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quinta-feira, 27 de março de 2014

FREI MARTINHO ABRAÇA O PROJETO MAIS BIBLIOTECAS

por Lau Siqueira

O município de Frei Martinho, no Seridó, realizou na última quarta-feira a mobilização paraibana do projeto “Mais Bibliotecas Públicas”. Uma ação da Fundação Biblioteca Nacional em convênio com o Centro de Desenvolvimento da Cidadania – CDC. A coordenação do Sistema Estadual de Bibliotecas e a Fundação Espaço Cultural José Lins do Rego - FUNESC fazem parte desta mobilização. O evento colocou o município na vanguarda de uma política pública de rara importância para o desenvolvimento social, cultural, educacional e econômico das diferentes regiões brasileiras. A Biblioteca Pública Municipal Augusto dos Anjos existe há 30 anos. Mas, não existia nos cadastros da Fundação Biblioteca Nacional. Ao proporcionar a entrada no Sistema de Bibliotecas Públicas a gestão do prefeito Aído Dantas se qualifica para captar recursos e fortalecer  a Biblioteca Municipal. A mobilização paraibana em favor da ampliação do número de bibliotecas foi uma deliciosa provocação para que outras cidades se espelhem na sabedoria e na sensibilidade da gestão de um município paraibano, com pouco mais de 3 mil habitantes. Afinal, a própria capital João Pessoa não possui ainda a sua biblioteca pública municipal.

Políticas públicas para o livro e para a leitura são instrumentos poderosos de construção cidadã. As Bibliotecas cumprem um papel estratégico para a qualificação de outras políticas públicas. Muito especialmente a Educação, onde a leitura age diretamente na elevação da qualidade do ensino. São reais os avanços no Índice de Desenvolvimento  do Ensino Básico – IDEB, onde são desenvolvidos projetos de incentivo à leitura literária. Em Frei Martinho, a Biblioteca Pública funciona como instituição agregadora da comunidade. O ambiente é agradável, generoso e conta com o apoio fundamental da gestão para se transformar em referência no que tange às políticas públicas para o livro, a literatura e a leitura.

A presença do prefeito do início ao fim do evento, revela o interesse de um município que determina suas prioridades e seus parceiros. Tudo é uma questão de escolha. Como diz  a Bibliotecária Malena Xavier, coordenadora do projeto Mais Bibliotecas Públicas: “o que custa mais aos cofres públicos: um presídio ou uma biblioteca?” A Colômbia combateu e combate o crime organizado nas zonas vulneráveis das suas cidades, com políticas de leitura e boas bibliotecas. O que estamos esperando para intervir de forma efetiva nas guerras que desvastam nossas comunidades?  Uma biblioteca é uma instituição estruturante para as demais políticas públicas. A literatura é um direito do povo brasileiro. E este é um bom caminho para a Paraíba.

Este artigo estará publicado no Jornal A União da próxima sexta, 28.03.14

quarta-feira, 19 de março de 2014

Quando a literatura é o ponto de partida

Por Lau Siqueira
O livro “Práticas Leitoras para uma Cibercivilização, Volume  II”, publicado pela Editora da Universidade de Passo Fundo-RS, me seduziu por vários bons motivos. Entre eles a eterna e saudável provocação para a formação de leitores. Algo que impacta positivamente qualquer comunidade nos mais diversos sentidos. Por exemplo, no que se refere a qualidade do ensino. Um tema, aliás, tão debatido quanto carente de atitudes  permanentes e multiplicadoras. Poderia citar ainda a economia da cultura que acaba sendo naturalmente alimentada. A formação de uma comunidade de leitores fortalece a cadeia produtiva do livro. As editoras e as livrarias, bem como diversos serviços editoriais se multiplicam gerando trabalho, renda e qualidade de vida. Ampliar esse debate, certamente, trará bons frutos.
Este livro resulta de uma pesquisa realizada por Tânia M. K. Rösing e Ana Carolina Martins da Silva no Centro de Referência em Literatura e Multimeios, também da Universidade Federal de Passo Fundo. Partindo de textos literários, apresentados com diferentes recursos, a pesquisa enveredou pelo seguinte tema: “quinhentos anos de Brasil: memórias que a nossa consciência não escolheu.” A ideia relembra o pensador francês Roland Barthes. Segundo ele, “a literatura contém muitos saberes”. Barthes destaca o clássico de Daniel Defoe, “Robinson Cruzoé”. Um romance de aventuras que aborda a antropologia, a geografia, a história e a sociologia. Parece que o Centro de Referência em Literatura e Multimeios caminha na mesma direção ao buscar  as interlocuções naturais da literatura. E certamente tem encontrado muito arco-íris por aí.
A verdade é que o Centro de Referência em Literatura e Multimeios é uma ferramenta cujo impacto é muito poderoso e  pode ser potencializado infinitamente. Por exemplo, para dialogar com práticas semelhantes espalhadas pelo país. Recentemente conversando com uma aluna da UEPB, soube da sua busca por referências na literatura de José Lins do Rego para seus estudos em História da Paraíba. Não estranhei. Afinal, somente conhece a história do Rio Grande do Sul quem leu O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo. Verdadeiros laboratórios de leitura, como o Programa de Incentivo à Leitura na Escola – PILE, desenvolvido em Sapé-PB, nos fazem acreditar que a qualidade do ensino passa necessariamente por  planejamentos pedagógicos ousados e criativos.  O Centro de Referência em Literatura e Multimeios da UPF, parece ter vocação para aglutinar as boas referências fora do Campus da UPF e, até  mesmo das fronteiras pampeanas. Como disse Davida Cooper: “não existe esperança. Existe uma luta. Esta é a nossa esperança.”


Texto escrito para o Jornal A União da próxima sexta-feira, 21 de março de 2014. Dia Mundial da Poesia.

quarta-feira, 12 de março de 2014

OS ARTISTAS E A POLÍTICA

Por Lau Siqueira


         Anos atrás o pesquisador  e dramaturgo paraibano Altimar Pimentel, já falecido, revelou um fato muito pitoresco. Segundo ele, quando Secretário de Cultura no Governo Wilson Braga, foi chamado pelo governador para conter um protesto de artistas em frente ao Palácio da Redenção. Bem no seu estilo, Braga disparou: “- Altimar, atende esse povo. Artista não dá voto, mas tira.  O que há de risível há de revelador neste caso. O artista é um cidadão comum. Existem os alieanados, os oportunistas e, logicamente, os bem intencionados. Mas, o exercício  da criação faz do artista um ser naturalmente crítico. Isso independe de ideologia. Muitos foram e são filiados à partidos de esquerda. Alguns são anarquistas, mas há também os  fascistas convictos. Dissimulados ou não. Escondem-se, muitas vezes, em representações dos movimentos sociais.

Esse não é um cenário regional, ou nacional. Está na história do mundo. Vladimir Maiakovski foi o poeta da Revolução Bolchevique, mas criticava o “reunismo” do PC. Ezra Pound, tão imenso quanto Maiakovski, migrou para os braços do fascismo. Mas, escreveu o ABC da Literatura. De Victor Jara, o ditador Pinochet cortou as mãos para impedir que cantasse. Mesmo assim o poeta ainda bradou: “- Yo canto!”  Na gestão pública, alguns artistas deixaram sua marca. Um deles foi Mário de Andrade. Escreveu de próprio punho o projeto do que hoje é o IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artistico Nacional. Mesmo assim também recebeu coices de seus companheiros, na década de 30. Aliás, ele foi o primeiro gestor cultural do Brasil, na Diretoria de Cultura de São Paulo.

Em pleno século XXI temos um quadro semelhante. Artistas conservadores, progressistas, oportunistas, boas cabeças e alienados patológicos. Tudo isso circulando entre o palco e a platéia dos nossos dias. Alguns carregam na indefinição. Ocultam-se em discursos anti-governistas. Como se isso fosse definição ideológica. Esta semana um fato me chamou a atenção. Um cidadão, escondido no perfil de uma banda chamada “Fases da Lua” protestou contra uma postagem sobre a ditadura, no Facebook.  O roqueiro quarentão defendeu os militares, atacou os gays e os comunistas. Essa história que não começou hoje e não terminará amanhã. Mas, a democracia é uma conquista. Derrotá-la seria consagrar a corrupção silenciosa dos tempos sombrios. Maluf é o maior símbolo da corrupção acobertada pelos militares. Se engana quem quiser. Nossas mazelas são históricas e foram consolidadas exatamente pelas ditaduras pelas quais passamos. Portanto, defender a ditadura como solução para os problemas brasileiros é um atestado de ignorância. Ponto final.

Este artigo será publicado no Jornal A União, no dia 14 de março. João Pessoa-PB.

terça-feira, 4 de março de 2014

O RECADO DE CHOMSKY


Por Lau Siqueira

Se diz por aí que a mídia é o quarto poder. Mas, esta informação é falsa. Pela capacidade de determinar o silêncio, a voz e os olhares é a maior representação do poder. Constrói e destrói reputações. Determina o gosto das massas. Em linhas gerais, impõe a tragédia social da alienação.  O rosto da tal Sininho na capa da revista Veja é um resumo da ópera. A moça foi transformada por decreto midiático em símbolo do vandalismo. É muita vontade de reduzir nossa inteligência ao grau zero! Pensar, pra quê? A verdade é que as concessões públicas para os canais de mídia foi a mordaça da ditadura que sobreviveu ao poder militar.

Isso não é privilégio da Paraíba ou do Brasil. Parece que a última boa nova  foi a Teoria do Rádio, de Brecht, nos anos 40 do século XX. Noam Chomsky, conceituado linguísta norte-americano, apontou dez estratégias de manipulação mais utilizadas pela mídia. A primeira delas é manter o povo distraído, longe dos grandes debates de interesse público. E a mídia não faz outra coisa. Ou criar um problema e ao mesmo tempo oferecer a solução. Inventar crises econômicas para justificar a subtração de direitos sociais. Propagar mudanças profundas de forma gradual  para que sejam digeridas silenciosamente. Exigir sacrifícios em nome dofuturo. Dar cores de normalidade à certas aberrações. Quer um exemplo? Fazer com que funcionários públicos  aceitem com resignação um empréstimo individual para receber o próprio salário.

Isso tudo é muito próximo. Algumas programações mantém suas marcas registradas. Dirigir-se ao público como se toda a audiência fosse constituída por crianças ou pessoas de baixa capacidade cognitiva. Alguns são especialistas nisso (Gugu, Faustão, Silvio Santos...). Sobrepor a emoção à reflexão. Por exemplo, definindo que os bons sorriem, são brancos e bonitos. Destruir a educação pública (obra prima da ditadura), mantendo o povo distante da sua identidade cultural. Paulo Freire já se referia à isso. Dizia que a classe dominante jamais iria patrocinar uma educação libertadora. Ele tinha toda razão.

Outro aspecto se refere às políticas de Pão & Circo. As que estimulam a mediocridade confundindo-a com “gosto popular”. Como se para ser popular fosse preciso ser vulgar e inculto. É necessário fazer com que cada um se sinta culpado pela própria miséria. Segundo Chomsky, “graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o sistema tem conseguido conhecer mais o indivíduo que ele próprio”. Pois basta ligar o rádio que somos definidos pelos Datenas da raça. Só nos resta saber se a resistência à essa avalanche vai avançar sobre seus algozes ou vai ser engolida por eles.

Este artigo será publicado na edição do dia 07/03/2014 do Jornal A União.