Como entender o mundo sem William Shakespeare? É muito bacana dizer que é da terra de Augusto dos Anjos, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Portinari, Celso Furtado, Antônio Cândido, Rui Barbosa, Tarsila do Amaral e criminalizar a arte e a intelectualidade contemporânea, como se os milhares de artistas e intelectuais brasileiros e os minguados investimentos que recebem, sejam os responsáveis por essa balbúrdia provocada pela canalhice da maioria de um Congresso Nacional de maioria corrupta e que consome milhões todos os dias. Respeitem os artistas e os intelectuais, os cientistas,os militantes das causas humanas, os ambientalistas, porque eles não precisam pegar em armas para fazer revoluções. Que a ignorância não prospere neste país de tantas farsas. Atacam Chico Buarque, mas silenciam diante dos cachês milionários pagos por prefeituras a um Wesley Safadão. Desculpem, mas o nosso rebolado é outro. Não haverá descocupação das ruas até que o bom senso prevaleça diante do oportunismo e da ganância de grupos eternamente privilegiados e corruptos que sepre tiveram tudo e sempre querem mais. Respeitem a cultura brasileira. Cadeia para os corruptos de todos os partidos! E se você não souber o que fala, vá ver um bom filme ou ler um livro. Caso contrário, se informe melhor para não ficar repetindo bobagens. Beijinho no ombro.

segunda-feira, 28 de março de 2016

CHEGA DE MI MI MI...

Por Lau Siqueira

Para desgosto de alguns o fato mais contundente da Operação Lava-Jato, até agora, foi a gravação de uma conversa entre Dilma e Lula que não contribuiu com absolutamente nada para a investigação. Uma barrigada jurídica usada posteriormente como instrumento de chantagem. Diante da possibilidade de perder o “selo” Lula para o STF, Moro expôs o que o ex-presidente pensa sobre o STF. Simples assim. O Excelentíssimo jogou no ventilador. Virou vale-tudo. São os tempos do BBB Jurídico. A exposição pública é feita sem escrúpulos. Estão usando irresponsavelmente uma prerrogativa da Justiça para fomentar o ódio que já inunda as ruas. Pior: ninguém é responsável por nada.

As gravações de Lula e Dilma podem até ser legais e justificáveis. Mas, a divulgação massificada para uso e abuso político foi infame demais. Uma vergonha. Não interessa a vida pessoal de ninguém. O jeito como falam, os palavrões que dizem reservadamente, como se vestem, por onde transitam, quem são seus amigos... Não queremos saber de pedalinhos. Aliás, esse papo de pedalinho é a cereja do bolo da banalização midiática à qual o País está submetido. Significa a consagração da mediocridade dominante. O povo brasileiro, realmente, quer o processo legal e não o mero julgamento editorial. O povo quer isonomia na divulgação da roubalheira. Por quê a lista da Odebrecht, rapidamente, virou sigilosa? (SQN).

O que fica cada vez mais evidente é o despeito e o ódio de uma tradição burguesa encastelada no poder desde as Capitanias Hereditárias. O que se vê é revolta de gente que “não é racista”, mas não suporta negros na universidade. Não suporta gays assumidos em locais públicos. Não suporta trabalhador rural viajando de avião. E, principalmente, a possibilidade do retorno de um certo ex-metalúrgico para a presidência da República. Morrem de medo. A Operação Lava-Jato é necessária, sim. (Ou já foi?) Só não pode ser conduzida de forma tão parcial por juristas que escancaram nas redes sociais suas preferências políticas. Da Justiça, apenas esperamos que seja justa e que seja sóbria.

No mais, a realidade é que em um momento tão delicado, um deputado que é réu por corrupção vai conduzir os destinos do País. Não seria mais lúcido começar já a limpeza pela cozinha do Congresso já que, até agora, com Lula e Dilma foi só mi mi mi? Ainda bem que as vozes da lucidez estão cada vez mais firmes, se posicionando em todos os níveis. Se querem mesmo combater a corrupção, que tal fazer a Reforma Política? Esta é urgente e fundamental para consolidar a democracia no Brasil. Sem Reforma Política e partidária “combate à corrupção” é conversa pra boi dormir.

quinta-feira, 17 de março de 2016

SEM BOM SENSO A ESPERANÇA NAUFRAGA




Democracia nunca foi fácil. Pela democracia você garante até mesmo o direito de quem deseja tomar o seu espaço. Mesmo assim ainda é o melhor caminho. O que é assustador num momento como este que o Brasil vive é o desejo insano e incendiário de algumas pessoas. Claro que a democracia não é um sistema perfeito. Mas, é o único onde se pode viver num Estado de Direito. Muitos dos que foram para rua pedindo a ditadura e acusando a “ditadura bolivariana” do PT, esquecem que se fosse mesmo uma ditadura não estariam nas ruas. Não iriam para as ruas na perspectiva de serem recepcionados com gás lacrimogêneo e balas de borracha ou fuzis 7.62, com diz um certo deputado fascista.
E mais: claro que Lula precisa ser investigado. Dilma, também. Mas, esquecer a privataria tucana? Esquecer a roubalheira que foi a privatização das telecomunicações? Por que? Tudo foi tão recente. Esquecer que um certo helicóptero foi preso recentemente carregado de cocaína e nunca mais se falou no assunto? E as contas de Cunha na Suiça? Que justiça seletiva é essa? Que fique claro: não existe combate à corrupção sem democracia. Afinal, nas ditaduras nem se fala em corrupção. Não porque não exista. Mas porque a imprensa está sob censura. Estamos vivendo momentos de tensão, é verdade. Mas, também, de consolidação de um processo democrático que foi muito doloroso para o povo brasileiro
Dia 18 vou para as ruas me juntar aos que defendem a democracia. Não vou de vermelho porque não aceito essa imposição de cores. “Dia tal de amarelo, dia tal de vermelho.” Chega! Não me digam como devo me vestir. O que está em jogo não são as cores da bandeira. Existem preocupações maiores que a cor da sua camisa. Essa jovem democracia conquistada com o povo nas ruas, não pode ser condenada por uma rede nacional de televisão. O que se vê no Brasil, nesses últimos dias é surreal. Juízes virando estrelas midiáticas, escancarando (e negando) suas preferências partidárias. Promotores ameaçando pessoas de morte nas redes sociais. Deputados pregando banho de sangue. Quem deseja proteção dessas pessoas? Quem confia em bandido?
Sabe o que falta para sairmos da crise? Digo sem pestanejar: Bom senso. Estamos sendo conduzidos para uma disputa onde só existem vilões. Não existem heróis, conforme observou Viviane Mosé. É claro que os corruptos têm que ir para a cadeia. Mas, não sob o julgamento de uma manchete de jornal. No mais, como combater a corrupção sem fechar as torneiras da corrupção? Por exemplo, com o atual sistema de financiamento de campanhas? O Brasil mudou. Lula realmente tirou o país do Mapa da Fome da ONU. Mas, o Brasil precisa mudar mais. Aperfeiçoar suas instituições. Legitimar o voto como única forma de algum político assumir um mandato. Só isso. Se não faltar bom senso, não faltarão saídas para a crise. Até porque o Brasil não é uma corporação de alienígenas amarelos ou vermelhos. Nós somos um povo marcado pela diversidade.


Lau Siqueira

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Os idiomas da sonoridade e da imagem.

Por Lau Siqueira




Diz Antônio Cândido que “a expressão é o aspecto fundamental da arte e portanto da literatura.” No caso específico do haicai a expressividade se revela, principalmente, a partir da imagem sugerida. O discurso do olhar é determinante. Esta forma poética está entre as tradições culturais nipônicas que se espalharam pelo mundo. Já construiu, inclusive, uma tradição brasileira. Temos notícia da sua chegada ao nosso país  ainda no século XIX. Em 1908, a imigração japonesa trouxe junto o expressivo haikaista Shuhei Uetsuka (1876-1935). Mais tarde surgem os nomes brasileiros de Afrânio Peixoto e Guilherme de Almeida que, em diferentes épocas, propunham uma formatação tupiniquim. Através dos tempos vimos poetas como Leminski transitar com inventividade pelo haicai. Com versos rigorosamente metrificados, ou não, a verdade é que o Brasil foi produzindo seus grandes haicaistas: Millor Fernandes, Alice Ruiz, Teruko Oda, Goga e outros. Saulo Mendonça aparece com destaque ente os mais raros. Sem qualquer receio, podemos considerá-lo um dos grandes mestres do haicai contemporâneo brasileiro. Este conterrâneo de Jackson do Pandeiro desenvolveu um estilo muito particular ao configurar de forma harmônica a sonoridade do texto com a intensidade da imagem. Ao transitar entre o Português e o Espanhol, Saulo revela que seu fôlego está para muito além das linguagens.

O autor de “Luz de Musgo” (Editora Sal da Terra, 2008) há muito propõe a abolição definitiva do conflito entre a forma e o conteúdo do haicai. Pois ao radicalizarmos quanto a forma, deveremos lembrar que no Japão os haicais eram e são escritos em uma única linha vertical. Saulo não reduz o haicai a um “microsoneto”. Seus inventos surgem naturalmente a partir da sensibilidade e da exatidão das suas escolhas. Na sua capacidade de observar o mundo tecendo uma relação direta com as singularidades observadas. Ele vê, ouve,toca, semeia, cuida, colhe, escolhe e só então determina as cores da violeta. Como quem se espalha num milharal em busca de pássaros raros. Mesmo sabendo que, no máximo, somente poderá capturar o canto e a beleza  do voo.

Saulo é um observador de todas estações. Um poeta atento  a natureza mutante que se espalha pelas ruas. Se mostra vigilante quanto ao esplendor das urbanidades conjugadas nos costumes trazidos da aldeia. Sabe ouvir com a própria pele. Sabe sentir a invisibilidade do ar que respira. Aprendeu a ver o mapa das possibilidades com olhos de abelha. Vai direto ao néctar. Escolhe seus libelos como quem se liberta dos próprios sonhos  para as vivências extraordinárias no cotidiano. Seja na pancada estrutural da cultura de massas, na existência que demarca a vida entre a velhice e a infância, ou na sensualidade orvalhada de um amor que transborda. Certamente  nos batimentos cardíacos da árvore que cai e na eroticidade das memórias que reverberam no tempo. Enfim, Saulo é um profundo conhecedor das estradas que percorre. Por isso não se basta e recorre aos eixos do haicai para, somente então, transportá-lo por caminhos inventados. Sabe como poucos construir verdadeiros ensaios críticos onde o próprio poema responde todas as perguntas e formula tantas outras. Vai soltando desta forma suas liras nas paisagens tantas vezes diluídas da literatura. Entre os muitos belos poemas deste livro, um deles talvez revele com exatidão a sua percepção do humano enquanto elemento e instrumento da natureza: “Nasceu naquela casa./ Na janela vazia/ sua saudade se debruça.” Saulo Mendonça é dono de uma precisão cirúrgica na construção de seus textos. Sabe que a saudade se debruça na espera da manhã que virá. Ler seus haicais apenas uma vez é sempre impossível, pois são instrumentos de reinvenção da própria leitura.

*Prefácio do novo livro de Saulo Mendonça.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Anayde Beiriz e a memória perdida

Por Lau Siqueira

Um certo dia de 2007, na inauguração da Escola Municipal Anayde Beiriz, em João Pessoa, me deparei com um homem alto e sorridente que falou entusiasmado: “Lau, isso aqui é o Motiva do bairro das Indústrias!” Era o médico Marcus Aranha. Conversamos sobre a exposição dos trabalhos realizados pelos alunos da escola resgatando a memória de Anayde.  Conversamos sobre Anayde e sobre as lacunas da história oficial. Nosso contato maior sempre foi virtual. Nos vimos poucas vezes, mas guardávamos um pelo outro um respeito incomum. Marcus era um médico conceituado e gestor público zeloso, criativo e comprometido. Mas, também era, fundamentalmente, um pensador inquieto. Nunca escondeu seu fascínio pelos acontecimentos históricos de 1930. Principalmente aqueles  ocultados pelos interesses dominantes. Seu desejo de restaurar a imagem pública de Anayde Beiriz nunca foi segredo. Não mediu esforços para isso. Ele sabia que estaria prestando um serviço enorme à memória coletiva e à história da Paraíba. Este foi, imagino, o impulso maior para a publicação deste livro. Ele não se conformava com as bravatas familiares, onde a história das lutas do povo nunca tem o seu lugar garantido.


Marcus Aranha mergulhou numa pesquisa apaixonada. Um verdadeiro e corajoso garimpo. Procurou a família de Anayde, pesquisou textos publicados anteriormente e construiu um olhar crítico para a restauração da verdade sobre a grande mulher que foi Anayde Beiriz. Entretanto sabia que a reconstrução da memória de Anayde somente ela mesma através dos seus escritos, poderia conduzir.  Sabia, por exemplo, que a leitura das cartas trocadas com o noivo Heriberto revelariam o verdadeiro caráter de Anayde. Uma mulher sensível, inteligente, amorosa e digna. Entretanto, também inquieta e conectada às vanguardas do seu tempo. Exatamente o oposto do que semearam seus detratores. Seja pela queima dos seus escritos. Seja pela sórdida campanha difamatória que sofreu.

Podemos considerar que Anayde foi vítima de algum tipo inquisição. Empurraram uma jovem de apenas 25 anos para o abismo de uma disputa de poder. A moça foi induzida ao desespero e consequentemente a um provável suicídio. Um fato, aliás, muito mal explicado e que pode muito bem ter sido, na verdade, um assassinato por envenenamento. Da mesma forma que, dias antes, a morte não muito bem explicada de João Dantas entrou para a história eivada de suspeições.


Os tempos eram duros. Era o início da ditadura caudilhesca de Vargas. É fato que João Pessoa foi assassinado por João Dantas. Mas, também é certo que as atitudes do presidente da Província eram inclinadas à violência. Por exemplo, o fato que impulsionou seu assassinato: a invasão do escritório de um inimigo político e a exposição da sua intimidade. João Pessoa era conhecido por mandar jagunços surrar seus desafetos. Aumentou em 500% os impostos. Nunca foi um herói cujos feitos justificassem a mudança do nome da capital do Estado. Seus correligionários, após a morte de Anayde,  agiam com fúria.  Contaminando inclusive a família daquela que foi a maior vítima dos fatos sangrentos que cercaram a Paraíba naquele período.

Sabendo da importância de Anayde Beiriz para a compreensão exata da história da Paraíba e do Nordeste, Marcus conduziu sua busca colhendo textos sobre “panthera”, sutilmente, desmistificando a maldição conservadora que durante décadas excluiu sua imagem da memória coletiva. Nos mostrou que a jovem Anayde sofreu, na verdade, um linchamento  por parte das forças reacionárias que dominavam a Paraíba naquela época e que continuaram dominando por décadas, Na verdade,  ainda hoje são parte significativa do poder.


Anayde Beiriz não estava só com suas ideias. Não podemos compreender seu pensamento sem uma análise mínima sobre a sua época. Aqui e ali algumas poucas mulheres tinham comportamento semelhante ao seu. Destaco a  figura de Patrícia Galvão, Pagu, também reveladora da existência de uma seleta vanguarda do pensamento feminista no Brasil nos anos 30. Eram tempos de rebeldia contra os valores dominantes. Principalmente para uma mulher que vivia antenada com as provocações dos movimentos modernistas também na literatura e nas artes. Não esqueçamos que as grandes revoluções estéticas que ainda hoje influenciam as artes, aconteceram exatamente entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.


O autor se mostrou preocupado em recuperar das cinzas uma história que ainda não estava escrita. Seu ponto de partida foi a personalidade firme e do caráter de Anayde revelado com tanta clareza nas cartas ao noivo Heriberto. Ela contestava valores de uma sociedade ultra conservadora. Respirava um tempo que ainda não havia chegado, mas que sabia que não tardaria. Marcus Aranha nos mostrou também que a perversão reacionária e fraudulenta que conduziu os movimentos de 1930  ainda está viva e se revela em diversos momentos. Seja de forma aberta ou velada. No livro ele cita, por exemplo, uma entrevista de um neto do Presidente  João Pessoa - João Pessoa de Albuquerque Neto - no Jornal O Globo que a pretexto de afirmar seu ressentimento pela morte do avô chama Anayde de “vagabunda”, “moça pobre, filha de um linotipista”. Ou seja: ser pobre para este infeliz descendente do ódio é sinônimo de vagabundagem. Esqueceu que Anayde se formou professora com destaque aos 17 anos e exercia a profissão dignamente. Era professora em Cabedelo. O pai, linotiposta do Jornal a União era um homem honrado que fez todos os esforços para dar à filha a melhor educação. Isso nos revela o quanto o ódio aos Dantas se misturava com o ódio de classe. Na revista Manchete este neto de João Pessoa evidenciou mais uma vez seu ódio de classe fazendo a seguinte afirmação:

“Ora, meu Deus, tem tanta história de amor no Brasil para ser filmada! Por que pegar logo a de uma coitada,uma infeliz, muito humilde, que teve a  infelicidade de se apaixonar por um criminoso?”

Esta é uma síntese do pensamento que mudou o nome da capital da Paraíba para homenagear um político medíocre, conservador e de moral duvidosa. Alguém capaz de ordenar a invasão do escritório de um adversário político. Um homem sem qualquer  pudor jurídico. Ordenou de forma criminosa a exposição de correspondências íntimas  de duas pessoas no auge de uma paixão. Nada mais espúrio. Nada mais repugnante. Nada mais medíocre. Nada mais ofensivo à memória do povo paraibano que jogar esta verdade debaixo do tapete. A Paraíba ainda precisa se apropriar das suas verdades históricas. Para que não permaneça apenas a visão dos vencedores. A versão dos algozes de Anayde ainda prevalece, mas não sabemos mais por quanto tempo.


O escritor Marcus Aranha mergulhou com muita força e sinceridade na sua busca. Teve a sensibilidade e a coragem política de revelar estas faces tão dispersas ainda de uma mulher que continua referência nas lutas feministas no Brasil inteiro. Seja por sua ousadia, seja por sua sensibilidade. Ao publicar as cartas trocadas entre Anayde e seu noivo, Marcus deixou que a própria Anayde se revelasse por inteiro. Deixou também transparecer predominância do machismo nas cartas do apaixonado Heriberto. Ele nos revela, portanto, algo muito delicado para o desvendamento da personalidade de Anayde. Afinal são textos que não foram produzidos para  publicação. São documentos pessoais que revelam o caráter, a sensibilidade, a dignidade e a inteligência de uma mulher que dialogava com o que existia de mais avançado na sua época em termos de pensamento e de compreensão do mundo. Sua admiração evidente pelo Modernismo (apesar dos seus poetas preferidos não serem Modernos) ou pela defesa de bandeiras revolucionárias para a época, no mundo inteiro,  como o direito de voto das mulheres revelam uma mulher determinada e ousada. Aos que sempre buscaram minimizar a importância de Anayde Beiriz para a história da Paraíba, sugiro apenas isso: apresentem o nome de outra paraibana que, na época, defendia o voto das mulheres. Essa conquista hoje é uma realidade. Ignorar a vinculação com o nome de Anayde nesse contexto significa falsear a verdade e distorcer os fatos.


Para que se tenha noção de como se comportava a conjuntura mundial durante a mocidade brutalmente interrompida de Anayde Beiriz lembramos que em 1917 acontecia a revolução bolchevique na Russia. Em 1922 criava-se o Partido Comunista Brasileiro e acontecia a Semana de Arte Moderna. Ocorria, também, a primeira revolta tenentista, que culminou com a marcha da Coluna Prestes (1924/1927) que percorreu cerca de 30 mil quilômetros pelo interior do Brasil, passando inclusive pela Paraíba. Era um contexto histórico bastante complexo, com ameaças reais ao poder das oligarquias. A perspectiva de avanço das ideias comunistas eram reais.


Excluo de qualquer análise o ato oportunista e discriminatório da cineasta que dirigiu o filme Parahyba Mulher Macho. Excluo também o seu nome desta história e desta apresentação. Uma aberração que oculta ainda mais a verdade sobre uma mulher injustiçada no seu tempo. Esta cineasta cujo nome prefiro esconder promoveu uma verdadeira vulgarização da história da Paraíba - e não de Anayde.


POEMA DE ANAYDE BEIRIZ

Nasci
Nasceu
Cresceu
Namorou
Noivou
Casou

Noite nupcial

As telhas viram tudo

Se as moças fossem telhas

não se casariam.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Quando a nudez é a escama



O cenário atual da poesia brasileira é amplo, diverso e cheio de belas surpresas. Claro que não desconheço o turbilhão de versos sem poesia. Também não desconheço o cinismo da política literária dominante.  Entretanto jamais renego o prazer das boas descobertas. Logicamente que a garimpagem haverá de ser precisa e delicada. Não que estejamos chegando ao ápice, comparando com os grandes momentos da poesia brasileira. Nunca mais teremos um Drummond. Outro Décio Pignatari não há. Nunca mais João Cabral. Não cabem os comparativos neste caso. O que ocorre na cena atual é um certo transbordamento das somas e das subtrações. Gerações sobrepostas revelam a cena atual. Reconhecer as boas colheitas é, no mínimo, um bom sinal  de inquietação. As experiências da vida e da linguagem nos fazem lembrar Bachelard: “todo sonhador inflamado é um poeta em potencial.”

Luciana Queiroz sempre me pareceu uma sonhadora inflamada. Pessoa de intensidades e cores colhidas no olhar. Leitora exigente de livros e do mundo. Professora com visão humanista no infinito espaço de uma sala de aula. Uma sonhadora que ama transitar sobre as palavras. Sabe se deslocar entre elas e extrair de cada uma a sonoridade que diz tudo, mas esconde todo o resto. Alma liberta, soube construir um ritmo só seu. Pessoanamente, disfarça com maestria a escama das suas incertezas. Descobrir seus poemas foi um presente. Luciana tem  uma voz poética inconfundivelmente fêmea. Ela não se divide. Não se limita. É a integridade da existência expondo seus significados. Nocauteou minhas dúvidas acerca da existência de uma poética feminina - aliás, fêmea - estabelecida a partir da experiência humana e intelectual de uma mulher. Sabe cozer instantes para uma vida que não passa nas telas. Essa mesma vida que arde no espelho e depois vai para as ruas, para os becos, colher seus tentáculos.

“Sou rainha de esquecidas ilhas
Monto meu cavalo de penas:
Pégasus que Atena nenhuma domestica”

De que valeria o poema, se não para desnudar motivos? Sejam os motivos da linguagem, sejam sentimentos que diante do espelho pedem passagem. De que valeira o poema, se não para vestir a pele das palavras e cantar a versão dos sentidos? No mais, poesia é coragem. Viagem incerta. Principalmente se a condução do Pégaso vem num experimento de habilidades que se mostram inteiras e intensas no eterno aprendizado do verso. A poeta revela a força poética de ser mulher num mundo onde até a linguagem disputa espaço de gênero. Vai planando por sobre os milhos e as favas do estilo, inventando seu próprio caminho num rastro de muitas pegadas.

“Xícara de café
Sabonete
E cama que não divido com ninguém
Espaço que sobra
No vazio da falta”

Luciana faz poema também das suas lacunas. Mas, sabe como transgredir o sentido das coisas. O sabonete, a cama,o café. A presença forte das suas ausências. O espaço ocupado pelo vazio. Percebo aí um roteiro que se revelou com vigor na segunda fase do Modernismo brasileiro, quando a tonalidade existencial e social predomina nas ferramentas da sua metalurgia poética. Conforme explica Afrânio Coutinho, “a Literatura é um fenômeno estético”. Mas ele explica que é um fenômeno estético que dialoga até com o religioso num processo de transformação capaz de introduzir o elemento estético. Luciana sabe disso e faz dos seus aprendizados, das suas lutas e do revoar coletivo que vivencia, o motivo e a matéria prima da poesia. Instrumento de transbordamento e de consciência estética. Ela reconhece os conselhos de Rainer Maria Rilke em “Cartas a um jovem poeta”: “não se deixe enganar em sua solidão só porque há algo no senhor que deseja sair dela.”

“Volta

Deixa de vaidades bobas.
Já sei tudo de tua vida:
que tens outras
e que não queres ser de ninguém.
Teu trânsito de corpo em corpo
não me atrapalha a alma.
Quero você, seus significados,
sua conotação escancarada em minha língua.”

Luciana sabe transitar poeticamente por seus labirintos. Da mesma forma que a americana Bessie Smith tinha possibilidades para a ópera e cantava blues no início dos século XX, ela tem fôlego intelectual suficiente para velejar por outros mares. Tem lastro conceitual para sobreviver no ar rarefeito da poesia brasileira contemporânea. Mas, decidiu começar pelo desnudamento das escamas. Como quem avisa que a pele é só o começo. A nudez é só o começo. Este livro chega, pois, como um alerta. É como se ela dissesse o tempo todo: eu estou aqui, mas sou de longe e vou mais longe ainda. Um aviso de quem estava guardada em silêncios e se permite transbordar em gritos jamais silenciáveis.

Considero que estamos diante de uma bela descoberta. Uma poeta que começa sua caminhada surpreendendo pelo lirismo, pela consciência da linguagem poética e até pela pequena pancada inventiva do título “Nua sobre escamas”. Tem coragem de arrancar a própria pele para renascer na carne viva do inevitável.

“Flor

Se nunca te disse
ouso dizer
tanto faz
a flor do mandacaru
quanto o nome da rosa.”

É tempo de celebrar a boa descoberta. Cada poema deste livro não se esgota no último verso. Há uma atmosfera sugerida que pede mais. Mais poesia. Mais vida. Mais Luciana Queiroz nesse mundo de ausências consagradas e presenças diluídas.

Lau Siqueira

NOVO É O ANO, MAS O TEMPO É ANTIGO

Não há o que dizer sobre o ano que chega. Tem fogos no reveillon. A maioria estará de branco. Eu nem vou ver os fogos e nem estarei de b...