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Mostrando postagens de 2008

O porquê das nossas escolhas.

por Lau Siqueira
Desde que assumimos a gestão cultural da cidade de João Pessoa temos escutado vozes (cada vez mais diluídas no silêncio) reclamando atrações musicais tipo: Calcinha Preta, Aviões do Forró, Ivete Sangalo e coisas do gênero. Algumas dessas vozes, aliás, injustificadamente nas sombras. Com vergonha de mostrar a cara para um debate público. Ou seja: gente posando de cult, mas com o rabinho conceitual preso ao créu. Somente o fato de termos esse debate estabelecido a partir de uma ação de política pública já vale o queijo do reino e o vinho das festas de final de ano.

Chegamos a escutar pérolas tipo: “Vocês deviam trazer Calcinha Preta, porque dá voto!” Entrementes, se tivéssemos implantado uma política meramente eleitoreira estaríamos esquecendo o compromisso que assumimos com a cidade em janeiro de 2005. Afinal, o que realizamos fez parte de um programa de campanha que, no segundo semestre de 2004, foi amplamente discutido com artistas e produtores culturais da cidade. Faz…

A literatura como método

Breve memória das oficinas de leitura nos bairros da velha Parahyba


Na verdade, nem sabíamos exatamente como seria. Apenas tínhamos percepção da necessidade de um projeto de incentivo à leitura na cidade de João Pessoa. Jamais esqueço o sorriso budista e o brilho nos olhos do multi-artista e arte-educador, Zé Guilherme, um guerreiro da espécie. Foi ele o precursor da boa nova: Oficinas de leitura nos bairros! Tudo muito pé-no-chão. Sonhos apontando para o futuro e uma disposição enorme para determinar uma nova realidade. Um articulador do próprio bairro para juntar a meninada. Um oficineiro ou oficineira com capacidade profissional e sensibilidade para tornar a leitura um ato de sedução. Pronto. Estávamos no ponto de partida. O fator humano era o nosso trunfo. Pessoas apaixonadas por esse processo contínuo de “aprender a aprender” semeado no mundo por educadores como Paulo Freire. No amparo estrutural do projeto, a Fundação Cultural de João Pessoa - FUNJOPE. Profissionalism…

Yes, nós temos João!

(pequena crônica para uma crítica anunciada)

Lau Siqueira

Não posso dizer que fiquei triste quando li na coluna do meu querido Jamarri Nogueira que a programação do São João da capital era “fraquinha”. Fiquei foi embasbacado. Naquele momento sequer tínhamos anunciado a tal programação. Comecei a entender, então, o porquê de alguns artistas reclamarem da ausência de repercussão (positiva ou negativa) dos seus shows, espetáculos, lançamentos e exposições.
Mas, esse papo introdutório dá pano para outras mangas. Na verdade, o que impulsionou a reflexão deste momento foram as declarações de Biliu de Campina e Pinto do Acordeom em uma emissora de TV local. Eles ressaltavam as escolhas que foram feitas para a programação do São João de João Pessoa. Biliu chegou a brincar, dizendo que em muitas cidades havia um “Sem João” e que na capital era o verdadeiro “Tem João”.
O que ocorre, no entanto, é que não podemos sucumbir diante do lugar comum. Não se pode conceber um evento dito cultural que se ren…

República do Desencontro

O mercado do livro e a tradição literária nordestinaLau Siqueira*Ano passado participei como convidado do Encontro de Interrogações do Itaú Cultural, em Sampa. Um evento que busca, sobretudo, o mapeamento da boa literatura contemporânea brasileira. Grandes momentos. Grandes debates. Nomes de ponta da produção literária brasileira estiveram por lá. Muitos dos quais já com alguma intimidade com a engrenagem mercadológica do livro, pelo menos em termos de distribuição.Inicialmente fiquei um tanto quanto injuriado ao ouvir a Professora Heloísa Buarque de Holanda dizer que os poetas nordestinos não entravam nas suas antologias porque seus livros não chegavam ao sudeste. No entanto tomei o fato como uma provocação acerca do isolamento vivido pelos escritores nordestinos e que, diga-se de passagem, não difere muito dos escritores de outras regiões periféricas ou mesmo das periferias das regiões centrais de um país, injustificadamente, ainda debruçado sobre as grandes chaminés de um grande pó…

Para onde vai o nosso carnaval?

Lau Siqueira

De que matéria é feito o carnaval nordestino? Para a grande e estreita mídia colonialista do sul/sudeste, a matéria do carnaval nordestino se divide entre o frevo das Casas Pernambucanas e o sambaxé das Casas Bahia. Ponto final. O Armazém Paraíba fica de fora. Mas, deverá também ficar de fora das nossas reflexões?
Desculpem, mas não poderia começar a refletir sobre um tema de tamanha relevância sem uma boa dose de ironia para com a esperta e ausente iniciativa privada. Um produto cultural rentável, como o carnaval nordestino, que somente este ano movimentou 283 milhões em Recife, precisa ser pensado em João Pessoa com suficiente objetividade para se oferecer como alternativa aos grandes pólos da folia nordestina e, conseqüentemente, beber das águas abundantes da sua lucratividade.
Não é possível mais observarmos as movimentações da máquina pública sem que se tenha lucidamente apontado o caminho das suas ações. Os carnavais nordestinos de sucesso se tornaram multiculturais (…

Como na Idade Média

A qualidade da produção literária paraibana não é novidade. Também não é novidade a boa relação que a maioria dos escritores mantêm entre si. Há uns três anos, encontrei alguns deles num Café do Shopping Sul. Pensei se tratar de um encontro casual de amigos no agradável bairro do Bancários. Comunidade conhecida, aliás, por abrigar boa parte dos artistas, escritores e produtores culturais da capital da Paraíba.
Ledo e Ivo engano. Tratava-se da segunda reunião do que viria a ser o Clube do Conto da Paraíba. Testemunhei, pois, o nascedouro do que hoje transborda nesta edição da coletânea “Histórias de Sábado”. Um pouco oficina literária, um pouco de mesa de debates, um pouco roda de amigos, um tanto de coisas feitas, idéias construídas... Convergência de criaturas cujo prazer maior naqueles momentos partilhados é a artesania, a alquimia e sobretudo, a discussão sobre as suas produções semanais.
Os integrantes do Clube do Conto da Paraíba, desde a sua criação até a edição deste volume reúne…

Gestão Cultural e o Trem (Expresso) da História

(Anotações para uma vivência cotidiana)


Lau Siqueira

Pensar e executar políticas públicas jamais foi tarefa exclusiva de qualquer instituição pública. Faz-se necessária a construção de parcerias com capacidade de esticar mais e mais os braços burocráticos e executivos das engrenagens administrativas do setor público. O programa dos Pontos de Cultura, do MinC, é um bom exemplo de institucionalização dessas parcerias. Por outro lado, jamais teremos a plenitude de uma política de turismo parceira da cultura, por exemplo, se não tivermos como âncora a participação efetiva do micro e médio empresariado que, via de regra, trata-se de um segmento que “vive a cidade” e sobrevive do seu vigor econômico. Também, jamais teremos uma política cultural verdadeiramente educativa e cidadã se os gestores públicos não aprenderem a escutar as comunidades, aprendendo sobre seus mitos e incorporando os seus aprendizados. Não quero dizer com isto que devamos mergulhar no tabuleiro das demandas, de um lado e …