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quinta-feira, 28 de julho de 2016

Um novo conceito para a Rota Caminhos do Frio.



Em tempos de crise o que não pode faltar é coragem. Parece que esta frase, de certa forma, resume o que está acontecendo na Rota Cultural Caminhos do Frio 2016. Na verdade, o mais amplo projeto de divulgação do turismo e da cultura regional da Paraíba. Mesmo que não seja, ainda, o maior em volume de investimentos. Mas, devemos concordar que num ano em que diversos eventos semelhantes foram cancelados no Brasil, prevaleceu a coragem, o bom senso, o companheirismo, a visão de futuro do Fórum de Turismo do Brejo, das gestões municipais, estaduais, do empresariado da região, da imprensa, dos artistas e agentes de cultura e turismo. Todo mundo resolveu dar as mãos. Prevaleceu o colaboracionismo. As vaidades pessoais foram esquecidas. Esta é uma moeda imprescindível para garantir o futuro do evento. As soluções brotaram com naturalidade e, em plena crise, a Rota cresceu. Mais dois municípios foram incluídos e ficou consolidada a natureza regional do projeto. Ou a região prospera de forma unificada ou cada município terá dificuldades imensas com o isolamento.

Superada a razão conceitual, começa a ficar evidente que a aposta na cultura local, nas soluções regionais, na gastronomia típica, no artesanato, na articulação e confiabilidade foi o grande passo. Acima de tudo a Rota precisa de identidade e credibilidade. Não pode cada prefeitura fazer um evento isolado. Precisamos de certa coerência para formar uma unidade conceitual. A verdade é que existe uma dedicação extrema dos agentes envolvidos. Um compromisso de quem sabe que está fazendo história ao apostar no nosso povo, na nossa gente, na capacidade empreendedora e na inventividade artística da região. Desta forma, Caminhos do Frio estabelece a estratégia dos pássaros: “o máximo de canto no mínimo de corpo”. As dificuldades são superadas com criatividade e até com afetividade. Foi bonito, por exemplo, encontrarmos cartazes acolhedores em Areia. Uma solução simples, original e acolhedora. A necessária autonomia da Rota, no entanto, parece apontar para soluções consorciadas que garantam a estrutura mínima e reparta os resultados.

Sempre acreditamos que o desenvolvimento cultural e turístico da Paraíba depende de um olhar regionalizado. Cada região se organizando em torno das suas potencialidades e superando diferenças em razão do benefício coletivo. Geralmente a prática e o discurso ficam distantes. Desta vez podemos ter a esperança de apostar numa aproximação entre as ideias desenvolvidas e a execução. Não queremos dizer que tudo está perfeito. Falta estruturar melhor a ação, para que as cidades tenham maior capacidade de receber as atrações e os turistas. Precisamos melhorar a produção executiva do evento e antecipar a sua organização. Inclusive com a perspectiva de fazer com que durante todo ano existam ações articuladas que dialoguem com este período. Mas isso tudo faz parte de um aprendizado. O que importa é que parece que a Rota está criando seus próprios parâmetros. O Fórum de Turismo do Brejo está funcionando como o elo necessário para que tudo aconteça da melhor forma e todos os municípios tirem proveito do modelo de desenvolvimento que está sendo criado. A nossa aposta é que a boa nova encante outras regiões. A Rota está provando que as possibilidades de desenvolvimento do turismo cultural no Estado não se esgotam em Campina Grande e João Pessoa.


Lau Siqueira

sábado, 23 de julho de 2016

Políticas para o mercado ou para a leitura?

Uma pulga atrás da orelha me informa que o atual ministro da Cultura quer implantar bibliotecas comunitárias nos conjuntos financiados pelo programa Minha Casa Minha Vida. A desconfiança não vem apenas do fato de ser Caleiro, até o momento, interino em um governo cuja legitimidade é questionada nacional e internacionalmente. Parece que o ministro deseja apontar soluções simpáticas aos segmentos mais críticos da cultura. Entretanto, sem conhecer direito o chão da sua pisada. Ele não se “enturmou” com o segmento. Em cada declaração parece querer angariar simpatias. Compreensível, afinal, não deve ser fácil ser ministro da cultura de um governo golpista. O segmento, historicamente, não engole fácil esse tipo de circunstância. Caleiro pode até ser bem-intencionado, mas é um gestor cercado de nuvens. Não poderia ser diferente. Dadas as circunstâncias da sua ascensão como Ministro da Cultura. Ele aceitou o cargo no vácuo de honrosas recusas. Talvez precise mostrar para si mesmo que valeu o sacrifício.

Todavia, não desconfio do Caleiro por questões conjunturais, apenas. Mas, por razões bem pragmáticas. Algumas experiências semelhantes, inclusive nos governos do PT, me pareceram infrutíferas. Boas intensões isoladas e desarticuladas. Cito como exemplo o projeto Arca das Letras, do Ministério de Desenvolvimento Agrário. Um projeto cheio de boas intensões, mas com falhas estruturais gravíssimas. Pouca articulação com a militância leitora e uma fundamentação centrada no marketing e não na pedagogia. Esse erro crasso fez com que muitas Arcas, em comunidades rurais, sirvam hoje apenas como um móvel de suporte para a televisão. Não se trata aqui de crítica negativa. Absolutamente. Nos dois casos, vejo com bons olhos a preocupação com o acesso ao livro e leitura. Mas, como se trata de investimento público, penso que os dois formatos favorecem mais ao mercado do livro que a formação de leitores.

Pesquisas realizadas pelo Instituto Pró-Livro nos mostram números que não podem ficar fora deste debate. Em 2007 a primeira pesquisa dizia que o Brasil era o décimo maior produtor de livros do mundo e que o MEC era o terceiro maior comprador de livros do mundo. Já a pesquisa realizada em 2016 diz que trinta por cento dos brasileiros nunca comprou um livro e 44% da população brasileira não lê. Não vou entrar na análise da qualidade dos livros mais lidos. O quadro é desolador para a formação crítica do povo brasileiro. Podemos até observar que, num aspecto, a preocupação do ministro e dos ex-gestores do MDA procede. Precisamos facilitar o acesso ao livro. Porém, isso não pode ser feito de forma tão apressada. Assim, favorece apenas o mercado. Os investimentos públicos na área já são por demais vultuosos. Penso inclusive, que os tribunais de contas deviam prestar atenção ao fenômeno. Para uma política nacional de popularização da leitura o que não falta é livro. Que tal começarmos trabalhando com os livros já adquiridos? Em muitos casos, acervos e mais acervos espalhados na inércia. Que tal investir prioritariamente na estruturação das bibliotecas públicas, escolares e universitárias? Inclusive fiscalizando seus funcionamentos. Que tal investir nas experiências já existentes e exitosas de pontos de leitura?

Entendo que uma política para o livro e leitura não pode deixar de observar alguns fatores determinantes. Um deles é a transnacionalização do mercado livreiro conjugado com a marginalização da literatura nacional. Mesmo a canônica. Também a literatura contemporânea não pode estar fora desse debate pois, potencialmente, o autor é um dos principais agentes na formação de leitores. Principalmente num quadro de professores não-leitores. Todavia, devemos reconhecer que o pouco de política para o livro que tivemos desde o governo Lula estabeleceu uma militância em defesa do livro, da literatura brasileira e da leitura. Planos estaduais e municipais de leitura foram e estão tomando corpo. Reapareceram os contadores e contadoras de história, não mais como cultura familiar, mas como profissionais da mediação. A literatura brasileira contemporânea está com uma produção estonteante, efervescente, mesmo fora do mercado formal e fora das políticas públicas. Existe, pois, uma diversidade de fatores que precisam ser levados em conta.

Faço essas observações por entender que não estamos mais no tempo de gerar expectativas e repetir os mesmos erros. Antes de anunciar o varejo como se fosse o grande projeto, cabe ao ministro Caleiro ou qualquer outro que venha a ocupar o seu lugar, fortalecer o Plano Nacional do Livro, Leitura e Literatura. Nesse contexto, a aproximação com a Educação é indispensável, uma vez que nas últimas décadas o Brasil formou professores distanciados da leitura e da literatura. Essas políticas precisam ser articuladas com os Estados e municípios e ancoradas, especialmente, em milhares de pequenas experiências exitosas espalhadas pelos rincões brasileiros. Chega de pensar políticas para o livro apenas para fortalecer um mercado que não reconhece a literatura brasileira e despreza a formação cidadã a partir da leitura literária. Caso contrário, daqui a pouco teremos um fundamentalista lunático propondo políticas para a leitura, sem literatura.


Lau Siqueira