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domingo, 17 de maio de 2009

A poesia das enxadas em Babilak Bah



Lau Siqueira


Negro. Paraibano. Artista. Um cara com uma carga ancestral imensa. Assim é Babilak Bah. O menino cuja inquietude, um dia, chamou a atenção de José Américo de Almeida. Num dos muitos começos dos anos oitenta, ele me disse: “Vou embora! Vou andar pelo mundo. Vou trabalhar com percussão e poesia!” E lá se foi meu amigo, com seu sorriso sempre tão imenso. Anos depois soube do seu reconhecido trabalho de percussão com enxadas. Uma radicalidade experimental erigindo sonoridades inventivas nos ruídos da capina cotidiana. Uma busca concreta para a feitura de signos musicais que, algumas vezes, transpunham-lhe os sentidos.

Babilak passou, então, a compreender o enigma dele próprio. Dos olhos fixos do menino, encantado com uma biblioteca imensa na casa de José Américo, nascia o diálogo do artista com o mundo. Ele sabia que, independentemente das suas vestes, seus sapatos seriam de palavras. Ainda que muitas vezes caminhasse pelo silêncio. Babilak Bah, com sua transgressão, criou para o universo lúdico dos nossos dias, a poética das enxadas. No simbolismo de quem passou pelos sonhos de uma reforma agrária da sua própria condição quilombola.

Hoje, tudo isso transborda pelos palcos do Brasil. A orquestra de enxadas é a mais intensa procura pela “batida perfeita”, como diria Marcelo D2. Babilak parece dialogar com Arthur Rimbaud, que disse: “Tua memória e teus sentidos serão o único alimento do teu impulso criativo.” Compreendo-o assim. Percebo que o seu talho no destino foi o componente fundamental da formação do artista que é. Tudo numa integralidade que passa necessariamente pela música, pela poesia, pela tecnologia, pela patologia humana e, sobretudo, tão intensamente pela sacudida no esparramo que é a ilusão do conceito fechado sobre as coisas. Na arte de Babilak, navegam vertentes audiovisuais que passam pelo cinema novo e pela nova TV que é o PC nosso de cada um. Ele reconhece o poder das novas mídias e das novas possibilidades de realizar o baile do futurismo primitivo. Tudo isso inscrito numa contemporaneidade que aos poucos vai despertando de si mesma.

Certamente que faço aqui um esforço enorme para não embarcar numa análise da sua obra. Seria, certamente, uma análise de forma fragmentada. Simplesmente porque o trabalho deste artista é um complexo jogo de memória. E tudo ocorre numa área determinada, num plano onde as inflexões mínimas e máximas da sua existência, refletem-se num elo de imagens vivas, pulsantes dentro da sua capacidade de reagir aos infortúnios de uma sociedade prevaricadora da dignidade alheia. Coisa que tantas vezes se reflete até mesmo em leituras que não passam de grossuras da vaidade alheia ou inveja dos que não arriscam a pele no erro. Como dizia James Joyce, “um homem de gênio não comete erros. Seus erros são voluntários e são os portais da descoberta.” Babilak é um artista mergulhado nos “portais da descoberta”.

A arte de Babilak Bah é, portanto, reflexo direto de um conjunto de reações íntimas do artista diante da experiência esmagadoramente bela e ácida que é viver. Do Enxadário ao Trem Tan-tan (trabalho terapêutico de musicalização, com pessoas portadoras de distúrbios mentais), onde seu diálogo é direto com a loucura, num mundo de uma racionalidade absolutamente insana. Preciso dizer que Babilak Bah, hoje radicado no Belo Horizonte das Minas Gerais, realiza um dos trabalhos estéticos mais instigantes neste início de milênio. Misturando as cores dum arco-íris de possibilidades, captado por uma mente que sabe o momento da colheita porque tem suas convicções sobre todos os processos do plantio.

Do simbólico ao sonoro, o trabalho que desaguou no Enxadário tem rodado por aí. Com amplas possibilidades no mercado alternativo europeu. E é exatamente onde deverá conjugar-se com o oceano das suas próprias possibilidades. Tudo exatamente a partir da distância que guarda, solenemente, dos apelos ao senso-comum. Coisa corriqueira em páginas consideradas nobres, muitas vezes, pela miopia cultural à qual resistimos no crematório da inteligência brasileira.

A sua poesia, de tão sólida, parece que não desmancha no ar. Ganha novas formas. Vai acoplando-se aos tempos passados e futuros. E prossegue transmutante de si mesma, viajando pelos véus do invisível. Incorporando saberes. Babilak é um artista que encontrou o seu processo nas ribaltas da própria circunstância. Por isso não subtrai nunca a integralidade das suas matilhas criativas. Vai assim produzindo uma arte madura. Uma arte que transita por universos capacitadores da sua própria condição. É poesia, na plasticidade dos motivos. É música, na medida do que impõe aos rumos da arte contemporânea. É arte... é arte!

P S > Assista Zen Preto, de Babilak Bah, no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=bYBIj4qUVTQ&feature=related

2 comentários:

***MissUniversoPróprio*** disse...

Uau! Excelente texto! (Só 'pra variar', aliás, né?!)

Bjos, visse? ;) Até sábado!

Marco Llobus disse...

Realmente, um excelente texto. Descreve com compreensão o que de perto vi.

Sim... É arte.

Babilak Bah, sonoro nome, que tem desenhado pelas ondas do mar de montanhas, uma rítmica das alturas. Sua palavra, Palavra-pincel, cinzel.
Esculpi a face do tempo/homem, entre as brechas da matéria alma/persona, o anti-fágico, “coletivando” individualidades, deixando um traço impar que explode para além da instropecção.

Novas cores são precisas. Para um homem de um novo tempo.

Marco Llobus