terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ebulição no mundo editorial.

Por Lau Siqueira


Não quero exagerar, mas parece que do início do século XX pra cá, vivenciamos alguns momentos de ebulição na literatura. Primeiro com a Semana de Arte Moderna de 1922. Claro, a Semana extrapolou. Trabalhou a literatura, mas também a música, a escultura, a pintura. As rupturas de 22 ainda hoje influenciam e determinam os passos da literatura e de outras artes ditas brasileiras. Podemos considerar, também, que a Poesia Concreta impactou por ser o único movimento de vanguarda genuinamente brasileiro. Também continua determinando os rumos a Poesia principalmente, mas também de outras artes no Brasil e em outros países.

Outubro de 2017 também deve entrar para o calendário das grandes transformações. O Mulherio das Letras, acontecido na Paraíba, trouxe para o debate as inquietações e as zonas de sombra do universo editorial. Sem aprofundar o debate estético (não era esse o objetivo), reverberou as diferenças e as potencialidades do universo feminino na literatura. O Mulherio teve uma característica fantástica. Mostrou um altíssimo poder de mobilização e trouxe para a cena, inclusive, a saudável certeza que nem tudo é ou deve ser consenso. Portanto, me refiro aos três momentos de forte impacto na história da literatura brasileira. Logicamente, sem a insensatez das comparações.

Dizem que a segunda edição deverá acontecer em Guarujá-SP. Espero que o triplex da Odebrecht seja cedido para abrigar algumas visitantes. Certamente outros lugares também haverão de querer um evento de tamanha magnitude. Muitas movimentações em torno da escrita feminina e feminista devem abrir espaços. No entanto, o Mulherio das Letras enquanto movimento das mulheres escritoras deste país, aconteceu aqui na Paraíba. No máximo, teremos eventos surgidos em consequência desse movimento. Tudo será consequência do que aconteceu por aqui.  Certamente que as coisas não deverão permanecer no mesmo lugar. O grito das mulheres ecoou e revelou também suas mazelas.

O fato é que o mercado editorial ficou de olho. O Brasil que escreve e que lê ficou de olho. Os homens que escrevem e leem ficaram de orelha em pé.  Foram dias de intensos debates e de absoluta autonomia na condução dos trabalhos. Foi, sem dúvidas, o maior movimento de mulheres escritoras da história deste país. A repercussão certamente atravessará fronteiras, pois num tempo não muito distante, as mulheres precisavam publicar seus livros com pseudônimos masculinos para a plena aceitação do mercado. Dificilmente se repetirá com a mesma intensidade. Dificilmente não terá fragmentações, mas certamente cumpriu o seu papel ao chamar a atenção para as inocências nada inocentes da literatura. O racismo, o machismo, a homofobia. Expressões da existência nada ficcional das esquinas, ainda domina a cena.

No momento em que o Brasil e o mundo atravessam um momento nebuloso, o contraponto da escuta e da ocupação dos espaços faz uma diferença enorme. Mesmo que em alguns momentos tudo se perca nas trações do imaginário ou das inquietações extraliterárias. A sensação que ficou é que o objetivo das organizadoras foi atingido. O do movimento Mulherio das Letras me pareceu bastante anárquico. Recusando um comando formal, apesar de tecer com clareza os fios condutores para que o debate se tornasse fluente como um rio. Todavia, duas escritoras saem da cena do Mulherio como protagonistas por diferentes motivos. São elas as escritoras Conceição Evaristo e Maria Valéria Rezende.


Agora é aguardar as movimentações que naturalmente deverão acontecer. A repercussão foi imensa. Quiçá, para além-fronteiras. Nada, certamente, voltará ao seu lugar. Os debates mais ou menos acirrados encontrarão seus espaços de expansão. A literatura escrita pelas mulheres haverá de trazer novos ventos. Ninguém escapará deste vendaval. Homens, mulheres, leitores, leitoras, escritores, escritoras, formadores, formadoras. As expectativas são muitas. Mas, não tenho dúvidas que o impacto maior será no mercado editorial. Como? Não sei ainda. A visibilidade de algumas mulheres puxará pelos pés a invisibilidade de muitos homens. O movimento Mulherio das Letras não foi excludente. Foi apenas mais um passo mais largo de uma longa caminhada. Um misto de generosidade, militância e utopia.

domingo, 8 de outubro de 2017

A criminalização da arte e o silêncio dos inocentes.

por Lau Siqueira


Recentemente duas polêmicas ocuparam as redes sociais no palco sombrio da intolerância e na aldeia das informações distorcidas. Falo, inicialmente, da exposição “Queermuseu”, no Centro Cultural Santander, em Porto Alegre. As temáticas LGBT atiçaram o ódio de elementos do controverso MBL – Movimento Brasil Livre –, agrupamento de militantes políticos de extrema direita que tem se notabilizado pela insensatez e virulência. Mesmo liberado pelo Ministério Público Federal, o banco decidiu encerrar a exposição. Entendo que tanto o ato do MBL quanto o banco infringiram a lei, uma vez que a homofobia é crime. Foram dois atos inaceitavelmente homofóbicos. Ironicamente, o Santander possui um dos maiores acervos de artes plásticas do país. Certamente com as mais diversas temáticas. Esta foi só uma demonstração do obscurantismo e fanatismo que alguns setores tentam impor ao Brasil. Aliás, já com resultados lamentáveis. Por exemplo, a agressão covarde à mãe que abraçava a filha num shopping de Brasília. O agressor supunha ser lesbianismo uma expressão de amor materno. Vejam a que ponto chegamos!

No caso do MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo, ainda é mais grave. Tentaram tratar o fato como “abuso sexual de criança e adolescente”. Políticos que não tem o menor respeito pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, passaram a defender o ECA para criminalizar a exposição. Aliás, uma linda cortina de fumaça para esconder um pouco a pornografia moral que cobre o Palácio do Planalto e a maioria dos demais poderes onde estão inseridos. Principalmente o Senado e a Câmara Federal que, com raras e preciosas exceções, envergonham o país.

Vejamos o que diz a lei ao pé da letra. Segundo o ECA que em seu artigo 241, “vender ou expor à venda fotografia, vídeo ou outro registro que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente” é crime. A pena de reclusão é de quatro a oito anos, mais multa. Muito claramente o fato não pode ser enquadrado neste artigo. Não houve qualquer ação de pornografia no filme divulgado. Já no artigo 232 o ECA é muito claro e diz que: submeter criança ou adolescente a vexame ou constrangimento é crime. Aí podemos começar a pensar. Houve sim um ato criminoso de quem se apropriou das imagens para divulga-las indevidamente. Por exemplo, o deputado nazifascista Jair Bolsonaro. Ele não teve o cuidado sequer de cobrir o rosto da criança na sua divulgação. Portanto tentam inverter o sentido da lei para fugir dela. Até porque isso dá cadeia. De seis meses a um ano de prisão.
Mas, vejamos o que diz o nosso Código Penal  que, aliás, é de 1940. O artigo 218-A, por exemplo, cuja pena de reclusão pode ir de dois a quatro anos, afirma que “praticar, na presença de alguém menor de 14 (catorze) anos, ou induzi-lo a presenciar, conjunção carnal ou outro ato libidinoso, a fim de satisfazer lascívia própria ou de outrem” é crime. Muito objetivamente, não foi o caso. E o filme, este sim, criminoso, mostra isso de forma muito objetiva. Mas, vamos para o artigo 234 que diz exatamente o seguinte: “fazer, importar, exportar, adquirir ou ter sob sua guarda, para fim de comércio, de distribuição ou de exposição pública, escrito, desenho, pintura, estampa ou qualquer objeto obsceno” é crime. Diz ainda que realizar representação teatral ou exibição cinematográfica de caráter obsceno é crime. Nada disso estava configurado na exposição. Não posso dizer o mesmo da atuação cinematográfica do aliado de Bolsonaro e demais golpistas, o grotesco Alexandre Frota.
O nu na história da arte que algumas pessoas estão descobrindo agora, vem de pelo menos 20 mil anos. Por exemplo, com a Vênus de Willendorf. Porém, nada é de graça. A tentativa de criminalizar a arte é apenas o começo da criminalização das liberdades individuais e coletivas. A arte livre sempre foi um símbolo de democracia. No entanto, estamos convivendo com a proliferação estimulada de fanáticos e lunáticos querendo mostrar força política. Não há inocência nisso. Caso contrário, teria havido por parte desses senhores e senhoras cheios de moralismo e ódio, um esforço máximo para elucidar aquele caso de tentativa de estupro por parte do pastor Marcos Feliciano. Mas, ao contrário. De uma hora para a outra, todo mundo virou “crítico de arte” e o caso Feliciano foi abafado. Políticos que deveriam estar preocupados na elucidação de casos concretos de corrupção encontraram uma forma muito oportunista de desviar o assunto.
Pornografia de verdade é a matança de jovens negros que esses mesmo senhores apoiam defendendo a pena de morte e criminalizando a pobreza. Anos atrás estive no MAM visitando uma belíssima exposição de Volpi. Soube recentemente de uma petição assinada por mais de oitenta mil pessoas que, provavelmente nunca pisaram lá, solicitando o fechamento do museu. Já temos dificuldades enormes para solidificar a presença da arte na composição da cultura brasileira, tão diversa e tão marginalizada. Imaginem conviver com verdadeiros talibãs, xiitas, portadores da ignorância, do preconceito e da falta de respeito pela produção artística brasileira. Inaceitável engolirmos calados o que está posto. Mais respeito pela arte e pelos artistas brasileiros. Para concluir, indico a leitura  do artigo de André karam Trindade: “a criminalização da arte e a recolonização do direito pela moral”. Está on line. Há reflexão e há resposta sobre tudo isso. Por exemplo, 115 artistas ficaram nus em Brasília (foto) em defesa do performer preso por nudez no MAM.


UMA CIDADE VESTIDA DE LIVROS

Segundo a Professora Aurea Canejo, secretária de Educação de Barra de São Miguel, “a FLIBARRA não é um evento, mas um projeto”. A frase...