domingo, 3 de fevereiro de 2019

SOBRE VIVER NO BRASIL EM 2019


Somos um povo preconceituoso por natureza. Um povo afeito aos protocolos mais inúteis. Isso nada tem a ver com ideologia. Muito menos com a elegância da qual somos naturalmente despidos. Algumas vezes esquerda e direita se equivalem. Principalmente nos extremos. Leio críticas ao deputado que foi tomar posse com chapéu de cowboy e colocou a esposa no colo. Também leio pilhérias quanto ao decote de certa deputada. No entanto, o fato do chapéu e do colo, bem como dos seios da deputada, não representam nada diante dos motivos pelos quais se elegeram.
O mesmo ocorre com Alexandre Frota. Fazer filmes pornô foi o auge da sua carreira de ator e homem medíocre. Não importa. Quem curte assiste. Quem não curte, não assiste. O que me preocupa neles é a política de extermínio que representam e defendem com fúria. O que me preocupa mais ainda é repentina simpatia por Mourão, por ser mais esperto que o pateta eleito. Parece que o Brasil anda atordoado. Um ministro nos chama de ladrões e ninguém bate panela. Estamos resumidos ao silêncio inútil das redes sociais.
No mais, sequer conseguimos debater sobre as políticas de privatizações aceleradas mais uma vez em curso. Mesmo após um crime sequencial conduzido por uma Vale privatizada. As tragédias criminosas de Mariana e Brumadinho são heranças liberais. Mas, logo cairão no esquecimento. A mídia cuida disso. Se a Vale do Rio Doce fosse estatal certamente os defensores da privatização estariam fazendo escarcéu. Parece que perdemos o foco das coisas. O que menos importa é o que mais repercute. Enfim, só pensando aqui com meus botões nesta manhã descamisada.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

O MinC jamais servirá ao fascismo.



                                                                                                      Por Lau Siqueira

O fechamento do Ministério da Cultura no governo Bolsonaro não surpreende.  No segundo governo Dilma o MinC já andava esmaecido. A posse de Juca Ferreira foi muito representativa. Praticamente todos os ministérios estavam lá. Todavia, as investidas golpistas buscando inviabilizar o governo foram imediatas e o MinC ficou praticamente paralisado. Não foi diferente com os demais ministérios. Juca Ferreira sentiu na pele a pancada da recessão e do golpe que derrubou Dilma. De 2015 até 2018 tivemos cinco ministros. Um retrato 3 x 4 do desmantelo. Após o impeachment a ideia de fechamento do Minc provocou protestos. As ocupações foram imediatas e vitoriosas. Temer voltou atrás. Mas, o ministério que emergiu do golpe foi uma instituição pífia comandada por oportunistas. Temer não extinguiu o MinC, mas subtraiu. Tratou de sufocar um ministério já sofrido. Bolsonaro apenas jogou a pá de cal.

Todavia, o que deveríamos esperar de um Ministério da Cultura num governo Bolsonaro? Como lutar para termos um MinC submerso no fascismo? Que quadros minimamente respeitáveis aceitariam comandar a pasta? Regina Duarte? Olavo de Carvalho? Alexandre Frota? Penso que não cabe agora esse resgate. O desmanche geral está configurado. Mas tudo renascerá das cinzas em algum momento. Não perdemos apenas o MinC. Estamos perdendo o Brasil e acho que, neste momento, as lutas fragmentadas apenas alimentarão o fracasso. A tragédia anunciada estava posta e muitos tentaram escapar pelas beiradas. Talvez achando que seria possível salvar a própria pele de uma morte anunciada. Para nossa surpresa, o primeiro grupo que se curvou aos golpistas representava os Pontos de Cultura, um selo do PT. Aliás, esta foi uma surpresa muito desagradável. Agora, mais do que nunca, o embate deverá tomar proporções unificadoras. Somos trabalhadores da cultura. O que estamos vivendo hoje vem sendo pedra cantada há tempos. Desde 2013, quando a esquerda aceitou participar de passeatas onde as bandeiras partidárias estavam proibidas. Um comando oculto que hoje mostra-se nas faces da intolerância.

Fomos sendo esmagados gradativamente. Agora é hora de pensar, juntar os cacos e organizar os pontos para a reação. Mas não falo apenas dos movimentos da cultura. Falo dos movimentos sociais e segmentos progressistas. Falo de quem defende a Educação e a Saúde pública, as políticas afirmativas, a soberania nacional, as instituições democráticas de modo geral. Há uma desmoralização federalizada caminhando para um moralismo tosco. Pra quê MinC num governo fascista? Essa visão setorialista nos enfraquece e nos afasta da realidade. Lá nos rincões, não existe o cidadão da saúde, da educação, da cultura. As necessidades são básicas e serão sempre as mesmas. A cultura é uma força que nos alerta.  Gilberto Gil, o primeiro ministro da cultura artista, já dizia: “no Brasil predominava uma visão muito eurocentrista e civilizada sobre a produção cultural. Em nossa gestão procuramos dar atenção ao protagonismo popular e à autogestão”. Aconteceram coisas belas, mas também ameaças terríveis. Por exemplo, a invasão das comunidades tradicionais pelo pentecostalismo. A disputa maior era estrutural e na base da sociedade. Assistimos de camarote a nossa própria derrocada.

Agora nos vemos diante da necessidade de reagir. O único sinal de resistência popular possível, pelo menos por enquanto, é um avatar no perfil das redes sociais. Estamos sem elo para emergir e sendo ameaçados por quem deseja abolir um socialismo que nunca existiu em terras brasileiras.  Estamos diante da consagração da ignorância e da falência intelectual de uma geração inteira. Afinal, o que significa “marxismo cultural”? O que significa “ideologia de gênero”? Estamos vivendo uma agonia coletiva desenfreada, pois o caos estabelecido tem apoio popular. Há uma predominância de uma minoria raivosa e oca sobre uma maioria alienada. Bolsonaro aponta sua metralhadora verborrágica e é aclamado pelas vítimas.  A psicopatia social está em curso. Pra quê gastar energias e dar mais uma arma ao inimigo? No momento, o melhor conselho vem de David Cooper: “não existe esperança. Existe uma luta. Esta é a nossa esperança.” Sem ministério, mas ainda com uma diversidade cultural e artística que resiste historicamente,  nos resta unir forças para retomar o país.  Só depois valerá a pena reconstruir o MinC como vetor de desenvolvimento humano, social e econômico. Algo essencial para a reestruturação da democracia.


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Uma grande indústria chega ao Sertão


Calma, gente. Não teremos nenhuma agressão ao meio ambiente. Não se trata de um empreendimento invasivo que traga constrangimento ou agressão aos valores culturais do sertão. Muito pelo contrário. Se trata de uma movimentação da cultura tradicional da região em harmonia com outras manifestações das diferentes regiões do Brasil e de países da América Latina. Uma ação muito bem articulada regionalmente pela Pisada do Sertão – uma instituição que cuida da proteção de crianças e jovens na cidade de Poço José de Moura. Uma ação estruturada na capacidade e na necessidade de constituir boas parcerias.

A Rota do Sol nasceu de uma grande vontade coletiva, como todas as outras rotas culturais que acontecem principalmente no Brejo. Numa viagem à Uiraúna em 2016 para discutir a Rota Cultural da Coluna Prestes, senti que um grupo ficou um tanto deslocado por estar fora daquele roteiro cultural e histórico. Afinal, a Coluna Prestes passou por vários municípios sertanejos, mas não por todos. Entrou em Uiraúna, no Distrito de Aparecida e saiu lá pela região de Princesa Isabel. Por ironia do destino a Rota da Coluna Prestes não se consolidou. No entanto ali estava começando a história da Rota do Sol. Uma ação cultural desenvolvida numa das piores crises econômicas já enfrentada nos últimos anos. Nesses momentos, a cultura sofre muito, pois está entre os setores essenciais, mas não prioritários em qualquer administração pública.

Entretanto, o poder de articulação das prefeituras de Triunfo, Bernardino Batista, Poço José de Moura, Joca Claudino e Uiraúna, em torno de um eixo organizacional criado pela Pisada do Sertão, nos levou a realizar em 2017 a primeira edição da Rota do Sol. O sucesso foi reconhecido pelas prefeituras, pelo público e grupos culturais. As trocas realizadas entre grupos da Paraíba com a cultura de Santa Catarina, Pará, Argentina, consolidou a Rota do Sol já no primeiro ano. A movimentação, inclusive da economia local, era visível em todos os sentidos. A Rota do Sol recebeu muita gente e encantou pelo profissionalismo dos organizadores. Portanto, era sim possível uma rota cultural no sertão, com autonomia e profissionalismo. Tudo funcionou com perfeição.

As trocas realizadas entre os brincantes, artistas de diversas regiões, não tem preço. Para o ano de 2018, um ano eleitoral e portanto um ano difícil de manter a unidade diante das diferenças políticas, a Pisada do Sertão deu mais uma demonstração de capacidade técnica na produção do evento. Sabemos como é raro conquistar recursos pela Lei Rouanet nos rincões brasileiros. Mas no segundo ano as grandes novidades eram exatamente a ampliação da Rota, com a cidade de Cajazeiras estreando. As primeiras captações de recursos via Lei Rouanet deram fôlego para este que já é considerado o maior evento do sertão da Paraíba. A convicção e o entusiasmo de todos os órgãos envolvidos, o profissionalismo e a aura de política pública garantiram o futuro da Rota do Sol.

A Paraíba assegurou presença na agenda anual da IOV – Seção Brasil, Organização Internacional de Folclore e Artes Populares, garantindo o intercâmbio artístico com diferentes regiões e países. No mais, a Rota deu visibilidade para municípios pequenos, mas com grande potencialidade. Beneficiou todas as cidades na mesma proporção, independentemente da sua área geográfica ou população. Não interferiu em nenhum calendário local, criando novas perspectivas para os municípios. Abriram-se possibilidades de tornar públicas as ações das próprias prefeituras, seja na área da cultura, educação ou ação social. Desta forma, acreditamos que o futuro da Rota do Sol ainda vai iluminar muito os caminhos de uma região sofrida que tem como grande riqueza um povo generoso, talentoso e criativo.


Lau Siqueira

terça-feira, 31 de julho de 2018

RIDÍCULO

Sim, já fiz algumas loucuras na vida. Muitas, aliás. Quero fazer mais, inclusive. Já me senti ridículo muitas vezes e quero mais. Não me envergonho dos meus defeitos pois são pura revelação e algumas vezes, rebeldia. Já senti na pele a dor alheia e vou ainda sentir muitas outras. Gosto de mirar no que sobra quando não sobra nada. Tem ausência que morfina o vento. Aprendi a silenciar quando a minha alma grita. Aprendi a suportar quando o coração explode. Já tentei muitas coisas. Desisti de outras tantas. Vou continuar tentando. A tentação me movimenta, me modifica. Viver é esse passo cada vez mais pro fundo, pra dentro do que se revela fora. Há um espelho resguardando meus segredos e a minha biografia escrevo todo dia. Tudo recomeça quando abro os olhos, respiro fundo, olho pra memória e digo: bom dia sua linda, vem comigo. No caminho eu explico.

ÁSPERO

Seguinte: mergulho é mergulho. Em qualquer profundidade. É o voo mais vivo e veloz. Até mesmo com medo. Morto de medo. Cagado de medo. O medo é sempre a possibilidade de enfrentá-lo. Mergulhar é sempre mais que uma necessidade. É inevitável. É imprescindível. Como o pássarto que experimenta as asas no topo do penhasco. Mergulhar sempre. Até mesmo no raso. Pois nada mais raso que a pele. Mas, nada mais produndo que a pele. Só não vale o mergulho no vazio. Porque no vazio nem o nada existe. O vazio não é um retrato do medo, mas a inversão da coragem.

sábado, 28 de julho de 2018

MARGEM ALGUMA



Sim, já fiz algumas loucuras na vida. Muitas, aliás. Quero fazer mais, inclusive. Já me senti ridículo muitas vezes e quero mais. Não me envergonho dos meus defeitos pois são pura revelação e algumas vezes, rebeldia. Já senti na pele a dor alheia e vou ainda sentir muitas outras. Gosto de mirar no que sobra quando não sobra nada. Tem ausência que morfina o vento. Aprendi a silenciar quando a minha alma grita. Aprendi a suportar quando o coração explode. Já tentei muitas coisas. Desisti de outras tantas. Vou continuar tentando. A tentação me movimenta, me modifica. Viver é esse passo cada vez mais pro fundo, pra dentro do que se revela fora. Há um espelho resguardando meus segredos e a minha biografia escrevo todo dia. Tudo recomeça quando abro os olhos, respiro fundo, olho pra memória e digo: bom dia sua linda, vem comigo. No caminho eu explico.

terça-feira, 24 de julho de 2018

COMO ERA DOCE SER RUDE

Lembro que no dia 3 de dezembro de 1977, em frente ao leito de morte do meu velho, abracei minha tia pensando que era a minha mãe. Elas eram muito parecidas. Minha mãe se chamava Maria Joanna. Assim mesmo, com letras repetidas. Minha tia se chamava Egídia. Mas os sobrinhos e sobrinhas, irmãos e as irmãs gostavam de chama-la de Tatá. Tatá era um doce. Uma abelhinha linda que passou pelo mundo. Tinha um filho que morava na Charqueada. Todavia, demonstrava um carinho enorme por mim. Aquele amor foi um aprendizado e eu não sabia. Viver entre aquelas pessoas era um porto seguro. Aprendi a ser carinhoso e respeitoso com meus tios e minhas tias. Fui educado para respeitar os mais velhos. Para me fazer respeitar, também. Era lei lá em casa. Ser acolhido por Tatá, era algo de uma doçura infinita. Uma experiência plena de ternura. Por isso sempre visito Jaguarão,cidade onde nasci e onde conheci minha gente. Tenho uma boa lembrança em cada esquina. Tenho dores, também. Mas a experiência de ser amado é insuperável. Incrível o impulso que dá na vida do sujeito. Essa bagagem eu trago de lá. Quando fui morar em Porto Alegre, passamos a nos ver pouco. Cadas vez menos. Mas, toda vez que eu ia visitar minha mãe em Jaguarão Tatá corria lá em casa e a alegria do encontro era algo imenso em nossas vidas. Tatá me visitava. Gostava de mim. Era daquelas pessoas para se passar uma tarde inteira conversando, sem cansar.
O entardecer nos pampas sempre vinha regado de chimarrão. As pessoas valiam mais que as coisas. Parece que era essa a diferença marcante daquele tempo. Tatá, por exemplo, era boa, terna, coração enorme. Firme nas suas fragilidades. Minhas tias e meus tios eram pessoas limpas e honradas, sorriso franco. Tive o privilégio de ver isso e trazer para a minha vida essa leitura. Minha tia "Carioca" (apelido) tinha o sorriso mais bonito que já vi. Pura expressão de alegria. Muita ternura no gesto e no olhar. O tempo foi engolindo essas imagens, mas a lembrança foi sendo estruturada na memória dos meus afetos. Foi assim que comecei a costurar minha vida para cobrir o meu tempo na Terra. Tatá morreu. Meus tios e tias morreram todos. Maternos e paternos. Minha mãe e meu pai também se foram. Até minha irmã, tão precocemente. A morte não manda recado. Todavia, fui me encharcando de vida. Sem medo de me afogar. Seja no raso ou no fundo. Mergulhar é saber que na verdade a vida é um rio passando. No raso há apenas uma vitrine.Espelho d'água que esconde os peixes e as pedras. Esconde até a água, às vezes. A água de um rio cada vez mais longe da nascente. O tempo é um rio cada vez mais longe...

NOVO É O ANO, MAS O TEMPO É ANTIGO

Não há o que dizer sobre o ano que chega. Tem fogos no reveillon. A maioria estará de branco. Eu nem vou ver os fogos e nem estarei de b...