quinta-feira, 6 de junho de 2019

UMA CIDADE VESTIDA DE LIVROS




Segundo a Professora Aurea Canejo, secretária de Educação de Barra de São Miguel, “a FLIBARRA não é um evento, mas um projeto”. A frase define com exatidão o Festival Literário de Barra de São Miguel que realizou sua sexta edição nos dias 16, 17 e 18 de maio. Uma cidade com cerca de seis mil habitantes, localizada no Cariri Oriental da Paraíba, seguramente, executa um dos mais articulados e organizados festivais de literatura do Nordeste. Grande parte da população reside nos distritos. Alguns distantes até 30km da cidade, como é o caso de Floresta. No entanto, a frequência média de público na VI FLIBARRA foi de aproximadamente mil pessoas. As atividades aconteceram pela manhã, tarde e noite. Foi ampla a participação das escolas e da população. Mas é preciso que seja dito: a verdadeira FLIBARRA se desenvolve no cotidiano das escolas. Só no calendário da cidade que a festa ocorre uma vez por ano. As atrações foram todas da região. Todavia pudemos notar que as mais acarinhadas pelo público foram as atrações da cidade. A exemplo da cantora e servidora municipal, Socorro Benjamin que foi ovacionada algumas vezes. A cidade abraçou seu festival literário e o festival, em contrapartida, se enrosca cada vez mais na extensão do seu território e da sua história.


Na sexta edição, o FLIBARRA se firmou como um dos mais importantes eventos literários do Estado. O trabalho com a literatura nas salas de aula é algo permanente e já revela algumas potencialidades entre os jovens para o exercício criativo da escrita. A preocupação com a formação de bons leitores é permanente. A cidade se orgulha do que produz culturalmente. A exemplo da Filarmônica São Miguel que, sob a batuta do Maestro Sergio Moura, pode ser considerada, seguramente, uma das melhores do Estado. Destacamos ainda a presença permanente do prefeito João Batista Truta e dos secretários municipais em todos os dias do festival. A gestão do município teve participação ativa na organização e execução em todos os sentidos. Por exemplo, o mestre de cerimônias era simplesmente o chefe de gabinete do prefeito, Alisson Nascimento. Tamanha integração da organização com a produção cultural do município, não poderia ter outro resultado: a cidade abraçou a FLIBARRA e isso fez toda a diferença. Além de projetar positivamente o município, a FLIBARRA estimula a população na busca dos melhores caminhos pra a Educação municipal. Na verdade, faz da população a principal parceira do projeto. Faz todo sentido, portanto, a fala do prefeito na abertura do evento, projetando a erradicação do analfabetismo na cidade. A Educação é vista como prioridade em Barra de São Miguel e a Cultura uma das suas ferramentas mais efetivas e afetivas.

Mas não é só isso. Barra se orgulha das suas muitas histórias. Aliás, sua história virou livro e foi debatida no festival. O professor e historiador João Paulo França, nascido no Rio e muito bem-criado em Barra de São Miguel, fez mestrado em História na UFCG e a sua amada “Potira” (nome anterior da cidade) virou objeto de pesquisa e estudo. Assim nasceu “Apontamentos para a história de Barra de São Miguel-PB”, um mergulho apaixonado em aspectos importantes para a formação e desenvolvimento do município. A exemplo do impacto da chegada tardio da rede elétrica, em 1970. Na VI FLIBARRA havia espaço para tudo que é produzido na cidade. Da arte à gastronomia. Uma cidade de muita poesia. Mostrou muito apego à identidade cultural nordestina. Tanto que uma das atrações mais animadas foi o grupo “As Crechetes”, formado por professoras e monitoras das creches municipais e que apresentou um pouco da história do Coco de Roda. Tudo de forma muito animada, dançante, bela e envolvente.

Barra de São Miguel mostra aos demais municípios que priorizar a Educação não pode ser apenas um discurso. Priorizar a Educação deve ser uma prática cotidiana. Exige não só investimento, mas envolvimento direto dos gestores. Algumas feiras literárias que são realizadas pela Paraíba afora, infelizmente, contam com a participação tímida ou inexistente das gestões. Este não é o caso de Barra onde o Festival já vai para a segunda gestão e só cresce no reconhecimento dos cidadãos e cidadãs que lá residem. O FLIBARRA estimula a autoestima da cidade. “As práticas de incentivo à leitura sempre foram ferramentas indispensáveis para a formação cidadã”, disse Sanção Lins, da equipe organizadora. Ao declarar guerra ao analfabetismo, o prefeito João demonstra em que direção caminha nesses tempos de obscurantismo e de criminalização da Educação e da Cultura. A pequena Barra de São Miguel se mostra altiva. Aponta caminhos para gestores e para a população. Ler é um direito que não pode ser ignorado. Mais que isso: formar leitores de literatura é uma guerrilha amorosa e permanente contra o analfabetismo funcional que já atinge até mesmo algumas universidades. Em tempo de consagração da ignorância a FLIBARRA caminha para a sua sétima edição como um farol para este Brasil Profundo. Um Brasil que não se rende ao espetáculo permanente da submissão, do preconceito, do obscurantismo, do cabresto político e da condenação do povo à ignorância que é, em última análise, um fator de multiplicação das mais lamentáveis misérias humanas.

Lau Siqueira

terça-feira, 30 de abril de 2019

A cultura viva das esquinas.






O Boca de Cena não é apenas mais um grupo de Teatro de Bonecos. Ainda que não seja pouco manter ativo um grupo de Teatro de Bonecos no Nordeste em tempos de baixo investimento na cultura. Na verdade, o Boca é uma companhia com uma pegada altamente profissionalizada e um baita senso de humanidade. Assume uma vanguarda imprescindível ao segurar na mão dos grandes mestres do babau, do mamulengo e ao mesmo tempo disputar espaços para esta importante linguagem artística nos terrenos sempre áridos da modernidade. O Boca de Cena atravessa desertos imensos. Mesmo assim, se joga nos becos. Atocaia a própria sorte na guerrilha da estrada. Mas está sempre ali, nas barrancas e nas beiradas. Abrindo seu espaço de navegação e induzindo a memória no sentimento do povo. Tudo de uma forma lúdica, artística, inventiva.

Uma trupe que resiste às duras penas o controverso estado de desagregação cultural que vivemos. Muito por culpa dos governos. Muito mais ainda pela facilidade com que as multidões foram absorvendo a cultura diluidora das indústrias do utilitarismo. As mesmas indústrias que fabricam o medo, a violência, as pestes, os políticos canalhas e o abandono que distancia um menino e uma menina da própria infância. Essa mesma distância que afasta o público do direito de gargalhar com as bisbilhotices do Coelho Banzé, do jeito de colecionar sorrisos por onde passa. Para quem não conhece, o Coelho Banzé é o personagem criado para apresentar-se como mestre de cerimônia do Boca de Cena. Um personagem que nos mostra o quanto é viva a arte de manipular bonecos.

Assim, a comunicação é sempre imediata. Seja com o público infantil, juvenil, adulto ou dos grandes mestres da vida que muitas vezes não tiveram tempo de ver tudo ou ainda guardam na memória as histórias contadas nas beiras de esquina, nos sítios, nas favelas e nas escolas por onde essa expressão de grande apelo popular circula sempre que é solicitada. A relação com o público é sempre extasiante. Independentemente do lugar. As traduções que esses artistas, especialmente Artur Leonardo, Amanda  Viana e Valério, trio que enfrenta sempre as tempestades da mesma caminhada. Os cuidados com os textos, com as formas de abordagem do público, os gracejos medidos conforme a capacidade de absorção do lugar. O diálogo com o ambiente escolar e cultural das comunidades. Tudo isso faz com que o Boca de Cena esparrame por onde anda, o que eu chamo de “pedagogia do afeto”.

Um outro aspecto que precisamos destacar no Boca de Cena é o mergulho pesquisa. Já vi algumas vezes Artur se referir às influências do Mestre Clóvis do Babau na sua paixão pela arte. Um encontro que a sua infância em Guarabira proporcionou. Hoje o próprio Artur é um grande mestre bonequeiro. Na verdade, Artur, Amanda e Valério foram muito além. Muito além da mera pesquisa que carrega para os escaninhos da academia informações preciosas e nunca mais devolve. A pesquisa realizada pela Companhia vai mais longe. Traz à luz das plateias, nas mais diferentes comunidades, a história do Babau na Paraíba. Incorpora a tradição dos bonecos na caminhada de sucesso de quem merece o reconhecimento de ser um dos mais importantes grupos de teatro de bonecos em todo o país.

Com os pés fincados na tradição, a inquietude principalmente de Amanda e Artur - artistas imensos e imersos na arte de representar - revela a resistência e a capacidade de superação de uma perspectiva adversa para um tempo de criminalização da arte e da cultura por hordas de infantes diversos, capitaneados pelos poderes caudilhescos e oligarcas que, a rigor, nunca saiu do poder mesmo tendo perdido o comando de alguns governos. Espremidos nesta crise permanente, o Boca de Cena vai formando público ao mesmo tempo em que insiste em viver de arte quando isso significa permanecer na corda bamba. Um risco permanente diante de uma plateia ora atenta, ora desapegada da responsabilidade de garantir o que ensina e aprende na medida que traz o riso, mas também carrega com todas as cores a memória viva. Muito especialmente desse imenso país que é o Nordeste.

A capacidade de reinventar-se e recompor os caminhos destruídos pela descontinuidade das estruturas de apoio para as culturas populares. Antes de servir de exemplo enquanto prática de resistência é um alerta contra o extermínio da diversidade cultural. Talvez esse seja o maior legado de um grupo de artistas que já chega aos vinte anos ininterruptos de atividade profissional. O Boca de Cena nos ensina a resistir, a encarar o carcará do momento. Enfrenta com bravura todas as estações para florir sempre em cada primavera. Mesmo quando todas as portas se fecham, o Boca insiste: vai ter espetáculo, sim! Vai ter pesquisa, sim. Vai ter preservação da memória, sim. Essa pequena e maravilhosa trupe me lembra muito Augusto Cesar Sandino: “não me rendo. Não me vendo. Te nho de ser vencido.” A arte é um tipo de guerrilha que esparrama flores. É desta forma que vejo a Cia. De Teatro de Bonecos Boca de Cena.


Lau Siqueira   

segunda-feira, 8 de abril de 2019


Entre o silêncio e o grito



Alguns dizem que a Filosofia e a Poesia são inimigas. Nunca entendi direito essas definições, mas talvez a Filosofia e a Poesia disputem o mesmo palco das descobertas. Ambas buscam a expressão da verdade, na dúvida e não na certeza. Tudo em direta interação com a vida. Quando recebi os originais do livro de Damião Fernandes, juro que esperava apenas poesia. Desencontrado na busca pela poesia, busquei a ficção. Afinal, somente nesta área sou procurado para prefaciar livros. No entanto encontrei muito mais. Da construção épica à Filosofia. Lembrei imediatamente de Edgar Morin, em “Meus Demônios”: “Não escrevo de uma torre que me separa da vida , mas de um redemoinho que me joga em minha vida e na vida.” Esta frase usei como epígrafe de meu quarto livro de poemas, Texto Sentido. Um livro onde busquei através da poesia o desnudamento que o autor busca neste livro a partir da filosofia, Portanto, podem até ser inimigas. Mas como dialogam com clareza a Literatura e a Filosofia. Pois esta frase me pareceu a melhor definição da experiência do autor. Ele parece escrever de um redemoinho. Aliás, é da vida que se extrai tanto a Filosofia quanto a Poesia. A Linguagem é um ser vivo, pulsando nossos extremos.

Sobre gêneros na unidade de uma obra, cito o cubano Pedro Juan Gutierrez, em Trilogia Suja de Havana. Alguns textos beiram à ficção, outros fedem à crônica de uma realidade hostil num país pobre e cercado de olhares de pura mitologia ideológica – tanto à direita quanto à esquerda. A realidade, a exploração da própria existência como fator de entendimento, fica a mercê das definições. No entanto, assim como Pedro Juan Gutierrez, Damião não está interessado na definição do estilo ou do gênero. Damião apenas escreve e revela suas inquietações diante de um mundo que cada vez nos afasta mais a capacidade de reflexão a partir do nosso lugar na história. A escrita, portanto é mais importante. A escrita que traz na dúvida a sua verdade e na certeza, a sua forma de confinamento, de sublimação de uma realidade que, aqui e ali, morde os calcanhares. É como se não existisse o cachorro selvagem da inquietação. Aquela inquietação que nos afasta da zona de conforto diante do realismo e da utopia. A escrita, portanto se sobrepõe enquanto Damião mergulha em si mesmo, numa leitura que movimenta os caracteres de toda uma existência. Percebe-se claramente quando ele diz “(...) existir é passar pela vida como quem passa pela alfandega, onde o mais valioso se transforma em bagagens e produtos.”

O livro “Sobre como viver e não apenas existir” me remete, em alguns momentos, ás reflexões de Suelma Moraes no livro “Conhecimento de si e de Deus”. Segundo Suelma, Profa. Dra. Da UFPB, estudiosa de Sto. Agostinho, “(...) para que se possa conhecer a Deus tal como se é conhecido, é necessário ter conhecimento que se assemelhe a Ele. Mas, a visão do espelho a priori impede esse conhecimento.” No capítulo  “A teologia do eu”, Damião mergulha no espelho, ou joga lá suas reflexões mais profundas acerca do que seria um “Conhecimento de si e de Deus”. Assumindo aí um tom mais épico que filosófico, o autor proclama: “Deus é mistério. E eu o que sou? Deus é resposta. E eu, quem eu sou? Deus é o caminho. E eu, para onde vou? Deus é vida. E eu que vida sou? Deus é Verdade. Que verdade eu sou?” Esse  é o tom do livro. O autor navega permanentemente entre uma profunda convicção imponente e uma dúvida abismal. Questões que se completam em respostas ainda não dadas. Talvez apenas projetadas onde a dúvida determina as cores do pensamento.

Em todos momentos observamos que o Filósofo traz a fala mais densa no discurso carregado de indagações, amparado por algumas metáforas e, repito, por uma impulsão épica na construção do texto. Homérico na elaboração de um contexto que data da origem do mundo e que ainda impacta e perturba. Mais que isso, impulsiona seus reflexos diante do vazio predominante, num tempo de fundamentalismos multiculturais. O mesmo que emerge dos seus mergulhos, elaborando perguntas ao seu próprio sentido de viver. Muito além de existir, o autor revela que não há formula final, mas formulações permanentes que excluem e incluem elementos na edificação de um novo olhar sobre si mesmo. Esse olhar sobre si mesmo é questionador e expandido ao despersonalizar o discurso. O que diz de si, Damião colhe nas vivências acadêmicas, literárias, religiosas e na profana anarquia de quem vai ao mercado, não para saber o quilo do peixe, mas da sensação de morte que existe no cheiro do açougue.

Sempre me impressionei com uma frase de Maria Valéria Rezende, escritora que coleciona prêmios ultimamente. Valéria, freira, recolhe das ações vividas nas comunidades Eclesiais de Base, as experiências trocadas com os mais humildes e a convicção de repartir que habita sua ordem religiosa. “Eu não tenho imaginação. Sempre duvidei disso, mas acredito com veemência e acho que o que me sobrou foi a pergunta: o que é mesmo imaginação? “O que eu tenho é memória”, diz a paulista que a Paraíba adotou e celebra. Ao percorrer os escaninhos da memória, Damião também nos oferece uma certeza. O tempo todo está falando de si. O tempo todo está falando do mistério que é a vida. O tempo todo está falando de Deus. E o tempo todo está escrevendo com imensa capacidade de articular um ritmo definidor para seus textos.

“No caminho encontramos sonhos, bosques, esquinas e jardins, tantas outras coisas essenciais e desnecessárias.  Encontramos casas, muros, paredes, alpendres, varandas, pontes, presenças e até solidão.”Nos revela o escritor para revelar suas mutações, seus desapegos e suas eternidades carregadas como troféus de instantes que jamais foram negligenciados. E daí nos encontramos novamente com Edgar Morin, quando afirma que “o mesmo processo traz em si ameaça e promessa”. Ele sabe tanto quando Damião Fernandes, que no fundo, caminhamos “rumo ao abismo ou à metamorfose e, talvez, rumo a um dentro do outro”. Não há, pois resposta previsível para o que não se coloca como exatidão. As atrofias que persistem, à vezes, já não encontram saída. A inércia que foi posta aos cacos, revela-se plena mutação, num redesenho do que há de efêmero e permanente no significado desse verbo incerto que é “viver”.

Em última análise, a despeito da responsabilidade do autor em escrever prosa ou poesia, o encontro do texto com a perplexidade que é escrever poemas revela um dos melhores momentos do livro: “Para escrever poesia, preciso organizar, preparar a alma, separar as folhas, escolher o lápis com o qual escrever. Escrever poesia é questão de estética e engenharia. Para escrever poesia, preciso contemplar meu rosto no espelho, pisar no chão da minha história e tocar as vestes da minha humana dor diária. Escrever poesia é questão de ciência humana, uma antropologia sobre si mesmo.” Na poesia tudo se resume, mas também tudo se expande e some como se não existisse nada maior que a sensação estética. Assim como tantos autores dispostos a romper com as suas convicções, fugir da zona de conforto, Damião derrama-se em palavras. Escrita bem delineada. Coisa de quem tem intimidade com as palavras. Blindado pelas próprias inquietudes diante dos julgamentos possíveis e impermeáveis, eis um escritor que se derrama sem medo. Abre as comportas antes que as barragens explodam. Damião Fernandes entrega ao público um livro para ser lido e refletido várias vezes, infinitas vezes. Afinal, seu estilo múltiplo e inteligente também faz parte de outras existências ainda muito distantes do pleno exercício de viver.



Lau Siqueira






segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Entre a imaginação e a memória






Maria Valéria Rezende sempre diz que não tem imaginação.  “Eu só tenho memória”, afirma. Acredito na sua sinceridade, mas desconfio de mim. Acredito que a autonomia do leitor é inevitável e necessária ao texto. O texto literário é um ser vivo em busca das dores e delícias da linguagem. Penso portanto que, ao sustentar suas memórias, Valéria espeta o imaginário alheio com suas adagas narrativas. Mesmo quando navega nas razões mais particulares. Vale mais o que se lê, diria Borges. Por isso, sempre me sinto libertário nas minhas leituras. Se para Valéria a memória está no texto, para mim a imaginação estará sempre na leitura. Roland Barthes define melhor o que tento dizer de forma desajeitada. “Na cena do texto não há ribalta: não existe por trás do texto ninguém ativo (o escritor) e diante dele ninguém passivo (o leitor); não há um sujeito e um objeto.” Quando leio, me reescrevo no texto lido.

Contadora das próprias histórias, Maria Valéria possui uma mente que experimenta a imaginação de forma continuada. Sobretudo quando descreve a irrealidade cotidiana. Tudo em Valéria é lonjura e densidade. Tudo é perto e distante. Em poucos minutos de conversa, derrama infâncias de todas as idades. Seja nas imagens vivas de uma certa família santista dos seus verdes anos. Seja entre os mais célebres personagens das suas lembranças. A exemplo do tio-avô, Vicente de Carvalho. Poeta que tatuou seu nome na História da Literatura Brasileira. Conhecido e reconhecido também como advogado e político abolicionista, “tio Vicente” sempre foi um habitante do seu “vasto mundo”. Cito este poeta para desenhar sua raiz literária. A autora vem de uma família onde a leitura de grandes clássicos da literatura e a prática cotidiana da escrita faziam parte das expressões de afeto familiar.
“Histórias nada sérias”, sessenta e quatro páginas, publicado pela Editora Escaleras, certamente, carrega boas memórias. Memórias imaginadas e inimagináveis, até. Histórias contadas em textos escritos com exclusividade para o Clube do Conto da Paraíba. O Clube do Conto foi, aliás, a estrutura mais anárquica, longeva e produtiva que conheci no meio literário brasileiro. Pelo menos nas últimas três ou quatro décadas. Durante mais de dez anos, semanalmente, escritores se reuniam no Shopping Sul, em João Pessoa, próximo à casa da Valéria. Cada qual apresentava seus textos ao olhar crítico dos demais. Os temas eram sempre discutidos e aprovados na semana anterior. Intelectuais experimentados, escritores reconhecidos, repartiam espaços e carinhosas farpas com iniciantes e curiosos. Ninguém poupava a mão de ninguém. A palmatória era dolorosa. O Clube do Conto, na verdade, foi uma efetiva oficina de escrita criativa. Semanalmente uma enxurrada de textos bons, médios e péssimos eram lidos e aplaudidos ou desconstruídos até o limite da sensatez. Era, sobretudo, necessário manter a amizade, o respeito, mas sobretudo a coerência. Era necessário fazer da crítica feroz e sincera, mesmo dura, um elo firme com a boa literatura.

O tempo passou. O Clube do Conto da Paraíba foi sucumbindo aos poucos. Seja pelo falecimento de alguns dos seus membros ou por outros motivos. Certamente, também pela fuga desesperada dos que entendiam que melhor seria buscar outra ocupação para as tardes de sábado. Na verdade, o Clube do Conto ensinava muito mais a ler que escrever. Escutar era um exercício feroz. Sempre foi um encontro de amigos e amigas que se amavam e odiavam (menos, menos...) em cada frase mais afeita às verdades da língua e seus arredores. Foi neste ambiente, salvo os exageros propositais aqui derramados, que Valéria escreveu os textos do livro aqui resenhado. Os temas eram escolhidos aleatoriamente e cada um que mergulhasse na escrita de forma a atender as sensações da navalhada crítica de cada sábado. A disciplina de escrever textos ficcionais não garantia os louros. Eis, portanto, um livro individual que nasce de uma aventura compartilhada. Tudo vivido num rico e inesquecível aprendizado repartido entre cafés, torniquetes estéticos e boas risadas.

O Clube do Conto tinha um método muito bem definido por Regina Behar na apresentação do livro: “ler, ouvir, escrever.” Nada mais. Aliás, se fossemos aqui resumir a vida intensa de Maria Valéria Rezende, uma moça que saiu de Santos aos dezoito anos para conhecer outros mundos, a definição de Regina Behar cairia como uma luva: “ler, ouvir, escrever”. Ler, ouvir, escrever e amar as pessoas tem sido a caminhada de Valéria pelo mundo desde sempre. Com Paulo Freire Valéria aprendeu muito cedo a ler as linhas e rinhas da vida. Reconhecendo as desigualdades e os perigos de uma existência permanentemente ameaçada pela ditadura. (Aquela aberração política instalada nos melhores anos da sua juventude.) O que recolheu de lá para cá, nas andanças pelo mundo e pelos rincões da Paraíba, são extratos da memória sim, mas também de uma maturidade intelectual bem consolidada. Valéria é hoje uma personalidade autêntica e autônoma na literatura contemporânea brasileira. Apontada por muitos como uma das mais produtivas e importantes escritoras brasileiras do início do século XXI. Foi tecendo a teia da sua literatura de dentro pra fora. Inicialmente, longe das rodas badaladas de Paraty. Todavia, muito rapidamente, também nas rodas badaladas de qualquer ambiente literário. De grande leitora, tradutora e educadora popular, tornou-se uma talentosa inventora das próprias memórias.
Muito do que foi construído a partir de uma caminhada intensa e que hoje sustenta o vigor das suas palavras, vem dos perigos vividos. Dias e noites engolidos pelos dragões de um tempo sombrio. Especialmente nos anos pós AI-5 (Ato Institucional nº 5). Tempos que calaram o Brasil e fizeram sangrar os porões. Segundo Eni P. Orlandi, no ensaio Maio de 1968: os silêncios da memória: “falando de história e de política, não há como não considerar o fato de que a memória é feita de esquecimentos, de silêncios. De sentidos não ditos, de sentidos a não dizer, de silêncios e de silenciamentos.” Certamente é dessas memórias que muitos dos personagens de Maria Valéria Rezende, hoje brotam aos montes. Neste caso específico, a partir das provocações temáticas do Clube do Conto. Algo que, de certa forma, recebe uma imensa luz nesta coletânea publicada pela Escaleras, uma editora tão paraibana quanto o centenário Jackson do Pandeiro.

É memória? É memória sim. Sempre digo pra mim mesmo quando penso na densidade de Maria Valéria Rezende nos campos neutrais da palavra. A imaginação surge naturalmente enquanto produto da leitura. Isso já está assegurado e por isso reafirmo. Mas e a imaginação da autora? A imaginação em Valéria é feito um trigal amanhecido. Afinal, ela própria é uma grande leitora. Portanto, um ser de imaginação. Uma leitora de metalurgias inventadas – palavras encandeadas no aço das delicadezas. Seu intenso exercício de escrita é um tipo de combustão provocada. Tudo é lenha. Sua aprendizagem permitiu tornar o cordel, por exemplo, elemento fundamental na formação das sabedorias necessárias ao povo excluído. Valéria viveu tudo isso na pele. Mergulhou e emergiu com a mesma força. Não apenas pela memória que sustenta suas asas, mas nos voos cada vez mais ‘longinos’ da sua imaginação. (Calma. Explico já.)

O conto que abre o livro, Zumbi (página 9), nos transporta imediatamente para uma experiência de velocidades. Um mergulho no oco dos sentidos. Tudo num trançado narrativo de imensa fluidez. Como se as palavras estivessem guardadas numa cacimba de verdades estocadas. Texto denso e fulminante que leva o leitor por uma trilha de diversidades. Possibilita que a leitura se transforme em cada parágrafo e se vista de boa prosa. Leitura de um fôlego só, Zumbi é um texto que provoca o leitor em todos os sentidos. Seja pela pegada dramatúrgica que poderia gerar um bom monólogo, seja pelo batuque de prosa poética, capaz de transformar forma em conteúdo. Um tapete estendido entre José Saramago e Décio Pignatari. Respira transgressão sabendo que os seus ritos são outros, pois suas aventuras narrativas são naturalmente planejadas.

Nos demais contos, passeia pelos temas escolhidos. Cumpre com rigor e disciplina seus milharais criativos. Milhares, talvez milhões de páginas lidas com a voracidade de quem dedica sua existência ao conhecimento, à solidariedade, ao amor necessário para que este mundo sobreviva muito além de nós. Algumas vezes ela trabalha a memória como os gregos: reconhecendo-se em relatos antigos, literários ou não. Experimenta miragens. Transgride conceitos. Respira e espalha o ar rarefeito desses dias turbulentos. Em “Conto Concreto” (pg 48) dialoga diretamente com o concretismo de Augusto e Haroldo de Campos. Espalha signos, aliando-se ao branco da página, realizando uma certa fusão das barroquices impulsionadas pela irreverência que, em verdade, é uma das suas características enquanto mulher e enquanto escritora. Talvez por isso consiga atrair a inquietude de tantos jovens leitores pelo país afora.

“Histórias Nada Sérias” é também um livro revelador do caráter de Maria Valéria Rezende. Uma escritora desapegada dos paetês festivos, das necessidades midiáticas de tanto pavão iludido. Falamos de um livro que é um produto vivo do tear cotidiano que estende seu nome e sua literatura pelo mundo. Valéria é a cara desse tal “Brasil profundo” que poucos conhecem. Linda e transbordante. Esse Brasil que recolhe imagens em Jacaraú - pequena cidade paraibana - e as espalha pelo mundo. As histórias que ela conta são colheitas diárias de uma mente atenta, observadora. O prazer da leitura dos seus livros é simples, mas não é fácil.  Valéria se esparrama num estilo singular. Aliás, estilo de quem não está preocupada com estilo.

E assim seguem os contos. “A Capa”, escrito em formato missivista, cuja tradição parece perder-se um pouco dentro da história mais recente das literaturas. “A Chave”, lembra um pouco Maupassant. Para Otto Maria Carpeaux “Maupassant não aceitou a fantasia, mas disse a verdade”. Um pouco como Valéria, transitou entre a memória e a imaginação. A exemplo de Bola de Sebo, um dos seus mais belos textos. Valéria nega a imaginação para afirmar uma literatura enraizada em muitos saberes repartidos. Às vezes ela alerta claramente: “é verdade este bilete”. Nos extratos de sensações vividas. Na sua capacidade de observar e redesenhar fatos, reinventá-los para buscar a cumplicidade absoluta com o leitor no fio da navalha. Talvez este seja o motivo pelo qual sempre insisto que ao ler os livros de Maria Valéria Rezende somos também convidados para o exercício da escrita. Nos tornamos coautores das suas memórias imaginadas. Talvez essa imagem represente a porção pedagógica de uma escritora que trouxe para a literatura sua vocação de educadora popular. Nas suas práticas cotidianas Valéria escrevia até mesmo Cordel, conforme citei anteriormente. Usava a literatura popular como método para ensinar aos trabalhadores rurais, os seus direitos. Certamente que todas essas experiências estão muito bem guardadas nos melhores afetos da escritora. Dessas memórias ela extrai personagens e os transforma em respiradouros do seu texto. São nomes fictícios, histórias inventadas para uma tradução literal dos nossos dias. Costumes, desejos, anseios... metáforas de uma vida que segue no mesmo rumo, na mesma pisada, no mesmo comprometimento militante de alguém que entregou sua vida ao amor em sua mais profunda tradução.

São fundamentalmente histórias o que ela extrai das suas andanças desde a infância. Como em “Uma Lenda Pessoal” (pg 33), onde ela dialoga lindamente com os seus recuerdos mais antigos. Parte de um lugar onde constrói e desconstrói elos familiares. Mas, não apenas isso. Ela aborda temáticas complexas, como o Estupro (página 39) a escritora descreve comportamentos extremados da nossa civilização machista e moralista que, na verdade, não se sustenta nem mesmo no olho da goiabeira. Aborda presenças constantes em nossas vidas, como o Medo (pg 45), um sentimento que tantas vezes aprisiona a condição humana. Arrisca-se, inclusive, num miniconto. Gênero que para o escritor gaúcho José Eduardo Degrazia, teve sua origem nas prosas poéticas de Charles Baudelaire. “Outros Planos” (pg 51) é outro miniconto cheio de imagens, escrito com permanente fluidez poética.

O estilo transgressor construiu-se em Valéria com a naturalidade das folhas que caem no outono e retornam verdes e belas, aliadas às flores da primavera. Ela experimenta o tempo todo. Passeia pelas influências, para surfar na própria onda. Com Valéria tem sido assim, quando publica um livro, já está preparando outros. Ela é como um rio que se faz perene dialogando com as estiagens. Estimula ao estimular-se. Se veste de amplidão, não apenas pela visibilidade dos muitos prêmios que ganhou, mas pelo exercício permanente de leitura que seus escritos ofertam ao público.  Atinge não apenas os leitores mais experimentados. A juventude leitora se apropriou da literatura de Maria Valéria Rezende. Na “obra aberta” da autora, não é mais ela, mas o leitor ou a leitora, quem opera a permanente transmutação das rotas. Tudo é mergulho numa imaginação que não se rende à memória.
Os textos em “História Nada Sérias” são muito vivos. São verdadeiras pulsações. Pululam o tempo todo na contramão da elegância quase tipográfica da edição. São textos que dialogam com um tipo de cotidiano onde passado e futuro se misturam. Com a imensidão e a profundidade de temas que não se entregam de primeira. Memórias das cercanias e das lonjuras de uma geração que não se entregou e não se entrega aos estampidos do ego. A cada leitura, novas perspectivas desenhadas na contramão do que importa para o mercado. Percebe-se um alto teor de todos os tons pregados na impermanência que se estabelece, na invisibilidade que se exibe em vitrines invisíveis. Se o leitor tiver degustado apenas a leitura deste livro, saberá imediatamente que se trata de uma escritora que produz literatura de alta voltagem. Algo que rege a delicadeza e o espanto.

A educadora social de então, soube enfrentar com sabedoria a sua caminhada. Ela conheceu de perto as atrocidades da política. Momentos duros, tensos, sangrentos. Cheio de embates e combates. Momentos que não silenciaram a autora de “Quarenta dias”, “Outros Cantos” e “Modo de Pegar Pássaros à Mão”, entre outras obras igualmente consagradas pela crítica e pelo público. Ela se manteve suave. Manteve seus pés bem pregados no solo nordestino, paraibano. Mas só depois de cruzar o mundo. Sabe agradecer a oportunidade que a vida lhe deu de prosseguir sua missão. Essa certeza de que valeu a pena e que nossos caminhos jamais se esgotam. Enfim, eis uma leitura necessária para que as pessoas se apaixonem cada vez mais pela escrita e pela existência de Maria Valéria Rezende.


Lau Siqueira, poeta.


domingo, 3 de fevereiro de 2019

SOBRE VIVER NO BRASIL EM 2019


Somos um povo preconceituoso por natureza. Um povo afeito aos protocolos mais inúteis. Isso nada tem a ver com ideologia. Muito menos com a elegância da qual somos naturalmente despidos. Algumas vezes esquerda e direita se equivalem. Principalmente nos extremos. Leio críticas ao deputado que foi tomar posse com chapéu de cowboy e colocou a esposa no colo. Também leio pilhérias quanto ao decote de certa deputada. No entanto, o fato do chapéu e do colo, bem como dos seios da deputada, não representam nada diante dos motivos pelos quais se elegeram.
O mesmo ocorre com Alexandre Frota. Fazer filmes pornô foi o auge da sua carreira de ator e homem medíocre. Não importa. Quem curte assiste. Quem não curte, não assiste. O que me preocupa neles é a política de extermínio que representam e defendem com fúria. O que me preocupa mais ainda é repentina simpatia por Mourão, por ser mais esperto que o pateta eleito. Parece que o Brasil anda atordoado. Um ministro nos chama de ladrões e ninguém bate panela. Estamos resumidos ao silêncio inútil das redes sociais.
No mais, sequer conseguimos debater sobre as políticas de privatizações aceleradas mais uma vez em curso. Mesmo após um crime sequencial conduzido por uma Vale privatizada. As tragédias criminosas de Mariana e Brumadinho são heranças liberais. Mas, logo cairão no esquecimento. A mídia cuida disso. Se a Vale do Rio Doce fosse estatal certamente os defensores da privatização estariam fazendo escarcéu. Parece que perdemos o foco das coisas. O que menos importa é o que mais repercute. Enfim, só pensando aqui com meus botões nesta manhã descamisada.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

O MinC jamais servirá ao fascismo.



                                                                                                      Por Lau Siqueira

O fechamento do Ministério da Cultura no governo Bolsonaro não surpreende.  No segundo governo Dilma o MinC já andava esmaecido. A posse de Juca Ferreira foi muito representativa. Praticamente todos os ministérios estavam lá. Todavia, as investidas golpistas buscando inviabilizar o governo foram imediatas e o MinC ficou praticamente paralisado. Não foi diferente com os demais ministérios. Juca Ferreira sentiu na pele a pancada da recessão e do golpe que derrubou Dilma. De 2015 até 2018 tivemos cinco ministros. Um retrato 3 x 4 do desmantelo. Após o impeachment a ideia de fechamento do Minc provocou protestos. As ocupações foram imediatas e vitoriosas. Temer voltou atrás. Mas, o ministério que emergiu do golpe foi uma instituição pífia comandada por oportunistas. Temer não extinguiu o MinC, mas subtraiu. Tratou de sufocar um ministério já sofrido. Bolsonaro apenas jogou a pá de cal.

Todavia, o que deveríamos esperar de um Ministério da Cultura num governo Bolsonaro? Como lutar para termos um MinC submerso no fascismo? Que quadros minimamente respeitáveis aceitariam comandar a pasta? Regina Duarte? Olavo de Carvalho? Alexandre Frota? Penso que não cabe agora esse resgate. O desmanche geral está configurado. Mas tudo renascerá das cinzas em algum momento. Não perdemos apenas o MinC. Estamos perdendo o Brasil e acho que, neste momento, as lutas fragmentadas apenas alimentarão o fracasso. A tragédia anunciada estava posta e muitos tentaram escapar pelas beiradas. Talvez achando que seria possível salvar a própria pele de uma morte anunciada. Para nossa surpresa, o primeiro grupo que se curvou aos golpistas representava os Pontos de Cultura, um selo do PT. Aliás, esta foi uma surpresa muito desagradável. Agora, mais do que nunca, o embate deverá tomar proporções unificadoras. Somos trabalhadores da cultura. O que estamos vivendo hoje vem sendo pedra cantada há tempos. Desde 2013, quando a esquerda aceitou participar de passeatas onde as bandeiras partidárias estavam proibidas. Um comando oculto que hoje mostra-se nas faces da intolerância.

Fomos sendo esmagados gradativamente. Agora é hora de pensar, juntar os cacos e organizar os pontos para a reação. Mas não falo apenas dos movimentos da cultura. Falo dos movimentos sociais e segmentos progressistas. Falo de quem defende a Educação e a Saúde pública, as políticas afirmativas, a soberania nacional, as instituições democráticas de modo geral. Há uma desmoralização federalizada caminhando para um moralismo tosco. Pra quê MinC num governo fascista? Essa visão setorialista nos enfraquece e nos afasta da realidade. Lá nos rincões, não existe o cidadão da saúde, da educação, da cultura. As necessidades são básicas e serão sempre as mesmas. A cultura é uma força que nos alerta.  Gilberto Gil, o primeiro ministro da cultura artista, já dizia: “no Brasil predominava uma visão muito eurocentrista e civilizada sobre a produção cultural. Em nossa gestão procuramos dar atenção ao protagonismo popular e à autogestão”. Aconteceram coisas belas, mas também ameaças terríveis. Por exemplo, a invasão das comunidades tradicionais pelo pentecostalismo. A disputa maior era estrutural e na base da sociedade. Assistimos de camarote a nossa própria derrocada.

Agora nos vemos diante da necessidade de reagir. O único sinal de resistência popular possível, pelo menos por enquanto, é um avatar no perfil das redes sociais. Estamos sem elo para emergir e sendo ameaçados por quem deseja abolir um socialismo que nunca existiu em terras brasileiras.  Estamos diante da consagração da ignorância e da falência intelectual de uma geração inteira. Afinal, o que significa “marxismo cultural”? O que significa “ideologia de gênero”? Estamos vivendo uma agonia coletiva desenfreada, pois o caos estabelecido tem apoio popular. Há uma predominância de uma minoria raivosa e oca sobre uma maioria alienada. Bolsonaro aponta sua metralhadora verborrágica e é aclamado pelas vítimas.  A psicopatia social está em curso. Pra quê gastar energias e dar mais uma arma ao inimigo? No momento, o melhor conselho vem de David Cooper: “não existe esperança. Existe uma luta. Esta é a nossa esperança.” Sem ministério, mas ainda com uma diversidade cultural e artística que resiste historicamente,  nos resta unir forças para retomar o país.  Só depois valerá a pena reconstruir o MinC como vetor de desenvolvimento humano, social e econômico. Algo essencial para a reestruturação da democracia.


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Uma grande indústria chega ao Sertão


Calma, gente. Não teremos nenhuma agressão ao meio ambiente. Não se trata de um empreendimento invasivo que traga constrangimento ou agressão aos valores culturais do sertão. Muito pelo contrário. Se trata de uma movimentação da cultura tradicional da região em harmonia com outras manifestações das diferentes regiões do Brasil e de países da América Latina. Uma ação muito bem articulada regionalmente pela Pisada do Sertão – uma instituição que cuida da proteção de crianças e jovens na cidade de Poço José de Moura. Uma ação estruturada na capacidade e na necessidade de constituir boas parcerias.

A Rota do Sol nasceu de uma grande vontade coletiva, como todas as outras rotas culturais que acontecem principalmente no Brejo. Numa viagem à Uiraúna em 2016 para discutir a Rota Cultural da Coluna Prestes, senti que um grupo ficou um tanto deslocado por estar fora daquele roteiro cultural e histórico. Afinal, a Coluna Prestes passou por vários municípios sertanejos, mas não por todos. Entrou em Uiraúna, no Distrito de Aparecida e saiu lá pela região de Princesa Isabel. Por ironia do destino a Rota da Coluna Prestes não se consolidou. No entanto ali estava começando a história da Rota do Sol. Uma ação cultural desenvolvida numa das piores crises econômicas já enfrentada nos últimos anos. Nesses momentos, a cultura sofre muito, pois está entre os setores essenciais, mas não prioritários em qualquer administração pública.

Entretanto, o poder de articulação das prefeituras de Triunfo, Bernardino Batista, Poço José de Moura, Joca Claudino e Uiraúna, em torno de um eixo organizacional criado pela Pisada do Sertão, nos levou a realizar em 2017 a primeira edição da Rota do Sol. O sucesso foi reconhecido pelas prefeituras, pelo público e grupos culturais. As trocas realizadas entre grupos da Paraíba com a cultura de Santa Catarina, Pará, Argentina, consolidou a Rota do Sol já no primeiro ano. A movimentação, inclusive da economia local, era visível em todos os sentidos. A Rota do Sol recebeu muita gente e encantou pelo profissionalismo dos organizadores. Portanto, era sim possível uma rota cultural no sertão, com autonomia e profissionalismo. Tudo funcionou com perfeição.

As trocas realizadas entre os brincantes, artistas de diversas regiões, não tem preço. Para o ano de 2018, um ano eleitoral e portanto um ano difícil de manter a unidade diante das diferenças políticas, a Pisada do Sertão deu mais uma demonstração de capacidade técnica na produção do evento. Sabemos como é raro conquistar recursos pela Lei Rouanet nos rincões brasileiros. Mas no segundo ano as grandes novidades eram exatamente a ampliação da Rota, com a cidade de Cajazeiras estreando. As primeiras captações de recursos via Lei Rouanet deram fôlego para este que já é considerado o maior evento do sertão da Paraíba. A convicção e o entusiasmo de todos os órgãos envolvidos, o profissionalismo e a aura de política pública garantiram o futuro da Rota do Sol.

A Paraíba assegurou presença na agenda anual da IOV – Seção Brasil, Organização Internacional de Folclore e Artes Populares, garantindo o intercâmbio artístico com diferentes regiões e países. No mais, a Rota deu visibilidade para municípios pequenos, mas com grande potencialidade. Beneficiou todas as cidades na mesma proporção, independentemente da sua área geográfica ou população. Não interferiu em nenhum calendário local, criando novas perspectivas para os municípios. Abriram-se possibilidades de tornar públicas as ações das próprias prefeituras, seja na área da cultura, educação ou ação social. Desta forma, acreditamos que o futuro da Rota do Sol ainda vai iluminar muito os caminhos de uma região sofrida que tem como grande riqueza um povo generoso, talentoso e criativo.


Lau Siqueira

UMA CIDADE VESTIDA DE LIVROS

Segundo a Professora Aurea Canejo, secretária de Educação de Barra de São Miguel, “a FLIBARRA não é um evento, mas um projeto”. A frase...