Pesquisar este blog

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

OS NÓS E OS LAÇOS DA LEITURA

Por Lau Siqueira




Cresce cada vez mais no Brasil e, consequentemente aqui na Paraíba, o número de militantes por uma política pública de leitura. Na verdade, uma política pública para o livro, a leitura, a literatura e as bibliotecas. Uma luta mais do que justa, aliás. Precisamos eliminar o analfabetismo. Todavia, o que mais preocupa é o analfabetismo funcional que frequenta há muito até mesmo o chamado “ensino superior”.  Este se revela como consequência direta da carência de uma política pública voltada para a formação de leitores. Uma falha que começa no ensino fundamental e se estende pela vida do estudante. Apesar da urgência  na efetivação de um marco legal não é um problema que se resolva por decreto. O chamado “povo do livro”  no país inteiro convive com alguns conflitos que precisam ser superados. O principal deles é o corporativismo. O típico “farinha pouca meu pirão primeiro”.  Esse é o gargalo do momento, pois devemos considerar de forma igualitária todos os segmentos da cadeia da leitura, ao escritor ao leitor.

O fato é que o “povo do livro” ainda não se entendeu plenamente sobre os caminhos da leitura. Qual seria o nosso primeiro passo? Precisamos estabelecer uma estratégia para o funcionamento das bibliotecas públicas que são, a rigor, o eixo central para uma política de leitura. Mas, precisamos ainda de tanta coisa. A literatura contemporânea cumpre um papel determinante nesta configuração. Que o diga o Programa de Incentivo à Leitura na Escola – PILE, aplicado pela Secretaria de Educação de Sapé-PB. Este programa avança trabalhando quase que exclusivamente com autores paraibanos.  Sapé cumpre sua missão de estabelecer uma estratégia e uma prática cotidiana em direção às políticas de leitura. No entanto, esta não é a regra. Em alguns casos, talvez na maioria, nos deparamos com uma escandalosa apatia por parte dos gestores, escritores e professores.


Também as vaidades e os interesses particulares atrapalham a mobilização. O desconhecimento de um segmento acerca das necessidades e possibilidades do outro são evidentes. Cada qual permanece olhando visceralmente para o próprio umbigo. É aí que reside a maior dificuldade para que uma política pública para a leitura seja solidificada na Paraíba ou em qualquer parte do Brasil. Os benefícios da leitura para a qualidade do ensino e consequentemente para a qualidade de vida da população são inquestionáveis. Questionável é ainda não termos a leitura como diretriz prioritária nas políticas públicas para a Educação. Esse debate interessa a sociedade. A Colômbia combate o crack com bibliotecas. Nossa juventude necessita de bons conteúdos. A leitura e as demais políticas públicas para a cultura são as melhores saídas para o combate à violência e às desigualdades.


Texto publicado no Jornal A União.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A REVOLUÇÃO CULTURAL DA PERIFERIA

Por Lau Siqueira


A mídia globalizou-se. Chegou às comunas do mundo. Todavia, a intensidade da difusão continua privada. O eco maior é propriedade de poucos. Mesmo assim as periferias do mundo resistem. Se a mídia banalizou a cultura do povo, as ruas a consagraram. Existe uma pulsação imensa por fora das grandes cadeias midiáticas. Afinal, é cada vez mais fácil gravar um disco em qualquer lugar do país. Nem sempre com as melhores estruturas. Pouco importa, pois um ouvinte atento é capaz identificar os melhores  conteúdos.  “Da minha cabeça cuido eu”, já dizia um sábio andarilho dos anos 70. Difícil mesmo é fazer com que o trabalho  feito “na tóra”, como se diz, tenha repercussão até mesmo regional. As emissoras de rádio e TV, apesar de serem concessões públicas, funcionam na lógica do lucro fácil e da audiência conquistada a qualquer preço. Os que não podem pagar o jabá, os que estão fora das grandes máfias fonográficas.

Há resistência em qualquer periferia do mundo. Lugares onde a expressão artística é a forma do conhecimento adquirido através das batidas, dos traços e da ginga do Hip-Hop. Assim é o disco do CGzoo, “Bem Vindos à Selva”. Uma pancada de rimas e de som bancados na batalha. Uma agulha no removedor de impactos das muitas nações-coxinha da Paraíba. O discurso é o traçado do REP (aprendi), ritmo e poesia. A vida árida no  efeito dominó de uma estratificação social traduzida em versos. Mais que uma possibilidade é  uma linguagem dialogando com o mundo. Máquina acelerada, cabelos e bocas celebrando a vida. Assim é a selva onde nada mais surpreende ou pode surpreender, além da arte e suas possibilidades enquanto conhecimento e encantamento. O CGZoo sabe das mazelas e inventa suas próprias curas com sua cara negra-ameríndia pintada para a guerra nossa de cada dia.


O  CGzoo traz a ideologia das ruas brasileiras. As disposições mambembes do som que circula e se bifurca nas quebradas e na cena alternativa. Os motivos profundos ou banais da existência. As lutas silenciosas do povo contra a opressão cínica das elites. Assim vai ganhando o passo a passo da caminhada. Sem espelhos que não sejam os mesmos espelhos de cada esquina. Onde somos todos da mesma raça humana, com seus defeitos e suas taras por perfeição.  No Quarenta, no Zepa, nas Malvinas, nas histerias da fome e na saciedade da alma. Não podemos deixar de reconhecer que diante de imensas dificuldades, de castrações, de soluções impróprias, há uma capacidade abismal de conduzir o sim e o não. O movimento Hip-Hop, em Campina Grande, em João Pessoa, em Natal, Porto Alegre ou Cajazeiras, sabe por onde o sapato aperta. Talvez por isso esse jeito descalço de caminhar. 

Esse texto será publicado no Jornal A União, edição de amanhã, sexta-feira, 26/09/14.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

AS TRAMAS SONORAS DO SILÊNCIO

Por Lau Siqueira

A Paraíba construiu uma das mais ricas estradas musicais no país do samba e da bossa nova. São muitos os caminhos percorridos por gênios como Jackson do Pandeiro e Sivuca. Daqui saíram expoentes que se consagraram no mercado fonográfico em diversos gêneros. Zé e Elba Ramalho, Chico Cesar, Cassiano, Herbert Viana, entre tantos nomes que trafegam nas idas e vindas de um rebuliço cultural brasileiro que dialoga com o mundo.

Nos dias de hoje essa efervescência cresce em diversidade e qualidade. O Projeto Música da Paraíba traduz com plenitude essa nova onda criativa espalhada em todos os gêneros. É o RAP na idade do metal, o rock na pesquisa do coco de roda, o forró da rabeca ao tímpano. Um oceano de possibilidades rompendo as barreiras invisíveis da vida.  Transgressões inventivas e poéticas que fomentam uma cena local que se permite transbordar.

O segundo edital do projeto Música da Paraíba revela mais uma vez a força de um movimento musical independente que cada dia  mais se fortalece na Paraíba e no Brasil, por fora dos canais midiáticos que reproduzem a pastagem ruminada da indústria fonográfica. São as tramas sonoras do silêncio que pedem passagem. Algo que um generoso nicho do mercado espera, mas muitas vezes sequer abre os braços para alcançar.


Numa luta permanente de resistência e sobrevivência estética por fora das estradas lamacentas da globalização, com a força ancestral e ao mesmo tempo futurista da música do mundo, a Paraíba pede passagem num planeta que aproxima o Senegal do Curimataú, a musicalidade indígena do litoral norte da Paraíba, com a mestiçagem dos becos de Nova Iorque. Tudo aqui tem jeito e força para ir mais longe. Eis uma música com cheiro de liberdade.  


Texto de apresentação do álbum Music From Paraíba que levará, em outubro, a música de 71 artistas paraibanos para a maior feira de música do mundo, a Womex. Este ano será na Espanha, em Santiago de Compostela. Após o lançamento do CD na Espanha haverá o lançamento em João Pessoa do projeto Música da Paraíba, incluindo os artistas os 71 artistas contemplados.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O PARAÍSO EM BREJO DAS FREIRAS

Por Lau Siqueira


Um roteiro de turismo Paraíba afora está muito além de um litoral paradisíaco. O Sertão também conta com belezas escondidas e únicas. Lugares onde o Sol e a Lua dimensionam com nitidez os movimentos e as cores do dia e da noite. Nem mesmo o clima quente e seco diminui o encanto. Ao contrário, o clima é um dos mais fortes elementos na sedução sertaneja. Serras íngremes e vales imensos fazem parte de uma paisagem onde nascem e se espalham as cores do arrebol e do poente. Uma dessas preciosidades, certamente, pode ser encontrada na Estância Termal de Brejo das Freiras, no município de São João do Rio do Peixe, localizada há 478 quilômetros de João Pessoa. Uma distância que vale a pena ser percorrida até mesmo pelo que pode revelar no meio do caminho.  O Parque dos Dinossauros, por exemplo. Um equipamento totalmente revitalizado pelo Governo do Estado.

Às vezes comento com  amigos acerca do que perdem alguns nordestinos em relação à exploração turística e cultural da Paraíba. Escolhem a beleza artificial de Gramado e não conhecem Areia, Bananeiras, Monteiro, Serra da Raiz, Cabaceiras e outros municípios que oferecem opções diversificadas para um agradável passeio. No Sertão não é diferente. Em especial na Estação Termal de Brejo das Freiras, onde encontramos um hotel extremamente aconchegante, com  excelente atendimento e boa comida. Que o digam Jane e Helena, que cuidam do atendimento e da cozinha. Administrado pelo poeta Nivaldo Amador o Hotel de Brejo das Freiras possibilita o contato direto com a natureza. Tudo com muita naturalidade e conforto. Inaugurado pelo Governo do Estado em 1944, o hotel mantém-se de pé e conservado. O fato contraria a ideia de que esse tipo de equipamento precisa ser privatizado para ter funcionalidade.


A descoberta das fontes de águas termais em Brejo das Freiras remonta ao ano de 1719 quando uma expedição comandada por um cidadão chamado Manoel Garro, com objetivo de quebrar a resistência indígena, avançou pelo Sertão realizando a grande descoberta. Nas escavações do hotel, mais precisamente  onde foi construída a piscina, encontraram uma ossada de dinossauro que ainda hoje está exposta no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Fatos semelhantes, ainda hoje despertam a expectativa de pesquisadores em diversas áreas, especialmente na arqueologia. Os milênios passados e a estrutura geográfica da região, além das suas belezas naturais, guardam a história do mundo. A exploração daquela região e, especialmente, do Brejo das Freiras, ainda é uma opção barata e agradável tanto para a realização de pesquisas quanto para desfrutar das belezas, das evocações curativas ou da tranquilidade reinante no Brejo das Freiras. 

Artigo publicado no Jornal A União, 12.09.14

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

MEMÓRIAS DO CANGAÇO NA PARAÍBA

por Lau Siqueira


As histórias do Cangaço não são as mais elogiáveis. Mas, também não diferem de histórias recentes. O que está posto é uma sofisticação midiática separando o passado do futuro. Eram duros os tempos do Cangaço. Extorsão, violência, corrupção e conluios políticos. Mas, por acaso hoje é diferente? Mudaram os métodos, mas as práticas pouco foram alteradas.  Há uma maquiagem modernizante encobrindo as fissuras do tempo. O fato é que, inegavelmente, o mito do Cangaço existe e bate com firmeza nas portas do futuro. São as memórias do medo e da sedução pulsando na identidade Nordestina. Herança de um tempo onde a valentia, o heroísmo popular e a indignação diante das injustiças era a moeda corrente. O Cangaço cumpre um papel fundamental na compreensão da história do povo nordestino. Apesar de tudo, as lutas sangrentas nas caatingas se mostram aos olhos do mundo moderno esbanjando altivez.

A herança de Lampião, Corisco e outros personagens é tão robusta que há um inegável receio - principalmente em rodas oficiais - de mexer no vespeiro. Mas, talvez já seja tarde demais.  Pesquisadores do Nordeste inteiro e mesmo de outros rincões brasileiros já acenderam o estopim. O Grupo de Estudos “Cariri Cangaço” é um bom exemplo. Pelo segundo ano consecutivo realizou o Seminário Parahyba Cangaço. No final de agosto, pesquisadores e simpatizantes da causa estiveram reunidos em Sousa, Nazarezinho e Lastro para debater o tema. O evento foi mais uma provocação à história oficial e uma lição de coragem e lucidez perpetrada pelo Cariri Cangaço e pelos militantes do Grupo Paraibano de Estudos do Cangaço. Acontecimentos que pulsam tão fortemente quanto estes até podem e devem ser questionados. Mas, não podem nem devem ser relegados ao esquecimento. Principalmente pelo que representam em termos de perspectiva para um desenvolvimento sustentável no Sertão da Paraíba.

Um exemplo muito claro da localização geográfica desta história é o Sitio Jacu, em Nazarezinho. Entre todas as moradas do Cangaço na Paraíba esta parece a mais estratégica. O lugar foi propriedade e morada do Coronel Chico Pereira e possui uma história que revela as razões dos confrontos do Cangaço com o sistema dominante na época. Todavia, enquanto se discute a viabilização do Memorial do Cangaço, o tempo passa e a degradação aumenta. Aquelas paredes crivadas de bala, sem dúvidas, atrairiam para o local uma legião apaixonada de turistas em substituição aos morcegos e ao esquecimento. Aliás, essa é a história contada pelos que sonham com um futuro de dignidade e respeito para o povo paraibano. Com a viabilidade do semiárido sustentada nos pilares da história e da cultura, o passado será a grande novidade. 







O texto acima será publicado pelo Jornal A União, no próximo dia 05/11, página 2.