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terça-feira, 3 de novembro de 2015

Os idiomas da sonoridade e da imagem.

Por Lau Siqueira




Diz Antônio Cândido que “a expressão é o aspecto fundamental da arte e portanto da literatura.” No caso específico do haicai a expressividade se revela, principalmente, a partir da imagem sugerida. O discurso do olhar é determinante. Esta forma poética está entre as tradições culturais nipônicas que se espalharam pelo mundo. Já construiu, inclusive, uma tradição brasileira. Temos notícia da sua chegada ao nosso país  ainda no século XIX. Em 1908, a imigração japonesa trouxe junto o expressivo haikaista Shuhei Uetsuka (1876-1935). Mais tarde surgem os nomes brasileiros de Afrânio Peixoto e Guilherme de Almeida que, em diferentes épocas, propunham uma formatação tupiniquim. Através dos tempos vimos poetas como Leminski transitar com inventividade pelo haicai. Com versos rigorosamente metrificados, ou não, a verdade é que o Brasil foi produzindo seus grandes haicaistas: Millor Fernandes, Alice Ruiz, Teruko Oda, Goga e outros. Saulo Mendonça aparece com destaque ente os mais raros. Sem qualquer receio, podemos considerá-lo um dos grandes mestres do haicai contemporâneo brasileiro. Este conterrâneo de Jackson do Pandeiro desenvolveu um estilo muito particular ao configurar de forma harmônica a sonoridade do texto com a intensidade da imagem. Ao transitar entre o Português e o Espanhol, Saulo revela que seu fôlego está para muito além das linguagens.

O autor de “Luz de Musgo” (Editora Sal da Terra, 2008) há muito propõe a abolição definitiva do conflito entre a forma e o conteúdo do haicai. Pois ao radicalizarmos quanto a forma, deveremos lembrar que no Japão os haicais eram e são escritos em uma única linha vertical. Saulo não reduz o haicai a um “microsoneto”. Seus inventos surgem naturalmente a partir da sensibilidade e da exatidão das suas escolhas. Na sua capacidade de observar o mundo tecendo uma relação direta com as singularidades observadas. Ele vê, ouve,toca, semeia, cuida, colhe, escolhe e só então determina as cores da violeta. Como quem se espalha num milharal em busca de pássaros raros. Mesmo sabendo que, no máximo, somente poderá capturar o canto e a beleza  do voo.

Saulo é um observador de todas estações. Um poeta atento  a natureza mutante que se espalha pelas ruas. Se mostra vigilante quanto ao esplendor das urbanidades conjugadas nos costumes trazidos da aldeia. Sabe ouvir com a própria pele. Sabe sentir a invisibilidade do ar que respira. Aprendeu a ver o mapa das possibilidades com olhos de abelha. Vai direto ao néctar. Escolhe seus libelos como quem se liberta dos próprios sonhos  para as vivências extraordinárias no cotidiano. Seja na pancada estrutural da cultura de massas, na existência que demarca a vida entre a velhice e a infância, ou na sensualidade orvalhada de um amor que transborda. Certamente  nos batimentos cardíacos da árvore que cai e na eroticidade das memórias que reverberam no tempo. Enfim, Saulo é um profundo conhecedor das estradas que percorre. Por isso não se basta e recorre aos eixos do haicai para, somente então, transportá-lo por caminhos inventados. Sabe como poucos construir verdadeiros ensaios críticos onde o próprio poema responde todas as perguntas e formula tantas outras. Vai soltando desta forma suas liras nas paisagens tantas vezes diluídas da literatura. Entre os muitos belos poemas deste livro, um deles talvez revele com exatidão a sua percepção do humano enquanto elemento e instrumento da natureza: “Nasceu naquela casa./ Na janela vazia/ sua saudade se debruça.” Saulo Mendonça é dono de uma precisão cirúrgica na construção de seus textos. Sabe que a saudade se debruça na espera da manhã que virá. Ler seus haicais apenas uma vez é sempre impossível, pois são instrumentos de reinvenção da própria leitura.

*Prefácio do novo livro de Saulo Mendonça.