Que a Paixão nos Oriente. (Uma breve leitura do espetáculo A Paixão da Sagrada Família)

Um elenco homogêneo em cena. (foto: Jeovan de Oliveira)


Lau Siqueira

Quando ainda dirigia a Fundação Cultural de João Pessoa, em 2008, lembro de ter recebido um telefonema do jornal Diário de Pernambuco que estava preparando um caderno especial sobre as encenações da Paixão de Cristo em todo o Nordeste. Logicamente que fui às bancas saber o que haviam publicado. Surpreendi-me positivamente quando percebi que a encenação de João Pessoa era colocada em destaque, juntamente com a de Recife e a de Nova Jerusalém. Comecei, então, a ter a dimensão do que a encenação paraibana da Paixão alcançara em termos de destaque regional, em tão pouco tempo. Sucesso de público e crítica em todas as encenações.

Na verdade, a Paixão de Cristo, a partir de 2005, passou a ter uma proposta muito definida. O teatro paraibano passou a ser a maior estrela. Não mais os globais de talento duvidoso e o público espremido e em pé. Agora todas as pessoas assistiam todas as cenas confortavelmente sentadas, com um olhar especial quanto à acessibilidade para portadores de necessidades especiais e terceira idade. Também, afirmava-se diante do grande público pessoense, a qualidade do teatro local e uma concepção de espetáculo totalmente local. Cada ano uma encenação diferente, selecionada através de edital público. Uma democratização à qual os artistas não estavam ainda acostumados.

Este ano, especificamente, creio que a Paixão de Cristo patrocinada pela FUNJOPE superou os seus próprios paradigmas. Uma proposta cênica bastante ousada do Grupo Graxa de Teatro, com direção e dramaturgia competente de Antônio Deol e direção musical de Marcílio Onofre. Destaco ainda a cenografia e a iluminação com rigor matemático e sensibilidade aguda de Jorge Bweres e a participação dos maquiadores Ailton Gomes, Dinart e Júnior Mermaid. Eles fizeram a diferença, com certeza. Tudo isso trouxe para a arena do Ponto de Cem Réis um espetáculo extremamente audacioso que, mais uma vez, transgrediu a geografia do oriente médio, não mais em direção ao sertão nordestino. Era o país dos samurais contando a história mais antiga e mais encenada de todos os tempos.

Como nos anos anteriores, a direção musical tem se mantido num destaque especialíssimo. Marcílio Onofre, o jovem maestro paraibano, confirma a tradição de uma cidade que se transformou no principal pólo brasileiro de produção de música erudita contemporânea. Uma produção que dialoga com a tradição, mas também se permite a invenção, incorporando elementos da música eletrônica, oriental, ocidental e popular universal, quando necessário. Tudo imensamente impregnado verdade e reinvenção do sublime. Marcílio, que ainda não completou 30 anos, integra uma legião de talentos do porte de um Eli-Eri Moura, Didier Guigue, Luiz Carlos Otávio e outros integrantes da COMPOMUS que se constitui hoje na principal grife da música erudita brasileira.

Penso que não é tarefa das mais fáceis criar circunstâncias estéticas originais alicerçadas na mais popular estória que a humanidade já produziu em todos os tempos. A ousadia de Antônio Deol, entrementes, permitiu que se conjugasse a universalização de um tema religioso, com elementos da tradição e da experimentação permanente, necessária a afirmação do bom teatro. A cultura oriental dialogou barbaramente com a proposta cênica do grupo Graxa. Talvez um dos momentos de maior tradução desta verdade, tenha sido a beleza com que foi concebida, por exemplo, a cena da Santa Ceia. Também a permanência do Jesus Menino e seus parentes coadjuvantes, na memória geral do espetáculo.

A feição religiosa tornou-se mero elemento de composição do processo criativo. Como diria Fayga Ostrower, “”cultura são as formas materiais e espirituais com que os indivíduos de um grupo convivem, nas quais atuam e se comunicam e cuja experiência coletiva pode ser transmitida através de vias simbólicas para a geração seguinte.” Creio que a transcendência em todos os sentidos alcançada pela encenação deste ano, nos permite uma análise bem mais decodificada, até mesmo sobre o fator cênico como elemento de transgressão permanente das culturas e dos costumes. Ao incorporar elementos audiovisuais muito bem instalados em cena, o Grupo Graxa inverteu a idéia de que seria o cinema a arte de maior profusão de linguagens. Talvez o assombro da vivência de um voyeur nos permita afirmar que o teatro, pelos diálogos que se permite, tenha assumido o status de maior plenitude entre as artes. Pelo que incorpora e pelo que escancara em termos de perspectiva.

Não sei como seria hoje um caderno especial sobre as encenações da Paixão de Cristo em algum jornal brasileiro ou mesmo de fora do país. Mas, certamente, a Cidade das Acácias passou a ser uma referência inventiva das mais importantes para grandes espetáculos de rua. Logicamente que pelo alto grau de profissionalismo alcançado pelo teatro paraibano e certamente, também, porque o Curso de Teatro da Universidade Federal da Paraíba já começa a transbordar pelos palcos da cidade, com uma qualificação que não é mais apenas produto do talento e da labuta individual. Depois de um espetáculo como este, lotando a arena do Ponto de Cem Réis, podemos concluir que é possível ir ainda mais longe. Seja individualmente, seja coletivamente.

Comentários

Nani disse…
yes, we can! =)
E tb adorei o espetáculo. Achei a proposta ousadíssima e convincente. Adorei a "interpretação japonesa", foi mto criativo, mto interessante. O noss público merecia uma proposta assim.
O grupo que cantava e tocava tb foi maravilhoso, me deixando arrepiada todas as vezes em que entravam em cena.
Eu fui no 1º dia, e enquanto estava na fila, inclusive, te vi passando por nós. Não chamei pq teria que gritar, vc já estava bem à frente.
Eu até cheguei cedo, eu achei, na sexta-feira ainda, às 18h20, e não consegui entrar para o 1º espetáculo. Ficamos até às 21h, junto à entrado, já bem pertinho esperando que reabrisse para nós entrarmos. Enquanto esperávamos, teve ainda um tumulto justamente junto a essa entrada em que estávamos, pq o povo foi se ajuntando perto dessa entrada em que eu estava - na entrada do Paraiba Palace - e quase derruba os portões!
Isso me deixou mto insatisfeita. Eu achei que tinha muito poucos policiais, que no fim das contas, não servem pra nada - pq só passavam, viam que estava se formando o tumulto, e passavam direto! - além de as arquibancadas serem menos largas neste ano, e com isso, não coube todos que queriam assistir ao espetáculo! A gente chegou bem perto de entrar e não "dava" mais. E aqueles que foram assistir à última sessão e tiveram que ir embora de "olhos" abanando? Deu pena né gente? Eu tenho a impressão quase certa de que nesse ano as arquibancadas era menos largas do que as do ano passado, e por isso não deu para todos assistirem.
Além do processo de organização que deixou a desejar tb. Não já teve um sistema de entrega de senhas? Deveria ter voltado a fazer isso, para que as pessoas pudessem ter uma ideia se conseguiriam ver o espetáculo e a que horas veriam...
Entende? A peça foi uma obra de arte, o que não me agradou foi o sistema (des)organizacional que o assessoraria.
Erica Maria disse…
Pois que legal, Lau!
Eu estive lá domingo e confrsso que estava com muito preconceito. Não pelo tema (que eu nem sabia que era oriental), mas por ano passado eu realmente ter achado muito ruim. Aí me perguntava se não era mesmo melhor voltar ao tradicional, ou, pelo menos não ousar tanto, como foi no espetáculo das Lavadeiras. Achava que era preciso emocionar, e não apenas fazer um espetáculo "muito doido". Mas isso tudo, fruto do que vi ano passado, com nomes de personagens do tipo "Mano Pila" (pilatos) e "juca carioca" (judas). Mas falemos desse ano. Fiquei extremamente surpresa, emocionada, história muito bem contada, muita coisa linda de encher os olhos. Muito bom MESMO! E fico extremamente feliz, tb, de estudar com muitos dos que estavam em cena. Ver essa galera ralando e ganhando seu dinheiro, empenhada, feliz. Foi uma encenação linda, figurino e cenário móvel muito bem trabalhado. João até chorou com a trilha sonora, hehehhe
Minha única queixa é que um espetáculo tão lindo, tão cheio de detalhes, com tanto figurino, tanto dinheiro investido tenha tão pouco tempo "em cartaz". Acho que deveria aumentar os dias, até pq é muito difícil conseguir ver. Fomos sexta e desistimos por ter tanta gente. Domingo só vimos pq chegamos às 18h. Deveriam aumentar os dias e com isso, creio eu, mais pessoas vejam e um espetáculo tão bonito usa mais seus artistas.

beijo, véi!
kati disse…
Penso que o povo paraibano foi quem mas ganhou com todos os espetáculos ja apresentados,pois
temos a oportunidade de ver a mesma história de diversas formas.

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