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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Gilvan de Brito e sua Opus Diaboli

 
  Por Lau Siqueira
As tragédias cumprem um papel determinante no destino dos povos. Na Paraíba nunca foi diferente. Afinal, foi uma tragédia que determinou o nome atual da capital João Pessoa. Alguns acontecimentos vão se distanciando, caminhando para o esquecimento, mas, jamais ficarão impunes diante da história. Os fatos ocorridos do dia 25 de agosto de 1975 (Dia do Soldado) na Lagoa do Parque Solon de Lucena exigiam um relato de fôlego há 36 anos. Foram trinta e cinco mortos. Entre os quais vinte e nove crianças. No triste cenário, uma embarcação do Exército Brasileiro que afundou nas águas da nossa Lagoa. O livro “Opus Diaboli – A Lagoa e outras tragédias”, do jornalista e escritor paraibano Gilvan de Brito busca mover o moinho do tempo com esta e outras águas passadas.
Os militares que governavam o país com mão de ferro foram os protagonistas desta tragédia anunciada. A irresponsabilidade esteve no comando do triste espetáculo. Mais de cento e cinquenta pessoas equilibravam-se numa embarcação com capacidade para pouco mais de sessenta pessoas sentadas. Gilvan de Brito estava lá quando tudo aconteceu e até fez a cobertura jornalística. Com sua larga experiência de redação e  reconhecido talento de escritor e dramaturgo, soube como ninguém registrar neste livro um fato que se tornou inesquecível para os pessoenses.
Em “Opus Diaboli – A Lagoa e outras tragédias” Gilvan estabeleceu um marco simbólico. Apenas este resgate já teria um imenso valor histórico e literário. Todavia, o espírito inquieto e investigativo do autor foi buscar a demarcação de outras tristezas. O primeiro registro foi em 1501, quando Américo Vespúcio narrou a antropofagia cometida pelos índios de Baía da Traição contra três marinheiros. A chacina dos 600 habitantes de Tracunharém pelos índios potiguaras também faz parte de uma coletânea de fatos que sangraram a história desta Paraíba velha de guerra.
Publicado com recursos do Fundo Municipal de Cultura – FMC, o livro de Gilvan é marcado por um diálogo denso entre a percepção aguda do repórter e a magia criadora do escritor. É desta forma que o pulsar da história nos arrasta página por página. Como bem diz o jornalista Jackson Bandeira no posfácio da obra, “sem este livro estaria faltando alguma coisa na historiografia paraibana”. Essa capacidade de conjugar o melhor  jornalismo com o talento literário reafirma o escritor de Opus Diaboli na galeria dos autores paraibanos imprescindíveis. Aqueles que traduzem a pulsação das ruas e as razões do que nem sempre interessa como notícia. Até mesmo a agonia dos que perderam entes queridos naquela tarde sorumbática foi lembrada neste relâmpago da memória. Enfim, um livro que vale a pena ser lido.
 Texto publicado no Jornal da Paraíba em 21.10.12
 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

TARANCÓN - A MÚSICA DO MUNDO

Por Lau Siqueira

Somente uma forte comunhão de ideias sobre a música e sobre o mundo para sustentar um fenômeno como o Tarancón. O ano de 2012 marca os quarenta anos de estrada deste grupo que jamais abriu mão da identidade latino-americana. Desde a primeira formação com
Miriam Miráh, Emílio de Angeles, Marli Pedrassa, Alice Lumi, Halter Maia, Jica Nascimento e Juan Falú, até a formação atual, com Ademar Farinha, Emilio de Angeles, Jonathan Andreoli, Jorge Miranda, Lucia Nobre, Moreno Overá, e Natalia Gularte, a pegada é a mesma. A partir do terceiro disco destacamos uma presença fundamental para a história do grupo: Sérgio Turcão. No mais, músicos jovens vão sendo incorporados e o Tarancón permanece firme com suas flautas, charangos, violas, quenas, sikus, bombo, cajón, congas, bongôs, etc.
Num tempo em que a diluição domina o mercado fonográfico o Tarancón aliou-se à poesia e à existência, numa perfeita conjugação de tradição e modernidade. Executa até mesmo músicas dos Beatles “sin perder la ternura jamás”. Suas raízes estão cravadas nos Andes, mas também nos Pampas, na Caatinga, no Cerrado, nas florestas e becos de uma América que transborda através da musicalidade do seu povo. O Tarancón nasceu no Brasil, formado por músicos de vários países e consegue extrapolar todas as fronteiras para manter-se íntegro, com uma capacidade ímpar de representatividade cultural do continente latino-americano.
O eco da mais recente passagem do Tarancón pela Paraíba ainda pulsa na memória da  cidade. No dia 30 de dezembro de 2008 o grupo levou ao delírio um público de cerca de cinco mil pessoas, no Festival Música do Mundo promovido pela Fundação Cultural de João Pessoa nas areias de Tambaú. Foi um momento de êxtase estético e político. Um envolvimento raro na relação artista/plateia que impulsionou os músicos para um arrastão, tocando no meio do público. Uma emoção que se tornou histórica e que certamente faz parte dos bons momentos desses quarenta anos de história. O assédio das pessoas em busca dos discos, após o show revelou a perenidade deste rio de águas cristalinas.
O Tarancón se alimenta de uma bem definida seiva cultural que extrapola o universo musical e adentra na paixão política por um mundo mais justo, por uma América Latina democrática, livre das ditaduras, constituindo seus passos numa longa caminhada, no cumprimento de um destino onde a sede e a fome estejam apenas na lembrança de um tempo de rebentação dos nossos sonhos. Seja através da música, da poesia que pichamos pelos muros ou das lutas que nos arrastam para uma nova manhã de justiça e liberdade. Aos quarenta anos e depois de viver um século o Tarancón parece estar “volvendo a los 17”.
 


Texto que será publicado na minha coluna do Jornal da Paraíba, no próximo domingo.