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domingo, 13 de janeiro de 2013

O espelho azul de Ana Luisa Kaminski

 por Lau Siqueira

O que nos interessa no desbravamento dos conceitos de forma e conteúdo é a diminuição das lonjuras. A persistência de um olhar desfragmentado no discurso silencioso da arte. Foi nessa busca, percorrendo versos pelos caminhos da Idade Mídia, que encontrei o lirismo das cores e das formas na obra de Ana Luisa Kaminski - uma artista gaúcha, de Erechim,  que vive em Florianópolis. A delicadeza, a sensualidade, a espiritualidade feminina, a perplexidade de uma predominância azul aberta às tonalidades de cada cor. Ana Kaminski faz da sua arte um ato de serenidade, de ousadia, de liberdade, de paixão, de amor e de permanente inquietação. Elabora através das suas imagens, um discurso para as alcateias e passaredos da própria arte. Até que se cumpra o que dizia Mondrian: “a arte desaparecerá na medida que a vida adquirir mais equilíbrio.” Utopia que cabe  nas cores e na densidade temática que obra de Ana Kaminski  revela. Uma poética de imagens atentas aos desequilíbrios do mundo e buscando recuperá-los.

O auto-retrato é sempre um bom caminho para compreendermos a espinha dorsal de uma produção artística. O encontro ético e estético na distância entre o criador e a criação. Rembrandt foi o artista que mais pintou auto-retratos. Foram cerca de 100 obras neste formato. Mas, de certa forma, toda arte é autobiográfica. Revela com maior ou menor intensidade, a trajetória e talvez a consistência mais plena de uma vida. O artista por sua vez é um ser que transcende a partir dos seus acúmulos, das suas levezas, dos seus afetos e das suas jornadas impactantes. Todas as suas asas e principalmente todas as suas percepções sobre o mundo afinam seus instrumentos. Nossa leitura dos quadros de Ana Kaminski se dá nesta perspectiva. Observando as técnicas utilizadas pela artista lembramos o saudoso poeta concreto Décio Pignatari que dizia ser a poesia um segmento das artes plásticas. Ana Kaminski nos mostra que o inverso também procede. Talvez revelando os antagonismos apontados por Mondrian e os caminhos para a sua inevitável superação. Utopicamente a artista segue em frente, existindo além dos limites. Construindo-se pelos rastros de encantamento, inquietação ou mesmo repulsa que sua verdade artística possa provocar. Ana Kaminski busca suas utopias a partir de uma inegociável transversalidade. Tudo isso num tempo em que, permanentemente, o futuro se encontra com o passado. Todavia, com a suave condução dos rumos apontados pela energia que une os pincéis às suas mãos e às suas conexões sensoriais e lúdicas. É poesia o que brota nas cores de Ana Kaminski! Num profundo espelho de onde a artista extrai da sua existência, de forma sequencial e filosoficamente bem estruturada. Sua arte é uma permanente fotografia da sua alma fêmea.

Segundo Antônio Callado, “o principal problema da arte do nosso tempo, em que estala por todas as juntas a armadura do capitalismo, é criar uma ponte entre o povo e o artista – e por povo entenda-se todo mundo, todos os não-artistas.” Essa ponte, Ana Kaminski encontra de forma consciente e consistente nas redes sociais. Primeiro no Orkut e depois no Facebook ou mesmo no blog Âncoras e Asas (www.ancoraseasas.blogspot.com). O fato é que com estes instrumentos a artista vai encurtando a distância entre a sua obra e um público cada vez mais afinado com seus traços. O que transborda em Ana Luisa Kaminski é a plenitude da artista diante do seu universo criativo. Ela revela em cada pintura um firme propósito estético e uma permanente busca. Nada melhor para representar o que a vida tem de mais intenso, de mais verdadeiro.


Texto escrito para a minha coluna no portal repórterPB (www.reporterpb.com.br)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A MÍDIA SOU EU


por Lau Siqueira

As redes sociais cumprem um papel de tamanha relevância nas comunicações que até as grandes corporações da mídia tradicional estão no Facebook e no Twitter. As redes têm uma característica interessante: o sujeito abre uma conta  preenche um perfil, coloca uma foto para identificação e logo aparecem os seguidores. Em algum momento, no mesmo formato, na mesma rede social, o cidadão se depara, por exemplo, com o perfil do SBT ou do Estadão. A rigor, os padrões são idênticos. Também, nos últimos anos são milhares de blogs pessoais e portais que oferecem opções de acesso aos temas mais diversos. Logicamente que ainda estamos longe de uma revolução nas comunicações. Mas, ninguém pode negar que o momento é muito especial do ponto de vista da liberdade e da abertura de canais de expressão.
A “falta de apoio da imprensa” nunca teve muita consistência na justificativa de insucessos. Hoje, definitivamente, não salva a pele de ninguém. Para um cantor pouco conhecido que deseja mostrar seu trabalho, por exemplo, não existe caminho melhor que as redes. No Facebook, seguramente, o nosso jovem artista terá resultados mais seguros que na capa do melhor caderno de cultura da cidade. Isso lembra os cordelistas. Eles nunca esperaram as editoras e os jornais para encarar uma vida de frente pro verso. Logicamente que não cometeremos a ingenuidade de anunciar a  decadência da grande mídia. O poder é outro papo. Mas, podemos arriscar que para muitos segmentos esses gigantes já se tornaram irrelevantes faz tempo. É mais ágil e fácil a articulação de um público alvo através das redes sociais. Existe um novo traçado através da internet, radicalizando nas mudanças de hábito. O Jornal do Brasil já se tornou exclusivamente virtual. A banalidade e a consistência disputam espaços nas teias da Web. Logicamente que também as migrações do lixo cultural aceleraram o passo. Mas, sem dúvidas, abriram-se inúmeras outras portas. É natural que tudo isso gere uma esperança. Mesmo que o formato e a mediocridade das grandes corporações pareçam também, cada vez mais sólidas.
A “grande assembleia universal”, sonhada por Brecht na era do rádio, vai silenciosamente se cumprindo nesses tempos de velocidades. Sobretudo, está posta ideologicamente. Se alguém pode gravar uma cena de novela na sala da sua casa e colocar numa disputa (ainda que muito desigual) pela opinião pública, então o indivíduo pode dizer: “a mídia sou eu”. Se isso tem relevância? Bem... é dentro dessa nau de chips e bits que hoje navega a evolução da espécie humana. As mudanças são irreversíveis. Definitivamente, depois da invenção da roda o mundo anda cada dia mais rápido. É melhor não subestimar a Era Digital. 

Texto para o Jornal da Paraíba do próximo domingo.