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quinta-feira, 29 de maio de 2014

São José dos Ramos e a força do Aboio.


Por Lau Siqueira

O que nos revela para o mundo está muito além do tempo que vivemos e do lugar que habitamos. A nossa ancestralidade atravessa milênios e continentes para universalizar nossa existência. No caso nordestino é fácil perceber. Seja na Cantoria, no Coco de Roda, Embolada, etc.. Mas, principalmente no Aboio. Uma expressão que é o idioma cotidiano do campesino em suas lidas. Algo que migrou de enormes distâncias para os sertões e aqui se fez couro e osso na resistência do povo.  Sufocada pela modernidade esta cultura renasce na Paraíba com muita força. Saiu dos campos e das lidas com o gado, para os palcos do já tradicional Festival de Aboio de São José dos Ramos. Hoje este evento é um símbolo da Paraíba no mapa cultural do Brasil.

Experimentei o gosto amargo do que é oferecido para a juventude, recentemente, no “Abril para a Leitura”.  Evento do Centro Cultural BNB, em Sousa, no Alto Sertão. Falando sobre leitura para jovens do ensino médio citei Sivuca. Esse mestre da cultura brasileira disse em entrevista que “não existe cultura sem educação”. Perguntei se conheciam Sivuca. A resposta foi a esperada.  Não conheciam Sivuca. Então, perguntei  se conheciam Aviões do Forró. Mais uma vez a resposta foi a esperada. A turma inteira conhecia. Esta lacuna na identidade cultural explica (e não justifica jamais) a maioria dos problemas vividos hoje pela juventude brasileira.

Não se trata de forjar o gosto do povo. Mas, questionar a padronização desse gosto através da midiatização imposta principalmente aos jovens. A grande mídia está conduzindo gerações e gerações para a exclusão de uma das mais ricas formas de conhecimento: a diversidade cultural. Seria normal que um jovem adorasse Aviões do Forró, Garota Safada ou outra banda do tipo, caso isso fosse uma escolha. Não é uma escolha. Não se trata de “gosto popular” como alardeiam alguns oportunistas patológicos e políticos espertos. Esta midiatização do gosto é um crime contra a juventude, pois exclui o direito de escolha. Apenas impõe os modelos inventados pela indústria do entretenimento.  Sufoca a oportunidade de um jovem construir sua vida a partir do reconhecimento da sua origem.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

O ESPERADO RETORNO DA SINFÔNICA


Por Lau Siqueira

A Orquestra Sinfônica da Paraíba é um dos maiores patrimônios culturais do Nordeste. Nos últimos tempos passou por uma crise que balançou suas estruturas. Algo praticamente inevitável e que podemos atribuir a causas diversas. Então a bomba caiu nas mãos do Ministério Público. Havia um convênio absolutamente frágil mantido ano após ano, com a Universidade Federal da Paraíba. Todos sabiam: um dia a corda iria rebentar.  Foi exatamente o que aconteceu nesta gestão. As incompreensões e as tensões diante do inevitável foram muitas. A tentativa incendiária de politizar os fatos, por exemplo. Foram muitas as pequenas tragédias seqüenciais. O fato é que o inexplicável continuava inexplicável. Tudo coberto por uma cortina de mágoas passadas. Todavia, chegamos no momento do necessário recomeço. Afinal, a OSPB é maior que qualquer governo e que qualquer interesse particular ocultado pelos bastidores.

O primeiro Concurso Público realizado pela OSPB foi um ato de coragem do Governador Ricardo Coutinho e do Secretário de Cultura, Chico Cesar. Era mesmo necessário zerar o jogo para um recomeço seguro. Mas, entre erros e acertos, convenhamos, o saldo é positivo. Houve determinação e coragem para mexer num vespeiro antigo. E houve, certamente, mais barulho que quebradeira. A omissão dos governos anteriores manteve um convênio viciado e a OSPB pagou um preço perdendo grandes músicos. Todavia, ganhou uma força renovada com os concursados, aliados aos remanescentes. Músicos experientes e dedicados. Até mesmo as mágoas abriram as janelas para um novo tempo, para uma caminhada que recolocará novamente a OSPB entre as principais orquestras do País. E para isso teremos um grande timoneiro.

Esse timoneiro é o maestro Luiz Carlos Durier, cuja vida se confunde com a OSPB. Muito especialmente com a Orquestra jovem. Ao contrário de outros que trocam a batuta pela suástica, Durier tem inteligência emocional, sensibilidade e capacidade técnica para conduzir a nossa Sinfônica. O caminho de volta para posicionar-se entre as grandes orquestras está assegurado. Afinal, a OSPB contará com o suporte necessário e terá a seu dispor uma das mais modernas salas de concerto do país, a partir da reabertura de um Espaço Cultural também renovado e arejado em suas funções de aglutinar o melhor da arte paraibana. Parece-nos que a OSPB já estava se acostumando à precarização, governo após governo. Mas, depois do Governador Tarcísio Burity que deu à Orquestra a importância merecida, estamos novamente com as portas abertas para vivenciar o futuro. Sejamos testemunhas de uma história que, em breve, se resumirá em uma palavra: Bravo!

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quarta-feira, 14 de maio de 2014

ITABAIANA É O CANAL

por Lau Siqueira

Itabaiana é um reconhecido celeiro de grandes artistas. Terra natal de Sivuca, um dos grandes mestres da cultura brasileira. Músico conhecido e respeitado internacionalmente. Infelizmente um tanto esquecido no seu Estado. Aqui sua memória virou propriedade privada. Também é a terra que o poeta Jessier Quirino escolheu para inspirar suas invenções matutas. Fazem parte desta história, nomes emblemáticos como Artur Fumaça. É de Itabaiana um dos maiores ícones da Poesia Popular Brasileira, o grande poeta Zé da Luz. Na atual cena cultural paraibana, destacamos Adeildo Vieira, cantor e compositor dos mais talentosos. Também é de Itabaiana um dos grandes poetas contemporâneos deste País, André Ricardo Aguiar.  Não são poucos os artistas que transitam ou transitaram na cidade. Todavia, o motivo  deste artigo é um pequeno e grandioso núcleo itabaianense de guerrilha cultural: o Ponto de Cultura Cantiga de Ninar que abriga, por exemplo, a única biblioteca da cidade. Uma instituição que sobrevive “na tóra”, como se diz. Seja a partir de doações esporádicas, ou projetos ancorados em ações voluntárias.  Fábio Mozart é o grande articulador e o grande timoneiro deste sonho coletivo.


No Orçamento Democrático Estadual do ano passado a região de Itabaiana elegeu a cultura entre as suas três prioridades. Um recado aos que fazem cultura no Estado. A Paraíba não é só litoral. Uma sinalização do que bate e pulsa nos corações e mentes da região. Além das prioridades básicas de qualquer ser humano, de qualquer comunidade, eles gritam: “a gente não quer só comida!” Este foi o recado da produção cultural de uma região de forte  vocação criativa. Em Pedras de Fogo, por exemplo, o Maracatu Rural nos mostra que as fronteiras geográficas não são as mesmas fronteiras culturais. Os Caboclos de Lança também estão na Paraíba, como leões de fronteira.


Nesse contexto - e num prédio antigo que já abrigou uma das escolas em que José Lins do Rego estudou - existe um coletivo de pessoas cuja humanidade brilha no olhar. Um espaço onde crianças e adolescentes são acolhidos com amor e com arte. O Ponto de Cultura Cantiga de Ninar é um abraço fraterno e uma mão estendida conduzindo o futuro. Um elo de cidadania e arte que acende as esperanças dos que sabem a força de cada passo, de cada gesto. Certamente que as dificuldades são muitas. Não é fácil produzir cultura em lugar nenhum do mundo. No Nordeste não é diferente. Mas, aliar esta produção com cidadania é um desafio ainda maior. E é assim que caminha o Ponto de Cultura Cantiga de Ninar. Buscando a construção de políticas públicas transformadoras e apontando alternativas para melhorar as cidades, o estado, o país e 

o mundo. 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A GUERRILHA DA ÍRIS

por  Lau Siqueira


Num único dia é possível perceber contrastes abismais num mesmo estado, numa mesma cidade, num mesmo país. Recentemente estive em duas cidades diferentes no mesmo dia. Numa delas, conheci uma biblioteca com um bom acervo. Apesar dos poucos recursos financeiros, administrada com muita disposição e criatividade. Na segunda cidade, enquanto jovens realizavam leitura de poemas na praça central, observei que a biblioteca que ficava em frente havia se transformado em banheiro público. As duas cidades são praticamente do mesmo porte e estão localizadas no Sertão da Paraíba. Não vou citar a segunda cidade porque cidades que não incentivam a leitura não merecem ser lembradas. Mas, primeira se chama Nazarezinho. Uma terra de violeiros, cantadores, cordelistas, contadores de história  e mantém uma Biblioteca Pública Municipal atendendo mais de oitenta crianças diariamente.

Logicamente que a situação da Biblioteca de Nazarezinho não é fácil. Todavia é mantida de portas abertas para o mundo pela Professora  Íris Mendes Medeiros, hoje aposentada. Uma pessoa que, por já ter trabalhado em sala de aula, reconhece o valor dos livros e da leitura para a formação intelectual e cidadã da juventude. Praticamente sem recursos, mas com sobras imensas de criatividade e dedicação, Íris planejou toda a ambientação do espaço para que a criança, muito especialmente, se sinta acolhida. Todo o ambiente foi pensado para a sedução da leitura. O acesso ao livro é facilitado com estruturas recicladas, com uma criatividade que praticamente anula os custos. Um investimento mínimo da Prefeitura de Nazarezinho para uma política pública estruturante com um impacto certeiro na qualidade do ensino. Uma ação  que necessita de mais recursos financeiros e humanos, mas jamais começaria sem um primeiro passo. Sem que alguém tivesse a ousadia de colocar o guizo no pescoço do gato. Em Nazarezinho essa pessoa se chama Íris.

Segundo Proust, as melhores lembranças da infância são as imagens dos livros que lemos quando crianças.  A Biblioteca de Nazarezinho é uma nau de  aventuras. Um lugar de grandes encontros. Seja com Thomas Man,  Drummond, Ruth Rocha, Luiz Augusto Crispim, Medeiros Braga ou outros tantos autores que lá aguardam a chegada voraz dos leitores e das leitoras. Íris é uma pessoa iluminada que constrói muitas pontes. Seja entre a população (especialmente as crianças) e a Biblioteca, seja entre a Biblioteca e o Centro Cultural BNB,  o Fórum de Cultura do Alto Sertão, ou o Sistema Estadual e Nacional de Bibliotecas. Uma guerreira que entrega sua vida a uma missão das mais nobres: formar cidadãos conscientes, leitores dos livros e do mundo.

Texto que será publicado na próxima sexta-feira, na minha coluna do Jornal A União.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O LUGAR DE ZILA MAMEDE

Por Lau Siqueira


Já não se fala mais em poeta municipal, poeta estadual, poeta federal. A internet, pelo bem dos tempos e da história da boa literatura, apagou de vez uma demarcação que divertia os grandes poetas brasileiros como Carlos Drummond de Andrade. Agora nossa batalha é com o tempo. É a luta contra o esquecimento de boas referências, muitas vezes substituídas na memória neste tempo de mídia farta. Grandes nomes da literatura brasileira, muitas vezes, sequer são reconhecidos na própria cidade de origem. Vivemos um tempo de volubilidades consagradas. Aqui na Paraíba não são raros os nomes importantes nas artes e nas letras que acabam caindo no esquecimento, em razão de articulações da velha e barbada política literária.

O caso da poeta Zila Mamede, nascida em Nova Palmeira-PB,  em 1928 e falecida em Natal-RN, em 1985 é emblemático. É certo que sua vida intelectual e profissional desenvolveu-se quase que inteiramente na capital do RN, de onde saiu para cursar Biblioteconomia no Rio de Janeiro e nos Estados Unidos. Na volta, organizou e dirigiu a Biblioteca da UFRN que, merecidamente, hoje leva o seu nome. No momento em que o país discute com um pouco mais de consistência as necessidades do incentivo ao livro e à leitura, a Paraíba precisa resgatar no nome, a vida e a obra poética de Zila Mamede. Já devidamente reconhecida em Natal,  Zila Mamede precisa ser também reconhecida na sua terra como poeta e como referência na área de políticas públicas para o livro e a leitura, devido às lutas da sua vida inteira de dedicação aos livros e à cultura.

Zila Mamede fez parte do que se situa na História da Literatura do nosso país como Geração Pós-45, juntamente Ledo Ivo, Carlos Pena Filho e outros que buscaram recuperar as formas poéticas abandonadas pelos modernistas. Não se trata aqui de expressar gosto literário ou de deixar de reconhecer o grito libertário dos movimentos que dialogavam com as vanguardas europeias do final do século XIX e início do século XX. Não se pode negar a influência que tiveram e que ainda têm para a nova literatura brasileira, juntamente com a Poesia Concreta que nos anos 50 se constituiu como o último grande movimento literário em nosso país. Não se trata disso. O fato é que Zila Mamede precisa ter sua obra resgatada também pelos paraibanos a partir, não do seu engajamento literário, mas da consistência de uma obra poética marcou a literatura brasileira com a delicadeza e a integridade de poemas como “A Ponte: (Salto esculpido/ sobre o vão/ do espaço/ em chão/ de pedra e aço/ onde não/ permaneço/ - p a s s o)”.  Por sua vida e sua obra, já é tempo de reconhecermos Zila Mamede como um grande nome da cultura e da literatura na Paraíba.


 Texto que será publicado no Jornal A União, na próxima sexta-feira.