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sábado, 29 de agosto de 2009

Antropofagia e linguagem poética no século XXI

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Por Lau Siqueira

A poesia que vem sendo produzida nesses tempos de blogs, sites, orkut e twitter começa a revelar características muito particulares. A internet desencadeou um processo que ainda está em fase de assimilação pelos pensadores da história e da teoria literária do nosso tempo. A princípio, havia uma inexplicável desconfiança e um parcial desinteresse em relação a esses meios por parte significativa dos escritores. Muito especialmente pelos poetas.

Nos primeiros momentos houve uma tentativa de desqualificar esta produção. Como se a facilidade de veiculação e a interatividade da internet somente permitisse a divulgação de poetas de águas rasas. Certamente que havia um fundo de verdade nisso todo. A internet servia e ainda serve para divulgar muita coisa de qualidade bastante duvidosa. Nos primórdios da rede, as desconfianças eram muitas e a mitificação da nova mídia nos remetia sempre às reflexões de Umberto Eco e seus apocalípticos e integrados.

Em pleno agosto de 2009, me pego pensando nisso em frente ao meu computador. Naturalmente, com uma necessidade enorme de compreender esse processo e refletir um pouco sobre a influência que essa verdadeira revolução nas mídias tradicionais possa ter provocado não apenas na forma de divulgação da poesia, mas também e principalmente nas perspectivas para a construção de uma nova linguagem para a poesia.

A verdade é que o virtual passou a se aproximar com maior intensidade do cotidiano, confundindo-se com ele exatamente através da escrita. Para Pierre Levy, “a tela informática é uma nova ‘máquina de ler’ o lugar onde uma reserva de informação possível vem se realizar por seleção, aqui e agora, para um leitor particular. Toda leitura em computador é uma edição, uma montagem singular.” Segundo o próprio Levy, seria um erro fatal considerar o computador apenas uma máquina de escrever e de ler. Existe toda uma cultura sendo formulada através dessa nova forma de conhecimento.

Na verdade o que se pode perceber é que no meio de um lixo acumulado e natural, produzido por milhões de seres humanos sedentos de expressar publicamente suas angústias (e confundindo isso com poesia, tantas vezes) foi transbordando uma poesia de qualidade, densa, amparada no respeito às tradições, mas também sem medo de experimentar e não ser exatamente como o que já se dava por estabelecido na circunstância poética brasileira e pelo mundo afora.

Para desmistificar esse rolo compressor inicial, eu pergunto: que mal faz um mau poeta ao escrever versos ruins? Ou que mal há, por exemplo, em publicá-los nos sites e nas ainda existentes listas de discussões sobre literatura e poesia? Certamente que nenhum. O bom leitor haverá de saber selecionar os bons textos. Há, com certeza, uma seleção natural e os poetas, sejam eles novos ou já reconhecidos, foram e continuam sendo naturalmente peneirados. Agora não mais pelos cânones e pela crítica fardada. Quem começa a dar as cartas é, também, esse mau poeta que, muitas vezes, acaba sendo um bom leitor.

Podemos observar com certa clareza que existe um fato novo na poesia contemporânea que precisa ser analisado com maior profundidade. Os poetas que foram surgindo, muito especialmente após o início do século XXI, são poetas que também são leitores da poesia que circula na rede. Isso gerou algo extraordinário, pois aniquilou as “verdades absolutas”. Ser louvado publicamente por A ou B possuía um valor inestimável que hoje já começa a gerar profundas dúvidas. Não que isso tenha aniquilado a crítica. Muito pelo contrário. Agora basta ter um blog para que o exercício da crítica possa receber as atenções devidas. Ou seja, em tempos de capitalismo selvagem, aumentou a concorrência e só se estabelece quem tem competência. Até mesmo a pseudo-crítica peçonhenta ganha a oportunidade de trocar de pele, de se renovar.

Poetas que nunca publicaram um livro impresso ou mesmo os que somente conseguiam publicar edições com distribuição regional, passaram a disputar palmo a palmo os espaços e as atenções dos críticos e leitores do país e do mundo. Uma disputa que os coloca em pé de igualdade com nomes que vinham sendo incensados de forma pouco justificada pela mídia burguesa. Tanta vez pagando caro para ter livros distribuídos nacionalmente (com pouca racionalidade) pelas grandes redes de distribuição.

Agora as coisas estão em maior ou menor escala, no mesmo ponto de partida. Passamos a perceber o surgimento de poetas que são, na verdade, leitores e leitoras da produção poética de ilustres desconhecidos que abundam na rede. Com alguma qualidade alguns, com muita qualidade uns poucos e uma grande maioria com pouca qualidade. Ainda valem, logicamente, as indicações dos grandes mestres. Essa nova lógica não exclui a tradição. No entanto, naturalmente, cada um de nós foi tecendo as próprias leituras e com elas infringindo todos os códigos do comodismo pálido de uma cultura acadêmica dominante. Tudo precisou ser novamente observado, analisado, pesquisado e, finalmente digerido por todos. É claro que isso não determina o fim da cultura acadêmica, mas certamente que a coloca na obrigatoriedade de refletir sobre ela mesma.

No ensaio “Poesia nova – uma épica do instante”, em “O poeta e a consciência crítica” (Editora Perspectiva-SP, 2008), Affonso Ávila escreve um pouco sobre tudo isso. Segundo ele, “a situação atual da poesia no Brasil reflete, entre afirmações criadoras e perplexidades críticas, a mudança radical de concepção do fato poético que, nos últimos dez anos, se operou em nosso país. Essa transformação, intimamente vinculada à modificação mais abrangente das estruturas de conscientização de nosso povo, não se restringiu a um fenômeno de linguagem como parecerá à primeira vista. Suas implicações são mais profundas e traduzem simultaneamente, uma nova atitude do poeta diante da realidade que suscita o ato criando e a adequação do seu instrumento ao imperativo das modernas técnicas de comunicação”.

Além de ser uma das mais representativas expressões da arte de vanguarda no Brasil, Affonso Ávila nos remete a reflexões que certamente deverão retorcer os ferros da crítica tradicional, mesmo aquela que usa a internet não como um poderoso instrumento interativo, mas como mais um veículo para difusão de uma tendência da “política literária”. Todavia, lamentavelmente, abrindo mão de receber a imensa carga de informações da novíssima produção poética e crítica que aflora também a partir das universidades, embora extrapolando limites geográficos e metodológicos.

A nova poesia, portanto, passou a contar não apenas com a sua natural evolução a partir da perda total do controle das informações pelos “babalorixás”, mas também com a análise lúcida de pensadores e teóricos da poesia que, na verdade, sempre estiveram mergulhados para muito além do nosso tempo. Como Affonso Ávila, Amador Ribeiro Neto, Anelito de Oliveira e outros poucos que sabem que a poesia não sobreviveria se todos os olhares estivessem fixados no passado. Aqui na Paraíba, por exemplo, existem “doutores” que se negam a reconhecer inclusive a produção literária do século XX. Isso me faz ter dúvidas acerca do mau cheiro exalado pelos banheiros do CCHLA. Seriam necrotérios?

Infelizmente, boa parte dos estudiosos da poesia não passa de funcionários públicos preguiçosos que não ousam sequer realizar uma única leitura conseqüente da evolução da linguagem poética. Para eles, a cena atual não existe. Triste dos que pensam assim. Morreram para um mundo que os torna naturalmente desnecessários. O que se conclui é que a nova poesia é leitora dela própria. Pratica naturalmente a antropofagia oswaldiana que designou os destinos de um modernismo que não estancou na semana de 22. A nova poesia foi beber nos mestres, certamente. Mas, não cometeu o suicídio de desconhecer o surgimento de novos horizontes a partir das janelas abertas pelo futurismo deflagrado no final do século XIX, pelas vanguardas. O caminho é continuar experimentando, arriscando, buscando compreender o presente. Traduzindo de forma mais apurada as idéias de José Paulo Paes: “somente não envelhece o que já nasceu velho.”

sábado, 22 de agosto de 2009

O que é que o governador Maranhão tem contra a cultura?

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Por Lau Siqueira

Na verdade, não foi nenhuma surpresa a saída do artista plástico Flávio Tavares da Subsecretaria de Cultura do Estado. Afinal, somente os acomodados não se incomodam com circunstâncias comprovadamente criadas por mera pirotecnia política. A insatisfação de Flávio no governo era de uma pulsação impressionante. Artista de amplo reconhecimento e cidadão exemplar, Flávio Tavares deve ter percebido que a mentalidade do governador em relação às políticas de cultura permanecia exatamente a mesma dos seus dois primeiros governos.

De perfil conservador, o arcaico José Maranhão já fez escolhas acertadas para dirigir a cultura do Estado. Não se pode negar. Isso no caso de Flávio e, anteriormente, do poeta Sérgio de Castro Pinto. Entretanto, também Sérgio percebeu que tinha um nome a zelar e que as políticas de cultura estavam desvinculadas das ações prioritárias do marqueteiro Zé, o proclamado mestre de obras. Entre Sérgio e Flávio, nos seus três períodos de governo, Maranhão encontrou o nome adequado para o seu nível de mentalidade. O também artista plástico Chico Pereira. Chico notabilizou-se por chamar os artistas de “mendigos” e por conduzir a consagrada inanição do Estado no setor. Foram anos de mediocridade, pedantismo e parcos investimentos. Mas, não há nome que represente melhor a relação do governador Maranhão com a cultura da Paraíba.

Quando da indicação de Flávio Tavares cheguei a ficar um tanto quanto esperançoso. Em primeiro lugar porque jamais torço contra. Segundo porque Flávio (assim como Sérgio) é, em todos os sentidos, um exemplo de dignidade e inteligência na terra de Augusto dos Anjos. Uma das melhores antenas da nossa raça. Pensei até que talvez as coisas tivessem mudado na cabeça dura do governador, nos últimos anos. Afinal, eu próprio em 2006 participei do guia eleitoral maranhista, através do meu partido, o PSB. Lembro que fomos convidados a participar. Predominava, naquele momento, o desejo de avançarmos dentro do governo do Estado em direção a construção de políticas públicas. Eram inegáveis os avanços na prefeitura. Fomos, então, “mostrar a cara” no guia. Entregamos nossa proposta ao então candidato que, assim, assumia um compromisso público que, certamente, agora vai para o tambor de lixo da história.

Lembro muito bem que levamos dois ônibus lotados de artistas plásticos, escritores, atores, músicos, produtores, segmentos como hip-hop, cultura popular e outros. Pensei que lá chegando encontraríamos os partidários do governador para juntos realizarmos a gravação. Ledo engano. Não havia uma única alma consagrada da espiral maranhista. Fomos nós e apenas nós, socialistas, que gravamos o programa eleitoral do então candidato José Maranhão. Ainda assim acreditei que a demonstração de força com aquela mobilização, sensibilizaria o nosso então candidato.

Quando da escolha de Flávio Tavares, cheguei até mesmo a pensar que tínhamos dobrado o conservadorismo do ex-senador. Cheguei a acreditar que Maranhão havia, finalmente, reconhecido que a cultura tem um papel estratégico, inclusive na economia e na construção de políticas transversais e intersetoriais. Afinal, um setor que movimenta 5% do Produto Interno Bruto brasileiro não pode passar despercebido num governo minimamente democrático e que tenha compromisso com o desenvolvimento integrado e sustentável. Em Toronto, no Canadá, as estratégicas econômicas se orientam a partir da política de cultura. Em Paris, a cultura é um dos pilares da economia. Até quando a terra de Ariano Suassuna suporta ser relegada ao estágio de colônia de Pernambuco? Para mudar a vida é preciso mudar de atitude, transformando a mentalidade imposta pelo neo-coronelismo.

Não quero aqui declarar nenhum arrependimento por ter participado e incentivado a participação de artistas e grupos de cultura na eleição de 2006. Afinal, as políticas de aliança são importantes estratégias para o avanço do campo democrático e popular. Não devem jamais ser confundidas com adesismo se conduzidas de forma madura e transparente. A participação política dos artistas e dos fazedores de cultura de um modo geral é uma questão de cidadania. Como dizia Gramsci, “viver é tomar partido”. No entanto, percebo agora o quanto o governador Maranhão exige-nos uma reação. Nem mesmo com o seu vice-governador, Luciano Cartaxo, sendo também um produtor cultural a visão maranhista para a cultura foi alterada. O mais interessante é que o abalo que qualquer governo teria com a saída de um quadro imprescindível como Flávio Tavares se dá exatamente no momento em que é anunciada a criação da Secretaria de Cultura. No entanto, para quê criar uma Secretaria de Cultura se o governo se empenha em consolidar uma “subpolítica” de cultura? O injustificável descaso do governador, certamente, tem sérias implicações no processo de desenvolvimento do Estado. Um bom mestre de obras deveria compreender que não é exatamente com marqueting de cimento e cal que se produz desenvolvimento.

Logicamente que não trago aqui um discurso de imparcialidade. Nunca fui imparcial. Não acredito em imparcialidade. Sempre tive lado. Afinal, somos produto das nossas escolhas. Pautei minha vida inteira na construção de ideais estéticos, do ponto de vista da arte e políticos, do ponto de vista humano. Também não quero dizer que o governador Cássio Cunha Lima tenha sido generoso com a cultura. Muito pelo contrário. Cássio praticamente desmoralizou o FENART, um dos mais importantes festivais de cultura do Nordeste. Maranhão ratificou essa desmoralização. Iguala-se a Cássio ao cancelar o FENART 2009 e anunciando o FENART para o ano eleitoral de 2010. (Isso se chama oportunismo patológico)

Com todas as limitações impostas pelas regras do poder público, entre erros e acertos, o fato é que a Prefeitura Municipal de João Pessoa avançou na democratização das políticas da cultura a partir de 2005. Não quero dizer aqui que atingimos o Ponto G das nossas necessidades. O fato é que estabeleceu-se um processo de inclusão nunca antes vivenciado. Sobrou gás, inclusive, para uma relação de proximidade com o interior do Estado. Não foi por acaso que, em 2008, estivemos em Cajazeiras e Sousa, apresentando as ações da Fundação Cultural de João Pessoa, a convite do Fórum de Cultura do Alto Sertão. Também em Campina Grande, onde a política de cultura tem se resumido ao “Maior São João do Mundo”, participamos de debates com o segmento cultural. Logicamente que isso foi o reflexo de uma ação desenvolvida por um grupo de militantes e não por prestígio pessoal. Lembro que em Cajazeiras, os artistas destacavam duas políticas sólidas da Prefeitura de João Pessoa: o Empreender-JP e o Circuito Cultural das Praças. Em Sousa, no meio do debate um artista levantou e disse: “isso só vai acontecer por aqui quando Ricardo Coutinho for o governador.” E agora, José? O sonho está apenas começando.

Agora é pagar para ver. Nossa esperança está no setorial de cultura do PT que, neste momento, passa a assumir a responsabilidade de abalar a mentalidade medieval de um governador que, provavelmente, acha que política de cultura se resume na liberação de recursos para os artistas. Não, governador! O objeto de uma política pública de cultura não é o artista, mas a memória (passada e futura) do povo. O grande desafio é conjugar tradição e modernidade, integrando a cultura nos processos de desenvolvimento. Mas, cá pra nós, precisamos definitivamente reconhecer que os artistas são os principais parceiros para a implementação de ações que visem edificar o espírito crítico e lúdico nas futuras gerações. Ou seja: o espírito transformador que haverá de melhorar a nossa sociedade. Acolher, incluir, criar, trabalhar, superar. Estes são alguns dos verbos que movimentam a cena e que do discurso maranhista parecem ter sido suprimidos. Na prática, sumariamente aniquilados.

A nossa esperança permanece intacta. Todavia, quando falo de esperança não falo de inércia. Falo de uma esperança que constrói e que busca estabelecer uma relação das três esferas da área pública (municípios, estados e união), com a sociedade civil e com a plenitude cidadã. É lógico que isso não é fácil. No entanto, como diz o poeta Chacal, “só o impossível acontece. O possível apenas se repete.”

Para finalizar, destaco a elegância com a qual Flávio Tavares soube se retirar da cena, desligando sutilmente os aparelhos de uma agonia. Flávio deu para todos nós, um exemplo de dignidade e coerência. Que este ato cidadão do artista não passe impune pelo nosso aprendizado. Nem pela composição e pelas diretrizes dos próximos governos. O que nos preocupa é que não se trata de um governo novo, mas de um governo que já passou oito anos ignorando completamente os processos culturais na terra de Sivuca e Jackson do Pandeiro.