Pesquisar este blog

sábado, 15 de março de 2008

Para onde vai o nosso carnaval?

Lau Siqueira

De que matéria é feito o carnaval nordestino? Para a grande e estreita mídia colonialista do sul/sudeste, a matéria do carnaval nordestino se divide entre o frevo das Casas Pernambucanas e o sambaxé das Casas Bahia. Ponto final. O Armazém Paraíba fica de fora. Mas, deverá também ficar de fora das nossas reflexões?
Desculpem, mas não poderia começar a refletir sobre um tema de tamanha relevância sem uma boa dose de ironia para com a esperta e ausente iniciativa privada. Um produto cultural rentável, como o carnaval nordestino, que somente este ano movimentou 283 milhões em Recife, precisa ser pensado em João Pessoa com suficiente objetividade para se oferecer como alternativa aos grandes pólos da folia nordestina e, conseqüentemente, beber das águas abundantes da sua lucratividade.
Não é possível mais observarmos as movimentações da máquina pública sem que se tenha lucidamente apontado o caminho das suas ações. Os carnavais nordestinos de sucesso se tornaram multiculturais (e até multinacionais), com uma preponderância absoluta, no caso de Pernambuco, da cultura popular. O debate sobre o multiculturalismo até parece uma invenção de Recife. No entanto, há tempos faz parte das reflexões de um dos mais conhecidos filósofos contemporâneos, Jürgen Habermas. Ele afirma que “a cidadania é definida pelos direitos civis. Mas temos que considerar também que os cidadãos são pessoas que desenvolveram sua identidade pessoal no contexto de certas tradições, em ambientes culturais específicos, e que precisam desses contextos para conservar sua identidade.” Essa identidade, bastante “transformista” na Bahia, mas decididamente de raiz em Pernambuco, é o fole da impulsão econômica. Por que não poderia ser também por aqui?
Em João Pessoa, a principal expectativa de um carnaval com identidade cultural e perspectiva econômica, penso, está no Carnaval Tradição. Um evento que vem sobrevivendo às turras através das décadas, envolvendo comunidades tão excluídas quanto aguerridas e que se mobilizam em torno de três expressões básicas: o samba, o frevo e o caboclinhos. Três das mais importantes vertentes da cultura popular, aliás. Importantes pontos de partida para uma discussão acerca da revitalização de um evento paupérrimo em investimentos públicos e privados, mas rico no sentido de uma importância estratégica para o fomento da economia das comunidades, a partir da agregação de valores culturais e educacionais no aprimoramento do que já existe.
Por que o Carnaval Tradição e não o Folia de Rua, como referencial? Primeiro porque, atualmente, quando se fala em Folia de Rua, é preciso que se pergunte: qual deles? Com ou sem Muriçocas? Com pagodão virado ou com frevo rasgado? Com cordas ou sem cordas? Com abadás ou sem abadás? Ou seja: parte do Folia de Rua micaroalizou-se. Esta é a realidade. Desta forma perdeu a unidade para uma discussão acerca da sua identidade enquanto instrumento de identidade para um carnaval genuinamente pessoense. Sabe-se que até mesmo alguns abadás são confeccionados fora. Uma ação que pode até ser irrefletida mas, seguramente, conserva o vinco neoliberal visto que a única regra do liberalismo é mesmo o lucro concentrado.
E aí vamos para o vale tudo, para o “cada um por si”. Só não vale pensar na aldeia e nas possibilidades colonizantes em pequenas ou largas escalas, dependendo da circunstância. E não resgato e incluo no debate esse modelo nocivo ao que se propõe, se não pelo seu caráter excludente, monopolista, concentrador de renda e diluidor das identidades culturais dos povos.
Conta-se que no período que se seguia a Micaroa, a cidade vivia um vácuo econômico de dar dó. Não é para menos: os trios, os artistas, os abadás, os idealizadores e até mesmo as latinhas de cerveja vendidas no cercado de cordas, vinham da Bahia. Eles estão errados? Não. A cidade de João Pessoa é que precisava abandonar o espírito de colônia dos grandes centros nordestinos e pensar nas suas próprias soluções usando como ponto de partida o velho ditado popular: “farinha pouca, meu pirão primeiro. “

Um Carnaval de João Pessoa, enquanto produto cultural de identidade e com razoável potencialidade na impulsão da economia local passa diretamente pelo fortalecimento da poderosa cultura popular oriunda da próspera Capitania de Itamaracá que, às vezes nos confunde com Pernambuco ou nos revela uma paraibanidade que ao contrário de estabelecer uma competitividade nociva, amplia as possibilidades regionais, certamente com muito mais benefícios e menos malefícios que a transposição a fórceps do Velho Chico.
Em recentes viagens a cidades próximas como Caaporã e Campina Grande, em pleno período momesco, pude reforçar a idéia de um carnaval multicultural, poderoso economicamente e com identidade perante o Brasil e o mundo. Nessa trajetória de poucos quilômetros, cruzei com Alaursas pelas ruas e na Avenida Duarte da Silveira, com seus batuques instigados, um boi e seus seguidores atravessando a BR em Cajá e um maracatu rural em Caaporã. Enfim, elementos de uma resistente cultura indígena e negra que, somadas ao aprimoramento do chamado Carnaval Tradição, poderá criar um pólo irradiador de elementos que, uma vez agregados, poderão trazer para João Pessoa uma nova perspectiva na economia da cultura e nas potencialidades da cultura popular como instrumento de consolidação de uma identidade local. Enfim, temos essas possibilidades para discutir neste início de ano. E o carnaval que precisa estar em pauta nesse debate, não é o carnaval do passado, mas o carnaval do futuro.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Como na Idade Média

A qualidade da produção literária paraibana não é novidade. Também não é novidade a boa relação que a maioria dos escritores mantêm entre si. Há uns três anos, encontrei alguns deles num Café do Shopping Sul. Pensei se tratar de um encontro casual de amigos no agradável bairro do Bancários. Comunidade conhecida, aliás, por abrigar boa parte dos artistas, escritores e produtores culturais da capital da Paraíba.
Ledo e Ivo engano. Tratava-se da segunda reunião do que viria a ser o Clube do Conto da Paraíba. Testemunhei, pois, o nascedouro do que hoje transborda nesta edição da coletânea “Histórias de Sábado”. Um pouco oficina literária, um pouco de mesa de debates, um pouco roda de amigos, um tanto de coisas feitas, idéias construídas... Convergência de criaturas cujo prazer maior naqueles momentos partilhados é a artesania, a alquimia e sobretudo, a discussão sobre as suas produções semanais.
Os integrantes do Clube do Conto da Paraíba, desde a sua criação até a edição deste volume reúnem-se semanalmente para propor temas, expor a produção da semana anterior e apontar seus olhares críticos. Ninguém sai ileso. Ninguém poupa ninguém. São agudas as críticas. Ainda que o grupo seja bastante heterogêneo. Afinal, como escreveu Schopenhauer, “devemos descobrir os erros estilísticos nos escritos dos outros para evitar nos nossos”..
De escritores já com os pés e as mãos no mercado editorial brasileiro (e até internacional, como é o caso de Valéria) a estudantes. Pouco importa. Neste Clube, o ingresso é o amor à palavra. Este é o sentimento que prevalece na composição efetiva e afetiva de uma entidade anárquica, sem chefia mas com direção. Quem dirige o Clube do Conto da Paraíba, é o compromisso com a boa literatura. Pelo que testemunhamos nesta edição, uma Literatura maiúscula.
E tudo começou assim, como na Idade Média, quando os povos se reuniam ao redor do fogo. Também como faziam os hippyes e os índios, na canção de Rita Lee. A produção aqui reunida borbulha no espelho d’água de um caldeirão de motivos para ancorar nossos mais sinceros sorrisos. Sejamos, pois, razão e conseqüência desta chama! Porque como dizia Roland Barthes, “a Literatura contém muitos saberes.”

(Os textos neste blog, não terão ordem qualquer. Este, por exemplo, é o texto de apresentação da coletânea Histórias de Sábado, do Clube do Conto da Paraíba)

domingo, 2 de março de 2008

Gestão Cultural e o Trem (Expresso) da História

(Anotações para uma vivência cotidiana)


Lau Siqueira

Pensar e executar políticas públicas jamais foi tarefa exclusiva de qualquer instituição pública. Faz-se necessária a construção de parcerias com capacidade de esticar mais e mais os braços burocráticos e executivos das engrenagens administrativas do setor público. O programa dos Pontos de Cultura, do MinC, é um bom exemplo de institucionalização dessas parcerias. Por outro lado, jamais teremos a plenitude de uma política de turismo parceira da cultura, por exemplo, se não tivermos como âncora a participação efetiva do micro e médio empresariado que, via de regra, trata-se de um segmento que “vive a cidade” e sobrevive do seu vigor econômico. Também, jamais teremos uma política cultural verdadeiramente educativa e cidadã se os gestores públicos não aprenderem a escutar as comunidades, aprendendo sobre seus mitos e incorporando os seus aprendizados. Não quero dizer com isto que devamos mergulhar no tabuleiro das demandas, de um lado e de outro, uma vez que a missão de uma política cultural conseqüente é muito mais de fomento que de promoção, em qualquer área.
Por outro lado, nos parece lógico – e até mesmo ideológico - o entendimento que as políticas culturais devam ser empurradas para dentro das estratégias de desenvolvimento econômico dos governos. Mas, não só para dentro das estratégias econômicas onde, aliás, serão geradas as possibilidades de mercado para os artistas. Também para o disciplinamento da vivência coletiva, num debate que certamente será profícuo tanto com o meio ambiente, quanto com a educação, a saúde, o patrimônio histórico ou mesmo com as especificidades do tecido social, algumas delas já institucionalizadas em diversas instâncias. Como é o caso das coordenadorias de mulheres, negros, índios, ciganos, diversidade sexual e outros segmentos ditos de “minoria” que, na verdade, formam a grande maioria do povo brasileiro.
Não é possível que ainda pensemos as políticas culturais apenas quanto às relações de poder que se criam em torno da execução de eventos, eleitorais, inclusive. Também não é possível que pensemos políticas de pedagogia cultural, sem que seja considerada a complexidade e a diversidade das causas da exclusão. Até porque é nesse momento que entra no debate, o fator econômico, ingenuamente refugado do debate por alguns. Essa bifurcação de contrários é, provavelmente, uma das tentativas mais próximas da exatidão e da elucidação dos nossos sonhos socialistas e libertários. A nossa utopia ainda é a mesma: entender a realidade para depois transformá-la. Este é um debate que infelizmente não cabe, por exemplo, no comportamento pós-eleitoral dos segmentos culturais mais próximos de uma perspectiva governamental. E em todos esses casos quem “paga a conta”, do sucesso ou do desastre, não é o gestor ou o empreendedor, mas o cidadão e a cidadã independentemente de ser ou não de um segmento cuja condição social permite sobras monetárias para bancar deleites estéticos ou simplesmente entretenimentos gerados pela cultura em seus diferentes níveis de industrialização ou resistência.
Eis o motivo pelo qual concluímos que, necessariamente, jamais a gestão cultural de qualquer município, estado ou país poderá ser de execução exclusiva das suas instituições culturais. A menos que o que se queira seja apenas deixar que fluam as vaidades pessoais em torno de questões indiscutíveis, como probidade e competência administrativa para a execução de programas que representam apenas a ponta de um iceberg ilustrativo. O caso mais emblemático é o das leis de incentivo. Afinal, bem ou mal administradas, não podemos supor que as políticas culturais devam resumir-se a elas e aos diversos tipos de editais públicos existentes ou pensados. Aliás, todos de importância indiscutível, mas cuja aplicação precisa ser ainda muito aperfeiçoada para deixar de representar interesses segmentados ou simplesmente de indivíduos, muitas vezes, nada confiáveis.
Tudo isso precisa acontecer dentro de uma conjunção de ações culturais, pensadas, política, estética e filosoficamente, num direcionamento de prioridades muito transparente porque executado a partir de um pensamento cuja expressão é - e é imprescindível que seja – pública e mutante, como propõe para o debate (estético, no caso) o livro “Obra Aberta”, do italiano Umberto Eco.
Não estamos aqui trazendo nenhuma novidade. Somente para ilustrar, já em 1964, o poeta Ferreira Gullar (cujo envolvimento social sempre foi inequívoco) publicou o ensaio “Cultura Posta em Questão”, às vésperas do golpe militar. Ele buscava discutir temas culturais, equacionando a cultura nacional dentro do quadro geral dos problemas brasileiros. Entendemos, portanto, que as políticas de gestão cultural não se resumem na execução burocrática com repercussão midiática direcionada muito mais para a vaidade dos gestores de plantão do que para as necessidades coletivas de informação e formação. A questão é bem mais ampla. Portanto, as reflexões mais sólidas são as que partem das experiências concretas que tanto as gestões populares quanto os movimentos sociais buscaram e buscam implementar.
No caso específico do “ensaio-manifesto” de Ferreira Gullar, os palcos dos debates foram os históricos Centros Populares de Cultura (CPCs), da UNE (União Nacional dos Estudantes) que contribuíram para as novas gerações com uma experiência de aplicação de uma política cultural cujos efeitos ainda exigem de nosotros uma compreensão mais exata. Afinal, são experiências concretas e históricas em busca da democratização da cultura dentro de um processo social mais abrangente, ainda que tenham refletido o autoritarismo stalinista nos rescaldos da Guerra Fria.
Não quero entrar no mérito do torniquete ideológico do partidão que, naquele momento histórico, segundo pensadores como Lúcia Santaella, acabava engessando a produção cultural dentro dos modelos equivocados do chamado “Realismo Socialista” que revelou expressões como Máximo Gorki e estrangulou uma infinidade de outros artistas e pensadores. Concretamente, esta experiência gerada na UNE, acabou não permitindo a expansão das suas raízes do nascedouro do movimento estudantil da época, às fábricas e ao campesinato. Ainda assim, constitui-se numa das principais referências para um processo de inclusão da cultura na pauta das lutas gerais da sociedade, apesar do equivocado patrulhamento estético e político que gerou.
“Romantismo” possível nesse início de Terceiro Milênio, é colocar em curso um projeto de execução permanente de políticas públicas para a cultura, num diâmetro que vai da pedagogia social, aos trâmites do desenvolvimento de uma perspectiva de mercado que, para os artistas, significa mercado de trabalho e para a sociedade, significa a abertura de mais uma porta para a geração de emprego e renda, formal e informal. Esta é uma questão de absoluta visibilidade até mesmo nos menores eventos culturais, onde os bares contratam serviços extras, a rede hoteleira precisa contratar mais para atender melhor e até mesmo a economia informal (que alguns querem tratam como invisível) mostra sua cara de satisfação com a movimentação monetária gerada por determinada ação cultural.
A necessidade de juntar, unir, montar e remontar o diagrama social que nos cerca, nasce no que há de mais evidente e palpável. Ou seja: nas relações profissionais, afetivas e políticas que cercam o nosso cotidiano. Nada disso está muito distante do “bom dia” dado ao porteiro, não por educação, mas por convicção da importância do seu trabalho para o resultado final de qualquer ação administrativa ou cultural, dentro de um determinado contexto.
Em última análise, penso que estamos diante de uma poderosa locomotiva. O trem da história não é mais uma Maria-Fumaça. Agora somos viajantes de um Trem-Bala. Vivemos a era das velocidades. As vantagens e desvantagens conjunturais dependem, primordialmente, da nossa capacidade de buscar compreender a nossa circunstância e o seu estado de ebulição permanente.
Estamos numa época que, viver sem reflexões permanentes significa referendar a degradação moral e ética, dados os graus de banalização dos valores que nos assombram pelo poder de publicidade, caminho pelo qual se vestem de normalidade. Coisa, aliás, que se estende ao debate estético, da tradição à vanguarda. Não se trata, pois, resumir-se à troca de acusações autofágicas que arrastam personalidades patológicas em torno de disputas que, calcadas em nítidos interesses pessoais, retardam o debate cultural e, conseqüentemente, a evolução da nossa sociedade para um patamar com menores índices de barbárie. Longe disso! Na verdade, “é preciso estar atento e forte”, afinal, não temos tempo de temer o futuro.