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sábado, 21 de novembro de 2009

A Feira do Livro de Porto Alegre entre os interesses do mercado e os da sociedade



Lau Siqueira

Há 25 anos não pisava na Feira do Livro de Porto Alegre. Um hiato bastante significativo para uma observação diferenciada de quem foi testemunhando as transformações cotidianas deste grande evento. Fui habitante assíduo daquele espaço. Visitante diário. Um “rato de feira”, como se diz. Se bem que sempre preferi ser apenas mais um ácaro. Na época não me parecia necessário refletir sobre os destinos da Feira, uma vez que eu era apenas um consumidor das minhas parcas possibilidades. Mesmo assim, notei que naquele tempo era possível encontrar Proust e Balzac nos balaios, coisa que nesta minha última visita pareceu absolutamente improvável. Até porque o gigantismo da Feira impediu uma investigação minuciosa em duas tardes de intenso “fuçamento” em balaios e stands.

O que me parece um primeiro e lamentável equívoco é observar-se a Feira do Livro de Porto Alegre apenas do ponto de vista do interesse econômico dos livreiros. Sim, a venda dos livros pode mesmo ter despencado 17%, conforme afirma a Câmara Riograndense do Livro. No entanto, dois aspectos precisam ser observados. O primeiro deles é a fuga do controle dos livreiros sobre a economia gerada pela Feira em seu entorno. Ou seja: precisamos observar o boom na área da economia criativa da cidade durante o evento, coisa que somente os incautos e os espertos entenderão que se resume à venda de livros. O segundo ponto a ser observado é comum na maioria dos eventos literários: a marginalização do autor e do leitor. Ou seja, o pecado da gula dos livreiros me parece que vem provocando um acentuado desprezo pelo início e pelo fim da cadeia produtiva do livro. Se isso é grave? É letal para um evento com a tradição da Feira do Livro de Porto Alegre.

Entrementes, não me parece que esse seja um problema específico da Feira do Livro de Porto Alegre. Ano passado, na Bienal do Livro de Fortaleza, participei de um debate com o “manda-chuvas” do Programa Nacional do Livro e da Leitura, José Castilho, sobre a circulação do livro no Nordeste. Tudo com um interesse, a princípio, radicalmente direcionado aos livreiros. Mais uma vez ao início e ao fim da cadeia produtiva do livro restou apenas o direito de levar um “cascudo”, em caso de questionamento. Foi o que aconteceu quando levantei o fato e recebi uma resposta bastante monossilábica e enjoada do Dr. José Castilho. O papo estava encerrado sem ter começado. Entrei na lista de discussões pela internet, acerca do mesmo tema, oriunda desse mesmo encontro de Fortaleza. No entanto, notei que os debates persistiam na filosofia da minhoca (sem cabeça e sem rabo). O autor e o leitor são detalhes insignificantes na lógica do mercado livreiro. Este fato me parece estranhamente consumado e lamentavelmente ignorado tanto pelos escritores quanto pelos consumidores de boa literatura. Podemos conferir, por exemplo, a insignificância de queixas nos Procons, contra livrarias e distribuidoras. E isso é péssimo porque qualquer mercado somente aceita o ajuste da marretada no cofre em nome dos direitos de cidadania.

Outras observações eu faria, mas ao abordar esses extremos, mesmo de forma jocosa (e não menos séria), o que eu quero dizer é que os problemas da Feira do Livro de Porto Alegre não são exclusivos deste magnífico evento que se sente sufocado pelo próprio gigantismo atingido. Todavia, devemos entender que é a própria visão do mercado do livro brasileiro que sofre de um retraimento devido ao pecado da gula do empresariado do setor. Por exemplo, a Feira do Livro foi sendo espichada até o Cais, certamente que com nenhum objetivo de afundar no Guayba. No entanto seus organizadores esqueceram que estavam, com isto, subtraindo de forma pouco inteligente o espaço de estacionamento dos consumidores. Desta forma, ou a clientela da Feira precisava escolher o tipo de assalto a ser submetida antes de cair nos preços pouco convidativos dos stands. Ou deixava o carro a mercê dos preços extorsivos praticados pelos estacionamentos do centro de Porto Alegre, ou aventurava-se deixando-o, por exemplo, no Alto da Bronze ou Parque da Marinha, arriscando-se em uma caminhada absolutamente insegura num centro charmoso, mas lamentavelmente abandonado pelas políticas de segurança pública.

Se não pensarmos que nada disso possa ter influência na queda das vendas, então podemos embarcar na canoa furada das opiniões vazias, como algumas que li nos jornais. Umas apontando para o conforto de comprar livros nas grandes redes de livrarias acopladas aos shoppings, outras citando até mesmo o “lamentável” progresso cibernético. Houve quem afirmasse, em um jornal local, que “há dez anos tinha conexão discada e que agora acessa tudo no Google”, como argumento à queda nas vendas dos livros. O mais lamentável disso tudo é que esse tipo de argumento pode levar uma reflexão sobre a Feira do Livro para um rumo inimaginável, historicamente falando, em termos de cultura livreira numa terra de grandes escritores como é o Rio Grande do Sul.

Parece-me coerente observar que a organização da Feira, assim como a maioria dos eventos literários, trata o autor (principalmente os emergentes), praticamente como intrusos e aproveitadores do mercado e os leitores, como uma massa a ser conduzida para os mais vagabundos caminhos da leitura fácil. Até porque o leitor crítico, ou seja, o amante da boa literatura é bastante chato e exigente. Não quanto a qualidade do ar rarefeito disputado pelas multidões da Feira, mas quanto a qualidade das obras à venda. Neste aspecto, sinceramente, achei mais cultural ser atendido pelos simpáticos atendentes do tradicional Cachorro do Rosário. A quantidade de stands da Feira, infelizmente, pouco respondeu em relação às necessidades básicas dos amantes da boa literatura. Em alguns, nunca vi tanto lixo impresso reunido. Parece que se optou mesmo em transformar a Feira num grande açougue de palavras. Não me pareceu importante refletir sobre a qualidade do produto oferecido. Me contaram que até mesmo os Jabutis e os Açorianos eram matéria rara (eu mesmo, nem vi).

Por outro lado, os stands das universidades gaúchas optaram por desconhecer completamente a realidade do tradicional público da Feira, optando pela exposição esmagadora dos chamados “livros técnicos”. Nas que visitei encontrei livros até mesmo de Educação Física (o que é muito bom), mas retratavam a completa desconexão da produção livreira das universidades gaúchas com a emergente produção teórica e criativa da terra de Moacyr Scliar, Carlos Nejar, Luiz Fernando Veríssimo e Donald Shuller. (Só para citar alguns dos grandes nomes gaúchos que orgulham a Literatura do Brasil.) Claro, impossível num contexto assim, repercutir o que vem sendo produzido pelos novos escritores gaúchos. Muito especialmente pelos de qualidade inquestionável. Esses, parece que já nem acreditam mais nas instituições e, muito menos, no chamado mercado do livro. A aventura dos blogs parece bem mais atraente que o Muro de Berlim das grandes editoras.

Portanto, analisando um evento como este, concluo que não há qualquer aposta do mercado do livro na Literatura. Mesmo os autores consagrados foram banidos dos planos deste lucrativo mercado. Isso não é privilégio da Feira do Livro de Porto Alegre. As vendas despencaram 17%? Sim, mas que tipo de reflexão isso pode gerar? Uma completa e covarde capitulação diante da lógica do mercado e do mau uso do conhecimento gerado pela cibercultura? Como diria, talvez, Pierre Levy, o consumidor da Feira do Livro de Porto Alegre ou de qualquer outro evento do gênero espalhado pelo país, ainda é “o mesmo homem que fala, enterra seus mortos e talha o sílex. Propagando-se até nós, o fogo de Prometeu cozinha os alimentos, endurece a argila, funde os metais, alimenta a máquina a vapor, corre nos cabos de alta-tensão, queima as centrais nucleares, explode nas armas e engenhos de destruição.” Portanto, não venham justificar a queda na venda dos livros com balelas desgastadas e de reflexão suprimida. Afinal, é o próprio modelo selvagem do capitalismo da Feira que está em franca decadência. Em alguns países, como a Austrália e a Inglaterra, a economia criativa (ou seja, a economia do conhecimento) transformou-se num vetor de desenvolvimento. Tony Blair chegou a criar o Ministério das Indústrias Criativas (sem chaminés) para gerir um setor que já domina 8% do Produto Interno Bruto Mundial.

A única saída para um evento do porte da Feira do Livro de Porto alegre é a Literatura. Da tradição à vanguarda. Dos clássicos aos contemporâneos. Parece que faltou cardápio num ambiente de intensa “degustação literária” como a praça da Alfândega. A produção emergente, a cena atual, precisa ter lugar de destaque e não apenas o cumprimento de agendas espremidas. Finalizo com o cochicho de Cavalheiro, um militar aposentado que, diante do stand (maravilhoso) da Caixa, o Degustação Literária, durante a palestra dinâmica de Laís Chaffe, recitou Olavo Bilac no meu ouvido e se queixou: “os grandes escritores foram banidos da Feira. O que resta de Literatura nessa Babilônia é muito pouco.” Isto vindo de um homem que testemunhou o nascimento da Feira, precisa ter algum eco entre a confraria dos patronos que a Câmara Riograndese do Livro concebe como único fórum legítimo para este debate. Um debate, aliás, que precisa ser maior que o sufocamento ao qual a Feira foi submetida devido à supremacia dos interesses imediatos dos livreiros. Livreiros que, aliás, não se preocupam minimamente com os mínimos detalhes, como o treinamento dos seus vendedores. As vendas despencaram? Sim, mas o que é que havia de atrativo aos consumidores? Livro não se compra por quilo. Pelo menos isso os livreiros deveriam entender.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A aventura mínima de Laís Chaffe e Marcelo Spalding



Lau Siqueira
O livro Minicontos & muito menos teve sua tarde de autógrafos no dia 12 de novembro, na Feira do Livro de Porto Alegre. Em todos os sentidos os seus autores buscaram a lógica dos pássaros: o máximo de canto no mínimo de corpo. Barbaramente ilustrado por Alexandre Oliveira, o livro de Laís Chaffe e Marcelo Spalding é apresentado por um design gráfico bastante criterioso chamado Auracebio Pereira. Tudo isso embalado pelo projeto editorial Casa Verde que já podemos considerar bem sucedido. Somente a série Lilliput já alcança seu quinto volume. Numa proposta conjugada, Marcelo e Laís desafiam a teoria errante que cerca a história do miniconto. Lembro que, também em Porto Alegre, ano passado, ouvi José Eduardo Degrazzia levantar a hipótese de serem as prosas poéticas de Baudelaire, a possível origem desse gênero instigante.

Partindo do raciocínio de Degrazzia podemos observar que o miniconto se aproxima mesmo da poesia em alguns aspectos. Principalmente quanto a impossibilidade de realizarmos uma leitura linear, tanto em um quanto em outro gênero. Na verdade, o miniconto também nos exige uma leitura em rede, algo que transporta o leitor na busca de uma completude, seja em leituras anteriores, seja em observações sobre a própria vida. Refletir sobre miniconto, nos carrega até o pensamento de Roberto Acíseo se Sousa em Teoria da Literatura (série princípios, Ed. Ática): “o que problematiza pela primeira vez a literatura é a própria literatura.

Assim, lendo este livro podemos afirmar que o que problematiza a teoria do miniconto é o próprio miniconto. Especialmente no caso específico de Laís e Marcelo. Pelo que pudemos perceber num primeiro olhar sobre a obra, a despeito das acentuadas diferenças de estilo, ambos vão construindo pequenos ensaios em textos curtíssimos (ou nem tanto), de profunda qualidade literária. Sobretudo pela imensa capacidade de causar espantos até mesmo no leitor mais atento, mais inclinado ao mergulho nas infinitas possibilidades de uma narrativa. Entre outras coisas, esse Minicontos e muito menos nos revela a vigorosa capacidade de renovação de uma literatura que já produziu nomes como Érico Veríssimo, Mário Quintana, Moacyr Scliar, João Gilberto Noll, entre outros que preencheriam uma referência bastante substantiva dentro da História da Literatura de Língua Portuguesa.

As pequenas pancadas narrativas de Laís Chaffe, ora lúdicas, ora líricas, reveladoras de uma ironia suavemente machadiana, conjugada com uma tonalidade bastante descritiva do discurso jornalístico, abrem um dos lados de um livro de múltiplas faces. Uma escrita que nos trás pérolas como “Genuflexório”: (“- Irmã? / - Sim, padre? / - Não aconteceu nada aqui, está bem? / - Louvado seja Deus Nosso Senhor. / Amem.”). Crítica social, crítica de costumes, revelações da natureza humana. Tudo num texto muito bem composto em sua própria nudez. Por outro lado, parece-nos um natural contraponto o texto de Spalding, sugerindo-nos um olhar transversal que ao mesmo tempo integra, dando uma idéia de conjunto (como se cada miniconto fosse um parágrafo de um mesmo texto), ao mesmo tempo que tumultua a possibilidade de uma leitura lógica (ou seja: é isso e nada disso). O autor vai tramando, na verdade, um corte diferencial até mesmo de uma frase para outra. Ou na mesma frase: “Quando acordou, já não estava mais lá” (talvez este seja um dos menores contos do mundo).

Podemos afirmar que houve uma natural afinidade entre Laís Chaffe e Marcelo Spalding, para a construção de um livro que se consolida tanto pela qualidade gráfica quanto pela complementaridade dos autores, em textos mergulhados numa compreensão comum de um gênero que sugere sua própria afirmação no jogo das transgressões mútuas. Desta forma podemos arriscar uma assertiva quanto a feliz conexão de dois estilos bem distintos, com identidades estéticas definidas, que vão nos jogando na volúpia de uma teoria do miniconto que se traduz na própria obra, abrigando um perau cuja própria condição íngreme vai propondo um conjunto de sensações que não se rendem à mesmice. Tudo isso transbordando de dentro de uma tradição literária que se sustenta no questionamento dos seus próprios processos de busca na sedução do leitor. De nada mais precisa a nova Literatura brasileira para afirmar-se no tempo.

Não estamos inventando nada. Na travessia do século XIX para o século XX, dizia-se que os estudos da literatura ancoravam-se nos aspectos mais científicos, onde o texto pouco importava, uma vez que havia uma determinação de explicar a literatura através das circunstâncias vividas pelo autor e suas ambientações inventivas. Neste início de século XXI, por alguns bons motivos, podemos especular a possibilidade de um texto ser, ao mesmo tempo, objeto de criação e de reflexão sobre ele mesmo. Por isso, Laís Chaffe e Marcelo Spalding podem estar inaugurando aqui uma nova era, uma nova perspectiva teórica para o miniconto. Elementos não nos faltam para a construção de um ensaio a esse respeito.
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