Pensando sobre estética e ética em frente ao túmulo de Virgínius da Gama e Melo.

Por Lau Siqueira

Sábado passado acompanhei o sepultamento de um vizinho e, na espera do cortejo, acabei descobrindo o jazigo perpétuo da família Gama e Melo, onde está sepultado o poeta e intelectual paraibano Virgínius da Gama e Melo, falecido em 1975. Nome respeitado historicamente nos meios pensantes da Paraíba, Virgínius da Gama e Melo acendeu uma polêmica que ainda hoje movimenta até mesmo as estratosferas políticas, com reações raivosas dos segmentos mais conservadores da cidade. Na verdade, tornou-se até internacionalmente conhecida a magnífica obra de Jackson Ribeiro, “O Porteiro do Inferno”, atualmente localizada num dos dois principais anéis de acesso à Universidade Federal da Paraíba. Apesar de se tratar de uma obra abstrata que justamente por ser abstrata não traz uma mensagem, “O Porteiro” vem sendo alvo de sucessivas e patológicas sanhas conservadoras. Alvo de ataques de descarada hipocrisia. Alguns segmentos buscam, abertamente, dar uma conotação de política eleitoral (usando a via da religiosidade) ao debate estético que a obra propõe. Que se entenda definitivamente: não há feição religiosa na obra mais conhecida deste grandioso artista paraibano de Campina Grande, Jackson Ribeiro. É uma obra de vanguarda, abstrata.

Que não se aprecie arte de vanguarda até se admite. É normal, dado o caráter inevitavelmente provocativo de um tipo de arte que questiona a beleza em um mundo torto e injusto. Mas, buscar o sentido religioso para a análise estética, com objetivos claramente eleitoreiros é de um oportunismo patológico que não cabe mais no nosso tempo. Este tem sido o comportamento de alguns segmentos “deformadores de opinião” que prestam um desserviço ao desenvolvimento social e econômico do empobrecido Estado da Paraíba. Os absurdos que envolvem a existência consagrada da obra mais conhecida de Jackson Ribeiro é bastante emblemático. Ocorre que o título original era “O Homem Astronauta”. Numa observação mais atenta, você verá que se parece com os astronautas do projeto Apolo, que levou o homem na Lua, numa época pouco anterior a concepção da obra. Tudo ia muito bem, até que o poeta Virgínius decidiu, jocosamente, rebatizá-la como “O Porteiro do Inferno”. Pior (ou melhor): o apelido pegou mais forte que o nome de batismo. Desde então se iniciou uma injustificada perseguição não à memória de Jackson, também já falecido, mas à existência da obra em espaço público. Há décadas, acabou sendo arrancada do seu lugar original, com a desculpa infame de estar localizada nas proximidades de uma Igreja. Sabemos que os fiéis evangélicos não cultuam imagens sagradas. No entanto, estranhamente, alguns pastores parece que abominam uma obra abstrata. Seria problema dos evangélicos? Claro que não. O problema está no nível de desinformação ao qual o povo é submetido, por “deformadores de opinião” que na verdade apenas querem dar sustentação às posturas mais conservadoras e inadequadas à evolução dos tempos e a democratização da informação e da sociedade.

Recentemente, fiquei bastante estarrecido com declarações públicas do deputado federal Walter Brito Filho contra as obras de arte que estão sendo espalhadas pela cidade, pela Prefeitura, fruto de um edital lançado pela Fundação Cultural de João Pessoa, hoje ao comando do grande Chico Cesar. Numa ação fruto de um edital em homenagem a um dos maiores artistas plásticos brasileiros de todos os tempos, Jackson Ribeiro.Um jovem com idéias medievais o tal deputado. Não deve saber que Jackson foi um ícone da efervescência estética brasileira dos anos 60 e 70, com uma fina e segura influência da arte concreta e de outras linguagens futuristas. Um artista antenado com o seu próprio tempo e com o futuro da nossa cidade. Sua obra mais conhecida por aqui se referencia nacionalmente e até internacionalmente, mas é tristemente banida pela ignorância de alguns deformadores de opinião, como o deputado Walter Brito Filho.

Em plena era da comunicação, com novas mídias aflorando a cada dia, este deputado demonstra um enorme desconforto ético ao querer misturar arte com religião e, pior, com política partidária. Sabemos que interesses estão por trás disso: desgastar a imagem do ex-prefeito e pré-candidato ao Governo do Estado, Ricardo Coutinho. Afinal, é a política que movimenta os processos econômicos. É na política que os interesses populares confrontam os interesses dos grupos econômicos locais que, nos casos mais agudos, são de formação familiar e oligarca. Na verdade, ignorante confesso quanto às questões estéticas o deputado me faz lembrar o pensador Jürgen Habermas quando afirma que “a economia política nasce da filosofia moral”, no livro “A ética da discussão e a questão da verdade”. Logicamente, não vamos crer que a rejeição do deputado à Arte Pública venha de princípios religiosos, uma vez que ele ,como outros oportunistas descarados, coloca a religiosidade no seu curriculum político. Como se os cidadãos e cidadãs da cidade de João Pessoa, evangélicos ou não, não tivessem a capacidade de discernimento que o ralo entendimento do deputado propõe. O que está em jogo, entenda-se, é uma coisa chamada “economia política”

Mas o foco principal continua sendo Jackson Ribeiro e seu consagrado “O Porteiro do Inferno”.Uma obra magistral colocada pela Prefeitura de João Pessoa no acesso à Universidade Federal da Paraíba. Sabemos que “O Porteiro do Inferno” foi um “apelido” para uma obra que se chamava originalmente de “O Homem Astronauta”. Uma brincadeira do poeta e intelectual paraibano Virgínius da Gama e Melo. Assim como com algumas pessoas, o pseudônimo inventado pelo poeta ficou mais conhecido que o nome. Quando dizem que o nosso povo precisa de Educação, concordo plenamente com os que acreditam que a Educação não é papel exclusivo da escola. No caso, os setores informados que detém parte significativa do capital pedagógico do Estado precisam se posicionar contra o que fede a feudo.

Comentários

Nani disse…
#A educação é a capacidade de perceber as conexões ocultas entre os fenômenos#
Václav Havel

=]
fúcsia disse…
VIRGINIUS foi meu professor na antiga FAFI/ UFPB, Lau. Uma figura! Que cultura, que fino humor irônico! É hora de se pensar numa reedição de suas obras. As novas gerações não o conhecem. E eu não sabia que ele tinha escrito poesia. Só romances, crônicas e crítica literária.
Vitória
lau siqueira disse…
Vitória, mas... será que é mesmo necessário escrever poemas para ser poeta? :)
susannah disse…
A arte é demoníaca... ainda bem! Ainda tem estofo pra incomodar. O problema é que os "deformadores de opinião" tem um discurso que se apropria tortamente de um tom parnaso-nacionalista-moral-edificante-dos-costumes, destruindo mesmo a capacidade de pensar da maioria já afetada pela deseducação. Bjs!
Constança Lucas disse…
Virgínius da Gama e Melo não conheço este nome, vou tentar saber mais , pelas suas palavras acho que vale a pena
abraços
Constança
ode aos deuses disse…
uma obra de arte nunca será grande pra quem é pequeno, pra quem a mede com seus preconceitos e interesses que não são pela Arte
O sobrenome Gama e Melo ´conhecido por aqui, ainda que não se conheça Virginius; mas o que estamos cansados de conhecer é a desinformação e a desorientação das pessoas que fazem esses tipos de pessoas como o deputado. É óbvio que ele o fez para desgastar a imagem de Rianrdo, mas não está claro que seja de fato o seu pensamento. Nada garante que ele, de fato, tenha a opinião que externou, se ele tiver alguma, pq é mto fácil repetir o que o "povo" - algumas pessoas- querem ouvir. daí ele somente repete em alta voz o que o eco vindo desse povo diz e parece que ele tem opinião, e parece que ele concorda com o povo, e parece que estamos todos pensandop do mesmo jeito, e parece que somos unanimidade, e parece que somos todos burros!
Até parece que todos pensam da mesma maneira que o deputado! Tenho certeza que há moradores do castelo branco que não se incomodam com o Porteiro do Inferno - lembram da revolução que houve no bairro para que a escultura saísse de lá? - assim como sei que há os que a defendam, como nós. No entanto, nem todos os que a defendem tem interesse/coragem de falá-lo, e é assim que as coisas correm o risco de contunar como o deputado falou/mandou...
fúcsia disse…
Oi,
voltei ao teu post de primeiro de abril do ano passado. tudo isso porque estou fazendo uma tradução e precisava das datas de nascimento e morte de virginius.
tens razão, pode-se ser poeta sem se escrever poemas, haja visto clarice e mesmo mia couto, que escreve predominantemente prosa, é um poetaço!
vitória

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