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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A FARSA DO FECHAMENTO DE ESCOLAS NA PARAÍBA

Por Lau Siqueira
Quando as intenções não são as melhores a primeira vítima é a verdade. Apesar da absoluta falta de fundamento, a falácia do fechamento de escolas permanece em alguns blogs. Imaginem o caos que seria o fechamento de trezentas e onze escolas na Paraíba.  Como seria possível fechar escolas e manter os alunos em sala de aula? A mentira é tão descarada que sequer em relação ao número de escolas esses inimigos da educação pública chegam a uma conclusão. São trezentas e onze, cento e sessenta e uma ou duzentas e cinquenta? Não é isso que importa aos que buscam apenas distorcer a realidade. Se dez escolas fossem fechadas, sem motivo algum, já teríamos um escândalo. Por que será que a Rede Globo perdeu essa pauta tão “grave”? O Ministério Público estaria literalmente desmoralizado enquanto instituição de defesa da sociedade se calasse diante de tamanho descalabro. Afinal de que serviria o MP se permanecesse alheio ao fechamento de escolas? Ou seja: estão zombando da capacidade de mental do povo paraibano.

Na verdade é ao reordenamento escolar que se referem. Algo legal e necessário na busca de uma educação de qualidade. Foram duzentas e vinte e três as escolas submetidas ao reordenamento escolar. Destas, 12 eram escolas geminadas. Ou seja, duas escolas estaduais funcionando no mesmo prédio. Neste caso, a secretaria de educação encerrou uma das unidades e manteve o atendimento. Foram encontradas vinte escolas paralisadas há anos, mesmo assim mantendo um quadro de funcionários. Dezenove Unidades de Trabalho possuíam dois registros na secretaria de Administração e no SAP – Sistema de Acompanhamento de Pessoal, Mesmo que não possuíssem registro no EDUCACENSO. Duas escolas foram municipalizadas por atenderam os primeiros anos do Ensino Fundamental.

Mas, isso não é tudo. Cento e setenta escolas foram mesmo fechadas. Algumas delas funcionando na casa do professor com um ou com pouquíssimos estudantes. Outras tinham sérios problemas de infraestrutura. Falta de banheiro, de janelas, divisões de salas feita por armários e coisas do tipo. Quarenta e seis dessas escolas funcionavam em uma ou duas salas de escolas municipais e em apenas um turno. Depois do reordenamento a Secretaria de Educação do Estado da Paraíba fez a municipalização de quarenta e sete escolas em trinta e dois  municípios, realizando convênios e repassando recursos. Por que escola para os filhos do povo tem que ser desse jeito? Por que alguns políticos tem a cara de pau de defender esse quadro tão caótico? Como obter bons resultados na Educação maquiando dados? Qualificar a escola pública é uma obrigação de qualquer governo e a secretária de Educação, Professora Márcia Lucena, sabe disso.

 
Texto que será publicado no Jornal A União da próxima sexta-feira.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A ESCOLA PÚBLICA MERECE RESPEITO

Por Lau Siqueira


A luta dos movimentos sociais por uma escola pública de qualidade vem de longe. Aconteceram e acontecem avanços que não podem ser desprezados. Mas, no geral, ainda permanece um escandaloso débito para com o povo brasileiro. A verdade é que um dos maiores estragos que a ditadura militar fez em nosso país foi exatamente na Educação. Os milicos tinham medo de uma sociedade pensante, alerta, consciente dos seus direitos. Isso, para eles, representava o risco do comunismo. Uma bobagem sem precedentes. Colocaram a Educação no pau-de-arara. Apostaram na falência da educação pública e no fortalecimento da rede privada. Depois dos milicos tivemos ainda Sarney, Collor, Itamar e FHC. Ou seja: a ditadura fez o sucessor, ancorada no “medo de ser feliz”. Na era Lula e depois, com Dilma, a Educação não deu o salto esperado. Aqui e ali presenciamos avanços pontuais. Mas não sentimos os efeitos de uma política nacional.

O fato é que não se pode sobrecarregar a rede pública. O atendimento aos mais pobres deve ser prioridade em tudo. As escolas da rede privada não se responsabilizam por absolutamente nada além de ensinar. Algumas, ainda assim, precariamente.  Mas, devemos compreender que a qualidade do ensino público depende de muitos fatores externos. Coisas que ocorrem e devem ocorrer fora da sala de aula. Por exemplo, em relação à política habitacional, assistência social, cultura, saúde e de segurança alimentar. É bem complexo, mas não temos dúvidas: tudo isso tem uma relação direta com a formação da nossa juventude. A escola não pode mais ser o lugar onde a criança vai apenas para cumprir as condicionalidades do Bolsa Família.


A escola é o lugar da aprendizagem e deve ser preparada para isso. E mais: as estratégias pedagógicas devem fazer com que essa aventura do saber se torne sedutora para a juventude. Vejo com alegria algumas escolas seguindo esse caminho. Tal como a Escola Estadual Auzani Lacerda, em Patos, ou a Escola Estadual Gentil Lins, em Sapé, onde certamente o fator humano faz a diferença. Experiências como a que está em curso em algumas regiões fazem a diferença. Mas, ainda é muito pouco. A coragem da Secretária de Educação do Estado, Márcia Lucena, ao desmantelar os códigos eleitorais de escolas que serviam para mero cabide de emprego foi fundamental. Temos visto escolas sendo renovadas não apenas fisicamente. Há um investimento e uma visível opção pela qualidade. Mas, ainda faltam os demais atores cumprirem os seus papéis. A carga não pode ser colocada apenas nas costas dos professores, apesar da injustificada apatia de alguns. É tempo de ampliar esse debate. Não podemos permitir que a mentira supere a verdade, como no caso do “fechamento das 300 escolas”.

O texto acima será publicado no Jornal A União do dia 22 de agosto de 2014.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

UMA NOVA ORDEM FORA DA ORDEM

Por Lau Siqueira


Quando o show de Criolo foi anunciado na programação de reabertura do Espaço Cultural da Paraíba, não faltou quem desdenhasse. “Ninguém conhece”, diziam alguns. “Vai ser um fiasco”, diziam os mais exaltados. Mas, esses mesmos críticos, quando viram aquela multidão alegre, na maior paz, curtindo o show, se renderam. Compreenderam que existe uma nova ordem fora da ordem. Em 2006, quando a FUNJOPE  lançou em Mangabeira o projeto Estação Nordeste, também houve quem desdenhasse. Afinal, eram 6 bandas do próprio bairro. A crítica local, no entanto, reconheceu o sucesso do empreendimento devido à multidão que se aglomerava em frente ao Mercado de Mangabeira. No palco bandas do bairro, como Mobiê, Realidade Crua e uma multidão cantando as músicas do SDS.

É certo que não há reconhecimento dessa resistência permanente. Mas, ela existe. Não foi diferente a história de Augusto dos Anjos. Um poeta que desafiou as possibilidades. Primeiro da linguagem. Depois, da província. Ainda que os traçados locais não fossem os mais favoráveis. Também o Hip-Hop brasileiro evoluiu e não esperou pela indústria para criar seus próprios fenômenos. Em todas as suas linguagens: no RAP, no grafite, na dança de rua e na discotecagem, naturalmente, foram brotando fenômenos. No grafite, por exemplo, temos nomes como Shiko e Giga Brown. Artistas que estão impondo pela arte os sabores das quebradas. Shiko, inclusive, já se destacando nacional e internacionalmente. Alex, da Nação Hip-Hop, de Campina Grande, demonstra expressividade na força da palavra. Afronordestinas deixou sua marca em importantes festivais brasileiros. Dumato e Camila Rocha, SH, TioDall  e outros tantos vão se firmando numa cena que, cada vez mais, busca a profissionalização e firma-se no discurso dos direitos humanos e sociais.


Na dança de rua, o  nome de Vant já é um clássico. Na discotecagem, a incrível DJ kilt vai brilhando entre os marmanjos. Mas, em conversas com o mano Pablo Scobá descobri que o Hip-Hop, hoje, trabalha ainda com um quinto elemento: o conhecimento. Nascido da exclusão social e da resistência política, o Hip-Hop já sofreu todo tipo de preconceito. Seja por abarcar uma maioria pobre e negra. Seja por trabalhar a estética da realidade cotidiana. Mas, foi a partir desses desfavorecimentos contemporâneos, da exclusão e da fratura exposta da violência da burguesia brasileira que eles emergiram e dizem a todo instante que estão nas ruas, mas são capazes de dominar os melhores palcos e galerias. Essa onda há muito já bateu na praia. Quem não quiser se afogar, que pule sete vezes. (O artigo de hoje é dedicado ao grande mestre do Hip-Hop, Cassiano Pedra)

artigo para minha coluna do Jornal A União da próxima sexta.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

ALGUMAS IDEIAS PARA AS BIBLIOTECAS

por Lau Siqueira

Algumas ideias para as bibliotecas

O fechamento da biblioteca Juarez Gama Batista durante a reforma do Espaço Cultural da Paraíba despertou atenção sobre a sua demanda real. A verdade é que até o momento apenas as pessoas que estudam para concursos públicos exigem, com muita propriedade e com todo direito, a reabertura da biblioteca. Mas, essas pessoas necessitam quase que exclusivamente do espaço físico da biblioteca. Seus temas de interesse não estão, necessariamente, disponíveis entre os mais de cem mil títulos do acervo. A maioria traz de casa os livros e apostilas que precisa para estudar. Não que essa não seja uma demanda legítima. Não se trata absolutamente disso. Não vamos aqui confundir as coisas. O fato é que esta não pode nem deve ser a sua única demanda e muito menos a maior prioridade.

Uma biblioteca pode e deve cumprir um papel determinante na formação cidadã. Precisa buscar os caminhos da sedução para que o futuro usuário não a frequente apenas devido às exigências escolares. Precisa se tornar um lugar de fruição, de prazer e de grandes descobertas. Logicamente que não iremos imaginar que bastaria implantarmos algumas políticas compensatórias e tudo estará resolvido. Em primeiro lugar a biblioteca precisa ser vista como um equipamento fundamental para a consolidação de uma política cultural capaz de reaproximar a cultura da educação. Não nos basta a cultura do espetáculo.

As formulações futuras devem apontar para ações permanentes. Os investimentos na renovação do acervo, em mediadores de leitura e bibliotecários devem ser prioritários.. Política pública é processo contínuo. A ação da biblioteca em direção ao leitor deve ser cotidiana. Uma ação que depende de um conjunto de fatores profissionais e estruturais, mas fundamentalmente depende de um olhar apaixonado. Principalmente em direção à formação de leitores. Especialmente para a literatura contemporânea que cumpre um papel fundamental neste processo de sedução. Até mesmo pela possibilidade da presença física do escritor.


Esses são alguns dos fatores que podem dar uma nova dimensão à Biblioteca Juarez Gama Batista e que podem e devem se estender para outras bibliotecas a partir do Sistema Estadual de Bibliotecas. A biblioteca cumprirá assim o seu papel na formação cultural, social e intelectual, principalmente da criança e do jovem. Uma biblioteca deve se tornar necessária não pelas demandas setoriais que possa abrigar. Mas,  sobretudo, por estabelecer um nível de exigência mais agudo por parte dos seus usuários e um pensamento crítico em relação à sociedade. Algo capaz de determinar um tratamento prioritário para as políticas do livro e da leitura.

texto que será publicado amanhã, 08.08.2014, na minha coluna do Jornal A União.