terça-feira, 17 de março de 2009

Passando em ‘revista’ uma história de muitas leituras

Lau Siqueira



Especialmente no século XIX a imprensa teve um papel determinante na formação do leitor e no gosto pela Literatura em nosso país. Era nos jornais que os nossos grandes autores encontravam o espaço mais imediato para a divulgação de suas obras. Ainda que de forma fragmentada. Mas foi em 1812, na Bahia, que surgiu a primeira revista literária brasileira. Chamava-se As Variedades, ou Ensaios de Literatura. Desde então se estabeleceu um elo muito consistente entre a imprensa literária e a Literatura. Através dos tempos as revistas e jornais literários passaram a ocupar uma posição estratégica na evolução e na história da Literatura brasileira.


Bem antes disso, o primeiro jornal literário editado no planeta Terra nasceu em Paris, no ano de 1631. Nunca é demais lembrar. Chamava-se Le Journal des Savants. Um veículo com um caráter científico e literário, fundado em Paris por um cara chamado Dennis de Sallo. Infelizmente o jornal e teve a heróica duração de 13 edições, apenas. Foi encerrado pelo torniquete da censura no reinado de Luis XIII, ironicamente chamado de O Justo.


Revistas e jornais literários sempre foram fundamentais na divulgação da produção literária. Não é possível imaginar, por exemplo, a Semana de Arte Moderna e mesmo o modernismo brasileiro, sem a presença ostensiva do mensário Klaxon. Era um veículo dedicado integralmente à veiculação das idéias e da produção modernista. Marcou seu tempo e encerrou suas atividades quando, dizem, “deixou de divertir, entre outros, o poeta Mario de Andrade - um de seus idealizadores e editores”.

Anos mais tarde, com o advento da Poesia Concreta, outra revista toma conta do cenário no início dos anos 50. Nascia a Noigandres (1952), veículo criado e dirigido pelos poetas Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Decio Pignatari. A partir da fundação desta revista a história nos mostra o calibre vanguarda brasileira. Não se tratava apenas de três jovens poetas inconformados com o conservadorismo da Revista Brasileira de Poesia que representava, na verdade, as vozes da Geração 45.
A Noigandres passou a incorporar, desde então, as idéias que fariam explodir para o mundo a estética e, principalmente, a ética do concretismo. (Diga-se de passagem, o único movimento literário genuinamente brasileiro.) A repercussão do concretismo no mundo certamente que ainda não tem dimensionada a sua importância. Da mesma forma não pode ser medida a importância - para a consolidação do concretismo - deste veículo cujo nome tem origem provençal. Nem mesmo Ezra Pound tinha lá tanta certeza do seu real significado. Mais tarde o critico alemão Hugh Kenner traduziu por “antídoto contra o tédio”. O que nos parece bem adequado para o dimensionamento dos impactos da porrada concretista, diante de um certo acomodamento pos-modernista.


Inicialmente citando essa ‘meia dúzia de três ou quatro’ veículos, podemos afirmar que nenhuma outra revista ou jornal literário, posterior ao feito baiano de 1822 ou mesmo sem a reverberação histórica da Klaxon e da Noigandres, teve menor importância. As revistas e jornais literários passaram a cumprir um papel que ainda hoje é determinante para pesquisadores e leitores da produção contemporânea. Na cena brasileira atual, objeto central deste artigo, as revistas (ainda que de forma, muitas vezes, pulverizada) asseguram aos autores dos mais diversos rincões a circulação das suas produções.


Na última década e meia principalmente, com o aparecimento e a popularização da internet, houve uma revolução na divulgação da literatura. Não são poucas as revistas de grande qualidade que circulam no espaço virtual e que, na verdade, continuam mapeando a produção contemporânea e resgatando a tradição. Assim como as revistas e os jornais impressos, os sites, blogs e portais literários continuam abrindo espaços para os novos e reordenando a historiografia literária brasileira.


Com o avanço tecnológico representado, especialmente, pelo aparecimento e pela popularização da web, a Poesia passou a ter um espaço midiático que nunca teve anteriormente. Isso não representou, absolutamente, um recuo no que se refere às edições impressas. Muito pelo contrario. Até mesmo a - antes careta - revista da Biblioteca Nacional, Poesia Sempre, passou a ter uma programação visual, uma editoração e uma linha editorial infinitamente mais atraente.


Revistas como A Cigarra, editada bravamente em Santo Andre (SP), por Jurema Barreto e Zho Bertholini avançavam na descoberta de novos olhares poéticos e na preservação dos espaços destinados à “poesia como objeto do olhar”, como disse o poeta e artista visual baiano, Almandrade. Hoje a Cigarra divulga suas edições e se faz distribuir também pela internet. Na mesma linha editorial existem outras espalhadas pelo Brasil que dialogam entre si de forma admirável. Na verdade, ampliam consideravelmente seus raios de abrangência. Um exemplo é a revista Dimensão, de Uberaba(MG) que durante a sua existência teve circulação em mais de 30 países, proporcionando um intercâmbio fundamental, muito especialmente entre os praticantes da Poesia Visual.


A Inimigo Rumor, da Editora 7Letras, pode ser encontrada pelas principais livrarias brasileiras e costuma apresentar pequenas antologias, abrindo também espaços generosos para a produção brasileira emergente, seja de ensaístas, seja de poetas. Da mesma editora podemos encontrar a revista Ficções que, conforme sugere sua nomenclatura, costuma abrir espaços para a produção dos ficcionistas brasileiros e de outros países de Língua Portuguesa.

Aqui e ali somos surpreendidos por edições de luxo, como a paranaense ETCtara, editada inicialmente pela poeta pernambucana radicada em Curitiba, Jussara Salazar e pelo poeta e tradutor paulista Claudio Daniel. Ou mesmo por revistas como a também paranaense Coyote que surpreendem pela conjugação da economicidade editorial com uma programação visual impactante e um conteúdo que mistura irreverência e bom humor com um necessário rigor estético.


Podemos afirmar, atualmente, que tanto faz ser virtual ou impressa. O que importa é a qualidade e/ou diversidade dos conteúdos. Neste caso, não temos mais como desconhecer a importância do Jornal de Poesia (www.secrel.com.br/jpoesia) editado pelo gladiador solitário, Soares Feitosa. Ou mesmo o Portal Cronopios, do poeta Edson Cruz, (www.cronopios.com.br) que abriga em suas paginas alguns dos autores mais importantes da atualidade. Na mesma linha seguem as virtuais Errática (www.erratica.com.br) , Zunai (www.zunai.com.br) , Germina Literatura (www.germinaliteratura.com.br) e outras não menos importantes que passaram a compor os canais de pesquisa para profissionais da área e para os apaixonados pela Literatura.


Claro que num texto (e contexto) como esse, a certeza de naufragar na memória é inevitável. Por exemplo, quem não se lembra de Nicolau, editado pela imprensa oficial do Paraná? E a maravilhosa Porto & Virgula - infelizmente extinta – publicada pela Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre? E outras tantas como O Galo, de Natal, Brouhaha, também de Natal, O Capital, de Aracaju, os imprescindíveis Suplemento Literário de Minas Gerais e Suplemento Literário de Pernambuco. Também as virtuais Garganta da Serpente e Cisco Tronituante. Enfim, esses veículos não valem pelo número de acessos ou de exemplares publicados, mas sim por terem tornado a Literatura Brasileira Contemporânea um fato nacional (ou mesmo internacional) e irreversível. Apesar dos tropeços éticos na publicação de alguns textos que nada tem a ver com critica literária, não poderia deixar de registrar a existência tantas vezes lamentável do Jornal Rascunho, do Paraná.

A produção encontrável nas bancas, passa pela extinta Discutindo Literatura e pelos caminhos da Escala Editorial. A Bravo tem um defeito grave: obedece rigorosamente o conservadorismo editorial da Abril. Aqui no Nordeste, entretanto, temos a mais importante revista literária do país no âmbito da circulação comercial. Trata-se da Continente Multicultural, que abre espaços também para as outras linguagens artísticas com as quais dialoga a Literatura.


A tradição literária da terra de Jose Lins do Rego e Augusto dos Anjos, não deixa por menos. Além de ostentar o mais antigo e um dos mais dinâmicos veículos ainda em circulação no Brasil, o nosso Correio das Artes, a cena literária local já contou com uma história que trouxe até nossos dias uma revista importante como a campinense Garatuja que, antes de sua extinção, mostrou-nos caminhos da Literatura Paraibana que ainda hoje repercutem. Não foi diferente com o projeto Ler, da Editora Idéia. Muito menos com a nuvem passageira que foi o excelente jornal Olho D’água.

Nem de longe tentei estabelecer hierarquias nas minhas citações. Cometi omissões voluntárias e esquecimentos lamentáveis. Sei disso. Mas, o que eu quero dizer de forma definitiva é que seja por onde estejam sendo publicadas, as revistas literárias e os jornais literários, além de apontar caminhos e estabelecer critérios para uma boa leitura, aparecem neste início de milênio como uma explosão de boas novas, capazes de acender as esperanças de milhares de poetas, romancistas, ficcionistas, cronistas... Enfim, gente que sabe o quanto é importante estabelecer uma relação bastante determinada com a linguagem e com o publico leitor, num mesmo espaço capaz de absorver nossos defeitos e nossas mais terríveis qualidades.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Entre a suavidade e o abismo - a poesia de Adair Carvalhais Júnior

Lau Siqueira

Em “A Arte Poética”, Horácio (68-8 aC) deixou um recado bastante contundente: “a pintores e poetas sempre assistiu a justa liberdade de ousar seja o que for”. Sempre colhi infinitas leituras desta frase. Penso que a ousadia de construir versos, sejam eles tatuados na garganta ou rabiscados desde a eternidade das rochas até a falsa efemeridade dos suportes virtuais, é o risco dos poetas. Desde os tempos extraviados pela memória do mundo, privilegiando o ritmo ou a imagem, subtraindo vozes do silêncio ou arrancando o hálito do futuro, os poetas reinventam-se numa solidão de olhos invisíveis.

O tempo poético nunca correu em linha reta para encontrar pelo caminho as pancadas amorosas de Safo; as imagens exatas transcritas pelos poetas da Dinastia Tang; os poemas suspensos dos beduínos, espalhados pelo deserto; os inventos dos poetas provençais e o desaguadouro de uma modernidade que já não cabe na cronologia do esquecimento. Vivemos um tempo multifacetado onde a poesia revela sua inutilidade imprescindível numa permanente reverberação de novos caminhos. Agora, já sem as angústias de engajamentos e acorrentamentos em vanguardas ou nos saudosismos desesperados.

Desde seu livro anterior (Desencontrados Ventos) que o poeta mineiro Adair Carvalhais Júnior vem, notadamente, trafegando por uma relação com a linguagem poética que perpassa as mais densas leituras. Leituras que não eliminam da mesma estante as diferenças estéticas recolhidas nos embates profusos intensificados no limiar do século XX, um tempo de fartas colheitas para a contemporaneidade.

Em “Todo poema é um risco lançado sobre o nada” Adair nos parece muito mais convicto do que nunca de sua relação com as linguagens do mundo e com a transcrição dos seus hábitos de comungar com uma singularidade absolutamente despojada na invenção dos seus textos. Na construção de uma dicção absoluta, aliás, sobre sua própria condição de arriscar-se num mergulho pelo infinito das suas próprias impossibilidades.

Explorando temáticas que vão dos seus mais íntimos conflitos de estar num mundo em constante ebulição, com a sensualidade das relações que fluem no conflito entre a palavra e o sentimento racionalizado, erigido a partir de intensas reflexões sobre um cotidiano onde a linguagem pulsa cálida em poemas assim:

ecos


umidade pálida nas
paredes vozes oblíquas um
pouco de
poeira no criado
mudo teu
sorriso em meus
olhos

os dias seguindo as
noites

Algumas vezes trocando o escrito pela sutileza de uma expressão sugerida. Algumas vezes provocando o leitor na sensação múltipla do corte de versos que multiplicam seus sentidos no inesperado, no mergulho ao mesmo tempo convicto e distraído em direção a um estilo que cada vez mais se consolida num exercício cotidiano com a palavra. Um exercício que venho testemunhando através do tempo, ao receber suas impulsões de natureza muitas vezes visceral, mas absolutamente racionalizadas no espelho d’água da criação literária.

Parece-me que Adair Carvalhais Júnior parte agora em definitivo para a configuração de uma maturidade na lida com a linguagem que margeia um certo espírito aventureiro, essencial aos procedimentos criativos, correndo em fluxo contínuo para as sensações que se completam no que se refere a cada poema, com o olhar atento do leitor ou da leitora deste belo “Todo poema é um risco lançado sobre o nada”.

A poesia aparece em Adair como um estranho sumidouro de coisas não ditas. Como uma especiaria ao mesmo tempo inebriante e suprimida dos sentidos. Uma explosão de ventanias levantando as areias de um tempo presente vivido entre as lições do passado e as intenções do futuro. O poeta confessa, inclusive, não temer o esquartejamento crítico de uma leitura desatenta. Ele mergulha consciente no oco da invenção e nos relata isso com os próprios trajetos da sua imersão:

confissão


todo poema é um risco
lançado sobre o
nada todo
poema ceifa completamente o
corpo

em cada angústia
vespertina arrisco todos
meus poemas naufrago na
carne
devastada

Então me ocorre o silêncio diante de uma leitura que, apesar de concluída, jamais será objeto de um único e esparso entendimento. Outras colheitas, certamente, haverão de advir do inesgotável e do imprescindível que se guarda na inteligência humana ao acompanhar até mesmo a razão das nuvens que se transformam sob o olhar desolado dos que sabem que o mundo não gira exatamente a partir do que pensamos sobre ele. Da mesma forma que as nuvens, a poesia não precisa de nós.

domingo, 1 de março de 2009

A universalidade amazônica no canto de Érica Maria

Sempre me ocorre pensar no que representa possuir a alma vestida com a epiderme da arte. Ou seja: vivenciar a integralidade da condição artística. Uma espécie de nudez que protege nosso outro mesmo lado. Transcender assim num mundo de distâncias coisificadas e diferenças não suficientemente revolvidas é uma provocação necessária. E é exatamente este o caminho que vem trilhando Érica Maria, com seu canto e com a expressão uma de nudez existencial que transcende os limites da voz.
Seu canto amazônico (ela nasceu em Boa Vista-RR) está exatamente situado nas margens de um tempo de diluições consagradas, mas também de uma ebulição muito singular na Musica Brasileira Contemporânea. Uma efervescência que, no mais das vezes, não alcança os olhos arregalados da mídia conservadora para uma menção consagrada em termos de popularidade. No entanto, o represamento formal e decadente da indústria fonográfica começa a sofrer revezes com o aparecimento de novas formas de divulgação que produzem uma relação direta do artista com o público. Uma reação, por exemplo, que trouxe da informalidade de um apartamento paulistano para as páginas da revista Bravo, aos 16 anos, a cantora Malu Moraes.
Independentemente do que possa consagrar em termos de qualidade artística para o fenômeno internauta que transformou a vida adolescente de Malu Moraes, me refiro ao poderio midiático da internet. Os mesmos meios estão disponíveis para que possamos conhecer também o trabalho de Érica Maria. Um timbre que nos chega universalizado pelos sabores da pesquisa musical e do estudo como método de amadurecimento artístico. Uma voz que tem sido ouvida e admirada no vizinho estado de Pernambuco (e em outras paragens), começa a buscar a legitimidade dos seus espaços na terra do mestre Sivuca.
Uma vez Érica me falou que não lia música, que era intuitiva. Essa afirmação me remete ao que diz Fayga Ostrower (renomada artista plástica brasileira, nascida na Polônia) no livro Criatividade e Processos de Criação: “A intuição vem a ser dos mais importantes modos cognitivos do homem. Ao contrário do instinto, permite-lhe lidar com situações novas e inesperadas. Permite que, instantaneamente, visualize e internalize a ocorrência de fenômenos, julgue e compreenda algo a seu respeito. Permite-lhe agir espontaneamente.”
Este conceito pode ser plenamente visualizado no site de Érica Maria, www.ericamaria.com.br onde além de algumas músicas, também podemos conferir a expressividade visual do canto desta cantora brasileira, em vídeos lá expostos. Podemos observar, por exemplo, que a sensualidade se revela numa expressão corporal densa, mas sem qualquer indício apelativo. Com muita técnica, mas, sobretudo com a naturalidade determinando um equilibrado domínio dos espaços do palco. Na verdade, é o canto extrapolando os limites da voz, saltando pelos poros, transbordando de uma alma desacostumada ao silêncio que não seja exatamente o silêncio das pausas melódicas e dos gestos necessários aos veios interpretativos na construção de um espetáculo.
A expressividade musical em seu estado absoluto. Eis o que se revela nesta jovem cantora que aos poucos vem conquistando seus espaços no cenário nordestino. Atropelando delicadamente o acomodamento e até mesmo certa estagnação muito comum em artistas amadurecidos pelo desconforto do esquecimento. Tudo isso ocorre no epicentro de uma nova cena musical brasileira que nos traz expressões como Dona Zica, Mariana Aydar, Tulipa Ruiz e o talentoso e jovem cantor e compositor paraibano, Chico Limeira, entre tantos e tantas artistas que crescem antenados com o seu tempo, com a historiagrafia e com os mistérios da arte.
Enfim, aos que se encantam com a descoberta de novos caminhos para a musica brasileira contemporânea, ouso afirmar que estamos diante de uma nova possibilidade de encantamento. Aos que acreditam na permanente renovação da resistência artistica brasileira, nada melhor que conferir a arte reveladora de Érica Maria.


Lau Siqueira, poeta
http://www.lau-siqueira.blogspot.com/
http://www.poesia-sim-poesia.blogspot.com/

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Aguaúna - a ancestralidade transgressora

Lau Siqueira
Música do Mundo é um evento que vem sendo realizado em João Pessoa(PB), nos últimos quatro anos. Sempre na última semana de dezembro, na divisa paradisíaca das praias de Tambaú e Cabo Branco. O festival apresenta, basicamente, a diversidade da música instrumental produzida na região. Contando, entretanto, com convidados especialíssimos como, Manassés, Rivotrill, Gilson Peranzeta, Tarancón e outros. Um verdadeiro deleite para a população local e para milhares de turistas, de gosto musical apurado, que invadem a cidade nesta época do ano. Na verdade, uma provocação aos padrões culturais da cidade, inventados por uma ação midiática impulsionada por um mercado de predominância grotesca.

Este ano, exatamente no dia 26, lembrei o poeta Maiakovski em O Poeta Operário: “nós polimos as almas com a lixa do verso.” Foi exatamente no dia 26 que tocou o grupo Aguaúna, composto por cabeças de Sampaulistas e cabeças pessoenses, da Nação Jaguaribe Carne. Lembrei Maiakovski porque senti que a função do Agaúna é polir as almas com a lixa do som. O grupo trabalha com a sonoridade recolhida dos becos, dos ferrolhos, das cítaras, das vozes primitivas escondidas na ancestralidade das ruas. E tudo acontece num cenário estabelecido entre os desertos do mundo, a urbanidade e a sangrada existência humana. Fatores recolhidos dum cotidiano de perversidades percebidas e ternuras devolutas.

A experimentação permanente do grupo vem explorando todos os elementos da atonalidade. Porém, vai muito mais longe, reinventando uma modernidade que, parece, desistiu do futuro. A música de invenção produzida pelo Aguaúna reconduz a transgressão soprada ao mundo em todos os campos das artes. Tudo isso resgatado de uma memória de profanação da história oficial da música e da história real dos povos do mundo. Fiquei observando o público, por um momento. Alguns preferiram deixar a praia. Normal. Afinal a experiência Aguaúna é densa demais e ao mesmo tempo, áspera demais. No entanto, um bom público permaneceu e testemunhou uma provocação poucas vezes vista nesses tempos cibernéticos. Marimbau, Cítara, violão, zabumba, flauta, voz... Tudo compondo uma circunstância sonora aproximada de um dadaísmo reinventado. Uma absoluta vocação transgressora num tempo de modernidade diluída.

O Aguaúna aborda uma estética que passa por releituras de realidades passadas e futuras, jogando-se no abismo da experimentação permanente, da experimentação como forma de perenidade de uma obra que vem sendo construída a partir dos seus elos mais contundentes.

O poeta-multimúsico Pedro Osmar rege esta ciranda estética. Pedro tem chão para fazer o que faz. Ele vem de uma safra que jogou no panelão cultural do Brasil, nomes como Zé Ramalho, Lula Cortes, Elba Ramalho, Lenine, Chico Cesar e muitos outros. No entanto Pedro sempre buscou a contramão, criando o grupo de transgressão musical e discussões filosóficas, Jaguaribe Carne. Isso quando ainda estava estabelecido no tradicional bairro de Jaguaribe, em João Pessoa, na Paraíba velha de guerra.

Assim, foi bem fácil perceber logo que o que parecia ser o clube de frevo Piratas de Jaguaribe ensaiando algo de John Cage era, na verdade, uma junção de experiências musicais, poéticas e plásticas para uma transfusão estética permanente que revela uma necessária permanente inquietação. Aliás, uma postura imprescindível para uma reinvenção desse futuro horroroso que aos olhos da Rede Globo de Televisão, já começou. O Aguaúna se posta e se comporta como os que estabelecem uma disciplina intransigentemente definida na busca de uma nova ordem musical. Uma ordem que passa por Frank Zappa e Hermeto Paschoal, mas também pelo frevo, pelo caboclinhos, pela música indiana, música árabe e pela afro-nordestinidade que pulsa na cultura brasileira.

Ao apresentar nos espaços por onde circula sua proposta radicalmente transgressora, o grupo escancara-se aos palcos do mundo na intensa aventura de desobstruir sua eterna capacidade de reinvenção. Se em João Pessoa estiveram no palco compondo o grupo, Paulo Ró, Soraya Bandeira e Fernando Pintassilgo. Em São Paulo, Curitiba, Porto Alegre ou Macapá, serão outros rostos, outras mãos, outros instrumentos, outras influências. Sejam elas indígenas ou nórdicas, xamãs ou umbandistas. O grupo apresenta-se numa proposta de permanente mutação. É como se repetissem Hugo Ball, fundador do dadaísmo, dizendo: “Jamais darei boas vindas ao caos.” Assim, repleto de conhecimentos formais, o grupo Aguaúna dá um salto em direção ao desconhecido cada vez que sobe ao palco. Estamos, pois, diante de um pós-tropicalismo revelado em uma cena que se coloca em permanente contraponto ao deleite alienado. Tudo num caldeirão que conjuga tradição e modernidade numa atitude de ancestralidade transgressora.

Em relação ao Música do Mundo, lembro de alguém comentando sobre uma certa pessoa ter dito: “Vocês tocam tanto essas merdas que a gente vai acabar gostando”.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O porquê das nossas escolhas.

por Lau Siqueira

Desde que assumimos a gestão cultural da cidade de João Pessoa temos escutado vozes (cada vez mais diluídas no silêncio) reclamando atrações musicais tipo: Calcinha Preta, Aviões do Forró, Ivete Sangalo e coisas do gênero. Algumas dessas vozes, aliás, injustificadamente nas sombras. Com vergonha de mostrar a cara para um debate público. Ou seja: gente posando de cult, mas com o rabinho conceitual preso ao créu. Somente o fato de termos esse debate estabelecido a partir de uma ação de política pública já vale o queijo do reino e o vinho das festas de final de ano.

Chegamos a escutar pérolas tipo: “Vocês deviam trazer Calcinha Preta, porque dá voto!” Entrementes, se tivéssemos implantado uma política meramente eleitoreira estaríamos esquecendo o compromisso que assumimos com a cidade em janeiro de 2005. Afinal, o que realizamos fez parte de um programa de campanha que, no segundo semestre de 2004, foi amplamente discutido com artistas e produtores culturais da cidade. Fazer diferente seria uma traição lamentável. Seria uma política de pão e circo, sem pão e sem circo. Até porque pão tem a simbologia cristã do alimento repartido e circo é uma cultura milenar que merece o nosso mais profundo respeito. Portanto, não é apenas uma “questão de gosto” que está em pauta. O debate de fundo e que deve vir à tona é econômico e político. Toronto, no Canadá, considerada a capital mundial da cultura, movimenta um PIB de nove bilhões de dólares americanos, para uma população 2,5 milhões de habitantes. Lá a cultura e a criatividade determinam o eixo nos planos de desenvolvimento da cidade. Por que a produção cultural de João Pessoa deveria aceitar um papel de coadjuvante na área do entretenimento e das surradas políticas de turismo?

A propósito, por falar em Toronto (e seu exemplo) aqui e ali escuto vozes saudosas da Micaroa. Um evento que bate de frente com a lógica canadense. Além do seu caráter diluidor dos valores culturais este evento se configurava num crime contra a economia da cidade. As bandas eram de fora - portanto a grana dos cachês era investida fora daqui. Os abadás vinham da Bahia. Não empregavam uma única costureira de Mandacaru ou Porto do Capim. E, pasmem: até mesmo as cervejas e outras bebidas vendidas nos blocos, vinham da Bahia. Esse conjunto de afasias provocava uma evasão enorme de recursos, logicamente que com o desfrute pessoal de meia dúzia de dois ou três paraibanos. Falo em afasia tal como conceitua Antônio Houais: “abstenção consciente de qualquer juízo originada pelo reconhecimento da ignorância a respeito de tudo que transcenda as possibilidades cognitivas do ser humano”. Além da gravidade de termos um evento eminentemente privado e socialmente excludente, ocupando as vias públicas e os serviços públicos pagos com recursos do município. Portanto, ao invés de divisas, gerando uma perversa evasão.

Certa vez ouvi um dono de posto de gasolina reclamar que, depois da Micaroa, a economia da cidade sofria um enorme refluxo. (Na verdade, um Ciçunami.) Portanto, precisamos dizer com todas as letras que por detrás de uma discussão sobre “bom gosto musical” existe uma gama de interesses nada inocentes. Existe o interesse político e econômico, de forma determinante. Afinal, as políticas públicas de cultura irão se tornar incômodas exatamente por instalarem-se naturalmente no centro da questão propondo uma mudança de comportamento da sociedade. Inclusive no que diz respeito à inclusão da arte como fator determinante na afirmação política desta sociedade, tendo as ações de cultura como fator de propulsão econômica. Uma mudança que passa, logicamente, pela troca dos hábitos no consumo cultural, colocando em risco a lucratividade exorbitante de meia dúzia de empresários imensamente capitalizados, mas sem escrúpulos.

Claro que esse debate não interessa aos poderosos de plantão. A maioria mandando sem mandato. Não é segredo que a mídia está na mão de grupos políticos e econômicos que continuam renovando seus projetos de dominação com a conivência surda das suas bases legislativas. Uma dominação formulada pelo entorpecimento mental das ditas “massas populares”. Ironicamente, todavia, quem mais consome o lixo cultural oferecido às “massas” é exatamente a classe média mais abonada. Basta verificar a marca e o ano de fabricação dos carros com porta-malas sonoros para ver que não se trata de uma cultura “do povo” e muito menos para o povo. Pelo menos não para o povo pobre que vive nas periferias, com seus comportamentos padronizados pelo único canal de acesso a cultura que possuem: as TVs comerciais. Aos poderes públicos cabe exatamente dar a esse povo o direito de escolha, despertando nele o espírito crítico e lúdico somente encontrado no contato com as melhores produções artísticas.

Este é um ponto que não pode deixar de ser considerado, porque a cultura gera 5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. No entanto, a indústria cultural produz uma terrível concentração de renda, gerando as mais profundas desigualdades no setor com amplos reflexos na sociedade. Desigualdades que passam, logicamente, pelo comportamento das mídias. Por exemplo: dizem que brasileiro não lê, mas somente o mercado livreiro nacional faturou 200 bilhões de reais no ano passado, segundo dados da Câmara Brasileira do Livro. Será que os barões do livro estão preocupados com as políticas de leitura? Da mesma forma que o mercado do livro, o mercado fonográfico está na mão de dois ou três tubarões. Portanto, reafirmo que o debate gerado em torno do assunto não se resume apenas ao debate estético. O que precisa ficar evidente é a atitude política em defesa de uma economia historicamente abalada pelas degenerações de um sistema econômico cada vez mais concentrador e castrador das regiões periféricas.

Na lógica absurda do mercado da música, uma banda de axé da cidade (do Castelo Branco) quis justificar a necessidade da sua contratação por um cachê dez vezes acima do cachê médio que pagamos aos artistas locais sob o argumento que “o axé era outro mercado”. O que eu expliquei, pacientemente, é que não trabalhamos na lógica do mercado, mas na lógica das políticas públicas. E qual é esta lógica? É a lógica do respeito à diversidade, da identidade cultural, da preservação do direito à criação e o respeito à diversidade humana. A Por exemplo: a Prefeitura tem uma política pública em defesa dos direitos das mulheres. Então, seria uma contradição a FUNJOPE contratar bandas que vilipendiam a imagem da mulher. Outro exemplo: temos uma política de defesa da diversidade humana que nos arrasta para o confronto com os menores sinais de homofobia. Isso é o básico! Na prática, o que temos vivido é um aprendizado coletivo no imenso desafio de compatibilizar tradição e contemporaneidade nas políticas de cultura da cidade. No entanto, nesse jogo nos cabe deixar claro a separação do joio e o destino do trigo.

O que ocorre é que a indústria do entretenimento ditada pelas mídias faz exatamente o contrário. São pregações oligopolistas guiadas unicamente pela lógica do lucro concentrado, com um forte marketing para arrastar seguidores de baixo teor reflexivo, mas com capacidade de formar opinião em qualquer escala de mídia, incluindo as redes sociais da internet. Podemos afirmar ainda que consideramos inescrupulosos os produtores desses gêneros musicais infiltrados na esfera pública e que fazem “a ponte” para esse mercado de horrores. O que expliquei ainda aos representantes do axé-paraíba é que ao pagar um cachê dez vezes maior que a média local seria, sobretudo, um estupro administrativo sem justificativa no Tribunal de Contas do Estado que nos solicita clareza na justificativa de preço dos cachês. Portanto, são tantas coisinhas miúdas envolvidas em nossas escolhas. São tantas responsabilidades que o que precisamos fazer é exatamente preservar os nossos princípios. Precisamos estabelecer a ruptura dos monopólios midiáticos que estabelecem praticamente a totalidade do consumo na produção cultural. A gestão dos recursos públicos de cultura precisa ter claro que além do verão de Tambaú, existe o inverno de Engenho Velho pra ser administrado. A cidade é uma só.

Mas, em se tratando de cultura tudo é incipiente. Não temos uma grande tradição em política cultural no Brasil. O primeiro gestor de cultura do país foi o poeta Mário de Andrade que assumiu o recém criado Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, em 1937. Ele ficou apenas um ano no cargo e foi demitido, mas as políticas identitárias que defendeu ainda estão em pauta. A secretaria de cultura mais antiga do país tem apenas 40 anos (do Ceará). A própria FUNJOPE tem uns 15 aninhos, somente. Embora algumas pessoas da cidade pensem que foi criação do governo Ricardo Coutinho. (A cidade não sabia que existia, por exemplo, um Fundo Municipal de Cultura.) Hoje temos projetos aprovados no Valentina, na Torre, em Gramame e outros setores da cidade carentes de arte e cultura e que agora passam a assumir um papel no diálogo sem fronteiras que deve nortear as políticas culturais, como protagonistas e não como figurantes ocasionais.

Mais do que fazer circular os bens culturais produzidos na cidade, é importante ampliarmos permanentemente esse debate sobre a estética do mercado. Por que fazemos as coisas de uma maneira e não de outra? Por que não nos preocupamos em elaborar programações que “agradem todo mundo”? Devemos fazer o que o povo quer ou o que o povo precisa? Este ano, numa mesa do projeto “Valentina com arte III”, escutei da parte de um músico, coisas do tipo: “eu faço forró de plástico, mas eu faço forró de plástico autoral”. É como se houvesse na sua frase e no brilho dos seus olhos, além de uma justificativa, um pedido de perdão. Estás perdoado, amigo, mas aprofunde mais suas pesquisas musicais que você vai encontrar bem perto de você, pérolas necessárias à lapidação das nossas almas. Senti naquele momento, o valor de uma simples reflexão sobre o fazer cultural da cidade.

Nesses quatro anos estabelecemos um debate sincero com os bairros, através não apenas das palavras, mas de ações concretas que se conjugaram com ações de políticas públicas intersetoriais focadas no interesse público. Esta é uma condição que trazemos à tona para a formulação de um discurso que busca, incessantemente, a democratização dos espaços para as expressões culturais e artísticas da cidade e a devida acessibilidade a esta produção pela própria cidade.

sábado, 27 de setembro de 2008

A literatura como método


Breve memória das oficinas de leitura nos bairros da velha Parahyba


Na verdade, nem sabíamos exatamente como seria. Apenas tínhamos percepção da necessidade de um projeto de incentivo à leitura na cidade de João Pessoa. Jamais esqueço o sorriso budista e o brilho nos olhos do multi-artista e arte-educador, Zé Guilherme, um guerreiro da espécie. Foi ele o precursor da boa nova: Oficinas de leitura nos bairros! Tudo muito pé-no-chão. Sonhos apontando para o futuro e uma disposição enorme para determinar uma nova realidade. Um articulador do próprio bairro para juntar a meninada. Um oficineiro ou oficineira com capacidade profissional e sensibilidade para tornar a leitura um ato de sedução. Pronto. Estávamos no ponto de partida. O fator humano era o nosso trunfo. Pessoas apaixonadas por esse processo contínuo de “aprender a aprender” semeado no mundo por educadores como Paulo Freire. No amparo estrutural do projeto, a Fundação Cultural de João Pessoa - FUNJOPE. Profissionalismo é a palavra chave desta ação. Todas as oficineiras e oficineiros estão “mestrando a língua” no curso de Letras da UFPB, ou mesmo já possuem título de mestre. Mas, o fundamental é que conseguimos reunir um grupo de pessoas qualificadas profissional, ética e moralmente. Pessoas apaixonadas pela leitura.
Após dezoito meses de uma vivência das mais ricas do ponto de vista pedagógico, político, poético e mesmo existencial, aprendemos a acolher rodas de leitura onde se misturam muito naturalmente um Machado de Assis, um José Paulo Paes e um Paulo Sérgio. Paulo Sérgio? Quem é? Perguntei ao menino-leitor numa das rodas de leitura. “Ele mora lá no bairro”, disse. Não tenho memória dos versos de Paulo Sérgio e nem me caberia comentá-los aqui. Soube depois que é um guarda municipal e atua num grupo de teatro amador que encena a Paixão de Cristo pelas comunidades há três décadas, o grupo Arte-Povo, do tradicional bairro popular de Mandacaru.
A descoberta saudável da poesia de Paulo Sérgio nos levou a duas conclusões lógicas e imediatas. Numa delas constatamos o prazer de termos encontrado o fio condutor do projeto. Ou seja: o jovem trouxe de casa sua própria leitura. De outro lado coube-nos a angústia por identificar com tamanha brutalidade a dificuldade de acesso ao livro. Paulo Sérgio, jamais publicou seus poemas. As políticas da leitura e do livro na capital da Paraíba vivem da guerrilha imprescindível de uns poucos. Atos que convergem para espaços como a biblioteca Comunitária Cactus, conduzida por duas mulheres fantásticas, Nina e Edeusa, absolutamente envolvidas numa ação militante e cidadã pelo direito à leitura num bairro de trabalhadores. Uma ação parceira das nossas oficinas de leitura que nos faz lembrar Antônio Cândido: “a literatura é um dos direitos humanos.”
Tudo é pensado integralmente, como deve ser um processo educativo que prima pela qualidade. O aluno, o oficineiro, a instituição, a sociedade e suas estratificações. Na verdade, estamos realizando um projeto de inclusão que trabalha o acolhimento através do livro e da leitura. Desde as primeiras idéias trocadas com Zé Guilherme até hoje, tudo me remete as palavras de Roland Barthes: “a literatura contém muitos saberes”. Uma coisa fácil de constatar. A leitura de “O Século das Luzes”, do cubano Alejo Carpentier, muito mais que o prazer de um bom romance, nos ensina a ler uma conjuntura importante na história do mundo. Também, não há como estudar mais profundamente a história do Rio Grande do Sul sem uma leitura atenta e prazerosa de Érico Veríssimo. Que estudioso da história brasileira pode abrir mão de Guimarães Rosa? Como entender o massacre de Canudos sem Euclides da Cunha?
Mas tudo é assim, tão maravilhoso? Não! Como política de educação fora dos muros, o estímulo à leitura deveria ter alguma visibilidade. No entanto, afora o entusiasmo de quem está diretamente envolvido, a apatia e a indiferença é grande. De quem é a culpa? Bem, essa conclusão me parece muito próxima de um comentário que ouvi de uma amiga em uma reunião, dia desses: “A culpa é minha. Eu a coloco em quem quiser”.
Uma coisa é concreta. As escolas desestimulam a leitura, mantendo muitas vezes suas bibliotecas fechadas para “proteger os livros dos alunos”. Lembro-me de quando fui solicitar autógrafo do saudoso João Alexandre Barbosa, em “A Metáfora Crítica”. O livro estava bastante surrado e sublinhado. Ele disse: “isso é um ótimo sinal. O livro está sendo aproveitado”. Claro que a propriedade coletiva de um livro requer cuidados. Só que um livro não pode ser tratado como algo inacessível, mas como algo imprescindível. Ler não pode ser privilégio de intelectuais. É um direito do povo.
O ensino formal da literatura (de modo geral) não oferece escolhas ao aluno. Impõe um pacote do que supõe importante. A literatura contemporânea em sala-de-aula, por exemplo, é uma exceção. A solução está, pois, fora dos muros escolares. Mas, quem duvida que um jovem leitor tenha maiores possibilidades de sedução com Leminski do que com Cláudio Manuel da Costa? A linguagem contemporânea, com certeza, levaria o aluno a uma identificação mais imediata com o texto. E foi isso que fomos buscar.
As nossas oficinas foram denominadas “Uma Janela Para o Mundo”. Percebemos logo a pertinência do título quando ouvimos de uma adolescente do bairro São José, que “aquilo estava abrindo uma coisa no seu peito”. Era, pois, a janela! Percebemos que havia um crescente interesse por aquela experiência quando, num sopro, já envolvíamos mais de 90 jovens. Criamos em João Pessoa uma ação cultural ainda embrionária, mas estruturante e necessária para uma mudança de hábito. Afinal, não estamos formando leitores para Lair Ribeiro e Paulo Coelho, mas apreciadores da boa literatura.
Dos clássicos aos contemporâneos, os livros funcionam como uma espécie fetiche para um processo educativo e cidadão. O projeto “Uma Janela para o Mundo” demonstra que é possível sim uma política de leitura em nossas cidades, cuja meta principal seja mesmo a fruição proporcionada pela boa literatura. Aqui em João Pessoa, por exemplo, caso um processo desses fosse iniciado nas escolas públicas, haveria a possibilidade de atingir imediatamente mais de 10 mil jovens e chegar à, pelo menos, 100 mil leitores em menos de 4 anos. Não há mistério. Trata-se de uma ação que depende unicamente de uma decisão política e disposição militante dos que estarão a implementá-la.
As formas de sedução são as mais diversas. A experiência de Mandacaru envolve também a música. A experiência de Muçumagro (outro bairro periférico da velha Parahyba) trabalha o gosto da leitura a partir dos signos do teatro. Vale a criatividade de cada grupo. Vale, sobretudo, a liberdade de escolha dentro de um cardápio literário bastante criterioso e ao mesmo tempo aberto para novas descobertas feitas pelos jovens que são, naturalmente, nosso público alvo. No entanto, há grupos de leitura onde é possível encontrarmos neta e avó. Há grupo em que uma adolescente trouxe a mãe para participar, logo depois o irmão e o pai. Por não trabalhar com avaliações formais e por não estabelecer limites, as oficinas de leitura acabaram produzindo elos que vão muito além do ato de leitura.
Outro caso singular é a participação do poeta Ronaldo Monte. Aposentado do curso de Psicologia da UFPB, intelectual respeitado na cidade e fora dela, o poeta nos oferece um capítulo especial nas oficinas de leitura. Ele atua como voluntário em Mandacaru e nos revela a importância da participação apaixonada também dos escritores para a consolidação de uma política de leitura. Tudo ainda está em formação e esse é o critério. O método? A literatura é o método. E ponto. Não queremos um projeto “pronto”. Queremos uma política pública onde o jovem será atraído pela liberdade de escolha e pela vocação para o acolhimento semeada no grupo. Tanto em relação à participação nas oficinas quanto sua liberdade de escolha das próprias leituras. Senti vontade de relatar um pouco dessa nossa experiência aos leitores cronopianos. Aqui, temos apenas uma breve notícia das oficinas de leitura. Um projeto cujos resultados serão colhidos pelo tempo, dentro de um processo de formação continuada. Algo plenamente possível e que somente poderá acontecer através de uma política educativa integral, transformadora para uma sociedade ideologicamente amestrada, acatando a exclusão com naturalidade cristã.

Lau Siqueira

P. S. – Parahyba era o nome da capital da Paraíba até a revolução de 30, quando num golpe oligárquico, colocaram na cidade o nome de um político sem muita expressão e que foi assassinado em uma circunstância absolutamente passional.

sábado, 5 de julho de 2008

Yes, nós temos João!

(pequena crônica para uma crítica anunciada)

Lau Siqueira

Não posso dizer que fiquei triste quando li na coluna do meu querido Jamarri Nogueira que a programação do São João da capital era “fraquinha”. Fiquei foi embasbacado. Naquele momento sequer tínhamos anunciado a tal programação. Comecei a entender, então, o porquê de alguns artistas reclamarem da ausência de repercussão (positiva ou negativa) dos seus shows, espetáculos, lançamentos e exposições.
Mas, esse papo introdutório dá pano para outras mangas. Na verdade, o que impulsionou a reflexão deste momento foram as declarações de Biliu de Campina e Pinto do Acordeom em uma emissora de TV local. Eles ressaltavam as escolhas que foram feitas para a programação do São João de João Pessoa. Biliu chegou a brincar, dizendo que em muitas cidades havia um “Sem João” e que na capital era o verdadeiro “Tem João”.
O que ocorre, no entanto, é que não podemos sucumbir diante do lugar comum. Não se pode conceber um evento dito cultural que se renda às multidões. Porque as multidões, de um modo geral, estão previamente habilitadas para as estratégias da indústria cultural. Não se pode conceber uma gestão cultural que não tenha um caráter educativo. Até porque administrar é, sobretudo, um ato educativo. A realização de uma festa popular tão importante para o resgate da identidade cultural nordestina como os festejos juninos não poderia se dar de forma diferente. Por isso não podemos ficar calados diante das tentativas nada inocentes de jogar pérolas aos porcos.
O que se estabeleceu de forma silenciosa, mas sólida na capital da Paraíba nos quatro últimos anos foi um novo conceito de evento público. Em primeiro lugar, devido às escolhas. Em segundo lugar, por um planejamento que nos permite comemorar um índice insignificante de violência nos shows realizados durante o ano inteiro. Os festejos juninos este ano, entretanto, bateram o recorde. De 21 a 29 de junho, não houve um único empurrão no Largo de São Pedro, Praça Antenor Navarro e Conventinho - os três pólos da nossa festa. Algo a ser comemorado num tempo em que algumas festas de rua acabam virando praças de guerra e até mesmo contabilizando mortes.
O “João” da capital, entrementes, não se resumiu aos shows maravilhosos que aconteceram na praça Antenor Navarro. Como o do Quinteto Violado que nos mostrou ser possível colocar bailarinas no palco, sem vulgaridade. Foi assim com o balé popular de Recife! Também foi só plenitude Clã Brasil e Antônio Barros e Cecéu, que comprovam que as nossas grandes atrações podem sim morar na cidade. Da mesma forma o genial Pinto do Acordeom e os emergentes Cabra do Mateus, Maciel Salu, Mayra Barros e tantos outros. A presença de forrozeiros do primeiro time como Maciel Melo e Petrúcio Amorim selou o conceito de que podemos fazer um grande São João, sem concessões ao grotesco, ao mau gosto. Fechamos com chave de ouro, trazendo o excelente Santanna e a Poesia Popular Universal de Jessier Quirino.
Estamos consolidando o São João de João Pessoa como um grande festival regional de folclore. Mais de setecentos brincantes passaram pelo Largo de São Pedro. Era mazurca, coco de roda, nau catarineta, ciranda, reizado, mamulengo, cavalo marinho e outras expressões do imenso patrimônio imaterial da cultura nordestina. Quem esteve no Largo para dançar com Aurinha do Coco, Dona Teca, Dona Selma, ou Mané Baixinho, sabe do que estou falando.
Também foi esse o modelo que propiciou um novo debate acerca da vocação do Arraial do Varadouro. Um evento com capacidade própria de mobilização popular. É impossível negar fatos tão presentes na vida do Arraial. Existe um festival de quadrilhas já consolidado. No entanto, existem linhas de projeção folclórica, criadas a partir das quadrilhas e que não são mais quadrilhas. Alguns chamam pejorativamente de “estilizadas”. Na verdade são espetáculos belíssimos que também precisam de espaço próprio para cultivar suas linhagens contemporâneas, mesmo dentro de uma engrenagem de preservação da tradição e da identidade. Ao apresentar o grupo de carimbó, Moara, de Belém do Pará, o Arraial deu sinais de respirar o próprio futuro. Passaram por lá pessoas de Honduras, dos EUA, da Itália, da França e de outros lugares. E saíram maravilhados.
Em última análise, precisamos estabelecer esse debate. Afinal precisamos sintonizar linhas de comprometimento com a recuperação das antigas (e a descoberta de novas) potencialidades de desenvolvimento de uma cidade que ainda tem chances de escapar da barbárie urbana dos grandes centros. O fato de termos “João” nos enche de esperança. Uma esperança como a que foi conceituada por David Cooper: “não há esperança. Há uma luta. Esta é a nossa esperança.” E que venham as críticas, para que possamos pulsar melhor nossos argumentos. Nosso grande desafio está posto: conjugar tradição e contemporaneidade.

NOVO É O ANO, MAS O TEMPO É ANTIGO

Não há o que dizer sobre o ano que chega. Tem fogos no reveillon. A maioria estará de branco. Eu nem vou ver os fogos e nem estarei de b...