Cantigas de celebração da vida

por Lau Siquiera

Sandra Belê é uma artista que surpreende sempre. Seja pelo enraizamento nas tradições culturais do Cariri, ou porque aprendeu a voar longe e alto. 
Coleciona pássaros no olhar. Possui raízes profundas e asas longas. Canta muito além das medidas de lugar e tempo. Revela que modernidade e tradição podem somar sintonias. Todavia, mesmo cantando coco de roda, ciranda, aboio ou forró, nunca foi apenas uma cantora regional. É universal até na pequena Zabelê, onde nasceu. Transita com elegância entre a identidade cultural do seu povo e a imensa diversidade da música contemporânea. Representa o que há de mais complexo na metalurgia e na história da comunidade musical brasileira.

Aprendiz dos Mestres caririzeiros, compreende a música enquanto linguagem de um mundo em ebulição. Todavia, o que é mais impactante nessa sua nova fase é a ousadia.  Através de uma pesquisa realizada no curso de Arte Mídia da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG mergulhou fundo na ancestralidade cultural nordestina.  E cavou uma experimentação radical. “Cantando para o eterno” é o título de um trabalho singular ainda em fase experimental. Apresentado uma única vez em Campina Grande. Na pesquisa, mergulhou nos escaninhos da memória de onde extraiu as últimas cinzas das “Incelenças” - cânticos tradicionalmente executados em funerais ou na cabeceira de enfermos em estado terminal. Um tipo de atenuante do sofrimento humano. Uma raridade existente ainda em poucas regiões do planeta.

A cantora teve a ousada sabedoria de pesquisar essas expressões e traduzi-las para o universo contemporâneo da música. Canta acompanhada pela batida eletrônica. Arranjos belíssimos de Gregg Mervine. Conta ainda com a direção musical do competente etnomusicólogo Romério Zeferino. Costura uma tradição das mais antigas na levada futurista das tecnologias da musica. Mas, as “Incelenças” não podem ser estigmatizadas como cantos de morte. Principalmente porque na voz de Sandra Belê se transformam em celebração da vida. Há registro, inclusive, da sua prática enquanto prece diante de doenças, estiagens ou mesmo inundações.


É um canto de esperança e salvação. Ao revitalizar esta tradição, o mérito da artista foi cerzir um arco-íris numa estrutura rítmica bastante simples. Multiplicação de possibilidades na complexidade dos arranjos. Verdadeiros contrapontos sonoros.  Tecnologia e ancestralidade se misturam para tecer um produto final de gosto mui refinado. Eis um segredo que somente se revelará numa simbiose entre a artista e seu público. Num povoamento de pequenas multidões antenadas em divinas porradas no comodismo do sucesso midiático.

Publicado em minha coluna no Jornal A União, 14.02.14.

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