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sábado, 25 de fevereiro de 2012

Por uma comuna de leitores e leitoras!

por Lau Siqueira

A vida nos ensina que não é esperando as melhores condições que iremos protagonizar grandes acontecimentos. Algumas das ações mais brilhantes da história da humanidade aconteceram em situações de grande adversidade. A precariedade, não raras vezes, revelou grandes gênios, nos trouxe curas e alegrias repartidas. Mas, cá pra nós, o Brasil é um país um tanto esquisito. As desgraças e os fracassos acabam despertando  maior atenção que os caminhos bem traçados. Em um texto anterior, falo da Biblioteca Comunitária Antônio Soares de Lima na comunidade Tito Silva, em João Pessoa. A imprensa da Paraíba, no entanto, entende que é mais importante noticiar um assassinato nesta comunidade que um fato tão espetacular como a criação de uma biblioteca. Um fato tão grandioso como este, não mereceu a menor atenção nem da imprensa nem da nata qualhada da intelectualidade local. A imprensa se alimenta do estapafúrdio e despreza os sinais de evolução, principalmente nas áreas mais vulneráveis socialmente.  Não é diferente em outras cidades e não há inocência nisso. Afinal, a imprensa dita burguesa se alimenta das diferenças, dos abismos sociais. Um povo com livro na mão assusta mais a burguesia que um povo com armas na mão.

Sempre me pergunto se devemos desanimar ou seguir em frente. Claro que devemos seguir em frente! Primeiro porque não saberíamos agir de forma diferente. Falo aqui de um grupo muito pequeno e muito seleto da nossa sociedade, que acredita que as ações de incentivo à leitura, independentemente da sua dimensão, fazem a diferença na vida de uma cidade, de um estado e de um país. Portanto, se queremos um país leitor, vamos começar pelo nosso local de trabalho, pelo nosso bairro, pela nossa cidade. Certamente que estaremos espalhando boas sementes para o futuro. Certamente que estaremos dando um passo importante para que os investimentos em Educação não se resumam apenas nas garantias constitucionais. Os livros existem. Muitos deles trancafiados em salas fechadas, como se tivessem cometido o crime de despertar consciências e questionar as raízes da ignorância e as sementes da sabedoria.


Posso citar aqui algumas dezenas de pequenas histórias, pequenas omissões. Posso citar também grandes omissões. Coisas que se relacionam com a inanição. Por exemplo, de alguém que possui os instrumentos, sabe como se toca, mas prefere o comodismo do desperdício precioso de tempo. Aliás, o tempo é o que de mais precioso podemos desperdiçar. Mas, não vamos mais perder nosso tempo tão raro com estas aflições. Precisamos fazer boas alianças para inventar novos caminhos. Precisamos caminhar com o que está posto. Nesse contexto, podemos considerar que uma biblioteca comunitária é mais importante que uma Bienal do Livro e mais importante que uma grande e suntuosa biblioteca, porque dá acesso direto aos que mais precisam desse canal de conhecimento. Logicamente que falo aqui de boa literatura e não de desova de livros didáticos com exercícios preenchidos que deveriam, na verdade, ser reciclados para um melhor aproveitamento. Como diz Roland Barthes, a Literatura (maiúscula) possui muitos saberes. Um bom livro, por exemplo, como Robinson Cruzoé, de Daniel Defoe, apresentará ao jovem, além de uma leitura agradável, de uma boa literatura,  lições de geografia, antropologia e história. Tudo num discurso bem construído e de fácil compreensão. Isso não pode ser esquecido nas ações de leitura porque formamos bons leitores a partir de textos sedutores. Logicamente, temos que ser cirúrgicos na escolha de um ponto de partida para uma ação de formação de leitores e leitoras.

Somos um país de contrastes. Não é diferente no mundo do livro. Como já dissemos aqui e em outros espaços, o MEC é o terceiro maior comprador de livros do mundo. O mercado do livro no Brasil é servil e excludente, como qualquer mercado de batatas. A única lógica que o movimenta é a do enriquecimento de um segmento  cada vez mais concentrado e internacionalizado. Mas, nesta análise, o importante é que os livros já existem. Muitas vezes empilhados em salas escuras, cheios de pó e acumulando ácaro. Esses livros precisam ir para o “ bom prejuízo”. Precisamos fazer com que se percam nas mãos de uma juventude que, sobretudo, tem sede de conhecimento e pouco estímulo para alcançá-lo. Por isso, quando nos omitimos em relação ao que existe de real em termos de ações de leitura, estamos entregando o ouro para o sistema. Estamos abdicando da necessária luta armada da palavra.

É tudo tão simples. A prática nos mostrou, principalmente nos últimos tempos, que pequenos gestos podem se transformar em grandes ações. Foi assim que começou, por exemplo, o sarau Poesia no Hospício. Uma ação realizada todas as quintas-feiras com pacientes e impacientes no Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira. Foi assim que nasceu a Biblioteca Comunitária Antônio Soares de Lima. Não são exatamente ações para enaltecer o ego de escritores. São ações militantes para estabelecer laços de igualdade entre pessoas que atravessam períodos de vulnerabilidade, com a possibilidade de boas descobertas. Ou seja: para uma ação de leitura, basta começar. Se alguém espera salas com ar-condicionado, bibliotecárias ou bibliotecários cpmprometidos, computadores de última geração, oficineiros afiados  e eventos de porte para chamar a atenção da mídia, pode sambar no desespero porque o nosso carnaval não é esse. Assim como as bibliotecas comunitárias são mais importantes que os grandes empreendimentos, a circulação do livro é mais importante que as bibliotecas comunitárias. Não podemos esquecer, todavia, que a tradição oral da literatura é o que há de mais consistente em termos históricos. Afinal, Gregório de Matos Guerra, por exemplo, construiu uma obra para a posteridade, sem nunca ter publicado um livro em vida. Os exemplos são muitos. A oralidade está enraizada na história do povo. Infelizmente, vivemos horizontes reduzidos por conta dos preconceitos intelectuais e do baixo teor de compromisso com a literatura e com as ações de leitura nas universidades, onde receber um diploma se tornou mais importante que receber conhecimentos.

Em última análise, precisamos nos perguntar: o que estamos esperando? Os livros existem. O analfabetismo ainda é uma mancha em nossa história. Este é um fato, mas nada é estático. Tudo está em movimento. Tudo muda constantemente.  O poeta Mário Quintana já dizia: “o pior analfabeto é aquele que aprendeu a ler e não lê.” Estamos falando de ações em rede que, certamente, irão desencadear numa anárquica e produtiva semeadura para um novo tempo onde poderemos, num perídio não maior que uma ou duas décadas, nos transformarmos em comunidades bem referenciadas no mundo. Tudo por conta da partilha de conhecimentos. Algo que nos levará a descobrir o povo enquanto sujeito da própria história. Assim, um livro não deveria nunca ser uma propriedade privada. Principalmente aqueles que são comprados com recursos públicos que, cá pra nós, é a maioria da produção editorial brasileira. Um país que é um dos maiores produtores de livros do mundo deverá também ser um país de muitos leitores. As condições objetivas para que isso aconteça dependem de uma vontade coletiva que, sabemos, já existe. Precisamos, pois, estar juntos e agir em rede.

sábado, 11 de fevereiro de 2012


LIVRO, LEITURA, LITERATURA E CIDADANIA
“A literatura é um dos direitos humanos.” (Antônio Cândido)

por Lau Siqueira
A Cidade das Acácias ficou mais bela depois da semeadura que foi realizada no dia 07 de fevereiro deste ano, na comunidade Tito Silva. A Avenida José Américo de Almeida (nas proximidades da lombada eletrônica) recebeu a Biblioteca Comunitária Antônio Soares de Lima, com financiamento do Fundo Municipal de Cultura – FMC e com o apoio imprescindível, do SINDLIMP – Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas de Limpeza Urbana de João Pessoa, Movimento de Luta nos Bairros – MLB, Coletivo Olga Benário e outras parcerias buscadas pela associação comunitária do bairro – CEIFA, especialmente através da sua presidente, Rosilene Santana, uma militante da resistência que ainda se respira nos movimentos populares e nos movimentos de mulheres.
Um movimento social capaz de criar uma biblioteca comunitária é um importante contraponto aos mega-eventos - sabidamente as Bienais e Salões do Livro que fomentam a concentração de lucros dentro do mercado do livro, geralmente deixando nada ou muito pouco para as populações locais.  Menos ainda  para os escritores, escritoras e agentes promotores do livro e da leitura. Portanto, cabe aqui uma breve reflexão acerca do que significa hoje o mercado do livro no Brasil para as políticas públicas de leitura. Nosso país é o décimo maior produtor de livros do mundo. O Ministério da Educação é o terceiro maior comprador de livros do mundo. No entanto o mercado do livro está mais neoliberal que nunca. Silenciosamente foi  concentrando sua  imensa lucratividade em conglomerados editoriais cada vez mais concentrados. Sem alarde, foi permitindo a compra de editoras brasileiras tradicionais como a Editora Moderna, por corporações internacionais. Apesar de tudo, parece que não está acontecendo nada. Portanto, a comunidade Tito Silva recebeu no dia 07 de fevereiro a semente de uma pequena revolução.
No debate sobre  livro e leitura no Brasil esse tipo relação precisa ficar muito evidente. Afinal, é como se não estivéssemos cercados de relações perigosas, de lucros para poucos e perdas para muitos. Que interesses movem os mega-eventos promovidos pelos tubarões do livro? Onde se localiza fomento ao mercado local na grande movimentação de recursos públicos destinados para esses eventos? Que espaço esse derrame de recursos tem destinado para a formação de leitores, incentivo à leitura e fomento à literatura brasileira? O que se pode conduzir em termos de protagonismo para a juventude a partir desses investimentos? Ou seja: qual é a contrapartida do mercado do livro diante de lucros tamanhos amparados pelo dinheiro do povo?  Na verdade, além da evasão de divisas, esses shoppings ambulantes em que se transformaram as Bienais e os charmosos Salões do Livro são fatores de uma grande concentração de lucro em quem já demanda do Governo Federal uma situação privilegiada de enriquecimento, com as facilidades da inadequada e ultrapassada lei 8.666 que rege licitações e contratos.
Seriam tantos outros os argumentos para considerarmos o imenso abismo entre os efeitos de uma biblioteca comunitária numa comunidade pobre de João Pessoa e os bilhões investidos pelos governos federal, estaduais e municipais para sustentar a lucratividade de poucos com a compra de livros, em detrimento de políticas públicas ainda inconsistentes para o livro, a literatura e a leitura. Faltam incentivos à criação literária e aos mercados regionais, na mesma proporção. O que se revela quando o debate transborda é uma inexplicável apatia por parte dos seus segmentos, sempre mergulhados nos interesses corporativos. Na verdade há uma imponente covardia por parte de alguns que temem perder espaços em parcas mesas de debates onde os umbigos e algumas serelepes vaidades acadêmicas são o objeto central do que não movimenta absolutamente nada. É como se estivéssemos tratando como sagrada a profanação da nossa cultura e da nossa educação. No caso dos escritores, as bienais não deixam nada além de alguns trocados na conta de umas poucas figuras repetidas que se revezam nesta imensa farsa.  Para as comunidades, não deixam uma única biblioteca comunitária, um único ponto de leitura...

ANTÔNIO SOARES DE LIMA
Você sabe quem foi Antônio Soares de Lima, personalidade que deu nome à Biblioteca Comunitária da comunidade Tito Silva? Antônio Soares de Lima foi um líder comunitário, recentemente falecido, conhecido como Chuá. Letrado nas lutas populares, analfabeto formal, mas jamais um analfabeto político. Chuá demonstrou toda a sua dignidade ao pedir desculpas à comunidade, pouco antes de morrer, por não saber ler e escrever.  Ele achava que por isso não conseguiu trabalhar mais  pela diminuição daquele imenso abismo social estabelecido no lugar onde viveu. Como cidadão e militante, sabia que a exclusão é o que permite que pessoas vulneráveis socialmente sejam usadas pela falta de escrúpulos de alguns políticos, diante das omissões da sociedade. Na verdade, Chuá morreu sem saber que foi um símbolo também da luta pela afirmação da literatura brasileira, pela cidadania plena, da distribuição de renda que no mercado do livro é algo vergonhoso. Sem contar com os prejuízos intelectuais proporcionados pela comercialização em massa de lixo impresso, leituras alienantes que em nada consideram os muitos saberes contidos na boa literatura. Como dizia o francês Roland Barthes, “a literatura contém muitos saberes”. Mas, parece que isso não está posto no debate que o Ministério da Cultura, a Biblioteca Nacional, fundações e secretarias de educação e cultura buscam desenvolver neste momento da história brasileira, onde as dúvidas superam as certezas. Os avanços são mínimos e os investimentos são distorcidos. Investem no mercado do livro, como se fosse investimento na formação de leitores e na literatura. Estamos longe de uma democracia real, embora alguns setores estejam caminhando nesta direção. Precisamos de um país leitor, de um estado e de uma cidade leitora para que possamos nos desculpar com a memória de Chuá.