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quinta-feira, 26 de julho de 2012

O desejo do impossível

por Lau Siqueira
A literatura contemporânea construiu elos através dos séculos e se fortalece com isso. A Poesia Visual que aparece como vanguarda no final do século XX, por exemplo, não era segredo para Simmias há dois mil anos, na Grécia. A Arte Literária é um desafio ao tempo. Através dos séculos promove releituras de cenários que evocam sua permanência. Assim, a leitura do excelente livro Microf(r)cções (Editora Multifoco-RJ, 2012) do escritor campinense Janailson Macedo Luiz, lembra naturalmente a releitura de Baudelaire em “Meu coração desnudado” (Mon coeur mis à nu) e “Rojões” (Fusées). Essas obras foram descobertas por um  biógrafo de Baudelaire e se perderiam como anotações manuscritas e dispersas. Guardadas as proporções, fruto de processos semelhantes aos relatados por Janailson acerca do método de experimentação das suas micro-narrativas.  Os textos deste “Microf(r)cções” alertam, também para as possibilidades e inquietações da chamada literatura digital. A maioria obedece rigorosamente o limite de 140 caracteres exigidos pelo Twitter. Mas, que literatura não é digital nos dias de hoje? Qualquer livro, antes de ser impresso, é transportado por e-mail ou pen-drive para a gráfica.

O cotidiano e suas cores, a sensualidade e a pornografia,  uma refinada ironia, a crítica social aguda, o passeio pelo imaginário das fábulas e até mesmo um indisfarçável olhar do historiador que é Janailson, estão presentes nesta obra que exige atenção do público e da crítica. Narrativas com começo, meio e fim em cinquenta caracteres e até menos, fazem de Microf(r)cções uma obra referencial da Nova Literatura feita na terra de Augusto dos Anjos e José Lins do Rego. O autor conhece a arte da esgrima literária. Surpreende com uma escrita madura, ainda que produzida no auge da juventude.

“Quando a cigarra Inspiração vai vadiar e falta ao serviço, a formiguinha Transpiração tem que trabalhar dobrado” (A Cigarra e a Formiga, pg 26). Este ensaio mínimo é revelador da angústia presente na metalurgia da palavra,  ofício ao qual escritores do mundo inteiro e em todos os tempos entregam suas vidas. Vale a pena buscar no Google esse escritor paraibano e localizá-lo dentro dos focos mais promissores da Literatura Brasileira deste início de milênio. Aos que asfixiam o bom senso julgando a qualidade pela extensão do texto, o livro de Janailson responde com  o escalpo de uma modernidade que se renova. Dialoga com  um futuro esvoaçante sem tirar os pés da boa literatura que  justifica a tradição e os cânones. Ah, antes que esqueça: “o desejo do impossível” é coisa de Roland Barthes. Aliás, uma das melhores definições de literatura que conheço.

(esse texto será publicado no Jornal da Paraíba do próximo domingo)

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A LEITURA FAZ A FEIRA

Por Lau Siqueira
Existem consensos que parecem inúteis. Não se configuram com maior amplitude, apesar do amplo reconhecimento. As ações de incentivo à literatura e leitura são o melhor exemplo. Não há quem discorde de algumas verdades: o hábito da leitura melhora a qualidade do ensino porque torna o alunado mais ágil no mergulho do conhecimento; o hábito da leitura eleva o nível da consciência cidadã, pois o leitor estabelece uma perspectiva mais nobre para a sua vida e desenvolve um inevitável senso crítico. Certamente estamos falando aqui, não de doutrinação, mas de libertação. O hábito da leitura e mais ainda, da boa literatura, independentemente de gênero ou estilo, oferece uma possibilidade concreta de elevação da qualidade de vida. Segundo Antônio Cândido, a literatura deveria ser considerada um dos direitos humanos.

Logicamente que não queremos mascarar a realidade da indústria editorial globalizada, onde a concentração de riquezas dita as regras, com o apoio incondicional da legislação brasileira e da Fundação Biblioteca Nacional. Também não queremos confundir “apoio à leitura e literatura” com os megaeventos da indústria editorial ou com os seminários e conferências de sacralização dos escritores. Poucos empreendimentos culturais apontam para a necessária formação de leitores. A Feira Binacional do Livro de Jaguarão-RS, começa a ter essa preocupação a partir da sua quarta edição que acontecerá entre novembro e dezembro deste ano. A Feira do Livro de Boqueirão-PB, vai na mesma direção. A tradicional Jornada de Literatura de Passo Fundo-RS vem trabalhando esta perspectiva, com a difusão das obras dos autores convidados. Esses formatos, no entanto, são raros.

Neste frio inverno de Porto Alegre, os editores gaúchos organizados decidiram dar um importante passo para a sua própria sobrevivência. Organizaram a 1ª Festa da Leitura aconteceu semana passada, entre os dias 2 e 9 de julho, no charmoso Mercado Público de Porto Alegre. Um evento que busca incrementar a formação de professores e bibliotecários, principalmente. Profissionais que atuam  como mediadores entre o leitor e a obra literária. A 1ª Feira da Leitura apresentou uma programação com oficinas de mediação e atividades de incentivo à leitura. Contação de história, leitura silenciosa, leitura em público, leitura em Braille e libras, leitura com música, leitura com teatro, leitura em grupo, direcionadas para adultos adolescentes e crianças estavam disponíveis ao público.

A organização contou com uma estrutura muito reduzida e certamente com um orçamento modesto. Com alguns importantes apoios institucionais, o Clube dos Editores do Rio Grande do Sul deseja transformar a Festa da Leitura numa ação continuada. Aqui na Paraíba, alguns abnegados servidores municipais estiveram empenhados na elaboração de um projeto semelhante, reunindo as experiências já existentes. Depois que o prefeito Luciano Agra decidiu desestruturar a administração em nome dos seus interesses pessoais e ressentimentos políticos, a iniciativa deverá migrar para alguma instituição independente e, certamente, suprirá esta lacuna nas iniciativas de cunho cultural e cidadã que podem fazer a diferença para as futuras gerações de paraibanos. A forte convicção de uns poucos, certamente, mais uma vez fará história.


Texto que será publicado na próxima quinta-feira, na minha coluna do Jornal A União.

terça-feira, 3 de julho de 2012

SILVINO OLAVO

por Lau Siqueira
As novas mídias provocam uma reflexão inadiável acerca do que pode ser consagrado pela eternidade. Nestes tempos modernos grande parte dos textos publicados nascem e se consolidam enquanto arquivo digital. É verdade que muita banalidade acabará dialogando com o futuro. Todavia é concreta também a possibilidade de apagarmos as linhas de esquecimento que tangem a poesia e a vida de autores importantes. Silvino Olavo entre eles. Um autor necessário às novas gerações. O poeta nasceu no município paraibano de Esperança em 1897 e faleceu em 1969 na “Rainha da Borborema”.


Dono de uma lírica que dialogava diretamente com o simbolismo de Mallarmé, Rimbaud, Verlaine, Eugênio de Castro,  Cruz e Sousa, entre outros, Silvino Olavo foi  um pré-modernista contemporâneo da Semana de Arte Moderna de 1922. Fez parte de uma geração que provocou a ruptura definitiva com o parnasianismo, mas não com o soneto. Carregava uma indisfarçável e grata influência do poeta belga Georges Rodenbach que era, por assim dizer, seu autor predileto. Festejado pela crítica nacional da sua época, principalmente pela obra Cysnes, publicada em 1924 pela Brasil Editora e Sombra Iluminada, três anos depois,  tornou-se célebre também pela vida acadêmica. Sua tese, “Cordialidade - estudo literário, 1° série” foi transposta para o inglês e publicada em Nova Iorque no ano de 1927.

O poeta teve vida intelectual intensa, convivendo com personalidades importantes da sua época como Peryllo de Oliveira, Américo Falcão, Eudes Barros e Amaríllo de Oliveira. Promovia tertúlias em residências familiares, tendo sido um dos criadores  do conhecido “Grupo dos Novos”. A despeito de todos os dramas vividos, Silvino construiu uma obra que jamais será esquecida. Um dos motivos é o fato de representar o diálogo intelectual de uma geração que conviveu com uma intensa e turbulenta fração da história da Paraíba. O poeta era amigo de João Suassuna e trabalhou no governo de João Pessoa. Também foi colaborador do Jornal A União e da revista Nova Era. A trágica morte dos dois é apontada por alguns como uma das causas da enfermidade do poeta. Sua brilhante trajetória intelectual não  foi suficiente para poupá-lo dos sofrimentos aos quais estamos todos sempre muito vulneráveis. Silvino Olavo padeceu de transtornos psíquicos, tendo sido internado algumas vezes  no Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira. Mesmo gravemente enfermo, não deixou de produzir belos versos. Faleceu no hospital Dr. João Ribeiro, em Campina Grande aos 82 anos.

“Na minha via crucis de Amargura,/ entre os ciprestes lúgubres, silentes,/ no silêncio das horas mais algentes/ venho, às vezes, beijar-te a sepultura.” Com a primeira estrofe de “Ronda Lúgubre”, poema do seu primeiro e consagrado livro, Cysnes, não poderíamos deixar de registrar esta breve provocação acerca da obra de um dos mais instigantes poetas paraibanos de todos os tempos.