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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A SÍNDROME DE SHERAZADE

Por Lau Siqueira

A jornalista paraibana Rachel Sherazade, apresentadora do SBT, vem despertando paixão e repulsa.  Não que isso pareça incomodá-la. Absolutamente. No gênero Bolsonaro News, ela é top-midia e parece realizada.  Não está onde está gratuitamente. Sua credencial é o que defende e o que difunde.  Serve a uma  corrente ideológica muito bem definida. Representa as maquiagens de uma tribo ressentida e amargurada com a persistência democrática. Afinal, o Brasil elegeu um operário presidente e depois uma ex-prisioneira política. Não que isso tenha transformado profundamente a cultura dominante.  Se assim fosse, estaríamos  punindo os barões do crime muito antes de acorrentar adolescentes negros e pobres, acusados de pequenos furtos. Mas, a elite nunca engoliu isso.

Em 2014 teremos eleição. A violência será pautada com o cinismo de sempre. Pouco se falará do assassinato de mulheres. Menos ainda, da violência cotidiana dos machos em alguns lares. A banalização midiática encobrirá a erotização da infância e a pedofilia. Os debates não  pautarão os assassinatos por homofobia ou racismo. Pouco se falará do extermínio de jovens negros nas periferias. A direita clássica irá se reportar ao adolescente pobre que rouba o celular, o tablet ou a bolsa da classe média. Não vamos nos iludir. Em 2014, mais uma vez, a verdade terá morte súbita. As ideias sobre Educação e Saúde públicas, salvo as exceções, serão velhos engodos. Fatos corriqueiros nas grandes cidades serão pinçados e mais uma vez a redução da maioridade penal revelará o rosto e o discurso de uma direita que odeia e combate a diversidade humana.

Os candidatos conservadores deveriam topar os inúmeros debates convocados pelos movimentos sociais.  Deveriam realmente nos convencer que o problema da violência é tão banal que basta criminalizar a infância e tudo se resolverá.  Todavia, duvido muito.  Não resistiriam uma discussão mais densa. Por isso, insistem na mentira, ancorados na manipulação da opinião pública. Principalmente porque uma coisa é certa: a punição sequencial da maioria pobre e negra não é problema.  Mas, os delinquentes de classe média continuam brindando em ‘habeas-cópus’.

É a impunidade como forma de dominação que precisa ser debatida. Punir quem já é punido desde o nascimento é fácil. Outro dia ouvi a poeta e filósofa Viviane Mosé dizer que atualmente, em nosso país, basta alguém levantar a mão e dizer algo em nome da verdade e já consegue adeptos. É a Síndrome de Sherazade! Estamos à beira do fascismo. Quem não for contido pela reflexão, será engolido pelo obscurantismo. Pensar nunca pesou no bolso. Mas, pode fazer estragos na  consciência.

Este artigo estará no Jornal A União, João Pessoa-PB, amanhã, 28 de fevereiro de 2014.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

CULTURA, MERCADO E REALIDADE REGIONAL


Por Lau Siqueira

Considero o francês Edgar Morin um dos mais lúcidos pensadores do mundo contemporâneo. O que é pensado sobre a Europa do século XX, serve para a realidade do Cariri, do Curimataú, do Seridó, do Brejo ou qualquer região da Paraíba neste começo do século XXI. A homogeneização, a padronização, a degradação e o extravio das diversidades culturais, pelo menos, se assemelham. Não é de outra coisa que Morin está falando no livro “Rumo ao Abismo? – Ensaio sobre o destino da humanidade” se não da chegada dos paredões e da mercantilização da cultura nos terrenos sagrados da diversidade e da identidade cultural nordestina, nos sítios onde ainda resistem os Bois de Reis, os Reisados e as bandas  de Pífano. Claro que não é só na Paraíba. Em outras regiões também é assim. Do município de Cruzeiro do Sul, no Acre até Uruguaiana, no extremo sul do RS. Somos regidos pela globalização.

Movida pelo jabá, a mídia cumpre um trágico papel neste cenário. George Orwell já falava disso no livro 1984. Segundo Orwell, nesse tempo de modernidades diluídas que vivemos, as músicas seriam feitas por computador. Se não é isso que acontece hoje, é quase isso. Mas, não é apenas na música, onde o time do “lek lek lek” vai goleando o time do “tengo lengo tengo”. Também o fenômeno ocorre em outras áreas. Até mesmo na fabricação de instrumentos. Um certo luthier de Cajazeiras não fabrica mais violinos, pois não há como competir com a produção  massificada do capitalismo selvagem made in  China.

As mazelas da mercantilização não são poucas. É onde mora a lógica do capital: o lucro como objeto do desejo. O pão e o circo em algumas demandas culturais devastadoras, enriquece ilicitamente bandidos simpáticos e sustenta os rebolados nas demandas sociais mais deprimentes. Como a erotização da infância, a degradação da imagem feminina e a homofobia, por exemplo. Algumas expressões musicais, sem dúvidas, muito antes de demarcar terreno no populismo cultural, avançam sobre processos de corrupção e aniquilamento das identidades regionais alijadas de qualquer disputa num mercado monopolista. Os Mestres da cultura tradicional brasileira correm o risco de desaparecimento em nome de um “folclore planetário”. Os focos de resistência em governos ditos progressistas começam a escorrer pelos dedos. Os mercados locais e regionais da cultura passaram a ser objeto de movimentos da sociedade e não mais de governos que optaram pelo popuaresco, desprezando uma geração inteira de criadores, pensadores e Mestres da Cultura. Seja nos pampas, no cerrado ou nos sertões. Enfim, o século XXI potencializa suas mazelas. Todavia, quando o cenário é de ameaças, o palco é da resistência.

Artigo publicado hoje no Jornal A União - Paraíba, João Pessoa.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Cantigas de celebração da vida

por Lau Siquiera

Sandra Belê é uma artista que surpreende sempre. Seja pelo enraizamento nas tradições culturais do Cariri, ou porque aprendeu a voar longe e alto. 
Coleciona pássaros no olhar. Possui raízes profundas e asas longas. Canta muito além das medidas de lugar e tempo. Revela que modernidade e tradição podem somar sintonias. Todavia, mesmo cantando coco de roda, ciranda, aboio ou forró, nunca foi apenas uma cantora regional. É universal até na pequena Zabelê, onde nasceu. Transita com elegância entre a identidade cultural do seu povo e a imensa diversidade da música contemporânea. Representa o que há de mais complexo na metalurgia e na história da comunidade musical brasileira.

Aprendiz dos Mestres caririzeiros, compreende a música enquanto linguagem de um mundo em ebulição. Todavia, o que é mais impactante nessa sua nova fase é a ousadia.  Através de uma pesquisa realizada no curso de Arte Mídia da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG mergulhou fundo na ancestralidade cultural nordestina.  E cavou uma experimentação radical. “Cantando para o eterno” é o título de um trabalho singular ainda em fase experimental. Apresentado uma única vez em Campina Grande. Na pesquisa, mergulhou nos escaninhos da memória de onde extraiu as últimas cinzas das “Incelenças” - cânticos tradicionalmente executados em funerais ou na cabeceira de enfermos em estado terminal. Um tipo de atenuante do sofrimento humano. Uma raridade existente ainda em poucas regiões do planeta.

A cantora teve a ousada sabedoria de pesquisar essas expressões e traduzi-las para o universo contemporâneo da música. Canta acompanhada pela batida eletrônica. Arranjos belíssimos de Gregg Mervine. Conta ainda com a direção musical do competente etnomusicólogo Romério Zeferino. Costura uma tradição das mais antigas na levada futurista das tecnologias da musica. Mas, as “Incelenças” não podem ser estigmatizadas como cantos de morte. Principalmente porque na voz de Sandra Belê se transformam em celebração da vida. Há registro, inclusive, da sua prática enquanto prece diante de doenças, estiagens ou mesmo inundações.


É um canto de esperança e salvação. Ao revitalizar esta tradição, o mérito da artista foi cerzir um arco-íris numa estrutura rítmica bastante simples. Multiplicação de possibilidades na complexidade dos arranjos. Verdadeiros contrapontos sonoros.  Tecnologia e ancestralidade se misturam para tecer um produto final de gosto mui refinado. Eis um segredo que somente se revelará numa simbiose entre a artista e seu público. Num povoamento de pequenas multidões antenadas em divinas porradas no comodismo do sucesso midiático.

Publicado em minha coluna no Jornal A União, 14.02.14.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Cultura não é qualquer coisa

por Lau Siqueira


O conceito de cultura é dos mais amplos. Quase tudo é cultura. Alguns pensam que cultura é coisa nenhuma. Coisa de artista. Delírio intelectual de pesquisadores. Todavia, esses não são os piores. Existem os que pensam que cultura é qualquer coisa. Esses é que são perigosos. São os que bancam as apelações e as aberrações estéticas e éticas da mídia dominante. Mas, quando o cenário é de retrocesso, o palco é de resistência. Por isso são vivas e vibrantes as palavras de Alceu Valença: “a maneira mais fácil de dominar um povo – e a mais sórdida também – é despi-lo de sua cultura natural, daquilo que o identifica enquanto um grupamento social homogênio, com linguagens e referências próprias.”
Com a eleição de Lula a cultura passou a arejar os gabinetes mofados de Brasília. As diretrizes ficaram mais animadoras. Era nítida a ampliação de uma geografia de investimentos  historicamente reduzida ao Rio e Sampa. O ministro Gilberto Gil chegou a Brasília junto com as comunidades tradicionais. Os povos indígenas,  quilombolas e ciganos enfim, ganharam visibilidade.  Elegemos Dilma com esperança de avançar ainda mais. Todavia, até agora só colecionamos desastres. Passamos por Ana de Holanda com o reconhecimento de um grande equívoco. Mas, a emenda ficou pior que o soneto: Martha Suplicy conseguiu a superação indesejada. No discurso de abertura da III Conferência Nacional de Cultura a ministra revelou que com o Vale-Cultura seria possível, por exemplo,  “comprar revista erótica”.  Causou um estarrecimento geral na plenária. Mas, a “irreverência” da ministra parece que repercutiu nas estratégias locais do PT. Não há mais qualquer constrangimento em liberar a pedagogia do rebolado, com todos os seus efeitos colaterais: a erotização da infância, a banalização da mulher, a apologia às drogas legais, a homofobia, o racismo, etc. Uma verdadeira condenação da identidade e da diversidade cultural  em nome de um “gosto popular” determinado pelo jabá. Um esquema de muita grana para uma viagem “da lama ao caos”.
Para se ter uma ideia do retrocesso, aqui em João Pessoa  Cícero Lucena (PSDB) prometeu retomar as contratações das “bandas de plástico”, caso vencesse as eleições em 2012, mas perdeu. Entretanto, a escolha de Aviões do Forró para o carnaval do Picolé de Manga, bloco do prefeito Cartaxo, mostra o quanto foram enganados os militantes culturais que votaram no PT  para derrotar  as pretensões do tucano. Mas, enfim. Parece que a cidade já acordou e começa a reagir. Ainda bem. (Dedico este artigo à memória do Mestre João do Boi)

Publicado no Jornal A União, 07.02.14