domingo, 26 de abril de 2009

A esparrela de Fernando Teixeira


por Lau Siqueira


Um vôo sobre a condição humana. O enfrentamento do homem com a fragilidade das suas certezas. A esperança contida na ansiedade do artista em sua relação direta com o público. O povo feito protagonista no cenário das ruas. A realidade mordendo os calcanhares dos nossos sonhos. Uma porção de frases semelhantes partiriam de uma leitura muito pessoal do monólogo Esparrela, escrito, dirigido e encenado por um artista que selou a própria existência, em todos os sentidos, com os signos do teatro.

Para compor esse texto, Fernando Teixeira foi buscar uma linguagem formulada a partir da relação direta do ser humano consigo mesmo. E é como se tivesse estabelecido um pacto com a universalidade da alma sertaneja. Tudo ambientado num cenário de aridez utópica. Um cenário que se compõe a partir dos mitos diluídos pela lucidez e pela desesperança. Um cenário sutilmente estabelecido a partir do imaginário do público. Tudo isso ocorre numa relação direta do ator com o ato supremo de representar. Na verdade, uma aula de teatro.

Fernando dá uma expressividade aos personagens ocultos deste monólogo, que provoca reações imediatas da platéia. A realidade cênica fica, então, transposta pela extensão plástica do texto. Diálogos e narrativas muito bem elaborados, revelando que a ousadia de um artista não está, exatamente, num hermetismo revestido com falsas miçangas. Não está em erudições postiças. Mas, na capacidade de conturbar-se diante do silêncio e das vozes dissonantes de uma cultura de supressões e desejos.

Tudo encanta em Esparrela. Principalmente a certeza do melhor teatro. Tão perto, tão disponível. Um teatro que realmente interessa. O que parte de uma integralidade absoluta e se esparrama pela eternidade difusa do instante. É quando o artista suprime de si qualquer distância entre a técnica e o instinto. Fernando Teixeira nos mostra que é preciso e necessário reinventar-se o tempo todo. Transgredir-se, eu diria, em uma palavra. E faz da sua arte uma especiaria estética de contenções e erupções colhidas no aprendizado do mundo. Em uma leitura kafkiana da irrealidade pulsante que atravessa os tempos e se estabelece enquanto fluência crítica na poética do cotidiano.

O salto sobre si mesmo, por parte de um artista de trajetória brilhante. O enfrentamento com suas próprias coragens e medos. Parece-me que nesta montagem de Esparrela, Fernando Teixeira construiu a concisão necessária, a condensação da sua própria história nos palcos do mundo. E joga tudo em suor e signo. Virtudes que constituem a magia e a emoção do teatro. Ele escreveu, ele dirige, ele atua. Se impondo absoluto nesta nova montagem de um uma espetáculo que espeta a nossa inquietação diante de um mundo de convulsões estabelecidas.

Uma comemoração dos quarenta anos do Grupo de teatro Bigorna onde quem recebe um grande presente é exatamente o público. Primeiro e muito especialmente pelo privilégio de contar com um teatro de altíssima qualidade estabelecido num mesmo sujeito, numa mesma circunstância. Depois, pela ousada e muito bem elaborada descoberta de um novo e absoluto espaço para o teatro paraibano, num lugar que precisa ser descoberto pela cidade e pela própria classe teatral. Tudo isso é Esparrela. Na verdade, uma arapuca necessária aos nossos sentidos.


Visite o blog do espetáculo: www.esparrela-esparrela.blogspot.com

terça-feira, 21 de abril de 2009

Um olhar iluminado sobre as sombras


Lau Siqueira*

Um escritor não se traduz ao mundo apenas a partir da sua relação com a palavra. Seus caminhos na literatura, fatalmente, são trilhados a partir da sua circunstância. Consta, por exemplo, que James Joyce teve seu estilo influenciado de forma significativa pelo meio conturbado ao qual esteve vinculado. Especialmente pelo seu pai, beberrão e perdulário, perseguido por credores, mas também homem amante das artes. Conheci Ailton Ramalho como artista plástico e militante das boas causas humanas. Um homem suave, sensível, mas ao mesmo tempo firme nas suas convicções. Mais tarde, pude observá-lo enquanto poeta. Um poeta que radicalizava na experimentação. Uma experimentação que iria da palavra ao suporte editorial. (Talvez sejam exatamente estas as conexões ocultas às quais se refere Fritjof Capra.)

Até que assisti sua prosa veloz desembarcar no projeto Novos Escritos, da Fundação Cultural de João Pessoa. O projeto viabilizou a revelação de bons nomes para a nova prosa paraibana. Nomes como Roberto Menezes, por exemplo, hoje integrante do badalado Clube do Conto. Foi no Festival Agosto das Letras que Ailton Ramalho desembarcou com um título instigante: Beco de Morar no Medo. Sua prosa se impôs, então, diante de um silêncio infeliz da crítica, mas arrancou comentários elogiosos em diversos setores de boa leitura.

Agora o escritor nos presenteia com O Herói Que Encolheu. Um livro que é, na verdade, uma metáfora da nossa história mais recente. Um resgate da tempestade fascista que se abateu sobre o País do Futuro. Tudo construído dentro de um olhar iluminado sobre as sombras da nossa memória. Um olhar que se estende sobre as hipocrisias vivenciadas por uma sociedade decadente, mas com ampla hegemonia conservadora. Ramalho não teme a pecha de panfletário. Isto porque seu duelo, o tempo todo, é com a linguagem e com a construção de enredos que prendem o leitor da primeira à última linha. Sua prosa cria ambientações de cumplicidade com o leitor. Uma escrita com altíssimo poder de comunicação. O que, silenciosamente, desafia a empáfia dominante no meio literário, especialmente acadêmico.

A crítica social aguda, no entanto, dentro de uma prosa muito bem elaborada afasta Ailton Ramalho de qualquer indício de apelação engajada. Ao contrário do que se possa supor, trata-se de um texto que parte de um realismo imperativo. Com índice próprio de identidades colhidas, certamente, em boas leituras (dos livros e do mundo). Um realismo aproximado do que Nikolai Vassilievitch Gogol impôs na Rússia do século XIX. Leituras cruas de uma estratificação social que estrangula a condição humana, aniquila as potencialidades emocionais de individualidades diluídas em valores absolutamente vencidos, vocacionados para as orações de silêncio erigidas pelos totalitarismos “mediocráticos”.

Esta leitura da realidade se mostra mais nítida em O Herói que Encolheu. O autor nos mostra que o exercício da memória nos conduz para o exercício da lucidez. Um livro que resgata o passado em forma aguda de protesto, mas sem lamentações. Resgata o passado exatamente para uma perspectiva de futuro. Futuro de gerações que não compreendem, muitas vezes, a extensão e o limite da “liberd’arde” conquistada numa democracia burguesa.

Ailton Ramalho traz ao seu público leitor os relatos vividos de quem sobreviveu aos porões e ainda sobrevive aos cárceres de um apartheid social, tantas vezes banido de uma teia literária predominantemente conservadora, tanto estética quanto politicamente. Ele nos mostra o quanto essas diferenças (com os violentos embates revelados em seus textos) ainda ditam uma nação de sombras e omissões. Sua literatura é de pura resistência

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*Texto de apresentação do livro O Herói que Encolheu, do meu amigo Ailton Ramalho. com um insuportável atraso, pelo qual solicito minhas mais humildes e mais safadas desculpas.

domingo, 19 de abril de 2009

Diário de um louco no Palco Giratório

Lau Siqueira

Encenado por André Morais e dirigido por Jorge Bweres, o monólogo Diário de um louco vai percorrer 48 cidades brasileiras, do Rio Grande do Sul ao interior da Amazônia. O grupo paraibano Lavoura foi um dos selecionados pelo projeto Palco Giratório, criado pelo Departamento Nacional SESC, com o objetivo de difundir as artes cênicas no Brasil. O outro espetáculo é Silêncio Total, com o palhaço Chuchu, criação do também paraibano, ator Luiz Carlos Vasconcelos.

Em Diário de um Louco podemos perceber a transtemporalidade de um texto clássico. Nikolai Vassilievitch Gogol, nascido em 1809 teve uma infância abastada, mas tornou-se um modesto funcionário público na fase adulta. Talvez esse tenha sido o fator invisível a transformá-lo no introdutor do realismo na literatura russa. No encontro do teatro com a literatura em Diário de um Louco, percebemos a atualidade de um texto datado de 1830 e encenado para um público que, supostamente, passou por uma radical mudança de costumes. A tradução desse mistério é que faz de uma obra um clássico.

O texto fala dos sonhos e das desesperanças de um funcionário público apaixonado pela filha do chefe. O impacto ferino da desigualdade social sobre os sentimentos desse personagem começam a impulsioná-lo para um enorme abalo emocional. Uma tristeza e um sentimento de impotência capaz de dimensioná-lo dentro de uma abordagem da loucura, sem estereótipos, na sua forma mais crua, mas ao mesmo tempo reveladora de uma imensa expressão de humanidade. A loucura aparece, então, como ponto de partida para o abandono de uma existência marcada pelo sentimento de impotência diante do estabelecido. O personagem cria para si um trono e uma coroa, na tentativa de superação das suas impossibilidades. A configuração da loucura na temática do espetáculo é de tamanha realidade que, segundo Jorge Bweres, em uma das apresentações uma pessoa teve um surto esquizofrênico na platéia.

Reconheço um grande ator quando percebo a sua capacidade de transgredir a própria identidade na criação de um estilo. A capacidade de introduzir-se na construção de um personagem que relata a agonia do homem comum e seus sentimentos, diante dos muros supostamente intransponíveis da desigualdade social. Em Diário de um Louco, André Morais soube realizar esse traçado, com uma interpretação de absoluto equilíbrio entre circunstância original do texto e a sua transcendência para esses tempos inaugurais do século XXI. Depois da declaração de Jorge acerca do surto esquizofrênico em uma das apresentações, compreendi melhor a reação de duas jovens sentadas no chão da primeira fila que riam freneticamente nos momentos de maior densidade do texto. Isso me fez crer que se trata de um espetáculo do qual não saímos impunes. Tamanha é a capacidade de envolvimento com todos os elementos do espetáculo, criada pelos artistas. Tudo amarrado sutilmente com uma trilha sonora muito bem acolhida pela concepção geral do espetáculo.

Os diretores de teatro experimentam a noção mais acabada de poder absoluto. Mas, seria mesmo necessário exercer este poder com autoritarismo e de forma personalista? Jorge Bweres nos mostra que não. Ele deixa sua marca no espetáculo exatamente por exercitar o oposto. Construiu um estilo delicadamente absoluto. Soube conjugar a imensa capacidade interpretativa de André Morais, com o que eu chamei de transtemporalidade do texto. Sua presença, no entanto, paira sobre cada cena. Sobre um cenário que impressiona pela capacidade de introduzir os personagens ocultos do monólogo, ou numa iluminação que contracena o tempo todo com os inúmeros elementos colocados em cena (ou fora dela). São os detalhes que fazem de Jorge Bweres um diretor diferenciado. Parte dele a provocação para um altíssimo grau de interação com a platéia. Reafirmo a impressão de Altimar Pimentel: “o cuidado meticuloso e criativo como o espetáculo havia sido construído por Jorge Bweres e André Morais revelava íntima cumplicidade entre o primeiro e o segundo também ator único”. O espetáculo é de uma unidade impressionante! Tudo no lugar. Tudo meticulosamente cuidado. Daí o sucesso que tem alcançado por onde se apresenta.

Agora o grupo Lavoura irá percorrer o país. Do extremo norte ao extremo sul. Certamente que tamanho percurso vai exigir do grupo uma capacidade de resistência que precisaria ser transformada em cadernos de viagem. E assim será. Jorge e André criaram um blog para que pudéssemos acompanhar à distância o traçado das emoções vivenciadas com os mais diferentes públicos deste país. Assim, você saberá quando o espetáculo estiver por perto e poderá tirar suas próprias impressões acerca do melhor teatro brasileiro contemporâneo. Um teatro que pulsa pelo Nordeste inteiro e que tem na Paraíba um dos seus principais vetores. Acompanhe pelo blog
http://www.teatrolavoura.blogspot.com/ a aventura do grupo Lavoura nos palcos brasileiros.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Poesia é risco em Constança Lucas.

Lau Siqueira


A poesia se revela sempre despida e vestida por todas as linguagens. Quando menos esperamos, lá está ela. E é algo que nos espeta as áreas de abandono do coração e da mente. Poesia é, na verdade, o elemento condensador de todas as linguagens. Uma arte que é o pulsar da existência humana na sua total densidade. É esse o meu olhar sobre a poesia que habita o traço desta artista nascida na lusitana Coimbra que, para sorte dos brasileiros, decidiu colocar seu atelier e sua morada em algum lugar da imensa São Paulo. De lá ela faz arte para o mundo. Circula seu trabalho em diversos países. Tem publicação em catálogo e participou de exposição, por exemplo, na Coréia, no Japão. Isso nos mostra o peso da poesia enquanto linguagem, em qualquer outro suporte, seja estético, seja estilístico, seja humano.

As imagens concebidas por
Constança Lucas têm algo de palavra não silenciada. O não dito é mostrado. Cada expressão calcula o espaço pela delicadeza e pelo peso do braço da resistência às culturas que não dialoguem com a atemporalidade da arte. O detalhe do provocado e do ato suprimido. Tudo isso leva o leitor da obra visual dessa artista a uma leitura da palavra pétala quando o desenho é arbusto. Ou seja, há uma lírica paisagem por trás de um diálogo profundo com a existência, com as causas humanistas e de paz. É desta forma que Constança Lucas dialoga com o mundo. Trafegando de forma libertária entre o abstrato e o figurativo. É a “poesia como objeto do olhar”, conforme o baiano Almandrade classifica a Poesia Visual.

As cores são delicadamente escolhidas. Quando não é o preto que domina sobre um branco imponente, compondo o cenário vivo da criação. Sentimos que a artista persegue algo que talvez possamos chamar de transposição do cotidiano e do épico. Tudo num mesmo tempo/espaço do branco/leque de sensações quentes, úmidas, doloridas, coloridas, ocas, profundamente vividas. Sobretudo, na experiência de colher suavidade numa arte que se impõe pela universalidade e pela capacidade de diálogar com a diferença. Algo que nos permite continuar sonhando com a realidade, dentro e fora dela.

Tem participado de salões de artes plásticas pelo país inteiro e por algumas dezenas de países. Militante ainda da arte-correio, a artista nos provoca permanentemente o dilema do útil e inútil, da arte e da vida, do estudo e da criação. É uma criadora que reflete muito profundamente sobre tudo que produz. Por isso busca sustentação teórica na academia para suas certezas mais primitivas. Uma estudiosa dos caminhos da arte no Brasil e no mundo. Mantém um diálogo vigoroso com a Europa, com países do oriente e das Américas.
Constança Lucas dispensa apresentações. Sua arte criou seus próprios espaços, com talento e sapiência.

Uma arte que seduz o imaginário de quem se permite um olhar sem dolo, num tempo global que não nos permite conceber uma estética predominante. (Se é que em algum tempo alguma foi.)
Constança dialoga muitgo bem obrigado com a tradição e com a modernidade. Sua arte comunica numa perspectiva futurista. Ela reconhece todas as linguagens nos duelos da luz com as sombras. Fator de risco imprescindível para uma arte íntegra e integral. Uma arte que não se poupa diante da beleza e não se rende aos modismos. Uma arte que despe e conduz o espetáculo de um cotidiano rico em plasticidade. Algo pulsante, vibrando as artérias de um público que sente o que pensa.

Ou seja: não se trata de uma relação glacial com quem a observa atentamente. A arte de
Constança Lucas nos provoca calorosos debates íntimos sobre as percepções de infinito que existem nas impermanências conceituais. No entanto, algo longe do que se poderia classificar como diluição. Sobretudo porque é de uma suavidade que estilhaça nosso senso de transgressão. Ela constrói metáforas em traços. Seja com lápis, pincel ou mouse.

Constança Lucas construiu uma trajetória na arte que se sustenta com os próprios pés. Uma trajetória que não desperdiça a acelerada pontuação das horas no dia que passa. É uma artista que sabe reconhecer seus mestres. Sabe respeitar a história dos seus iguais e dos ícones das artes no mundo. Sua aparente calma é um eterno movimento. Uma volúpia de uma arte viva presente nos salões, nas galerias e nos espaços alternativos que ainda abrem suas portas para um conceito de grande arte que passa, diretamente, pela construção de uma identidade, de um estilo absolutamente singular. Assim penso a arte de
Constança Lucas, cujo nome no Google, apresenta uma fartura de belas imagens que vale a pena conferir. É a poesia em estado de risco!

terça-feira, 17 de março de 2009

Passando em ‘revista’ uma história de muitas leituras

Lau Siqueira



Especialmente no século XIX a imprensa teve um papel determinante na formação do leitor e no gosto pela Literatura em nosso país. Era nos jornais que os nossos grandes autores encontravam o espaço mais imediato para a divulgação de suas obras. Ainda que de forma fragmentada. Mas foi em 1812, na Bahia, que surgiu a primeira revista literária brasileira. Chamava-se As Variedades, ou Ensaios de Literatura. Desde então se estabeleceu um elo muito consistente entre a imprensa literária e a Literatura. Através dos tempos as revistas e jornais literários passaram a ocupar uma posição estratégica na evolução e na história da Literatura brasileira.


Bem antes disso, o primeiro jornal literário editado no planeta Terra nasceu em Paris, no ano de 1631. Nunca é demais lembrar. Chamava-se Le Journal des Savants. Um veículo com um caráter científico e literário, fundado em Paris por um cara chamado Dennis de Sallo. Infelizmente o jornal e teve a heróica duração de 13 edições, apenas. Foi encerrado pelo torniquete da censura no reinado de Luis XIII, ironicamente chamado de O Justo.


Revistas e jornais literários sempre foram fundamentais na divulgação da produção literária. Não é possível imaginar, por exemplo, a Semana de Arte Moderna e mesmo o modernismo brasileiro, sem a presença ostensiva do mensário Klaxon. Era um veículo dedicado integralmente à veiculação das idéias e da produção modernista. Marcou seu tempo e encerrou suas atividades quando, dizem, “deixou de divertir, entre outros, o poeta Mario de Andrade - um de seus idealizadores e editores”.

Anos mais tarde, com o advento da Poesia Concreta, outra revista toma conta do cenário no início dos anos 50. Nascia a Noigandres (1952), veículo criado e dirigido pelos poetas Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Decio Pignatari. A partir da fundação desta revista a história nos mostra o calibre vanguarda brasileira. Não se tratava apenas de três jovens poetas inconformados com o conservadorismo da Revista Brasileira de Poesia que representava, na verdade, as vozes da Geração 45.
A Noigandres passou a incorporar, desde então, as idéias que fariam explodir para o mundo a estética e, principalmente, a ética do concretismo. (Diga-se de passagem, o único movimento literário genuinamente brasileiro.) A repercussão do concretismo no mundo certamente que ainda não tem dimensionada a sua importância. Da mesma forma não pode ser medida a importância - para a consolidação do concretismo - deste veículo cujo nome tem origem provençal. Nem mesmo Ezra Pound tinha lá tanta certeza do seu real significado. Mais tarde o critico alemão Hugh Kenner traduziu por “antídoto contra o tédio”. O que nos parece bem adequado para o dimensionamento dos impactos da porrada concretista, diante de um certo acomodamento pos-modernista.


Inicialmente citando essa ‘meia dúzia de três ou quatro’ veículos, podemos afirmar que nenhuma outra revista ou jornal literário, posterior ao feito baiano de 1822 ou mesmo sem a reverberação histórica da Klaxon e da Noigandres, teve menor importância. As revistas e jornais literários passaram a cumprir um papel que ainda hoje é determinante para pesquisadores e leitores da produção contemporânea. Na cena brasileira atual, objeto central deste artigo, as revistas (ainda que de forma, muitas vezes, pulverizada) asseguram aos autores dos mais diversos rincões a circulação das suas produções.


Na última década e meia principalmente, com o aparecimento e a popularização da internet, houve uma revolução na divulgação da literatura. Não são poucas as revistas de grande qualidade que circulam no espaço virtual e que, na verdade, continuam mapeando a produção contemporânea e resgatando a tradição. Assim como as revistas e os jornais impressos, os sites, blogs e portais literários continuam abrindo espaços para os novos e reordenando a historiografia literária brasileira.


Com o avanço tecnológico representado, especialmente, pelo aparecimento e pela popularização da web, a Poesia passou a ter um espaço midiático que nunca teve anteriormente. Isso não representou, absolutamente, um recuo no que se refere às edições impressas. Muito pelo contrario. Até mesmo a - antes careta - revista da Biblioteca Nacional, Poesia Sempre, passou a ter uma programação visual, uma editoração e uma linha editorial infinitamente mais atraente.


Revistas como A Cigarra, editada bravamente em Santo Andre (SP), por Jurema Barreto e Zho Bertholini avançavam na descoberta de novos olhares poéticos e na preservação dos espaços destinados à “poesia como objeto do olhar”, como disse o poeta e artista visual baiano, Almandrade. Hoje a Cigarra divulga suas edições e se faz distribuir também pela internet. Na mesma linha editorial existem outras espalhadas pelo Brasil que dialogam entre si de forma admirável. Na verdade, ampliam consideravelmente seus raios de abrangência. Um exemplo é a revista Dimensão, de Uberaba(MG) que durante a sua existência teve circulação em mais de 30 países, proporcionando um intercâmbio fundamental, muito especialmente entre os praticantes da Poesia Visual.


A Inimigo Rumor, da Editora 7Letras, pode ser encontrada pelas principais livrarias brasileiras e costuma apresentar pequenas antologias, abrindo também espaços generosos para a produção brasileira emergente, seja de ensaístas, seja de poetas. Da mesma editora podemos encontrar a revista Ficções que, conforme sugere sua nomenclatura, costuma abrir espaços para a produção dos ficcionistas brasileiros e de outros países de Língua Portuguesa.

Aqui e ali somos surpreendidos por edições de luxo, como a paranaense ETCtara, editada inicialmente pela poeta pernambucana radicada em Curitiba, Jussara Salazar e pelo poeta e tradutor paulista Claudio Daniel. Ou mesmo por revistas como a também paranaense Coyote que surpreendem pela conjugação da economicidade editorial com uma programação visual impactante e um conteúdo que mistura irreverência e bom humor com um necessário rigor estético.


Podemos afirmar, atualmente, que tanto faz ser virtual ou impressa. O que importa é a qualidade e/ou diversidade dos conteúdos. Neste caso, não temos mais como desconhecer a importância do Jornal de Poesia (www.secrel.com.br/jpoesia) editado pelo gladiador solitário, Soares Feitosa. Ou mesmo o Portal Cronopios, do poeta Edson Cruz, (www.cronopios.com.br) que abriga em suas paginas alguns dos autores mais importantes da atualidade. Na mesma linha seguem as virtuais Errática (www.erratica.com.br) , Zunai (www.zunai.com.br) , Germina Literatura (www.germinaliteratura.com.br) e outras não menos importantes que passaram a compor os canais de pesquisa para profissionais da área e para os apaixonados pela Literatura.


Claro que num texto (e contexto) como esse, a certeza de naufragar na memória é inevitável. Por exemplo, quem não se lembra de Nicolau, editado pela imprensa oficial do Paraná? E a maravilhosa Porto & Virgula - infelizmente extinta – publicada pela Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre? E outras tantas como O Galo, de Natal, Brouhaha, também de Natal, O Capital, de Aracaju, os imprescindíveis Suplemento Literário de Minas Gerais e Suplemento Literário de Pernambuco. Também as virtuais Garganta da Serpente e Cisco Tronituante. Enfim, esses veículos não valem pelo número de acessos ou de exemplares publicados, mas sim por terem tornado a Literatura Brasileira Contemporânea um fato nacional (ou mesmo internacional) e irreversível. Apesar dos tropeços éticos na publicação de alguns textos que nada tem a ver com critica literária, não poderia deixar de registrar a existência tantas vezes lamentável do Jornal Rascunho, do Paraná.

A produção encontrável nas bancas, passa pela extinta Discutindo Literatura e pelos caminhos da Escala Editorial. A Bravo tem um defeito grave: obedece rigorosamente o conservadorismo editorial da Abril. Aqui no Nordeste, entretanto, temos a mais importante revista literária do país no âmbito da circulação comercial. Trata-se da Continente Multicultural, que abre espaços também para as outras linguagens artísticas com as quais dialoga a Literatura.


A tradição literária da terra de Jose Lins do Rego e Augusto dos Anjos, não deixa por menos. Além de ostentar o mais antigo e um dos mais dinâmicos veículos ainda em circulação no Brasil, o nosso Correio das Artes, a cena literária local já contou com uma história que trouxe até nossos dias uma revista importante como a campinense Garatuja que, antes de sua extinção, mostrou-nos caminhos da Literatura Paraibana que ainda hoje repercutem. Não foi diferente com o projeto Ler, da Editora Idéia. Muito menos com a nuvem passageira que foi o excelente jornal Olho D’água.

Nem de longe tentei estabelecer hierarquias nas minhas citações. Cometi omissões voluntárias e esquecimentos lamentáveis. Sei disso. Mas, o que eu quero dizer de forma definitiva é que seja por onde estejam sendo publicadas, as revistas literárias e os jornais literários, além de apontar caminhos e estabelecer critérios para uma boa leitura, aparecem neste início de milênio como uma explosão de boas novas, capazes de acender as esperanças de milhares de poetas, romancistas, ficcionistas, cronistas... Enfim, gente que sabe o quanto é importante estabelecer uma relação bastante determinada com a linguagem e com o publico leitor, num mesmo espaço capaz de absorver nossos defeitos e nossas mais terríveis qualidades.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Entre a suavidade e o abismo - a poesia de Adair Carvalhais Júnior

Lau Siqueira

Em “A Arte Poética”, Horácio (68-8 aC) deixou um recado bastante contundente: “a pintores e poetas sempre assistiu a justa liberdade de ousar seja o que for”. Sempre colhi infinitas leituras desta frase. Penso que a ousadia de construir versos, sejam eles tatuados na garganta ou rabiscados desde a eternidade das rochas até a falsa efemeridade dos suportes virtuais, é o risco dos poetas. Desde os tempos extraviados pela memória do mundo, privilegiando o ritmo ou a imagem, subtraindo vozes do silêncio ou arrancando o hálito do futuro, os poetas reinventam-se numa solidão de olhos invisíveis.

O tempo poético nunca correu em linha reta para encontrar pelo caminho as pancadas amorosas de Safo; as imagens exatas transcritas pelos poetas da Dinastia Tang; os poemas suspensos dos beduínos, espalhados pelo deserto; os inventos dos poetas provençais e o desaguadouro de uma modernidade que já não cabe na cronologia do esquecimento. Vivemos um tempo multifacetado onde a poesia revela sua inutilidade imprescindível numa permanente reverberação de novos caminhos. Agora, já sem as angústias de engajamentos e acorrentamentos em vanguardas ou nos saudosismos desesperados.

Desde seu livro anterior (Desencontrados Ventos) que o poeta mineiro Adair Carvalhais Júnior vem, notadamente, trafegando por uma relação com a linguagem poética que perpassa as mais densas leituras. Leituras que não eliminam da mesma estante as diferenças estéticas recolhidas nos embates profusos intensificados no limiar do século XX, um tempo de fartas colheitas para a contemporaneidade.

Em “Todo poema é um risco lançado sobre o nada” Adair nos parece muito mais convicto do que nunca de sua relação com as linguagens do mundo e com a transcrição dos seus hábitos de comungar com uma singularidade absolutamente despojada na invenção dos seus textos. Na construção de uma dicção absoluta, aliás, sobre sua própria condição de arriscar-se num mergulho pelo infinito das suas próprias impossibilidades.

Explorando temáticas que vão dos seus mais íntimos conflitos de estar num mundo em constante ebulição, com a sensualidade das relações que fluem no conflito entre a palavra e o sentimento racionalizado, erigido a partir de intensas reflexões sobre um cotidiano onde a linguagem pulsa cálida em poemas assim:

ecos


umidade pálida nas
paredes vozes oblíquas um
pouco de
poeira no criado
mudo teu
sorriso em meus
olhos

os dias seguindo as
noites

Algumas vezes trocando o escrito pela sutileza de uma expressão sugerida. Algumas vezes provocando o leitor na sensação múltipla do corte de versos que multiplicam seus sentidos no inesperado, no mergulho ao mesmo tempo convicto e distraído em direção a um estilo que cada vez mais se consolida num exercício cotidiano com a palavra. Um exercício que venho testemunhando através do tempo, ao receber suas impulsões de natureza muitas vezes visceral, mas absolutamente racionalizadas no espelho d’água da criação literária.

Parece-me que Adair Carvalhais Júnior parte agora em definitivo para a configuração de uma maturidade na lida com a linguagem que margeia um certo espírito aventureiro, essencial aos procedimentos criativos, correndo em fluxo contínuo para as sensações que se completam no que se refere a cada poema, com o olhar atento do leitor ou da leitora deste belo “Todo poema é um risco lançado sobre o nada”.

A poesia aparece em Adair como um estranho sumidouro de coisas não ditas. Como uma especiaria ao mesmo tempo inebriante e suprimida dos sentidos. Uma explosão de ventanias levantando as areias de um tempo presente vivido entre as lições do passado e as intenções do futuro. O poeta confessa, inclusive, não temer o esquartejamento crítico de uma leitura desatenta. Ele mergulha consciente no oco da invenção e nos relata isso com os próprios trajetos da sua imersão:

confissão


todo poema é um risco
lançado sobre o
nada todo
poema ceifa completamente o
corpo

em cada angústia
vespertina arrisco todos
meus poemas naufrago na
carne
devastada

Então me ocorre o silêncio diante de uma leitura que, apesar de concluída, jamais será objeto de um único e esparso entendimento. Outras colheitas, certamente, haverão de advir do inesgotável e do imprescindível que se guarda na inteligência humana ao acompanhar até mesmo a razão das nuvens que se transformam sob o olhar desolado dos que sabem que o mundo não gira exatamente a partir do que pensamos sobre ele. Da mesma forma que as nuvens, a poesia não precisa de nós.

domingo, 1 de março de 2009

A universalidade amazônica no canto de Érica Maria

Sempre me ocorre pensar no que representa possuir a alma vestida com a epiderme da arte. Ou seja: vivenciar a integralidade da condição artística. Uma espécie de nudez que protege nosso outro mesmo lado. Transcender assim num mundo de distâncias coisificadas e diferenças não suficientemente revolvidas é uma provocação necessária. E é exatamente este o caminho que vem trilhando Érica Maria, com seu canto e com a expressão uma de nudez existencial que transcende os limites da voz.
Seu canto amazônico (ela nasceu em Boa Vista-RR) está exatamente situado nas margens de um tempo de diluições consagradas, mas também de uma ebulição muito singular na Musica Brasileira Contemporânea. Uma efervescência que, no mais das vezes, não alcança os olhos arregalados da mídia conservadora para uma menção consagrada em termos de popularidade. No entanto, o represamento formal e decadente da indústria fonográfica começa a sofrer revezes com o aparecimento de novas formas de divulgação que produzem uma relação direta do artista com o público. Uma reação, por exemplo, que trouxe da informalidade de um apartamento paulistano para as páginas da revista Bravo, aos 16 anos, a cantora Malu Moraes.
Independentemente do que possa consagrar em termos de qualidade artística para o fenômeno internauta que transformou a vida adolescente de Malu Moraes, me refiro ao poderio midiático da internet. Os mesmos meios estão disponíveis para que possamos conhecer também o trabalho de Érica Maria. Um timbre que nos chega universalizado pelos sabores da pesquisa musical e do estudo como método de amadurecimento artístico. Uma voz que tem sido ouvida e admirada no vizinho estado de Pernambuco (e em outras paragens), começa a buscar a legitimidade dos seus espaços na terra do mestre Sivuca.
Uma vez Érica me falou que não lia música, que era intuitiva. Essa afirmação me remete ao que diz Fayga Ostrower (renomada artista plástica brasileira, nascida na Polônia) no livro Criatividade e Processos de Criação: “A intuição vem a ser dos mais importantes modos cognitivos do homem. Ao contrário do instinto, permite-lhe lidar com situações novas e inesperadas. Permite que, instantaneamente, visualize e internalize a ocorrência de fenômenos, julgue e compreenda algo a seu respeito. Permite-lhe agir espontaneamente.”
Este conceito pode ser plenamente visualizado no site de Érica Maria, www.ericamaria.com.br onde além de algumas músicas, também podemos conferir a expressividade visual do canto desta cantora brasileira, em vídeos lá expostos. Podemos observar, por exemplo, que a sensualidade se revela numa expressão corporal densa, mas sem qualquer indício apelativo. Com muita técnica, mas, sobretudo com a naturalidade determinando um equilibrado domínio dos espaços do palco. Na verdade, é o canto extrapolando os limites da voz, saltando pelos poros, transbordando de uma alma desacostumada ao silêncio que não seja exatamente o silêncio das pausas melódicas e dos gestos necessários aos veios interpretativos na construção de um espetáculo.
A expressividade musical em seu estado absoluto. Eis o que se revela nesta jovem cantora que aos poucos vem conquistando seus espaços no cenário nordestino. Atropelando delicadamente o acomodamento e até mesmo certa estagnação muito comum em artistas amadurecidos pelo desconforto do esquecimento. Tudo isso ocorre no epicentro de uma nova cena musical brasileira que nos traz expressões como Dona Zica, Mariana Aydar, Tulipa Ruiz e o talentoso e jovem cantor e compositor paraibano, Chico Limeira, entre tantos e tantas artistas que crescem antenados com o seu tempo, com a historiagrafia e com os mistérios da arte.
Enfim, aos que se encantam com a descoberta de novos caminhos para a musica brasileira contemporânea, ouso afirmar que estamos diante de uma nova possibilidade de encantamento. Aos que acreditam na permanente renovação da resistência artistica brasileira, nada melhor que conferir a arte reveladora de Érica Maria.


Lau Siqueira, poeta
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NOVO É O ANO, MAS O TEMPO É ANTIGO

Não há o que dizer sobre o ano que chega. Tem fogos no reveillon. A maioria estará de branco. Eu nem vou ver os fogos e nem estarei de b...