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quarta-feira, 6 de abril de 2011

II FLIBO afirma vocação cultural de uma Paraíba que pensa e faz

A marcha pela literatura, na II FLIBO.
por Lau Siqueira

Não apenas as pessoas. Também as comunidades, as cidades, os estados, os países... Tudo que pulsa no mundo busca afirmar alguma vocação diante de um futuro cada vez mais competitivo e tribalizado. A cidade de Boqueirão, com a realização da sua II Feira Literária (II FLIBO) aponta um novo caminho, um novo modo de desenvolvimento que pode e deve esternder-se à outras cidades do interior paraibano. Não são poucas as provocações históricas que sinalizam nesta direção. Isso nos faz, também, acreditar que a questão central do conceito de sub-desenvolvimento está na forma colonizada de pensamento que nos foi imposta década após década. O pensamento do outro, o sentimento do outro, o costume do outro... ou melhor: a educação da Europa; o cinema americano; a literatura francesa; a música inglesa; a tecnologia japonesa... Quanto mais distante mais valioso, ainda que seja este um valor bastante duvidoso tantas vezes. Nesta forma sub-desenvolvida que alguns preferem por se tratar de um modelo de fácil dominação política há uma pré-disposição em pensarmos que tudo que os outros fazem é melhor. (Tudo nos EUA é melhor. Tudo em São Paulo é melhor. Tudo em Pernambuco é mais interessante.) Se não pecebermos o montante de interesses que envolve essa aniquilação das identidades e possibilidades regionais, a história não nos perdoará. Nós somos sujeitos do nosso destino e isto está posto até mesmo no que pode ser considerado pelos incautos “um simples evento literário.”

Depois do Encontro de Literatura Contemporânea realizado em Campina Grande, durante o carnaval, da II FLIBO, em Boqueirão, de 24 a 27 de março, do V Celebrando os Anjos de Augusto que acontecerá no dia 19 de abril em Sapé e do tradicional Festival de Poesia de Aparecida, já podemos arriscar a idéia de que a Paraíba começa a perceber que a sua tradição cultural pode vir a ser, num prazo mais curto que se imagina, a sua mais poderosa “indústria”. Não é segredo que a chamada Indústria Criativa, ou seja, a indústria do conhecimento, movimenta 7% do Produto Interno Bruto – o PIB mundial. A Inglaterra saiu na frente e no governo Tony Blair fundou o seu Ministério das Indústrias Criativas que movimenta bilhões de Euros e emprega e remunera muito bem obrigado milhares de cidadãs e cidadãos ingleses.

Citamos apenas alguns eventos de literatura que se situam dentro de um contexto bem mais largo e complexo porque este seria, provavelmente, um dos elos mais frágeis na cadeia produtiva da cultura da Paraíba. O fato é que na sua segunda versão a FLIBO já começa a ganhar uma razoável visibilidade através da mídia espontânea, das redes sociais, do fenômeno dos blogs e de portais muito conhecidos como o Overmundo. Muitas pessoas do país inteiro ligadas à literatura e aos movimentos culturais, por esses meios principalmente, já tomaram conhecimento que uma cidade do Cariri Paraibano aposta num evento literário de qualidade como um dos vetores especiais do seu desenvolvimento.

A II FLIBO começou com uma palestra do reconhecido escritor brasileiro, o paraibano Bráulio Tavares e terminou com uma aula-espetáculo de um escritor que é uma das maiores legendas da cultura brasileira, o também paraibano da gema, nascido no Palácio da Redenção, Ariano Suassuna. Somente a presença de Ariano Suassuna no evento já demarca para Boqueirão um terreno fértil dentro da teia de eventos literários brasileiros. Banido durante décadas da vida cultural do Estado, Ariano começa a reconquistar a sua cidadania paraibana e recompor os vácuos de uma história contada por interesses de facções coronelistas. Quem ganha com isto é a Paraíba que recebe de braços abertos um dos seus mais ilustres frutos. O Estado ganha também por vivenciar nesse momento histórico a certeza de novos tempos. Percebe-se que novas idéias estão semeadas. Certamente que não para esquecer o passado, mas para escancarar as portas do futuro.

Um evento que soube cativar escritores de outros estados e, ao mesmo tempo, acolher a efervescência da nova cena literária que está posta na terra de José Lins do Rego e Augusto dos Anjos, não precisará de maiores justificativas para captar o futuro. A FLIBO trouxe para o centro do debate a questão das novas linguagens criadas a partir da literatura eletrônica e das novas mídias. Também as tradições populares e os anseios dos novos escritores. Até mesmo a estética que não exclui possibilidades e não perdoa vaidades. Estamos tratando de um festival de literatura que nos mostrou, sobretudo, como dialogar com o seu tempo e com a sua circunstância.

Realizado pela Prefeitura Municipal de Boqueirão, através da sua Secretaria Municipal de Cultura, a FLIBO nos mostra que o desenvolvimento da educação e da cultura nas diferentes regiões do mundo, dependerá sempre da visão de futuro dos governantes e da capacidade de mobilização da sociedade. A Associação Boqueirãoense de Escritores – ABES que, na verdade, colocou a mão na massa para garantir a realização do evento, teve habilidade de sobra para trabalhar articuladamente com instituições como o Governo do Estado da Paraíba, através da Secretaria de Cultura, com movimentos literários paraibanos como o Grupo Caixa Baixa e o Núcleo Literário Blecaute, mas também com o SEBRAE e outros parceiros. A ABES soube ainda mobilizar escritores pessoenses que, com apoio da Fundação Cultural de João Pessoa – FUNJOPE, estiveram presentes e atuantes, seja participando das mesas, lançando obras ou aproveitando este importante espaço de trocas de saberes que tanto contribuem com Boqueirão quanto adensam o olhar dos visitantes.

MARCHA PELA LITERATURA

Um dos pontos altos da Feira Literária de Boqueirão foi o envolvimento das escolas do município. Seja nas oficinas ou em momentos de extrema singularidade como a simbólica Marcha pela Literatura, onde os organizadores e organizadoras souberam constituir elementos de sedução junto ao alunado trazendo para as ruas personagens da literatura de Monteiro Lobato e dos clássicos da literatura mundial. Esta marcha deu uma característica conceitual à FLIBO, ao apontar para a necessidade de incentivarmos políticas de leitura nas escolas. Um fator estruturante para formação das futuras gerações de cidadãos e cidadãs do Cariri Paraibano e de outras regiões. Marcel Proust, em texto sobre a importância da leitura, afirmou que as melhores lembranças da nossa infância são as imagens que colhemos nos livros. Já o poeta gaúcho Mário Quintana costumava dizer que “o pior analfabeto é aquele que aprendeu a ler e não lê. O fato é que o elo com as políticas da Educação apontam um caminho que será determinante para a estruturação um futuro mais pleno em sabedoria e cidadania.

PREPARANDO A III FLIBO

Os escritores e escritoras que fazem parte da ABES e que, na verdade, fazem parte também de um movimento espontâneo que contamina a Paraíba inteira, já devem estar pensando no formato que darão ao evento no próximo ano. Na verdade, a segunda edição de um evento é sempre a sua afirmação. As futuras gerações saberão agradecer, como hoje a cidade de Porto Alegre agradece aos que criaram e sustentaram a tradição que já caminha para a sexagésima edição da sua Feira do Livro, atualmente, a maior feira de livros ao ar livre da América Latina. A FLIBO começa a dar os primeiros passos de forma muito segura quanto ao seu papel no desenvolvimento econômico, social e cultural da cidade e do Estado. O cenário está pronto: Boqueirão mantém uma Orquestra Filarmônica entre cordéis e cantorias, grupos de boa referência como o Kiriri Jazz Band, além de fomentar a maior tradição musical brasileira, o chorinho, bem como outras tradições do povo do Cariri.

A FLIBO afirma as políticas públicas de cultura que conduzirão pelos melhores caminhos os que hoje não conseguem ainda dimensionar a importância para as suas vidas de um ato público com a dimensão da Marcha pela Literatura. Estabelecendo diálogos com as novas tecnologias, com as mídias digitais que já não fazem mais parte do futuro e com a história da literatura que, como afirmam alguns teóricos, não possui grau de evolução, pois afirma-se através do tempo nas suas melhores tradições. Abrindo as portas para as mais densas colheitas da intelectualidade lusófona e para a imensa diversidade cultural da região, Boqueirão em pouco tempo será conhecida nacionalmente pela FLIBO e por iniciativas semelhantes que a sua Secretaria de Cultura vem semeando com a dedicação de quem acredita na cidade.

Um comentário:

Adriana Bandeira disse...

Oi Lau
Percebo o quanto a visão de subdesenvolvimento nem é um olhar mas um conceito também " tipo importação".Um olhar não é único, portanto...se tivéssemos um olhar teríamos mil ( ehehehhe).Pois bem, estas iniciativas, estes encontros que gosto de chamar de manifestos reconhece o estatuto de existência surrupiado pela violação dos territórios subjetivos da língua.A tecnologia pode auxiliar para que a tal globalização não sirva para normatizar, nivelar, matar os grupos mas reconhecê-los como falantes de sua fantasia de vida, de transmissão da capacidade de inventar-se.
beijo grande
adriana bandeira