quinta-feira, 26 de abril de 2018

pequenas crônicas

Aprendi a andar pela margem, mas sempre olhar para o centro das coisas... Para o miolo, para a medula, para o que muitas vezes se esconde pelo excesso de sombra ou pelo excesso de luz. Aprendi que cada passo é uma guerrilha e que somente uma caminhada inteira é a revolução. Por isso, às vezes, nem pergunto qual o caminho. Apenas sigo em frente. Pois cada caminho é uma fonte enorme de conhecimento, de novas paisagens e novos descobrimentos. Mesmo no caos a esperança é possível quando a nossa utopia não morre. Até mesmo a dor nos ensina que viver é sentir a diferença e a beleza do solo e da sinfonia. Por isso todos os caminhos me atraem. Afinal, cada caminho nos oferece o direito de escolha. "Você é o Senhor da sua mente", como me ensinou o budismo. Só se vive plenamente quando a razão de viver é repartir o que temos de melhor. E na verdade, essas pedras preciosas, sem preço, sem classificação, sem pódium, são as coisas que acumulamos infinitamente quanto mais repartimos.

sábado, 17 de março de 2018

pipoca BOKUS

Estava escorado num poste depois do almoço, lendo um livro em pleno centro de João Pessoa. Buzinas, pessoas, gritos de camelôs... Tudo era paisagem e passagem. Tudo era viagem. O que perturba o silêncio geral, de alguma forma, não me incomoda. Aprendi a conviver no caos urbano. Outras coisas me incomodam mais, muito mais. Enfim... Gosto de ler Umberto Eco em qualquer circunstância. Me faz bem ler um bom texto,reconhecer ideias claras e refletir sobre elas. Ele fala dos livros, da verdade, da memória, mas o que eu leio é a minha própria vida. Nesse tempo de turbilhões seletivos, encantamentos diluídos, amores estrangulados num posto de gasolina e as pipocas Bokus sorrindo no fiteiro. O que importa é termos uma síntese de tudo. A síntese da tempestade revela a intensidade do vento. Isso não irá garantir a brisa, mas permitirá ao navegante ratificar o rumo, manter o leme. Afinal, navegar é preciso. Aliás, navegar é pessoanamente preciso. Mas, viver, às vezes, é impreciso demais. Estamos sempre em busca da nossa verdade suprema. Exigimos demais das nossas fragilidades. Pelo menos boa parte de nós. Todavia a verdade, seja qual for, se perde quase sempre numa infinidade de fontes, de nascentes e de sínteses. Por isso tenho algumas poucas verdades e sempre desconfio delas. E não me pergunte mais nada.

domingo, 4 de março de 2018

Caminhando com Geraldo Vandré

Eu e Geraldo Vandré, tomando um café no MAG Shopping
O poeta, jornalista e amigo Linaldo Guedes me entrevistou acerca do recital que Geraldo Vandré fez nos dias 22 e 23 de março na Sala de Concertos Maestro José Siqueira. A entrevista saiu no Correio das Artes, o mais antigo suplemento cultural do país ainda em circulação. Na entrevista converso um pouco sobre a convivência com esse grande artista brasileiro e o planejamento do concerto. 

SEGUE NA ÍNTEGRA A ENTREVISTA QUE LINALDO GUEDES FEZ COMIGO.

1 – O concerto será mesmo nos dias 22 e 23 de março? Que horas e local?

Por uma questão de conciliação de agendas o concerto foi remarcado para os dias 22 e 23 de março, na Sala de Concertos Maestro José Siqueira, às 20h. Esta Sala fica no Espaço Cultural José Lins do Rego. Por que na Sala José Siqueira? Nós queríamos fazer no Teatro Pedra do Reino, que rapidamente se tornou reconhecido como um dos maiores, mais modernos e imponentes teatros do Brasil. No entanto, a Sala José Siqueira foi uma escolha muito particular do artista e nós respeitamos demais essa escolha. Ele quis algo mais intimista. Acho compreensível e creio que as pessoas saberão compreender e respeitar as limitações que isso representa. Não teremos mais os três mil lugares do Teatro Pedra do Reino, mas pouco menos de 600 lugares na sala que, na verdade, é da Orquestra Sinfônica da Paraíba. Saberemos dialogar com os descontentes. Afinal, como contrariar um artista que volta aos palcos no Brasil depois de 50 anos e para isso escolhe sua terra natal?


2 – Já está definido o repertório do concerto? Como será? Quem será o maestro? Haverá participações especiais?

Sim, o repertório está definido. Serão as seis peças eruditas para piano que Vandré compôs e algumas canções já conhecidas como “Fabiana”, música que ele fez homenageando a aviação. Também, a belíssima “Pátria Amada Idolatrada Salve Salve”, canção que ele fez com Manduka, filho do poeta Thiago de Melo e que sendo a única canção inscrita em português, venceu um festival no Peru em 1972. A música foi defendida por Manduka e Soledad Bravo. Ainda teremos a consagrada “Pra não dizer que não falei das flores” e “Mensageira”, uma canção de rara beleza que ele compôs em homenagem à bandeira da Paraíba. Geraldo Vandré deverá recitar poemas durante o concerto. Teremos a participação da cantora e pianista Beatriz Malnic, amiga de Vandré, que mora nos Estados Unidos. Também vamos contar com a participação de Alquimides Daera, no violão e viola caipira. Além da Orquestra Sinfônica da Paraíba, com a regência do maestro titular, Luiz Carlos Durier. Finalmente teremos a participação do Coro Sinfônico, cuja regência será do maestro Daniel Berg. Enfim, será uma noite histórica. Vandré subiu pela última vez no palco no dia 12 de dezembro de 1968. No dia seguinte foi publicado o AI5 e viver no Brasil passou a ser um risco permanente. Principalmente para quem fazia arte e clamava por liberdade e justiça. O concerto mostra o quanto tem sentido a famosa frase de 68: “a vida não se resume em festivais”.

3 – Qual a importância dessa homenagem a Vandré, um símbolo musical de resistência à Ditadura Militar, num momento em que os militares voltam à cena do poder nacional?

Esse concerto foi acertado em 2015, quando Vandré esteve aqui para ser homenageado no FestAruanda - festival de cinema. No festival, ele foi convidado pelo Governador Ricardo Coutinho. Mas, adoeceu e não pode vir antes. Na verdade, o concerto não está vinculado à conjuntura. Foi um compromisso anterior ao triste espetáculo que vive o nosso país. É mais um concerto com um grande artista brasileiro, nascido na Paraíba. Um homem que não quis colocar sua arte a serviço da cultura de massas. Na verdade, esse foi o grande ato subversivo de Geraldo Vandré já que, segundo ele mesmo, jamais militou politicamente.  De certa forma, até mesmo os setores mais a esquerda que assumiram governos, se renderam para a cultura de massas. Sempre foi considerado irrelevante o que é, na verdade, devastador. Olha, por exemplo, como está o cenário musical brasileiro desenhado pela mídia! Esse caos não começou hoje. A importância do concerto se dá pela magnitude da obra de um artista que o tempo todo transgrediu seu próprio processo criativo. Começou compondo com Carlos Lira, ensaiando passos na Bossa Nova, passou pelas canções nordestinas, pelas canções épicas, canções de amor. Enfim, gravitou livremente na música brasileira e bebeu nas melhores fontes. Gravou na França um disco que é referencial para a discografia brasileira. “Das Terras de Benvirá” onde, mais do que os anteriores, mostra a força da palavra na sua música de Vandré. Um disco com alto teor poético  (“O anel que tu me deste / eu guardei pra me ajudar / construi numa viola / de madeira o teu altar / o amor que tu me tinhas / eu roubei pra me salvar”. Nesse disco, existe “Sarabanda”, uma música experimental que bebe, imagino, até mesmo na fonte dos ritmos e danças renascentistas, integrando-as aos elementos de formação dos ritmos nordestinos. De lá para cá, ele deu um salto absurdamente inesperado incursionando pela música erudita. Segundo ele, “nada mais subversivo que um subdesenvolvido erudito”. Vandré é um erudito por natureza. Um artista que guarda na memória longos poemas de Vinícius, José Régio, Carlos Pena Filho e dele mesmo. Um cara que recitava Virgílio no original. Como ignorar tamanho patrimônio artístico e humano que a Paraíba ofereceu e oferece ao Brasil? Isso independe da conjuntura. Isso é história da arte brasileira e paraibana contemporânea.

4 – Qual a importância da arte de Geraldo Vandré para a música brasileira?

Creio que a trajetória descrita na pergunta interior, de certa forma, justifica a minha resposta nesta pergunta. Penso que 50 anos após ter cantado pela última vez no Brasil, Geraldo Vandré retorna na contramão dessas megaproduções bilionárias e medíocres de amplo suporte midiático. Rebolados que oferecem para a juventude como música brasileira.  Estamos perdendo a delicadeza, a poesia,  esperando um mestre para reordenar caminhos. Temos artistas fantásticos em todos os gêneros que são sumariamente esquecidos pelas produções da cultura de massas e nem fariam sentido nos modelos que estão aí sendo empurrados como um supositório de horrores na população. Algo que vem sendo exportado como “música brasileira”. Isso é um crime. Ora, somos da terra de Ari Barroso, Chiquinha Gonzaga, Chico Buarque, Geraldo Vandré e outros que acabam relegados por essa máquina demente, ideológica e corrupta que domina os mercados formadores da cultura de massas. Vandré é um artista que soube o quanto era importante dizer não ao caos que se desenhava já em 68, com máscaras de multiculturalismo. O único grande artista da sua geração que não voltou aos palcos após a abertura política. Acho que essa provocação de Geraldo Vandré, juntamente com a inquietação permanente do seu espírito criativo é a sua grande contribuição para a cultura brasileira.

5 – Como foram as conversas com o compositor para a realização dessa homenagem?

Encontramo-nos pela primeira vez em 2015. Muito rapidamente. Nos anos 80, já tínhamos cruzado nossos caminhos. Ele escreveu alguns artigos para o Jornal O Norte e eu escrevi para ele sugerindo reunir os artigos e publicar um livro. Ele ligou para a minha casa, mas eu não estava. O desencontro gerou um hiato enorme. Somente agora nos cruzamos novamente. Ele chegou à Paraíba em meados de dezembro de 2017. Foi quando começamos a tratar objetivamente do concerto. De lá para cá nos encontramos diversas vezes. Inúmeras vezes. Posso dizer que quase cotidianamente, até. Seja para as definições do concerto, ou simplesmente para as longas conversas sobre essa trajetória de vida e artística que o fez chegar aos 82 anos com tanta bravura, lucidez, dignidade e coerência. Saímos diversas vezes para passear. Nada especial. Programas comuns, como comer pizza, almoçar, trocar ideias. Firmou-se uma relação muito generosa entre nós. Nossas conversas estiveram sempre em torno do concerto, da arte de um modo geral e da vida. Sempre foi muito agradável e posso dizer que tenho plena consciência da importância histórica do que estamos fazendo.

6 – Vandré esteve recentemente na Paraíba. Como foi essa estadia dele aqui? Que lugares ele andou, qual impressão teve da Paraíba e de sua arte de uma forma geral? Fique à vontade para falar o que quiser, inclusive fatos de bastidores.

Ele ficou o tempo todo aqui, desde dezembro, anonimamente. Andamos por diversos lugares e eu sabia que as pessoas sequer imaginavam que ele estava ali. Ele veio com Darlan Ferreira, que trabalha com ele há 15 anos e trata Geraldo com um carinho e cuidado impressionante. Quase como um irmão mais novo. Tive o privilégio de ouvir Vandré recitando muitos poemas. Ele tem uma expressividade interpretativa impressionante. Lembro-me de estarmos passando pela praia de Manaíra e ele, apontando para o mar, se referir aos versos que diziam do “céu fundo e o mar bem largo” na canção “Terra Plana” e que, na verdade, revelam a sua imensa identidade e seu amor pela Paraíba. Tive a oportunidade de ouvir muitas das suas reflexões, suas abordagens e memórias daqui e do exílio. Revelações da sua juventude na Paraíba, de onde saiu aos 17 anos.  Coisa que muitos dos seus biógrafos ou especuladores adorariam saber, mas não tiveram nem terão a oportunidade. Eu respeitava o artista e aprendi a respeitar o homem que ele é. Posso dizer que para além do Vandré artista, do ícone, conheci e convivi com o cidadão Geraldo. Um sujeito extremamente generoso, amoroso com a memória da família, dos pais. Um cara muito bem humorado, exímio contador de piadas. Um erudito sem a arrogância de muitos eruditos.

7 – Foi anunciado também a reedição do livro de poemas de Vandré - Cantos Intermediários de Benvirá. Em que pé está este projeto? Como será esta reedição?

Sim, é verdade. Quase não acreditei quando ele colocou o livro em minhas mãos. Eu estava chegando do Rio Grande do Sul, onde fui lançar meu livro em Jaguarão e Porto Alegre. Passei o réveillon digitando os poemas, extraindo-os daquela edição rara e de rara beleza. Não quis passar para ninguém essa tarefa. Com o material nas mãos, fomos tratar da Edição na Gráfica do Estado, A União. Tivemos uma conversa muito agradável com Bia Fernandes, a superintendente e com os jornalistas Walter Galvão (grande e querido poeta) e o talentoso Felipe Gesteira. Darlan Ferreira estava conosco, registrando tudo. Ele acompanha tudo e se preocupa com tudo atentamente. Depois do concerto marcaremos o lançamento do livro, provavelmente na Academia Paraibana de Letras.

8 – Vandré é, também, fruto dos festivais de música dos anos 60. Por coincidência, sua vinda à Paraíba recentemente foi quando da realização do Festival de Música do governo do Estado. Ele, inclusive, participou do júri. Como foi sua participação?

Foi surpreendente e muito significativa sua presença no Festival. Convidamos e ele aceitou ser presidente de honra do júri. Quase não acreditei. Ele entregou o prêmio para Tom Drummond, que ficou em segundo lugar. Olha a coincidência: em 68 ele também ficou em segundo, quando Chico Buarque e Tom Jobim venceram. Foi para o palco entregar prêmio e pode sentir de perto o carinho e o respeito do público da Paraíba. Foi emocionante. No show de encerramento, Chico Cesar e o público cantaram juntos e de forma entusiasmada “Pra não dizer que não falei das flores”. Foi lindo. Vandré é um símbolo dos festivais. Os festivais são uma das marcas da democracia. Até mesmo pelas naturais polêmicas que geram. Tanto que a música vencedora do nosso festival acabou provocando um alvoroço desproporcional pelo fato de questionar a visibilidade das oligarquias e dos ditadores. Foi tudo muito simbólico, grandioso, emocionante. Momento raro da cultura paraibana e brasileira.

9 – Na sua opinião, qual o principal legado de Vandré para a música e a arte brasileira?

São muitos. Mas, vamos destacar o que deveria mover a arte e os seus pilares: a apreensão de conhecimentos em diversas fontes para a construção da sua identidade artística. O respeito às tradições da cultura universal. O olhar para a realidade e para as cátedras. Vandré é um exímio leitor do mundo. Entretanto, muito mais que isso, considero que a sua inquietação é o grande legado. Este é o fator que estrutura a sua obra dos anos 60 até hoje. É a essência do seu fazer artístico. Para os movimentos sociais da cultura ele deixa um legado de coragem. Coragem de quem não se rendeu às lendas criadas a seu respeito, ao mito endeusado com hipocrisia. Ele nunca compactuou com a cultura de massas e com as intervenções do imperialismo cultural. Não explorou comercialmente a grandiosidade da sua obra e a representatividade da sua imagem. Preferiu resguardá-la, resguardar-se, aquietar-se, e deve ser respeitado principalmente por isso.  O legado que ele deixa é de muita arte, muita coerência e muita dignidade. Existe uma imensa obra ainda inédita porque nesse tempo todo ele não parou de compor nem de escrever poemas. 

sexta-feira, 2 de março de 2018

SOBRE ESTARMOS JUNTOS...


Adoro gente humorada. Adoro estar de bem com a vida. Mas, isso não me aparta das tristezas. Sejam as minhas tristezas particulares, sejam as tristezas do mundo longe ou perto. O que mais me entristece nesse momento da vida brasileira é ver a ignorância e o obscurantismo tomando conta da vida. Isso não tem nada a ver com nossas diferenças e divergências. Isso é produto ideológico. Coisa arquitetada. Parece que enquanto sonhávamos com um país mais justo, uma máquina desmioladora de gente trabalhava incansavelmente. Estamos piorando. Quanto mais eles dizem que economia está se recuperando, mais vemos desgraças pelas ruas. A fome voltando rápido e abraçando nossos disfarces. A miséria mental ganhando contornos de opinião pública.
Muitas coisas me entristecem. No entanto a disseminação de informações falsas arde a minha calma. O compartilhamento de absurdos nas redes sociais revela a gravidade da situação que nos cerca. Jovens e idosos. Analfabetos funcionais, mas também doutores. Gente com "curso superior" que não sabe identificar uma batata e quer conversar sobre melancia. Pessoas conhecidas e até mesmo pessoas queridas disseminando calhordices. Enquanto isso nosso país se consolida oligarca e entreguista, cada vez mais. Falaram tanto de corrupção para refinar o roubo. Todavia se percebe claramente e cada vez mais que o combate ao roubo nunca foi e nunca será a preocupação de uma elite burocrata que vive uma realidade virtual num país que se despedaça. Na rabeira dessa elite uma massa imbecilizada espalha a própria desgraça se achando libertadora e patriota.
Já não sei o tamanho da minha tristeza. Principalmente quando vejo que algumas pessoas optaram ruidosamente pelo ódio. Comeram a corda do fascismo que engole a nação brasileira e se alastra pelo mundo. Parece que algumas dessas pessoas querem ter opinião, mas não se importam minimamente com a qualidade da informação que recebem. Não estou vendo muita esperança, mas também acho que não devemos esperar. Vamos pensar duas vezes antes de agredir alguém com a convicção que na verdade não temos. Algumas pessoas (repito: algumas muito queridas), seguem tentando nos convencer sobre comunismo e sobre conceitos de honestidade... Dá vontade de gargalhar de tristeza. Estamos caminhando para a barbárie e lutar por liberdade e igualdade, nesses dias nublados, não é apenas assumir uma cor nas passeatas. Sobretudo é assumir as dúvidas já que somos vítimas de tantas certezas.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

CENSURA NUNCA MAIS


Vivemos tempos estranhos. Chico Buarque disse que quando vai caminhar escuta coisas tipo, “vai pra Cuba”, “veado”... Não é pouca a quantidade de pessoas que vê o mundo pelas janelas da histeria achando que isso é ideológico. Vivemos uma penúria ética sem precedentes. Soube que o cantor e compositor paraibano Chico Limeira foi abordado de forma ameaçadora por uma pessoa bem conhecida do cenário cultural da Paraíba. Aliás, uma pessoa com certa idade e que deve ser respeitado por isso. Mas, inaceitável que se ache no direito de abordar um artista no seu local de trabalho (Chico iria tocar) com ameaças, com batidas de mão na mesa, para que ele retire uma palavra da sua canção. Aliás, desde que recebeu o prêmio Chico Limeira vem sendo covardemente atacado de forma explícita ou implícita.
Este senhor, acompanhado de outros, disse que irá solicitar o “cancelamento da premiação”. Eterno bajulador dos poderosos citou os três poderes: Legislativo, Judiciário e Executivo para sustentar sua ameaça. Não sei a quem ele vai solicitar, mas já adianto que a Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba não irá acolher solicitações desse tipo. Não vamos aceitar a censura como argumento de ninguém. Chico venceu o festival com legitimidade. Todo o júri era de fora. Outras músicas de igual qualidade poderiam ter vencido, já disse mil vezes. O argumento para cancelar a premiação, poderia estar justificado em alguma irregularidade. No entanto o autor das ameaças, tenta se justificar pelo autoritarismo e pelo obscurantismo. Ainda que alguns tentem colocar panos quentes, o que está posto é de extrema gravidade e merece todo o nosso repúdio.
Na verdade, estou curioso para saber quem são as vinte entidades culturais citadas que apoiarão a insensatez prometida. Será que esses agentes culturais desejam mesmo inscrever seus nomes na história da censura do século XXI? A música de Chico Limeira faz uma crítica aos nomes dos logradouros públicos. A criação artística é uma propriedade intelectual do artista. Os acusadores se apegam ao termo “trapaceiro” para tentar justificar o injustificável. Às vezes penso que algumas personalidades ainda permanecem nos anos 30, semeando o ódio e a truculência daqueles tempos. São fantasmas do autoritarismo rondando a escassa teia democrática construída. Alguns se julgam acima do bem e do mal. Não aceitam novidades porque vivem no passado. O passado deve ser repassado como matéria de conhecimento. Inclusive a história dos oprimidos, sempre desprezada pela historiografia oficial.
Vamos resistir!

sábado, 17 de fevereiro de 2018

QUANDO ATÉ O RESUMO DA ÓPERA BUFA.


Pobre Rio de Janeiro. Muita proteção ao seu povo. Muita, mesmo. Amigos e amigas, protejam-se. A intervenção alardeada é do tipo: "Bandidos, por favor, saiam do morro que nós estamos chegando." Portanto, não há intervenção. Há um acordo. Um clichê midiático. Coisa pra inglês ver e não acreditar.
Tempos atrás aconteceu algo semelhante e Fernandinho Beira-mar veio morar na Paraíba. Até filho fez por aqui. Fez aliados na Polícia e adquiriu um patrimônio invejável. Não tenho dúvidas que as falanges que comandam os morros cariocas irão transferir seus lucrativos negócios para outros territórios e tudo continuará como antes no quartel de Abrantes.
A bandidagem mais perigosa não mora nos morros, mas nos condomínios de luxo e nas coberturas suntuosas. Representam o Brasil no Congresso Nacional. Os que pedem intervenção militar para combater o tráfico esquecem que na ditadura um tal de Sergio Fleury, delegado do DOPS, assassino frio, era associado ao tráfico e até iates possuía.
O Brasil vai viver mais um capítulo da tragicomédia instalada com a criação das Capitanias Hereditárias e que hoje se sustenta num pós-impeachment golpista. Somos o país do "me engana que eu gosto". Cada vez mais sufocante a cortina de fumaça que Michel, o vampiro, cria para alugar o Brasil. Mas, esse é só um detalhe. Nosso desastre é bem anterior.
As multidões silenciosas, de uma forma ou de outra, deverão responder nas urnas. Mas, a resposta continuará sendo o silêncio. Estamos sem voz. A República Federativa dos Patos Amarelos caminha para o abismo com os passos medidos em pesquisas de opinião.
Enquanto isso, escondem um helicóptero carregado de cocaína e seus donos, reduzem penas e fazem acordos indecentes com delatores da Lava-Jato. Em contrapartida jogam numa cela um bebê de três dias, cuja jovem mãe traficava para sobreviver. Oh pátria amada, idolatrada salvem-se salvem-se...
Nossa solidariedade ao povo pobre e trabalhador dos morros cariocas. Serão as vítimas prioritárias da canalhice federativa do Brasil. Firmeza, irmão, firmeza... mesmo em lágrimas.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Vi pessoas acompanhando ansiosas o resultado do desfile no RJ por conta da Tuiuti (que eu nem conhecia). Emoções legítimas. Respeito profundamente, mas, por quê deveríamos esperar resultado? A Escola deu o recado. Fez um enredo expondo a triste realidade brasileira. A Tuiuti sambou na cara dos golpistas, dos patos de franja, dos canalhas que sempre usufruíram do que dizem condenar, Ponto final. A Beija- Flor venceu, mas não conquistou um quarto da visibilidade que a Tuiuti conseguiu fazendo uma crítica bastante ácida e certeira ao desmantelo brasileiro. Foi positivo dizer ao mundo que a alegria e a anarquia do carnaval nem sempre acaba em samba. Às vezes, como foi o caso, apenas começa.
No mais, mesmo não vencendo o carnaval o desfile da Tuiuti lavou a alma de uma multidão silenciosa que deveria agora perceber que a vida não é só carnaval. O Ano Novo começou. Não precisamos de heróis ou de mitos, mas de democracia. Aliás, com a certeza da impunidade e dos privilégios dos que sempre tripudiaram da vontade, do sonho de sermos um país mais justo. Democracia se defende nas passarelas e corredores, como fez a Tuiuti, mas é nas ruas que o bicho pega. No local de trabalho, na fila do supermercado... A votação das escolas pouco importa diante das votações no Congresso, onde nosso país está se desintegrando todos os dias com resistências cada vez mais escassas. Que tal descermos imediatamente do carro alegórico para impedir o avanço da calhordice institucionalizada.
A imagem do vampiro jamais será esquecida. A Tuiuti foi muito além do juri. Bateu de vara de marmelo na bunda dos patos paneleiros.

NOVO É O ANO, MAS O TEMPO É ANTIGO

Não há o que dizer sobre o ano que chega. Tem fogos no reveillon. A maioria estará de branco. Eu nem vou ver os fogos e nem estarei de b...