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quinta-feira, 24 de abril de 2014

TINTO E O ABRIL PARA A LEITURA

por Lau Siqueira

Quando instituições culturais se juntam na busca de soluções orçamentárias e programáticas os melhores objetivos são atingidos. São caminhos assim que a Fundação Espaço Cultural da Paraíba – FUNESC e o Centro Cultural Banco do Nordeste – CCBNB começam a traçar. Já aconteceram diálogos e parcerias anteriores, mas na abertura de um dos eventos do “V Abril para a Leitura” esses caminhos ficaram mais definidos. Foram instigantes os diálogos  da abertura do evento, na última terça-feira, em Sousa, a Cidade Sorriso do Alto Sertão paraibano. Além de alunos da Rede Pública, lá estiveram representados municípios como Nazarezinho, Poço José de Moura, Cajazeiras entre outros. A cidade de Aparecida a sua grande referência, a Acauã Produções Culturais e Laercinho, seu secretário de cultura falando dos 18 anos do Festival Serjanejo de Poesia. Enfim, o V Abril para a Leitura chama a atenção para uma nova estratégia de política cultural das instituições.

Chamou a atenção, sobremaneira, o trabalho desenvolvido pelo Professor, poeta e músico Tinto Marques com os alunos da Escola Municipal Maria Marques de Sousa, localizada no Jardim Brasília. Um bairro onde predomina a vulnerabilidade social. Através do programa Mais Educação, Tinto realiza um trabalho de incentivo à leitura com os alunos da escola, a partir de um coral com músicas temáticas compostas pelo próprio Tinto, onde predomina a importância da leitura para a formação cidadã. A experiência de levar esses meninos e meninas para um centro cultural importante como o CCBNB, certamente trará resultados imediatos no rendimento do próprio projeto de leitura desenvolvido por Tinto. Mas, também na autoestima dessas crianças. A porta aberta da Biblioteca do CCBNB e do V Abril para a leitura, precisa pois, ser reconhecida e celebrada pelos fazedores de cultura da Paraíba.


Nomes importantes da literatura paraibana, como os escritores Antônio Mariano e Marília Arnaud abrilhantam um evento que traz ainda oficinas de formação em Arte Educação, curso de literatura e internet, lançamentos de livros, teatro infantil e outras atividades. Um acontecimento fundamental para o povo sertanejo. O evento reafirma a importância deste Centro Cultural no Alto Sertão da Paraíba e mostra uma forma apaixonada de produzir cultura, com dedicação e criatividade.  No mais, a forma carinhosa e competente como o poeta Sérgio Silveira conduz o evento, o compromisso do diretor do Centro, Lenin Falcão e a simpatia de toda a equipe fazem uma diferença enorme. O CCBNB afirma assim sua presença no Sertão da Paraíba. Por esses caminhos, certamente, a cultura da Paraíba irá mais longe.


Texto que estará public ado amanhã, dia 25.04.14 no Jornal A União.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O VERSO REVERSO DE CRISTINA CARVALHO

Por Lau Siqueira


O livro “Verso Reverso” da artista visual pessoense Cristina Carvalho traz boas revelações. Seus mergulhos lembram  Fayga Ostrower: “criar é um processo existencial”.  Cada página é pura pulsação. Pura floração humana. Seja pela delicadeza das formas ou pela proposta de  devolver objetos ao cotidiano, a partir de uma intevenção densa e suave. São laços de cetim transformando em arte a banalidade utilitária de frascos e caixas. São traços, cores e formas. Contrastes de sombra e luz  sobre o corpo da artista. Na verdade, o verso e o reverso de uma alma fêmea com suas  angústias e transbordamentos. Os enfrentamentos da sensualidade nos esgarçamento de um silêncio ao mesmo tempo ostensivo e pouco revelado.

Provocando infinitas leituras, o livro nos remete também ao pensamento de J. P. Sartre: “a imagem é uma coisa corporal, é o produto da ação dos corpos exteriores sobre nosso próprio corpo por intermédio dos sentidos e dos nervos.” O livro revela uma trama conceitual onde a artista diviniza a devassidão do corpo, a imaginação feminina em todos os vértices. Um despojamento eternizado num tempo de múltiplas velocidades. O efêmero e o eterno dialogam no mesmo templo. Como se cada instante fosse um esteio de movimentos inuitivos. Nada mais contemporâneo, aliás. Um livro que demonstra infinitudes e proporciona inquietações. Um lugar estético onde a cor predominante é a mais rubra, a mais viva, a mais intensa.

Utilizando linguagens conceituais, a artista navega livremente na elaboração de uma unidade para sua obra. Seus desenhos, suas instalações e suas performances estão eternizadas neste livro. Na fragmentação comum desses tempos modernos, o reverso do sim e do não. Tudo é linguagem. Tudo é expressão. Cristina é uma artista que transgride seus próprios caminhos na busca do que impacta pela delicadeza, pela intensidade e pela capacidade de dialogar com os sentidos. Em tudo há uma elaboração cuidadosa, para um tipo de comunhão que Ibsen chamaria de “acordo entre o conteúdo e a forma”.

Graduada em Arquitetura e Artes  Visuais, pela Universidade Federal da Paraíba, Cristina atualmente leciona no Campus IV da Universidade Estadual da Paraíba, em Catolé do Rocha. Apesar de ainda jovem, possui uma respeitável “folha corrida” de exposições individuais e coletivas. Dos nomes da nova geração,  aparece entre os mais consolidados para um cenário paraibano que dialoga com o mundo. Ela amplia horizontes compartilhando sua experiência estética e existencial, despertando os olhares mais atentos do público e da crítica. Seu livro, publicado pelo FMC, pode ser encontrado na Usina Cultural Energisa, ou com a autora (cristinacarvalho.art@gmail.com).



PS. O texto acima estará publicado no Jornal A União do dia 18.04.14 - João Pessoa.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A ARTE NOS DIÁLOGOS DA UEPB

Por Lau Siqueira
 

A Universidade Estadual da Paraíba – UEPB, vem aprofundando o diálogo com as artes e com a cultura. Não apenas por ter um Reitor que também é artista. O Professor Rangel Junior é forrozeiro dos bons. A verdade é que a arte vem ganhando espaços generosos na instituição. Não é de hoje que o Professor Joelson, em Monteiro, dialoga com a comunidade cultural do Cariri. Percebo que esta começa a ser uma prática permanente também no Campus IV, em Catolé do Rocha. Tanto em relação ao diretor do Centro, Professor Edivan Junior, ou aos professores Rômulo Lima, o adjunto e Jairo Bezerra, chefe do Departamento de Letras e Humanidades. O Campus conta ainda com outros professores e professoras antenados com a cena cultural. Em Catolé do Rocha, a UEPB tem o privilégio de manter em seus quadros uma artista excepcional, Cristina Carvalho, cujo trabalho vem sendo reconhecido e encanta no primeiro olhar. Já o professor Rômulo, fez história na cultura made in PB, com o Quebra Quilos. Isso tudo é um ganho adicional para alunos e alunas.

Foi um privilégio ministrar a aula inaugural do Campus IV, no último dia 3. Pude perceber que existe por lá uma determinação firme de reconhecer a arte como uma poderosa ferramenta pedagógica. É necessário que isto seja revelado. Pois daquele Campus sairão os profissionais que estarão formando cidadãos críticos, conscientes de seus direitos. Esta é uma provocação que, no caso do Departamento de Letras e Humanidades terá, a médio prazo, um resultado na qualidade do ensino fundamental e do ensino médio. Afinal, é para lá que irão, majoritariamente, esses alunos e alunas depois de formados.

Muito me alegra perceber os resultados de uma UEPB renovada. Em Patos, Itaporanga e outros municípios e ouvi professores da Rede Pública agradecidos pela especialização oferecida por esta universidade. Ou seja: está em curso o pensamento solidário na UEPB. O seu papel social está sendo plenamente cumprido. Este é o resultado da despartidarização de uma instituição que até bem pouco tempo convivia com situações administrativas incompreensíveis. Por exemplo, aumentando em R$ 11 milhões o custeio no ano de 2011, sem construir uma única sala de aula. Para o bem da Paraíba, as coisas mudaram. A UEPB passou a priorizar a formação de pensadores críticos. Aliás, como as grandes universidades do mundo. Foi o que pude sentir no Campus IV. Senti também em Monteiro e percebo na sensibilidade do Reitor, Prof. Rangel Junior. A UEPB nao pode ser instrumentalizada por interesses partidários. Sejam eles quais forem. Cada vez mais, “é preciso estar atento e forte.” Em Catolé do Rocha tive a certeza que esse grito de liberdade, já foi dado.

O texto acima será publicado na minha coluna do Jornal A União de amanhã, dia 11/04/14.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

UMA CANÇÃO PARA PÁDUA BELMONT

Por Lau Siqueira


Militante das melhores causas da cultura pessoense, Pádua Belmont faz parte da geração que traçou o próprio futuro pelas ruas de João Pessoa. Seja nas atividades do Musiclube da Paraíba, no lendário projeto Fala Bairros ou nos demais movimentos de cultura independente da terra do Coletivo Mundo. Sua luta vem de longe. Dos tempos em que o Fundo Municipal de Cultura era  Lei Viva Cultura - uma conquista do Movimento Cultural da Paraíba através de um projeto de lei do então vereador pela capital, Ricardo Coutinho. Desde muito tempo Pádua está presente na vida cultural da cidade. Seja como artista ou como funcionário público, desempenhando com esmero suas funções na Fundação Espaço Cultural José Lins do Rego – FUNESC.
Um guerreiro da vida e da cultura. Não poderia, pois, ter outra postura ao enfrentar uma das mais devastadoras doenças de toda a história da medicina. O confronto com o câncer, com suas dores indescritíveis e as implacáveis necessidades do tratamento quimioterápico, fizeram de Pádua um reinventor da vida. No enfrentamento da doença agarrou-se na maior de todas as forças: suas crenças divinas e o sentido da sua vida inteira: a música. Todavia, ele foi mais longe nesse enfrentamento. Despiu as fantasias e se vestiu de coragem. Resolveu expor em livro uma guerrilha íntima que, certamente, o tornará uma das maiores referências brasileiras no combate ao câncer. Pádua é um símbolo da energia humana e da vida.
Sem mágoa alguma. Com arte, com doçura e amor, o artista vai cumprindo sua resistência. Se tornando uma trincheira de afeto em saudação ao tempo. Em cada minuto que passa, em cada lua que espalha seus vitrais pelo céu noturno, em cada sol que colore de vida cada manhã. Certamente jamais haverá uma medida para classificar tamanha dignidade. É tanta força divina e tanta esperança no olhar do artista! Na emoção trêmula de cada palavra, Pádua traduziu com sobras de talento e verdade um texto que é um documento para a humanidade. Um extrato de tudo que germina na alma humana quando a vida prevalece acima de tudo. Ele sabe que a vida é maior que qualquer sofrimento. Dia 30 de abril,  estará lançando seu livro “O limites da dor do ser”, às 19h na Usina Cultural Energisa, em João Pessoa. É o momento que ele escolheu para reunir os amigos e celebrar o futuro. Pádua Belmont nos dá um recado muito direto. Ele diz com todas as letras que estamos enganados quando não nos saciamos com nossas perdas preciosas. Ele nos fala claramente que a vida é um aprendizado permanente e que a nossa verdade maior é o tamanho da nossa fragilidade. E dentro desta cápsula que é o planeta Terra, somos todos tão minúsculos que a imensidão se torna invisível.


O texto acima estará publicado no Jornal A União do dia 04.04.14, João Pessoa-PB.