Postagens

MEMÓRIAS DE UMA VIDA SEM PLUMAS

Quando tinha 17 anos consegui um emprego. Garotão ainda. Muito ingênuo, mas também muito educado. Já trabalhava há uns dois ou três anos, mas pela primeira vez assinava carteira. Meu sonho era trabalhar num posto de gasolina. Mas, topei ser porteiro de um prédio. Trabalhei no Edifício Barcellos, em Porto Alegre. Feliz com meu salário mínimo. Na época, acho que uns 30 dólares. Foi um dos períodos mais produtivos na minha vida de leitor. Eu lia muito e ganhei a simpatia dos intelectuais do prédio. Alguns inesquecíveis como Adoar Abech, jornalista e pessoa generosa. Ganhei muitos livros e era convidado para jantar com os moradores. Lembro da elegância e da simpatia da Dona Leonor. Descobri que Zilmar, o zelador, era meu primo de segundo grau. Descobri que o filho do dono do prédio era piloto da Varig. Lá morava o jornalista da Zero Hora, Timóteo Lopes que tempos depois desconfiei ser o mesmo Tim Lopes da Globo. Timóteo adorava as aventuras do jornalismo policial. Aqui e ali estava em me…

TROTSKI, MAIAKOVSKI E FRIDA KAHLO

Trotsky, ao que parece, não foi apenas um revolucionário. Um militante e pensador da revolução permanente. Dizem que foi “boy magia” da Frida Kahlo. Também deu pitaco na literatura. Criticou o que entendia como “altos e baixos” do Maiakovski. Sim, mas Maiakovski, fez-se eterno exatamente pelas impulsões e experimentações da sua obra. Isso requer mergulhos e voos. Pousos, também. O raso e o profundo precisam um do outro. Maiakovski tinha isso. Ele sabia disso. Mas, os comunistas operavam imutabilidades nas mudanças que buscavam. Se matou diante de um stalinismo que eliminava opositores. Não foi só ele. Uma geração inteira de poetas sofreu e morreu. Já Frida Kahlo, era uma personalidade fortíssima fossilizando seu Diego Rivera de cada dia. Ela conseguiu expressar sua rebeldia no silêncio e na densidade da expressão. Seu rosto é um livro. Sua estampa uma coletânea de pedras rijas, mas preciosas. Esta é apenas uma pequena história. O caso é que Frida Kahlo, Maiakovski, Trotsky passaram pe…

CONVERSA DE AÇUDE

Algumas coisas aprendi na vida. Não tudo, lógico. Vivo aos pulos com meus tropeços. Aos sessenta e um anos ainda me amenino pro mundo. Continuo aprendendo. Todos os dias. Todos os instantes. Vejo a nuvem que passa transformando suas proprias formas. Dialogando com o vento. Sem que precise se ancorar em nada. Sem que sua existência seja uma escora. Aprendi a domar meus silêncios. Sim, tenho um silêncio seletivo. Só se mostra para quem o escuta. Não espalho o que me arrebata. Guardo as coisas sem prendê-las. O voo do pássaro, o canto das árvores. O ronco das abelhas. Se as perco, não lamento. Fico com a certeza do que colhi. Me alimento também das ausências. No mais, sou preso aos afetos que construí ao longo da vida. Os afetos que chegam, por favor, que batam na porta e respeitem o silêncio, a quietude que em mim tem traço de tempestade. O que nunca chegou, sempre passa. Vai sumindo, sumindo... até reinventar os mesmos caminhos e se perder novamente. Porque viver com intensidade é tra…

MEMÓRIAS DE UMA VIDA SEM PLUMAS

Minha formação política se deu nos movimentos sociais do final dos anos 70 e início dos anos 80. Movimentos popular e sindical, principalmente. Lá adquiri uma coisa chamada “consciência de classe”. Importante demais. Porto Alegre fervilhava. Começavam as mobilizações da luta pela Anistia aos presos políticos, luta pelas Diretas Já. Luta pela Constituinte, também. Tudo ali, naquele miolo de tempo. Uma construção difícil. A direita alucinógena queimava bancas de jornais onde se vendia o Pasquim e o Coojornal. Grupos pamilitares explodiam aparelhos do partido com granadas. Nessa época, não foram poucas as vezes que cruzei com Olívio Dutra panfletando nas campanhas dos bancários. Eu era comerciário. Nos cumprimentávamos sempre com pressa. Trabalhei nas Casas Masson, na Mesbla, na Hermes Macedo. Todas extintas. Fui operário da Cia Geral de Indústrias, também. Mas, nunca tive saco para as liturgias das estruturas partidárias. Golpe em cima de golpe. Mesmo na esquerda. Tinha uma vontade tro…

DAS IMORTALIDADES

Aqui e ali leio postagens exageradamente revoltadas com a tal da literatura contemporânea e seus escritores. Acho uma bobagem insana. Não me incomodam os que se acham grandes. Os que se acham gênios porque publicaram o primeiro livro com 17 anos. O que eu mais vejo é gente envelhecendo e com medo de morrer sem virar canônico. Pior: sem ser reconhecido nas ruas.Empáfia e arrogância fazem mal para o intestino. Se respondesse algumas postagens, certamente diria pra pessoa cagar regra longe de mim. Cada qual doma a fera da vaidade com a ração possível. De longe, apenas observo o que minha miopia alcança. Viver vale mais que qualquer literatura. Viva! Escreva! O único julgamento implacável é feito pelo que não controlamos: o tempo. Não tenha medo de ser esquecido.

Feliz Ano Novo

É uma tristeza silenciosa que dá quando vemos algo precioso sumindo no esgar impreciso dos instantes. Todavia, entre as lembranças do que se perde resta sempre um riso pra fazer parte da melhor lembrança. Pra impulsionar a vida e pra justificar que tudo valeu a pena. Sobretudo, temos que nos descobrir frágeis e humanos. Nossos nervos devassos não sobrevivem ao primeiro amanhecer caso não sejamos capazes de acolher nossos erros. Levantar pelo braço as nossas fragilidades. Somos raros porque somos imperfeitos. Meu sentimento pela vida é de gratidão. Não pelas conquistas, mas pelos aprendizados...

É com o coração, com as emoções fervidas no cio das palavras que queremos edificar nosso pensamento para o ciclo que se inicia. O que virá será fruto destas compressões do peito que tantas vezes nos ampliam diante de um mundo que transborda sempre diante dos nossos olhos. Que não nos falte nunca uma tristeza capaz de nos fazer compreender a razão de um riso sincero. A vida é doce até pelas suas …

Papo de ex

Uma ex me falou certa vez que não acreditava em amizade entre homem e mulher. Isso, logicamente pra fundamentar seu ciúme. Não é só ela. Eu sei que muita gente pensa assim. Mas, confesso que acho esta uma posição bem atrasada e machista. Eu tenho amigas lindas que amo, mas sei e gosto de saber que jamais seriam além de amigas. Não troco minhas amigas por qualquer relação mal resolvida.