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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Ponto de Cem Réis – apenas uma opinião.

Por Lau Siqueira

Confesso que não me causam perplexidade alguma as reações acerca da restauração do Ponto de Cem Réis. A maioria, convenhamos, fruto de uma passionalidade tardia, ainda referente ao último pleito eleitoral. Mas, o despeito não merece contraponto. Deixemos de lado. Respeito, no entanto, algumas opiniões questionadoras do ponto de vista estético. Então me ponho a pensar: como seria uma simples e pura restauração daquele espaço nos moldes, digamos, da intervenção dos anos 70? O trânsito na Duque de Caxias seria reaberto?

Fotografias históricas do Ponto de Cem Réis nos anos 30 e as fotos da grande reforma realizada nos anos 70 nos fazem crer que o que está posto para aquele ponto da cidade é exatamente a sua adequação às necessidades dos tempos. Afinal, não está em questão a imensa trasformação que se deu nos anos 70, em relação à origem da Praça Vidal de Negreiros, o popular Ponto de Cem Réis, datada de 1924. E isso não está em questão porque as necessidades urbanísticas da cidade do início do século XX realmente eram outras. Portanto enterramos aí o primeiro mito.

Fotografias antigas nos mostram que nos anos 30 o trânsito dos bondes era determinante quanto as necessidades funcionais do local. Já nos anos 70, eram os automóveis que davam as cartas às intervenções urbanas. Entretanto, em muito pouco tempo houve uma defasagem desse modelo. A prova disso foi o fechamento do viaduto Damásio Franca e a preservação daquele espaço para a circulação de pessoas. Tudo dentro de um ambiente da mais pura degradação, diga-se de passagem. Isso nos faz pensar no óbvio. (E como é imprescindível, tantas vezes, pensar no óbvio!) Logicamente que os saudosistas não reivindicam os bondes e o charme provinciano da velha Parahyba do Norte. Resta, portanto, essa realidade que se arrastou através dos anos no mais puro abandono. Abandono, logicamente, sustentado no silêncio de muitos dos que agora “protestam” contra a preservação transformada do Ponto de Cem Réis, sem levar em conta que nada mais havia do aspecto urbanístico da sua origem, datada de 1924. Sem levar em conta, inclusive, a sua total inadequação para aquela região da cidade no formato que estava posto.

Os novos tempos, todavia, nos fazem pensar uma cidade na sua integralidade. É certo que a memória deve ser preservada. Contudo, poucos ainda lembram e muitos sequer sabem que no lugar da Praça Vidal de Negreiros, popularmente conhecida como Ponto de Cem Réis, exatamente onde hoje existe o Parahyba Pálace, havia a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos que desapareceu na primeira intervenção. O que foi feito nos anos 70, pelo arquiteto Mário Di Láscio mostrou-se, com o tempo, de uma beleza inadequada ao uso do espaço. A alça do viaduto Damásio Franca, por exemplo, ligando a avenida Padre Meira à rua Duque de Caxias, tornou-se rapidamente inútil e seu fechamento foi inevitável. Para que se entenda o que é o Ponto de Cem Réis hoje, precisamos lembrar no que havia se transformado. No entanto, não se poderá pensar em preservação e revitalização do Centro Histórico da terceira cidade mais antiga do Brasil, sem que sejam criadas as condições necessárias para isso. Cabe ao poder público nas suas três esferas, por exemplo, criar os estímulos. À iniciativa privada cabe a visão de futuro, investindo nos locais onde as possibilidades de lucratividade já são evidentes.

Por outro lado, devemos reconhecer que João Pessoa padeceu durante décadas da ausência de espaços adequados para a realização de manifestações e eventos públicos. Cada grande comício era um transtorno. Os grandes shows, por sua vez, não poderiam ser realizados no lugar mais democrático da cidade por absoluta inadequação do espaço. A Festa das Neves degradava-se através dos tempos e causava horror aos habitantes do bairro do Roger, com seus parques monstruosos, seus bêbados mijões, ou mesmo as barracas dos ambulantes em completo desacordo com a arquitetura do belo Centro Histórico. Até mesmo para que a Festa das Neves sobreviva com suas tradições, o novo espaço deve ser celebrado. Um breve deslocamento deverá torná-la menos danosa aos moradores e comerciantes, especialmente da rua Visconde de Pelotas.

A verdade é que a cidade ganhou o seu primeiro espaço livre para a realização de eventos culturais e manifestações populares. Finalmente temos um largo. Um espaço onde a democracia é a principal linguagem. Se está tudo maravilhoso? Logicamente que não. O prédio do INSS continua abandonado e, mais uma vez, invadido por famílias “sem casa”. O Parahyba Pálace, hoje alugado ao Governo do Estado, carece de pintura, pelo menos. A mesma coisa acontece com o Edifício Nações Unidas e outros prédios do entorno que, convenhamos estão mesmo pedindo providências dos seus proprietários. Outra intervenção no calçadão da Duque de Caxias, já foi anunciada pela Prefeitura. Logicamente que a iniciativa privada se sentirá estimulada a investir e em breve o visual da área será outro.

No mais, não me consta que o Sol fosse mais brando em meio ao abandono ao qual estava submetida a Praça Vidal de Negreiros. A bela arquitetura local, apesar de abandonada, foi valorizada com a nova intervenção. A sua revitalização é urgente. No entanto, se trata de uma área que precisará ser retomada pela população, com a convicção de estarmos em 2009 e não mais na década de 30, de frágil lembrança para tantos. Ou mesmo nos anos 70, quando a cidade também era outra.

Para finalizar, a estátua de Livardo Alves não representa outra coisa se não o respeito e, principalmente, a celebração da cultura e do povo paraibano. Livardo, compositor de alguns dos sucessos da música nordestina, era um dos símbolos do parlamento popular em que naturalmente se transformou o Ponto de Cem Réis em todas as suas fases e, certamente, nesta nova etapa da vida pessoense. Sua lembrança, em bronze, eterniza o romantismo de uma região da cidade que soube cumprir seus ciclos. Mas, que transformação radical não causa espantos? Muito especialmente nos espaços urbanos, onde tantas vezes a degradação gera apegos doentios. Na verdade, espaços abertos assustam quem teme a força de um povo que caminha para o futuro. Muita história ainda haverá de ser escrita pelo povo pessoense no novíssimo e belo Ponto de Cem Réis.

Indicação de leitura: Percepção e memória da cidade: o Ponto de Cem Réis (1)Jovanka Baracuhy C. Scocuglia, Carolina Chaves e Juliane Lins - http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp349.asp

3 comentários:

Dom disse...

Lau, ótimo repensar histórico das intervenções pelas quais passou o Ponto de Cem Réis. Texto muito esclarecedor para a população que, por vezes, assume inocentemente um discurso pautado na politicagem, que briga por permanecer em nossas terras. A cidade ganhou, com o novo Ponto de Cem Réis, um espaço funcional de que tanto necessita para as suas manifestações, além de ter valorizado a arquitetura do local. A merecida homenagem a Livardo é uma forma de preservar a memória da cidade, exercitar a nossa autoestima e assumir a nossa identidade.

Valeu, camarada!

Henrique

lourdes disse...

Como essa polêmica chega a ser hilária!Parece mais a minha polêmica com minha tia-avó durante a vida inteira;quando eu era mocinha. Se eu varria a casa, ela brigava comigo;dizia que não precisava, que a casa estava limpa demais;se não varria, ela dizia que eu era preguiçosa etc.O mesmo acontece com a história do Ponto de Cem Reis;quando estava largado,que parecia mais uma cidade fantasma, falavam e com toda razão; porém agora foi reformado, é preciso reconhecer que nem Cristo agradou a todos e que, portanto, não se deve querer 100% de aprovação; não é bem visto por todos paraibanos,natural.Ah!Não gostaram, hein?! Então, porque não fizeram as transformações antes? A verdade tem que ser dita. Não é só o Ponto de Cem Reis que está melhorado não; prá mim, toda a cidade de João Pessoa foi melhorada. Precisava mesmo de um prefeito como Ricardo Coutinho, com idéias altruístas prá nossa cidade sair da letargia de décadas e décadas de marasmos.Assino embaixo no projeto daquele espaço. E os outros que não gostaram? Esperem o seu tempo prá pôr tudo abaixo, e fazer a seu gosto. Demos a César o que de César!Ricardo tem auxiliares de muito bom gosto!

Bruna Steinbach disse...

Lau, gostaria de te pedir o teu e-mail para falar sobre um trabalho acadêmico. Pode ser?