O mercado do livro e o silêncio das gerações

Lau Siqueira

Em 2007 foi realizada a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, coordenada pelo Professor Galeno Amorim. Os resultados foram surpreendentes. Por exemplo, o escritor mais lido no Brasil é Monteiro Lobato e não Paulo Coelho. Entre os 30 mais lidos, encontramos Drummond, Raquel de Queiroz, Guimarães Rosa, Mário Quintana, Machado de Assis. Em suma, o melhor time da história da Literatura Brasileira. A Poesia chega a impressionar porque ocupa o terceiro lugar no ranking dos gêneros mais lidos e emplaca o poeta Vinícius de Moraes no quinto lugar entre os autores, de todos os gêneros, mais lidos. Em algumas regiões, como a região do Pajeú, em Pernambuco, a Poesia é o gênero de maior penetração. Logicamente que encantando com seus segmentos mais populares como o cordel e a cantoria de viola.

Ocorre que o mercado não responde no mesmo tom. Basta verificar as vitrines das livrarias e, pior, suas prateleiras. Na última sexta-feira, dia 9 de abril, estive em Brasília participando de uma atividade de trabalho e na hora do almoço procurei o shopping mais próximos para não ser esquartejado pelos preços do restaurante do hotel. Entre as lojas, havia uma filial (ou franquia, não sei) da Livraria Saraiva. Fiquei parado diante da vitrine, impressionado exatamente com o contraste em relação à pesquisa do Professor Galeno. Muitos livros sobre Chico Xavier, livros com títulos bisonhos que sequer busco na memória para uma citação neste momento e alguns best sellers, tipo Sidney Sheldon. Na vitrine inteira, um único título de Gilberto Freire. Não difere, aliás, das demais vitrines letais para a boa literatura.

Dentro da loja me senti ainda mais desconfortável. Na estante de literatura estrangeira, o espaço concedido para a poesia internacional não passava de um palmo. Do outro lado, a poesia brasileira recebia o mesmo espaço. Somente os monstros sagrados tipo Fernando Pessoa e Carlos Drummond, para me deter na nossa pátria nossa língua, interbrasileira. No mais, os livros técnicos que toda livraria possui e um lixo insuportável. No canto, com decoração atrativa para as crianças, livros infantis a peso de ouro. Uns razoáveis outros intragáveis para o menino que ainda sou. No entanto, uma isca poderosa para o consumo dos pequenos e das pequenas.

Fico impressionado com os rumos que vem tomando o mercado do livro no Brasil. Um mercado, diga-se de pronto, com uma lucratividade crescente, com números que impressionam. Muitos livros que não podemos crer que sejam recomendáveis. Na verdade, a grande maioria. Mas, o que mais impressiona é que as grandes feiras e as bienais também apontam para esta tendência. Lembro que em 2008 estive na Bienal de Fortaleza e fiquei desanimado com a quantidade de lixo espalhado nos stands. Também ano passado, na Feira do Livro de Porto Alegre, notei que o gigantismo da feira obedecia a mesma lógica. A Feira do Livro já não era a mesma de 25 ou 30 anos atrás, quando se encontrava Proust, nos balaios, a preço de bananas, em edições da lendária Editora Globo, com tradução de Mário Quintana.

O meu espanto gerou um artigo que acabou sendo contestado por alguns professores e professoras de Porto Alegre. Eles confundiram o meu espanto com o gigantismo da Feira, com alguma atrocidade contra uma cidade que me abrigou por muitos anos e com a qual ainda hoje mantenho um caso de amor. Os debates nos comentários do “Pele Sem Pele” acabaram desvirtuados, infelizmente. Pouco se refletiu sobre o que eu realmente disse, preocupado com o impacto da Feira do Livro na vida cultural e na formação cidadã da população da capital dos pampas. Confio nas palavras de Roland Barthes quando afirma que “a literatura contém muitos saberes” e justifico meus argumentos quando vou discutir políticas de leitura. Afinal, um bom romance, muitas vezes, traz um conteúdo antropológico, geográfico, histórico, ético. É tanto conhecimento contido em certas obras que me ponho a pensar o que gera nas pessoas a leitura de uma Zibia Gasparetto, por exemplo.

Não consigo calar sobre o que parece uma degeneração influenciando gerações inteiras. Afinal, creio que da mesma forma que a leitura de um Alejo Carpentier, um Jorge Luiz Borges, um João Gilberto Noll enriquece a alma leitora, não é possível que títulos como “Casais que enriquecem juntos” não sejam concebidos apenas para difundir a Lei de Gerson, num refrão ideológico dos piores dias da ditadura militar. “É preciso levar vantagem em tudo, certo?” Um atentado ético que me faz pensar se, realmente, a ditadura realmente acabou. Claro que não! Vivemos hoje a ditadura do mercado. No caso do livro, principalmente porque são raras as livrarias que tratam os autores como seres humanos. Muito especialmente os independentes que deixam lá seus livros em consignação. Lembro do poeta Chacal dizendo que deixava seus livros nas livrarias e depois “era recebido à dentadas pelo livreiro”.

Infelizmente a maioria dos escritores odeia discutir esse tema. Mesmo assim, todos tentam sobreviver aos apelos da eternidade, publicando na maioria das vezes com enorme sacrifício e, praticamente, sem muito resultado do ponto de vista da reparação dos custos. Mas, acho que já começa a se fazer sentir uma mudança de atitude. O escritor, no mais das vezes, gosta de se esconder na pele do intelectual. São raros os que se assumem profissionalmente como tal. A maioria é jornalista, professor universitário, tradutor, etc. Lembro uma vez iriam publicar poemas meus em uma revista e eu assinei apenas como poeta. A pessoa responsável pela edição me perguntava: “Mas, apenas poeta?” E eu respondia: “E você acha pouco?”

A brincadeira guarda um punhado de verdades ocultas e alguma mudança no final do túnel. Por esses dias, a AGES – Associação Gaúcha de Escritores estará discutindo a profissão do escritor. Refletindo sobre os entraves do mercado para o escritor gaúcho contemporâneo. Guerreiros como, o poeta Ademir Assunção, exigem que as políticas públicas para o livro contemplem também o escritor. Mas, parece que isso ainda não comove muito o poder público e, principalmente, os dragões do mercado que declaram desespero ao constatar queda nas vendas de um ano para o outro, sem divulgar o quanto engordam suas contas independentemente das lamúrias dos caras e das minas que habitam o ponto de partida da cadeia produtiva do livro. Parece mais que o empenho dos gigantes do mercado do livro é destruir de forma acelerada a Amazônia, derrubando árvores raras para publicar livros de conteúdo ralo.

Esse, entretanto, é um assunto do qual não podemos abdicar. Principalmente, porque muitos escritores não conseguem ainda pensar no fato da cidadania do escritor enquanto um profissional que gera economia, mesmo quando publica isoladamente e não vende um único livro. Afinal, seu esforço e suas economias geraram um investimento que irá, pelo menos, salvaguardar do abismo e do desemprego os funcionários da gráfica. Portanto, diante do apogeu do livro (e não da literatura) enquanto objeto de consumo, se faz sim necessário que escritores e bons leitores reflitam sobre o lixo do mercado e as suas implicações sobre a evolução do pensamento contemporâneo. É hora de reagir, de pensar coletivamente sobre o fator leitura/mercado. Antes que sejamos alijados da história da humanidade por tamanha inanição, por permitirmos que a gula da mediocridade resolva os desejos das novas gerações de acomodados.

Comentários

Contos disse…
Lau
Visitei rapidinho,
voltarei amanhã com mais vagar.
Mas já estou de seguidora, rs.
Bitokitas e um domingo de sol procê.

Sou de palavra pouca
falo com olho
economizo boca.
Elza Fraga

http://contosincantos.blogspot.com/
http://tempoinverso.blogspot.com/
http://versoinverso.blogspot.com/
dade amorim disse…
De pleno acordo, Lau. Mas há muito trabalho pela frente.

Abraço
Sulla Mino disse…
Olá meu amigo poeta, é sempre um enorme prazer vir por aqui, estamos nos "desencontrando" é?! Todo e-mail que mando para vc, volta. Meu endereço é: Rua Aluisio Cunha Lima 450/301 Catolé CeP:58410-258 Campina Grande PB meu e-mails: sullamino1@gmail.com, sullamino@yahoo.com.br

Dê-me notícias,
Bjks,
Sulla Mino
Adriana Karnal disse…
Lau,
muit bm seu artgo.Conheço esse matrial de 2007, e fiquei impressinada tbm q a poesia é um gênero de grande aceitação, não pq as editoras não investem mais...

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