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sábado, 27 de setembro de 2008

A literatura como método


Breve memória das oficinas de leitura nos bairros da velha Parahyba


Na verdade, nem sabíamos exatamente como seria. Apenas tínhamos percepção da necessidade de um projeto de incentivo à leitura na cidade de João Pessoa. Jamais esqueço o sorriso budista e o brilho nos olhos do multi-artista e arte-educador, Zé Guilherme, um guerreiro da espécie. Foi ele o precursor da boa nova: Oficinas de leitura nos bairros! Tudo muito pé-no-chão. Sonhos apontando para o futuro e uma disposição enorme para determinar uma nova realidade. Um articulador do próprio bairro para juntar a meninada. Um oficineiro ou oficineira com capacidade profissional e sensibilidade para tornar a leitura um ato de sedução. Pronto. Estávamos no ponto de partida. O fator humano era o nosso trunfo. Pessoas apaixonadas por esse processo contínuo de “aprender a aprender” semeado no mundo por educadores como Paulo Freire. No amparo estrutural do projeto, a Fundação Cultural de João Pessoa - FUNJOPE. Profissionalismo é a palavra chave desta ação. Todas as oficineiras e oficineiros estão “mestrando a língua” no curso de Letras da UFPB, ou mesmo já possuem título de mestre. Mas, o fundamental é que conseguimos reunir um grupo de pessoas qualificadas profissional, ética e moralmente. Pessoas apaixonadas pela leitura.
Após dezoito meses de uma vivência das mais ricas do ponto de vista pedagógico, político, poético e mesmo existencial, aprendemos a acolher rodas de leitura onde se misturam muito naturalmente um Machado de Assis, um José Paulo Paes e um Paulo Sérgio. Paulo Sérgio? Quem é? Perguntei ao menino-leitor numa das rodas de leitura. “Ele mora lá no bairro”, disse. Não tenho memória dos versos de Paulo Sérgio e nem me caberia comentá-los aqui. Soube depois que é um guarda municipal e atua num grupo de teatro amador que encena a Paixão de Cristo pelas comunidades há três décadas, o grupo Arte-Povo, do tradicional bairro popular de Mandacaru.
A descoberta saudável da poesia de Paulo Sérgio nos levou a duas conclusões lógicas e imediatas. Numa delas constatamos o prazer de termos encontrado o fio condutor do projeto. Ou seja: o jovem trouxe de casa sua própria leitura. De outro lado coube-nos a angústia por identificar com tamanha brutalidade a dificuldade de acesso ao livro. Paulo Sérgio, jamais publicou seus poemas. As políticas da leitura e do livro na capital da Paraíba vivem da guerrilha imprescindível de uns poucos. Atos que convergem para espaços como a biblioteca Comunitária Cactus, conduzida por duas mulheres fantásticas, Nina e Edeusa, absolutamente envolvidas numa ação militante e cidadã pelo direito à leitura num bairro de trabalhadores. Uma ação parceira das nossas oficinas de leitura que nos faz lembrar Antônio Cândido: “a literatura é um dos direitos humanos.”
Tudo é pensado integralmente, como deve ser um processo educativo que prima pela qualidade. O aluno, o oficineiro, a instituição, a sociedade e suas estratificações. Na verdade, estamos realizando um projeto de inclusão que trabalha o acolhimento através do livro e da leitura. Desde as primeiras idéias trocadas com Zé Guilherme até hoje, tudo me remete as palavras de Roland Barthes: “a literatura contém muitos saberes”. Uma coisa fácil de constatar. A leitura de “O Século das Luzes”, do cubano Alejo Carpentier, muito mais que o prazer de um bom romance, nos ensina a ler uma conjuntura importante na história do mundo. Também, não há como estudar mais profundamente a história do Rio Grande do Sul sem uma leitura atenta e prazerosa de Érico Veríssimo. Que estudioso da história brasileira pode abrir mão de Guimarães Rosa? Como entender o massacre de Canudos sem Euclides da Cunha?
Mas tudo é assim, tão maravilhoso? Não! Como política de educação fora dos muros, o estímulo à leitura deveria ter alguma visibilidade. No entanto, afora o entusiasmo de quem está diretamente envolvido, a apatia e a indiferença é grande. De quem é a culpa? Bem, essa conclusão me parece muito próxima de um comentário que ouvi de uma amiga em uma reunião, dia desses: “A culpa é minha. Eu a coloco em quem quiser”.
Uma coisa é concreta. As escolas desestimulam a leitura, mantendo muitas vezes suas bibliotecas fechadas para “proteger os livros dos alunos”. Lembro-me de quando fui solicitar autógrafo do saudoso João Alexandre Barbosa, em “A Metáfora Crítica”. O livro estava bastante surrado e sublinhado. Ele disse: “isso é um ótimo sinal. O livro está sendo aproveitado”. Claro que a propriedade coletiva de um livro requer cuidados. Só que um livro não pode ser tratado como algo inacessível, mas como algo imprescindível. Ler não pode ser privilégio de intelectuais. É um direito do povo.
O ensino formal da literatura (de modo geral) não oferece escolhas ao aluno. Impõe um pacote do que supõe importante. A literatura contemporânea em sala-de-aula, por exemplo, é uma exceção. A solução está, pois, fora dos muros escolares. Mas, quem duvida que um jovem leitor tenha maiores possibilidades de sedução com Leminski do que com Cláudio Manuel da Costa? A linguagem contemporânea, com certeza, levaria o aluno a uma identificação mais imediata com o texto. E foi isso que fomos buscar.
As nossas oficinas foram denominadas “Uma Janela Para o Mundo”. Percebemos logo a pertinência do título quando ouvimos de uma adolescente do bairro São José, que “aquilo estava abrindo uma coisa no seu peito”. Era, pois, a janela! Percebemos que havia um crescente interesse por aquela experiência quando, num sopro, já envolvíamos mais de 90 jovens. Criamos em João Pessoa uma ação cultural ainda embrionária, mas estruturante e necessária para uma mudança de hábito. Afinal, não estamos formando leitores para Lair Ribeiro e Paulo Coelho, mas apreciadores da boa literatura.
Dos clássicos aos contemporâneos, os livros funcionam como uma espécie fetiche para um processo educativo e cidadão. O projeto “Uma Janela para o Mundo” demonstra que é possível sim uma política de leitura em nossas cidades, cuja meta principal seja mesmo a fruição proporcionada pela boa literatura. Aqui em João Pessoa, por exemplo, caso um processo desses fosse iniciado nas escolas públicas, haveria a possibilidade de atingir imediatamente mais de 10 mil jovens e chegar à, pelo menos, 100 mil leitores em menos de 4 anos. Não há mistério. Trata-se de uma ação que depende unicamente de uma decisão política e disposição militante dos que estarão a implementá-la.
As formas de sedução são as mais diversas. A experiência de Mandacaru envolve também a música. A experiência de Muçumagro (outro bairro periférico da velha Parahyba) trabalha o gosto da leitura a partir dos signos do teatro. Vale a criatividade de cada grupo. Vale, sobretudo, a liberdade de escolha dentro de um cardápio literário bastante criterioso e ao mesmo tempo aberto para novas descobertas feitas pelos jovens que são, naturalmente, nosso público alvo. No entanto, há grupos de leitura onde é possível encontrarmos neta e avó. Há grupo em que uma adolescente trouxe a mãe para participar, logo depois o irmão e o pai. Por não trabalhar com avaliações formais e por não estabelecer limites, as oficinas de leitura acabaram produzindo elos que vão muito além do ato de leitura.
Outro caso singular é a participação do poeta Ronaldo Monte. Aposentado do curso de Psicologia da UFPB, intelectual respeitado na cidade e fora dela, o poeta nos oferece um capítulo especial nas oficinas de leitura. Ele atua como voluntário em Mandacaru e nos revela a importância da participação apaixonada também dos escritores para a consolidação de uma política de leitura. Tudo ainda está em formação e esse é o critério. O método? A literatura é o método. E ponto. Não queremos um projeto “pronto”. Queremos uma política pública onde o jovem será atraído pela liberdade de escolha e pela vocação para o acolhimento semeada no grupo. Tanto em relação à participação nas oficinas quanto sua liberdade de escolha das próprias leituras. Senti vontade de relatar um pouco dessa nossa experiência aos leitores cronopianos. Aqui, temos apenas uma breve notícia das oficinas de leitura. Um projeto cujos resultados serão colhidos pelo tempo, dentro de um processo de formação continuada. Algo plenamente possível e que somente poderá acontecer através de uma política educativa integral, transformadora para uma sociedade ideologicamente amestrada, acatando a exclusão com naturalidade cristã.

Lau Siqueira

P. S. – Parahyba era o nome da capital da Paraíba até a revolução de 30, quando num golpe oligárquico, colocaram na cidade o nome de um político sem muita expressão e que foi assassinado em uma circunstância absolutamente passional.

3 comentários:

Marli Reis disse...

(...) Transcende o espaço do coração. (Grata!...) Bj

silvinha disse...

...ADOREI LAU..OBRIGADO!!!

silvinha disse...

...adorei a leitura lau...obrigado!!!