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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Flávia Muniz - o canto além da voz.


por Lau Siqueira
A Literatura Brasileira nos remete aos tempos infinitos. Tempos que não começam nem terminam num código estabelecido. Aliás, toda boa literatura é atemporal, como sabemos. Talvez daí venha a minha parcial discordância com a necessidade de catalogação dos escritores, por geração. Há que se perceber a literatura como um rio e seus afluentes. Por isso, não quero analisar este primeiro livro de Flávia Muniz, à luz da já denominada Literatura 00. Ou seja, a literatura que começa a despontar no século XXI. Exatamente porque não creio que as Teorias da Literatura funcionem como um tipo de autópsia do texto. Por um bom motivo: não se faz autópsia de organismo vivo. E a Literatura é um organismo vivo, antes e depois da escrita.

Cantora e compositora de boa cepa, transitando com personalidade na Música Brasileira Contemporânea, Flávia realiza a metalurgia dos seus textos numa poesia que poderia muito bem ser revertida ao estado de miniconto. Segundo o escritor gaúcho José Eduardo Degrazia, as prosas de Baudelaire representam o eixo fundamental na teoria do miniconto. Ao contrário do que pensam alguns, miniconto não tem limite de frases ou mesmo parágrafos. Pode ter uma única frase ou uma lauda. Flávia sabe muito bem em que terrenos da linguagem está circulando. Sabe ainda do mundo onde mergulha suas emoções mais densas, mais afeitas aos impactos naturais da palavra. Sabe que na literatura como na vida o direito à escolha é determinante e, algumas vezes, fatal. Das melhores palavras nem sempre se extrai os melhores caminhos. Por isso, Flávia vai conjugando uma literatura que dialoga cenicamente, plasticamente e musicalmente, com a palavra.

Seu texto desponta carregado de significado. Denso que só uma estrela no céu de dezembro. Vai despertando assim para as leituras mais atentas, ávidas por novas descobertas. Um trabalho de muitas artesanias e acostumado a beber nas melhores fontes. Sejam elas contemporâneas ou clássicas. Temos aqui uma literatura que não se contém diante das distâncias e passa a cumprir uma estética de adensamento do vazio existente entre os diversos pólos criativos da mente. Enfim, um texto de leitura agradável e ritmo instigado. Como se o “maculelê” do verso ousasse a batida do eixo, no itinerário da imagem que se cria a partir dele. Flávia Muniz desafia paradigmas e estabelece, também, a sua própria teoria a partir de uma prática que se mostra nas suas escolhas para a construção do texto.

Definitivamente, esta escritora não sofre do mal que Antônio Cândido chama de “ilusão antropocêntrica”. Seus textos esmiúçam a condição humana, trafegando da filosofia à poesia, do masculino ao feminino. No emocional e no racional. Tudo está contido na expressão do significado e da forma de organizar as palavras. Ela se reconhece múltipla e multiplica suas possibilidades ao demonstrar o que isso significa enquanto foco natural de uma narrativa. Quer um exemplo? Veja este fragmento: “Desvendando os mistérios do homem que sou, procuro manter-me quieto. Sou fotógrafo de almas. Observo humanos: esquinas de gente e olhar de gente. Mão e antebraço antes mesmo de nomes. Solidariedade: meu lugar de palavra e oração. Ajoelho-me no sal da Terra.” (ESCRITOS ESPIRAIS NA ROTA DO AMANHECER, II). Essa noção de espaço deu à Flávia uma definição de que as literaturas são o que as solfeja.

Portanto, eis uma literatura que reconhece, mas não se curva aos cânones. Tem autonomia e proclama seus próprios rumos elaborando frases curtas, de forte impacto acústico e ritmo acelerado. Bebe em Borges (com certeza) certo telurismo fantástico, absolutamente urbano e futurista. Ela nos chega num momento em que as mídias tradicionais estabelecem uma luta corporal, de vida ou morte com a cibercultura, tornando-se parte dela. “No século XXI, todo texto se torna um arquivo virtual”, nos diz N. kathetrine Hayles, em “Literatura Eletrônica – Novos Horizontes para o literário” (UPF Editora). Ela faz parte de uma geração que estabeleceu um novo tipo de relação com o saber em qualquer setor da vida racional ou transracional. Algo atemporal e ao mesmo tempo, enraizado num ponto equidistante entre o passado e o futuro. Um bom exemplo do quanto os jovens escritores e escritoras brasileiras estão construindo a memória de uma literatura que revela nomes expressivos, mas jamais demonstrou sinais de falência.

“Para morder estrelas deve-se espanar a poeira do peito e afiar os dentes em pedras de amolar facas. Andarilhos das noites, descalçamos o chão dos céus. O sol é maior que a Terra. O infinito é maior que o sol. Os humanos carregam pequenas certezas. A dor hermana e funde o núcleo do ser – ele espreguiça.” O livro de Flávia Muniz, Vilarejo – pergaminho do fogo, revela uma escritora que soube estabelecer-se entre o delírio criativo e a ciência de compor um texto de reconhecida substância literária. Estamos diante de uma leitura que poderá ser realizada com todos os olhares que determinam a nossa condição de gente. Uma literatura que esmurra o comodismo de repetir fórmulas prontas, buscando consolidar-se nos próprios e múltiplos rumos.

(Prefácio do livro Vilarejo - pergaminhos do fogo, da escritora, cantora e compositora carioca Flávia Muniz)



sábado, 5 de dezembro de 2009

O pop e o rock dos PoETs - Entre Manuel Bandeira e os Beatles

Lau Siqueira

A tradição musical do Rio Grande do Sul tem fornecido nomes importantes para a história da Música Brasileira que é, em suma, uma congregação de diversidades. Poesia e melodia para as possibilidades da cibercultura e do que vinga a partir dela. Isso tudo, num pampa mio que não é nada mais nada menos que a terra de Elis Regina, Lupicínio Rodrigues, Nelson Coelho de Castro, Edu da Gaita, Bixo da Seda, Jaime Caetano Braun, Nei Lisboa e, agora, também dos PoETs. Um grupo que nasce de um berço esplêndido: o acaso e suas provocações e que surpreende por, talvez, não estar preocupado em surpreender. Um grupo que agrada pela música e pela palavra, muito certamente por não estar preocupado em agradar. Poesia é palavra que vem do grego. Tem a ver com fazer. O poeta é o que faz. O poeta é o que soma virtude e atitude e faz linguagem. Nos PoETs, a origem de tudo é a poesia. (Permitam-me, não se trata de um grupo, mas, de uma tribo.)

Os caras já surpreendem, pela formação. São três poetas da melhor qualidade que no palco e no CD, entretanto, não reproduzem praticamente nada das suas obras em livro. (Ou, quem sabe, absolutamente tudo.) Ronald Augusto, Ricardo Silvestrin e Alexandre Brito, acompanhados por músicos do primeiro time, ousaram desafiar todas as teses e retorcer o eterno tumulto que há quando se tenta estabelecer fronteiras entre poesia e letra de música. Não vou entrar nesta seara, mas, fica a necessária provocação para um debate futuro. Eu já conhecia e admirava o trabalho dos três poetas. Conhecer o CD e poder curti-lo na diversidade do meu gosto pessoal, me permite, por exemplo, ter tido o prazer imenso de ouvir várias vezes o disco, curtindo muito sempre, mas terminar de escrever este texto ouvindo o piano de Arthur Moreira Lima interpretando Piazzolla.

Na verdade, confesso que me surpreendi muito positivamente com a capacidade dos caras em unir qualidade e swing pop em um CD que é pop, mas também é rock, também é MPG (Música Popular Gaúcha)... Como se tudo fosse fruto de uma Milonga tocada por Hendrix. Poesia é isso? Penso que é (também). Afinal, poesia é música. (E, como diria Décio Pignatari, algum gênero das artes plásticas.) Certamente que pautados antropológica e antropofagicamente pelos Beatles e por Manuel Bandeira, os PoETs passam a figurar no cenário musical brasileiro como expressão do que pode ser ouvido em Alegrete-RS ou Santarém-PA, com o mesmo nível de sedução do público e de instigação positiva do ouvido mais apurado, mais crítico. Há uma enorme complexidade em um trabalho, aparentemente, simples. Já participei da produção de grandes eventos, com artistas de calibre. Sempre me interessou muito mais as reações do público, nestes casos. Em relação aos PoETs, vejo que prepondera a capacidade de comunicação das letras e a beleza das melodias. Considerando que se trata de três poetas com uma obra literária, individualmente, bastante singular e, sobretudo, interessante sob todos os aspectos. No entanto, musicalmente os caras alcançam tamanho nível de sedução estética que chamam a atenção no primeiro acorde, dos ouvidos mais sensíveis aos mais desatentos.

Um pouco mais sobre eles? Bem, Ronald Augusto, certamente figura entre os poetas mais complexos e interessantes da nova safra brasileira. Escritor, compositor e crítico publicou, entre outros, o excelente “No Assoalho Duro”, pela Éblis. Ricardo Silvestrin também é um excelente poeta. É professor de literatura, editor do selo AMEOP. Publicou “O Menos Vendido”, pela Nankin (que torço para ser o mais lido). Alexandre Brito é poeta, editor da AMEOP, músico e produtor cultural. Um mano que duela incessantemente com as palavras e seus ritmos. Os três formam os PoETs. Certamente que todos têm currículos bem, mais intensos e imensos, mas cabe aqui apenas um breve perfil desses três artistas que bailam em palavras e melodias. Pelo jeito ainda sobrou tempo aos três para uma articulação de primeiro time, criando esta banda de poetas que o Brasil precisa conhecer para, de prima (como se diz), ouvir sem parar e gostar muito, sabendo que inteligência, em qualquer área, é o melhor legado do artista.

O CD “Os PoETs” nos traz de volta uma reflexão acerca do que é, realmente, novo na Música Brasileira Contemporânea. Nos tempos de Mariana Aydar, Tulipa Ruiz, Gilberto Gil, Zeca Baleiro, Chico Cesar e outras feras, cabe um tanto assim de ufologia. Parece que estamos longe dos busca-pés vanguardistas que estabeleciam a necessária tensão entre a arte e a atenção de uma sociedade desigual, escandalizada, não exatamente pela vanguarda, mas pela diferença. Pelo questionamento ao gosto estabelecido. Margarida Patriota escreveu com propriedade em “Modernidade e Vanguarda nas Artes” (Oficina Editorial), “as vanguardas se emasculam numa sociedade que as acata”. Os PoETs, surgem também de uma releitura disso tudo, mas, sobretudo, de uma contemporaneidade que se descobre a cada passo, a cada pássaro na garganta. Nos tempos de agora o exato é catar germe no trigal, onde tudo é vida e prolifera. Afinal, até do mangue, sai arte. Caso contrário, o Brasil e o mundo não teriam conhecido Chico Science.

Despreocupados com a rotulação da música que fazem, os PoETs iniciam uma trajetória na música brasileira que, sem permissão de Nostradamus, podemos vislumbrar enquanto promissora do ponto de vista do mercado musical brasileiro e transformadora do ponto de vista da qualidade musical. Há uma empatia imediata com a audição do que esses meninos estão a compor lá pelas bandas de Porto Alegre. “Música bacana e letra legal”. É a fórmula para a sedução de um público que, certamente, está crescendo e se tornando fiel a cada instante, seja pelos canais cibernéticos, seja pelo tom frenético dos shows, seja pela credibilidade artística de três poetas da melhor safra gaúcha, numa varredura de conceitos que nos faz pensar como DJ Dolores: “que som é esse”?


Dois vídeos dos PoETs:

http://www.youtube.com/watch?v=jhNErVc3Ga0

http://www.youtube.com/watch?v=A_2FcuPknjc