quinta-feira, 6 de junho de 2019

UMA CIDADE VESTIDA DE LIVROS




Segundo a Professora Aurea Canejo, secretária de Educação de Barra de São Miguel, “a FLIBARRA não é um evento, mas um projeto”. A frase define com exatidão o Festival Literário de Barra de São Miguel que realizou sua sexta edição nos dias 16, 17 e 18 de maio. Uma cidade com cerca de seis mil habitantes, localizada no Cariri Oriental da Paraíba, seguramente, executa um dos mais articulados e organizados festivais de literatura do Nordeste. Grande parte da população reside nos distritos. Alguns distantes até 30km da cidade, como é o caso de Floresta. No entanto, a frequência média de público na VI FLIBARRA foi de aproximadamente mil pessoas. As atividades aconteceram pela manhã, tarde e noite. Foi ampla a participação das escolas e da população. Mas é preciso que seja dito: a verdadeira FLIBARRA se desenvolve no cotidiano das escolas. Só no calendário da cidade que a festa ocorre uma vez por ano. As atrações foram todas da região. Todavia pudemos notar que as mais acarinhadas pelo público foram as atrações da cidade. A exemplo da cantora e servidora municipal, Socorro Benjamin que foi ovacionada algumas vezes. A cidade abraçou seu festival literário e o festival, em contrapartida, se enrosca cada vez mais na extensão do seu território e da sua história.


Na sexta edição, o FLIBARRA se firmou como um dos mais importantes eventos literários do Estado. O trabalho com a literatura nas salas de aula é algo permanente e já revela algumas potencialidades entre os jovens para o exercício criativo da escrita. A preocupação com a formação de bons leitores é permanente. A cidade se orgulha do que produz culturalmente. A exemplo da Filarmônica São Miguel que, sob a batuta do Maestro Sergio Moura, pode ser considerada, seguramente, uma das melhores do Estado. Destacamos ainda a presença permanente do prefeito João Batista Truta e dos secretários municipais em todos os dias do festival. A gestão do município teve participação ativa na organização e execução em todos os sentidos. Por exemplo, o mestre de cerimônias era simplesmente o chefe de gabinete do prefeito, Alisson Nascimento. Tamanha integração da organização com a produção cultural do município, não poderia ter outro resultado: a cidade abraçou a FLIBARRA e isso fez toda a diferença. Além de projetar positivamente o município, a FLIBARRA estimula a população na busca dos melhores caminhos pra a Educação municipal. Na verdade, faz da população a principal parceira do projeto. Faz todo sentido, portanto, a fala do prefeito na abertura do evento, projetando a erradicação do analfabetismo na cidade. A Educação é vista como prioridade em Barra de São Miguel e a Cultura uma das suas ferramentas mais efetivas e afetivas.

Mas não é só isso. Barra se orgulha das suas muitas histórias. Aliás, sua história virou livro e foi debatida no festival. O professor e historiador João Paulo França, nascido no Rio e muito bem-criado em Barra de São Miguel, fez mestrado em História na UFCG e a sua amada “Potira” (nome anterior da cidade) virou objeto de pesquisa e estudo. Assim nasceu “Apontamentos para a história de Barra de São Miguel-PB”, um mergulho apaixonado em aspectos importantes para a formação e desenvolvimento do município. A exemplo do impacto da chegada tardio da rede elétrica, em 1970. Na VI FLIBARRA havia espaço para tudo que é produzido na cidade. Da arte à gastronomia. Uma cidade de muita poesia. Mostrou muito apego à identidade cultural nordestina. Tanto que uma das atrações mais animadas foi o grupo “As Crechetes”, formado por professoras e monitoras das creches municipais e que apresentou um pouco da história do Coco de Roda. Tudo de forma muito animada, dançante, bela e envolvente.

Barra de São Miguel mostra aos demais municípios que priorizar a Educação não pode ser apenas um discurso. Priorizar a Educação deve ser uma prática cotidiana. Exige não só investimento, mas envolvimento direto dos gestores. Algumas feiras literárias que são realizadas pela Paraíba afora, infelizmente, contam com a participação tímida ou inexistente das gestões. Este não é o caso de Barra onde o Festival já vai para a segunda gestão e só cresce no reconhecimento dos cidadãos e cidadãs que lá residem. O FLIBARRA estimula a autoestima da cidade. “As práticas de incentivo à leitura sempre foram ferramentas indispensáveis para a formação cidadã”, disse Sanção Lins, da equipe organizadora. Ao declarar guerra ao analfabetismo, o prefeito João demonstra em que direção caminha nesses tempos de obscurantismo e de criminalização da Educação e da Cultura. A pequena Barra de São Miguel se mostra altiva. Aponta caminhos para gestores e para a população. Ler é um direito que não pode ser ignorado. Mais que isso: formar leitores de literatura é uma guerrilha amorosa e permanente contra o analfabetismo funcional que já atinge até mesmo algumas universidades. Em tempo de consagração da ignorância a FLIBARRA caminha para a sua sétima edição como um farol para este Brasil Profundo. Um Brasil que não se rende ao espetáculo permanente da submissão, do preconceito, do obscurantismo, do cabresto político e da condenação do povo à ignorância que é, em última análise, um fator de multiplicação das mais lamentáveis misérias humanas.

Lau Siqueira

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