Flávia Muniz - o canto além da voz.


por Lau Siqueira
A Literatura Brasileira nos remete aos tempos infinitos. Tempos que não começam nem terminam num código estabelecido. Aliás, toda boa literatura é atemporal, como sabemos. Talvez daí venha a minha parcial discordância com a necessidade de catalogação dos escritores, por geração. Há que se perceber a literatura como um rio e seus afluentes. Por isso, não quero analisar este primeiro livro de Flávia Muniz, à luz da já denominada Literatura 00. Ou seja, a literatura que começa a despontar no século XXI. Exatamente porque não creio que as Teorias da Literatura funcionem como um tipo de autópsia do texto. Por um bom motivo: não se faz autópsia de organismo vivo. E a Literatura é um organismo vivo, antes e depois da escrita.

Cantora e compositora de boa cepa, transitando com personalidade na Música Brasileira Contemporânea, Flávia realiza a metalurgia dos seus textos numa poesia que poderia muito bem ser revertida ao estado de miniconto. Segundo o escritor gaúcho José Eduardo Degrazia, as prosas de Baudelaire representam o eixo fundamental na teoria do miniconto. Ao contrário do que pensam alguns, miniconto não tem limite de frases ou mesmo parágrafos. Pode ter uma única frase ou uma lauda. Flávia sabe muito bem em que terrenos da linguagem está circulando. Sabe ainda do mundo onde mergulha suas emoções mais densas, mais afeitas aos impactos naturais da palavra. Sabe que na literatura como na vida o direito à escolha é determinante e, algumas vezes, fatal. Das melhores palavras nem sempre se extrai os melhores caminhos. Por isso, Flávia vai conjugando uma literatura que dialoga cenicamente, plasticamente e musicalmente, com a palavra.

Seu texto desponta carregado de significado. Denso que só uma estrela no céu de dezembro. Vai despertando assim para as leituras mais atentas, ávidas por novas descobertas. Um trabalho de muitas artesanias e acostumado a beber nas melhores fontes. Sejam elas contemporâneas ou clássicas. Temos aqui uma literatura que não se contém diante das distâncias e passa a cumprir uma estética de adensamento do vazio existente entre os diversos pólos criativos da mente. Enfim, um texto de leitura agradável e ritmo instigado. Como se o “maculelê” do verso ousasse a batida do eixo, no itinerário da imagem que se cria a partir dele. Flávia Muniz desafia paradigmas e estabelece, também, a sua própria teoria a partir de uma prática que se mostra nas suas escolhas para a construção do texto.

Definitivamente, esta escritora não sofre do mal que Antônio Cândido chama de “ilusão antropocêntrica”. Seus textos esmiúçam a condição humana, trafegando da filosofia à poesia, do masculino ao feminino. No emocional e no racional. Tudo está contido na expressão do significado e da forma de organizar as palavras. Ela se reconhece múltipla e multiplica suas possibilidades ao demonstrar o que isso significa enquanto foco natural de uma narrativa. Quer um exemplo? Veja este fragmento: “Desvendando os mistérios do homem que sou, procuro manter-me quieto. Sou fotógrafo de almas. Observo humanos: esquinas de gente e olhar de gente. Mão e antebraço antes mesmo de nomes. Solidariedade: meu lugar de palavra e oração. Ajoelho-me no sal da Terra.” (ESCRITOS ESPIRAIS NA ROTA DO AMANHECER, II). Essa noção de espaço deu à Flávia uma definição de que as literaturas são o que as solfeja.

Portanto, eis uma literatura que reconhece, mas não se curva aos cânones. Tem autonomia e proclama seus próprios rumos elaborando frases curtas, de forte impacto acústico e ritmo acelerado. Bebe em Borges (com certeza) certo telurismo fantástico, absolutamente urbano e futurista. Ela nos chega num momento em que as mídias tradicionais estabelecem uma luta corporal, de vida ou morte com a cibercultura, tornando-se parte dela. “No século XXI, todo texto se torna um arquivo virtual”, nos diz N. kathetrine Hayles, em “Literatura Eletrônica – Novos Horizontes para o literário” (UPF Editora). Ela faz parte de uma geração que estabeleceu um novo tipo de relação com o saber em qualquer setor da vida racional ou transracional. Algo atemporal e ao mesmo tempo, enraizado num ponto equidistante entre o passado e o futuro. Um bom exemplo do quanto os jovens escritores e escritoras brasileiras estão construindo a memória de uma literatura que revela nomes expressivos, mas jamais demonstrou sinais de falência.

“Para morder estrelas deve-se espanar a poeira do peito e afiar os dentes em pedras de amolar facas. Andarilhos das noites, descalçamos o chão dos céus. O sol é maior que a Terra. O infinito é maior que o sol. Os humanos carregam pequenas certezas. A dor hermana e funde o núcleo do ser – ele espreguiça.” O livro de Flávia Muniz, Vilarejo – pergaminho do fogo, revela uma escritora que soube estabelecer-se entre o delírio criativo e a ciência de compor um texto de reconhecida substância literária. Estamos diante de uma leitura que poderá ser realizada com todos os olhares que determinam a nossa condição de gente. Uma literatura que esmurra o comodismo de repetir fórmulas prontas, buscando consolidar-se nos próprios e múltiplos rumos.

(Prefácio do livro Vilarejo - pergaminhos do fogo, da escritora, cantora e compositora carioca Flávia Muniz)



Comentários

Lice Soares disse…
Gosto do teu estilo. A maneira gostosa de se ler, quando fala da literatura e da poesia, em si, esse "rio com seus afluentes". Sinto amor fluindo por aquilo que escreve e diz a respeito de.Simples e belo, longe do pedantismo acadêmico - de alguns - que, às vezes - me arrepia e faz querer correr, voar.
Parabéns
Pedra do Sertão disse…
Que prefácio bom de ser ler...eu vontade de ler o livro também...
parabéns a ambos, escritor e prefaciador...

abraço
Pedra do Sertão disse…
Que prefácio bom de ser ler...eu vontade de ler o livro também...
parabéns a ambos, escritor e prefaciador...

abraço
Leo Lobos disse…
mis saludos desde Santiago de Chile

Leo Lobos

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