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sexta-feira, 20 de maio de 2011

Por que lancei meu livro num manicômio?


por Lau Siqueira
Algumas coisas não têm explicação. Ainda assim, nada impede que tenham uma história. Até agora lancei meu livro, Poesia Sem Pele, em lugares distintos e três cidades diferentes. No dia 5 de maio foi em Porto Alegre, na Casa de Cultura Mário Quintana. Um lugar extremamente poético que já abrigou durante anos, enquanto Hotel Majestic, o poeta Mário Quintana. Naquele belo Centro Cultural muita coisa estava acontecendo. No mesmo momento e local estavam lá Antônio Cícero, Zeca Baleiro, Anônio Nóbrega, Victor Ramil e outros artistas, com atividades em outros espaços. Ainda assim vendi razoavelmente meu livro. Uma bela edição do selo gaúcho Casa Verde. Mas, não era isso o que importava porque o meu objetivo não é vender livros nem criar momentos de badalação. O extraordinário para mim foi lançar um livro na minha terra amada, no meu pampa. O extraordinário era ser reconhecido pelos que fazem literatura na minha terra, depois de tanto tempo ausente. Na tarde seguinte, fui para o interior e no dia seguinte eu estava dialogando com o passado em frente ao túmulo dos meus pais, na fronteiriça Jaguarão, onde nasci.


No dia 10 de maio foi a vez de Curitiba, no Brooklyn Café, um lugar pra lá de charmoso. Depois, na mesma noite, ainda em Curitiba, participei de um sarau no Wonka, um local da cena alternativa da capital do Paraná, onde rolava uma performance da atriz Zoe Camaris. Fui para lá convidado pela poeta Marília Kubota, partilhando o lançamento de mais uma edição do Jornal Memai, de cultura japonesa. O Paraná, me dizia Marília, é a segunda maior colônia japonesa do Brasil. Também vendi livros, mas como disse não é esse o meu objetivo. É ótimo poder reduzir o impacto do prejuízo de um livro de poemas, por força da espontaneidade das pessoas. No entanto, emoções não são medidas em cifras. Foi maravilhoso conviver com poetas paranaenses, sendo recebido como velho amigo por pessoas que até então, no máximo, tinha algum contato pela internet.

Entretanto, as minhas emoções não se esgotaram por aí. Tudo aquilo era apenas o início de uma caminhada pelo tempo. Foi na cidade onde resido, sob a lona de um circo e dentro do estacionamento de um manicômio, o Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira, que eu fechei um ciclo da minha vida. Foi como se tivesse pagando uma enorme dívida com o silêncio. Em Jaguarão, colhi o olhar sofrido da fotografia colocada no túmulo do meu pai. Colhi ainda a doçura sempre imensa na fotografia da minha mãe (que morreu numa Lua Cheia). Nesses milhares de quilômetros que separam a cidade onde nasci da cidade onde moro, minha vida inteira veio sendo recontada e recolhida do esquecimento. O tempo havia perdido as suas configurações formais. Eu estava de frente para um espelho invisível, mirando algo muito distante e ao mesmo tempo muito presente. Era Lua Cheia, também, naquele dia 18 de maio de 2011. No dia anterior os místicos anunciavam a Lua Cheia de Buda. No dia seguinte, com a participação de profissionais da saúde mental e de pacientes do Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira, com a participação de amigos e amigas muito queridos e de muitas pessoas desconhecidas, mas que se mostraram parceiras de uma causa, aconteceu o lançamento. Com algumas ausências, certamente movidas por motivos justos e outras tantas movidas pelo preconceito, meu espírito transbordou.


Em meados dos anos 70, por algum motivo banal, ao reagir quando provocado por berrar seu pensamento. O cidadão Theodoro dos Santos que teria hoje 101 anos caso ainda fosse vivo, foi chamado de comunista (e não era) reagiu com fúria e acabou preso. Desde então nunca mais foi o mesmo. Sua alegria acabou ali. Lembro muito bem da imagem quando fui visitá-lo na prisão com uma das minhas irmãs. Eu tinha 13 anos, mas nunca mais saiu da minha memória aquele seu olhar de um intenso verde, brilhando de tristeza, de dor, de humilhação... Sua dignidade havia sido ferida de morte e meu pai, definitivamente, surtou. Algum tempo depois foi internado no Sanatório Roxo, em Pelotas, onde sofreu choques elétricos e, certamente, outros tipos de violência praticada por um sistema psiquiátrico criminoso. Não ficou muito tempo porque quando caiu a ficha para a minha família, fomos resgatá-lo e, até a sua morte no dia 03 de dezembro de 1977, ele foi cuidado por nós. Foi tratado com respeito. Foi amparado por um sentimento que às vezes é esquecido, mas que é fundamental para firmarmos nossas condições de seres humanos: o amor. Dois anos depois fui embora para Porto Alegre tentar algo para a minha vida que apenas começava. Minhas irmãs e minha mãe ficaram por lá. No final do ano de 1976, ao concluir o serviço militar, fui visitar meu pai já desenganado, com câncer e decidi ficar com ele até o fim. Fiquei o ano inteiro em Jaguarão, até a sua morte. Desde então, aprendi a lidar com os estigmas, com os preconceitos e, definitivamente, me fiz poeta de palavras nuas. Não escrevo, pois, movido por vaidades, mas por necessidades, por erupção da minha condição de gente, de cidadão que mergulha na linguagem para respirar melhor neste mundo insano, de desigualdades e de hipocrisias.


Quando fui chamado pela Dra. Flávia Fernando, diretora do Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira, para discutir a programação cultural da I Semana de Luta Antimanicomial da Paraíba, a memória me resgatou do futuro. Conheci um grupo de jovens engajados nesta luta e revi alguns amigos artistas que já trabalhavam nos CAPS. Achei que era um momento histórico especialíssimo para partilhar alguns dos motivos das minhas mais densas emoções. Afinal, alguma coisa estava mudando na cidade que escolhi pra viver. Foi inevitável a atitude de propor que o lançamento da minha Poesia Sem Pele fosse feito por lá. Era como se estivesse ocorrendo uma cospiração cósmica que para isso tudo saísse da vontade para a realidade. Agora, poucos dias depois, muito mais ainda, estou convencido que não poderia ser diferente. Dediquei aquela noite ao homem que foi meu exemplo de generosidade, de solidariedade, de honestidade e de dignidade. O homem que me levou pela primeira vez, aos cinco anos, para uma atividade política. Na oportunidade eu me divertia andando a cavalo e colando cartazes da contundente Campanha da Legalidade. O inverno era menor que meu pequeno pala. Eu e meu velho éramos agentes de um ato contra o golpe de estado que já se desenhava e que mais tarde se consolidou e tornou o país refém de uma fúria conservadora. Uma idéia de mundo que, ironicamente, iria vitimar também aquele eterno campesino de princípios inquebrantáveis.


Enfim, não foi contra o passado que a minha existência se debateu na noite do dia 18 de maio de 2011. Primeiramente na trovoada de tambores do Círculo de Tambores, depois nos depoimentos de profissionais, de pacientes e de impacientes como eu. E logo em seguida, na chuva musicando a noite no instrumento milenar que é a estrutura de um circo. Foi assim que afirmei e reafirmo minha militância por um mundo mais justo, sem fronteiras de qualquer espécie. Foi assim que afirmei com toda a força dos meus caminhos pelo mundo, a minha militância antimanicomial. Espero que, definitivamente, nunca mais tenha que justificar o lançamento de um livro. (Afinal, não foram poucas as pessoas que me pediram para justificar a escolha do local.) Penso que a poesia precisa compor o quadro da nossa razão, do intelecto. Mas, também da nossa capacidade de desenvolver a imaginação, da nossa emoção, da nossa erudição cósmica, da nossa simplicidade, mas, sobretudo, da nossa condição humana. E a vida continua, como disse num poema, “sem devolver nenhum dos pedaços”.