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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Políticas para o mercado ou para a leitura?

Por Lau Siqueira

Uma pulga atrás da orelha me informa que o atual ministro da Cultura quer implantar bibliotecas comunitárias nos conjuntos financiados pelo programa Minha Casa Minha Vida. Diz a pulga fofoqueira que a notícia saiu um dia desses e nunca mais se tocou no assunto. Mas, fofoca de pulga não é coisa pra ser guardada atrás da orelha. A desconfiança do bichinho não vem apenas do fato de Caleiro ser ministro de um governo cuja legitimidade é questionada nacional e internacionalmente. Segundo a nossa fofoqueira mínima,  o  Excelentíssimo  deseja apontar soluções mágicas e simpáticas aos segmentos mais críticos da Cultura. Entretanto, sem conhecer muito bem o chão da sua pisada. Ele ainda não se “enturmou” com o segmento. Em cada declaração parece querer angariar simpatias, mas não gera confiança alguma. Compreensível, afinal, não deve ser fácil ser ministro da cultura de um governo golpista. O segmento, historicamente, não engole fácil esse tipo de circunstância. Caleiro pode até ser bem-intencionado, mas é um gestor cercado de nuvens. Não poderia ser diferente, dadas as circunstâncias da sua ascensão como Ministro da Cultura. Ele aceitou o cargo no vácuo de honrosas recusas. Talvez ainda precise mostrar para si mesmo que valeu o sacrifício.

Todavia, não desconfio do Caleiro por questões conjunturais, apenas. Mas, por razões bem pragmáticas. Algumas experiências semelhantes, inclusive nos governos do PT, me pareceram bem infrutíferas. Boas intensões isoladas e desarticuladas. Cito como exemplo o projeto Arca das Letras, do Ministério de Desenvolvimento Agrário. Um projeto cheio de boas intensões, mas com falhas estruturais gravíssimas. Pouca articulação com a militância leitora e uma fundamentação centrada no marketing e não na pedagogia. Esse erro crasso fez com que muitas Arcas, em comunidades rurais, sirvam hoje apenas como um móvel de suporte para a televisão. Não se trata aqui de crítica negativa. Absolutamente. Nos dois casos, vejo com bons olhos a preocupação com o acesso ao livro e leitura. Mas, como se trata de investimento público, penso que os dois formatos favorecem mais ao mercado do livro que a formação de leitores. Isso a pulga nem sabia.

Pesquisas realizadas pelo Instituto Pró-Livro nos mostram números que não podem ficar fora deste debate. Em 2007 a primeira pesquisa dizia que o Brasil era o décimo maior produtor de livros do mundo e que o MEC era o terceiro maior comprador de livros do mundo. Já a pesquisa realizada em 2016 diz que trinta por cento dos brasileiros nunca comprou um livro e 44% da população brasileira não lê. Não vou entrar na análise da qualidade dos livros mais lidos. Nem me referir ao analfabetismo funcional das pulgas. O fato é que quadro é desolador para a formação crítica do povo brasileiro. Podemos até observar que, num aspecto, a preocupação do ministro e dos ex-gestores do MDA procede. Precisamos facilitar o acesso ao livro. Porém, isso não pode ser feito de forma tão apressada. Assim, favorece apenas o mercado. Os investimentos públicos na área já são por demais vultuosos. Penso inclusive, que os tribunais de contas deviam prestar atenção ao fenômeno. Para uma política nacional de popularização da leitura o que não falta é livro. Falta distribuição consequente. Existe escola com programa de leitura e sem livros e livros encaixotados em bibliotecas fechadas. Que tal começarmos trabalhando com os livros já adquiridos? Em muitos casos, acervos e mais acervos espalhados na inércia. Que tal investir prioritariamente na estruturação dos acervos das bibliotecas públicas, escolares e universitárias? Inclusive fiscalizando seus funcionamentos. Que tal investir nas experiências já existentes e exitosas de pontos de leitura? Fomentando, inclusive a sua expansão. Teríamos mais pulgas leitoras e menos pulgas fofoqueiras.

Entendo que uma política para o livro e leitura não pode deixar de observar alguns fatores determinantes. Um deles é a transnacionalização do mercado livreiro conjugado com a marginalização da literatura nacional. Mesmo a canônica. Por outro lado, a literatura contemporânea não pode estar fora desse debate pois, potencialmente, o autor é um dos principais agentes na formação de leitores. Principalmente num quadro de professores não-leitores. Todavia, devemos reconhecer que o pouco de política para o livro que tivemos desde o governo Lula estabeleceu uma militância em defesa do livro, da literatura brasileira e da leitura. Planos estaduais e municipais de leitura foram e estão tomando corpo. O Plano Nacional nos dá régua e compasso. Reapareceram os contadores e contadoras de história, não mais como cultura familiar, mas como profissionais da mediação. A literatura brasileira contemporânea está com uma produção estonteante, efervescente, mesmo fora do mercado formal e fora das políticas públicas. Existe, pois, uma diversidade de fatores que precisam ser analisados.

Faço essas observações por entender que não estamos mais no tempo de gerar expectativas e repetir os mesmos erros.  Que cada passo seja lento e certeiro. Antes de anunciar o varejo como se fosse o grande projeto, cabe ao ministro Caleiro ou qualquer outro que venha a ocupar o seu lugar, fortalecer o Plano Nacional do Livro, Leitura e Literatura. Nesse contexto, a aproximação com a Educação é indispensável, uma vez que nas últimas décadas o Brasil formou professores distanciados da leitura e da literatura. Essas políticas precisam ser articuladas com os Estados e municípios e ancoradas, especialmente, em milhares de pequenas experiências exitosas espalhadas pelos rincões brasileiros. A premiação poderia ser o fomento para a expansão. Chega de pensar políticas para o livro apenas para fortalecer um mercado que não reconhece a literatura brasileira e despreza a formação cidadã a partir da leitura literária. Caso contrário, daqui a pouco teremos um fundamentalista lunático propondo políticas para a leitura, sem literatura. Neste caso, certamente, as pulgas entrarão em guerra civil.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

ENOCH É A DANÇA ALÉM DO CORPO.

    Por Lau Siqueira

José Enoch é muito mais que um ícone da dança brasileira. O tempo teve a habilidade de transformá-lo numa espécie de representação da dança muito além do corpo. O ápice de um movimento absolutamente único que costura os instantes e as intensidades de uma vida inteira dedicada à arte. Uma imagem de delicadezas. Uma energia que acabou por transformá-lo, também, num grande mestre da vida.  Sua experiência extrapola os palcos. Abriga sensações e estranhamentos. Coisas que se experimenta quando a vida transcende os extremos. Enoch foi aos extremos. Ultrapassou os extremos e voltou ao centro. Cavalgou pela vida como um arqueiro destemido. Descobrindo ventos e desbravando tempestades.

Paraibano de Rio Tinto, percorreu o mundo com sua arte. Nova Iorque, Osaka, Sydney. Dançou na Broadway. Dançou nas principais salas de espetáculo do mundo. Conviveu com os mitos como Elvis Presley, Bibi Ferreira, Dercy Gonsalves, Virgínia Lane na boa fase do Teatro Rebolado. Soube traduzir tudo isso em conhecimento e formou boa parte das últimas gerações de profissionais da área na Paraíba após retornar ao Estado definitivamente. Não apenas com as técnicas da dança clássica ou contemporânea. Não apenas com o repasse do conhecimento estético. Mas, também e principalmente com a ética da dança. Com a ética da arte e do artista que faz do seu ofício um respiradouro.

Nada mais nobre que acumular conhecimentos de uma vida inteira e repartir com generosidade. Este é Enoch. Esta é a troca e esta é a lição de dignidade artística que esse ídolo de tanta gente espalha pelas veredas do bairro da Torre. Conversar com Enoch é embarcar numa aventura de muitos episódios. Ele sabe conduzir cada passo nessa dança que não para nunca. É um fazedor de histórias e um contador de boas histórias. Fruto da sua construção de vida, a Academia de Dança Ballet Studio José Enoch é uma representação dessa trajetória. Uma grife poderosa que foi estabelecendo-se como uma das principais instituições de formação para crianças e jovens no imenso universo da dança. Uma verdadeira academia de conhecimentos cuja aula magna é a possibilidade de uma longa conversa com esse exemplo de homem, de artista e de empreendedor das artes num estado cheio de vocações e talentos como a Paraíba.                                           



quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Em Guarabira tem Café com Poeira – Cultura e Resistência no Brejo Paraibano

Por Lau Siqueira

Guarabira é uma das mais importantes cidades do interior do Nordeste. É conhecida como a “Rainha do Brejo”. Situada numa das regiões de solo mais fértil do país, é um polo regional relevante em todos os sentidos. Possui localização geográfica estratégica.  Fica à cem quilômetros de João Pessoa e pouco menos que isso, de Campina Grande. Cento e oitenta quilômetros de Natal e duzentos e cinquenta de Recife. Integra uma região populosa e com expressões artísticas e culturais reconhecidas nacional e internacionalmente. Possui teatro, museu e outros equipamentos culturais. Mas, vem sendo gerida com as mãos de ferro das oligarquias. Grupos familiares se revezam na prefeitura. Políticos que não dialogam e até desprezam a efervescência natural dos movimentos culturais da cidade.

Todavia, os artistas e produtores locais não se entregam. Nunca baixaram a cabeça diante da hegemonia conservadora. Se articulam, se movimentam, criam espaços, reinventam-se, reviram as tradições e dialogam com o futuro. Estabelecem alianças com outras margens da cidade, do estado e do planeta. Nas relações humanas, na diversidade cultural, no exercício das liberdades individuais e na convicção de estabelecer uma trincheira de paz em meio ao caos do nosso tempo. É isso que sustenta a resistência cultural em Guarabira. Nos últimos anos a Associação de Arte e Cultura de Guarabira – AACG estimula ações na cidade. Entre elas, um evento muito interessante realizado em praça pública, o Café com Poeira. Toda sexta-feira tem hip-hop, ou rock,  performances, MPB, teatro, lançamentos de livros e os inevitáveis debates contemporâneos liberados na voz de cada um. São os diferentes buscando a igualdade. Algo que precisa ser visto com olhar sensível e não com condenações apenas revelam preconceito de classe. São os protagonistas do nosso tempo. Precisam ser reconhecidos e não condenados por isso.

O Café com Poeira se destaca. Claro, contra a vontade de alguns. Presta relevante serviço para a sociedade brejeira. Principalmente diante da morbidez massificada de alguns grandes e milionários eventos. Desses que zeram os cofres públicos para a cultura local. Traz semanalmente para a praça a potencialidade criativa e humana das suas comunidades, da sua intelectualidade. Mostra a cidade como ela é. Sem máscaras. Com sua beleza sem espelhos nem vaidades. Expõe um certo cosmopolitismo do abandono.  Se discute comportamento com a maturidade natural da juventude. Exemplo para uma sociedade que permanece calada diante do extermínio de jovens negros, dos crimes homofóbicos e machistas. Café com Poeira é uma bunda na janela da mediocridade. Antes de segregar, os poderes constituídos deveriam acolher e debater as questões que transbordam por ali. Afinal, a realidade dos bairros não é só boteco farmácia e igreja. O discurso bem estruturado dos artistas do Hip-Hop de Guarabira, por exemplo, nos mostra o quanto precisamos conversar. Nossa juventude precisa de políticas públicas e não de repressão e exclusão.


O Brejo paraibano possui organizações sociais históricas. Não apenas em termos de estrutura física. Mas, também quanto aos valores humanos. Mesmo que às vezes exagerem na informalidade. A verdade é que produzem ações efetivas e legítimas. Na maioria das vezes, sem apoio e sem reconhecimento algum do poder público e da sociedade. Café com Poeira é um exemplo do vigor, da energia urbana que se esparrama pela Paraíba. Traduz com exatidão a força que desloca a periferia para o centro e o centro para a periferia. Uma força que não se entrega à barbárie proposta pelas classes dominantes. Resiste e quer ser ouvida e reconhecida dentro e fora dos complexos institucionais. Desta convivência afetiva, social, cultural e artística, haverá de nascer uma nova consciência na Rainha do Brejo. Por exemplo, a consciência que receber artistas de fora é muito bom pra cidade. Mas, valorizar os de casa é fundamental para que toda a sociedade brejeira construa uma vida mais harmônica, democrática e progressista. Afora isso, sobra apenas o fundamentalismo religioso e político que tanto mal tem feito ao mundo e que tanto cresce por aqui.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

OS SEGREDOS DE QUELLYNO

“Nada envelhece tão depressa, quanto a novidade.”
(José Paulo Paes)



Neste livro, o poeta Quelino Sousa – já conhecido nos meios literários da antiga Cidade das Acácias - ingressou num universo muito expressivo da história da poesia universal. Experimenta seus poemas, exclusivamente, em sonetos e haicais. Duas formas fixas do fazer poético. Entretanto ambas com variações infinitas. Entre os extremos, cabe tudo ou quase tudo. Aliás, hai = brincadeira, gracejo, kai = harmonia, realização. Na sua origem, talvez, uma quase fotografia. O haicai, na verdade,  é um denso objeto do olhar. Já o soneto, desde sua origem até esses tempos difusos,  já se estendeu até mesmo no tapete tatuado da Poesia Visual. Especialmente quando o poeta potiguar Avelino de Araújo criou o famoso Soneto do Apartheid. Uma disposição visual  com os quartetos e tercetos representados por pedaços de arames farpados. Dispostos, inventivamente, na forma do soneto e denunciando o regime racista da África do Sul nos anos 70. Pois bem: é neste açude de múltiplas linguagens que o Quelino solta suas manadas.

A poesia não tem limites. Quelino sabe disso. Aliás, parece que a poesia vive de infinitos, de descobertas, de encontros, desencontros e reencontros. Pulsando nas palavras com a sinceridade com a qual a vida nos lê. Desta forma, a ironia, o amor, a sensualidade até os limites da pornografia, fazem parte do universo poético de Quelino, do seu tear pelas possibilidades de um oriente vestindo  jeans e caminhando nas areias de Cabo Branco. Por decisão do poeta, os haicais recebem títulos e se aproximam também das ideias do poeta baiano Goulart Gomes em torno do Poetrix. Enfim, na terra de grandes haicaístas como Saulo Mendonça e Fransued do Vale, Quelino deixa sua escopeta apontada para a Lua, esperando o estampido do Sol nascente.

Nos sonetos o poeta praticamente não muda a variação temática. Continua cantando o amor e a sensualidade. Mas, detalhe: tematiza, também, a própria literatura. As leituras que são experimentadas no cotidiano  e cabem perfeitamente na sua metalúrgica de versos. Enfim, não é de hoje: o poeta quando acerta nas nuvens, se mostra errante de si mesmo. Desenha suas fissuras e expõe suas metades induzidas num limite que é só seu. Num experimentar sem ressentimentos nem frações diluídas nesse caldeirão onde somos todos traços da mesma paisagem, caminhando para muito além da escrita silenciada da própria vida.


Tenho encontrado Quelino nos ambientes da Literatura. Na leitura de jovens de escolas públicas que descobrem e reconhecem seus poemas na internet. Figura querida no âmbito das cálidas Letras da Parahyba. Chega solitário pelas esquinas mais esquivas com mais um livro. Que seja saudado com muita poesia entre os seletos e os dispersos. Escrever e publicar um livro de poemas não é das coisas mais fáceis. Lembro de um amigo dizer no lançamento do meu Texto Sentido, 2007, que eu estava “me expondo muito”. Pois é, parece que Quelino também decidiu mais uma vez, atravessar a Praça da Paz completamente nu. Sem medo de receber o Nobel diretamente das mãos distraídas de Bob Dylan.

Lau Siqueira


Prefácio do livro de sonetos e haicais de Quelino Sousa.