As oligarquias decadentes e seus ódios repugnantes


Por Lau Siqueira

Impressionante o artigo "A cidade de todos" publicado pelo colunista social Abelardo Jurema Filho, no Jornal Correio da Paraíba. Desta vez Abelardo extrapolou ao ocupar a coluna "Opinião" para demonstrar sua repulsa ao belíssimo monumento dedicado ao romance A Pedra do Reino. Uma justa homenagem da Prefeitura ao escritor paraibano Ariano Suassuna, nascido exatamente no Palácio da Redenção. A obra é assinada pelo consagrado artista plástico Miguel dos Santos e está instalada na Lagoa do Parque Solon de Lucena, num cenário de paraíso. O artigo é lamentável sob vários aspectos. Principalmente porque não se trata de uma crítica estética, mesmo que inocentemente fundamentada. O texto limita-se a demonstrar o ódio familiar que alimenta o “coronelismo fashion” que ainda domina alguns dos setores privilegiados da sociedade paraibana. Um ódio que se esparrama pelos becos. Por motivos não menos lamentáveis, o conservador Ariano não pronuncia o nome da capital da Paraíba. Parece que nem o tempo está sendo capaz de banir tamanha estupidez.

Inquestionável o valor da obra de Miguel dos Santos. Inquestionável o resgate de Ariano Suassuna para a cultura paraibana. Mas, o ódio oligarca que perdura por esses tempos modernos é um atentado ao bom senso. Afinal, com tanta violência permeando nossos dias, a cultura de paz precisa ser lembrada. Especialmente pelos formadores de opinião. Lamentável que pessoas públicas continuem disseminando um ódio histórico que em nada envolve a memória do povo. Um ódio que semeou através dos tempos uma única coisa: o atraso político e econômico do Estado. Não que seja preciso negar os episódios que culminaram com o assassinato de João Pessoa e levaram à morte uma das mais instigantes personagens da história do Estado, Anayde Beiriz. Certamente um nome que ainda perturba o sentimento medieval disfarçado em “mágoas de família” e que de tão enraizado, ainda perturba corações e mentes. O mais grave de tudo é que, mais uma vez, sobrou para uma obra de arte. Um totem que foi postado exatamente no chamado Cartão Postal da cidade com o objetivo de resgatar uma história que vem sendo, através dos tempos, sumariamente suprimida pelos interesses mesquinhos de uma elite que não se sustenta em idéias e princípios, mas em interesses muito particulares e ódios incendiários.

Incapaz de dimensionar a importância da obra exatamente pelos motivos acima expostos, Abelardo demonstra a sua incapacidade enquanto homem de imprensa ao se referir ao trabalho de Miguel dos Santos (artista que orgulha o povo pessoense), como “algo de gosto duvidoso”. Por que não explicita seu gosto? Seria digno entrarmos aqui num debate estético. Afinal, a arte existe exatamente para despertar o sentimento crítico e lúdico do povo. Uma arte que não provoca, não merece espaço na história. Por isso a obra de Miguel dos Santos em homenagem ao escritor paraibano (nascido numa capital que ainda não se chamava João Pessoa) ganha cotidianamente um fôlego novo para que uma nova ordem social e política seja estabelecida. Um tempo em que o ódio familiar não seja determinante no comportamento político de segmentos parasitários do poder.

Resgatar a cidadania paraibana de um dos escritores de maior consagração no Brasil e no exterior deveria ser algo inquestionável, uma vez que não raras vezes se diz que o povo paraibano ainda tem problemas de auto-estima. Por outro lado, apesar de ter retomado uma certa relação de amor com a Paraíba, Ariano ainda precisa se livrar de um acúmulo de ranços que já não nos dizem nada. Não há mais espaço para um ódio tão violento ainda expressado publicamente desta maneira. Os tempos são outros. A população é outra. A cidade é outra. Não importa o nome. Não sou favorável à mudança do nome. Mas, não sou favorável também que se jogue na lata de lixo da história, 424 anos de história, somente para acariciar a vaidade e a soberba de uma elite que, não raras vezes, nos envergonha por suas atitudes. Esse ódio atrapalha a Paraíba. E como atrapalha! Principalmente porque se reproduz nas micro-oligarquias que dominam politicamente o Estado. Um poder pouco democrático que a cada eleição coleciona cadáveres por sucumbir no jogo das idéias e do interesse público. O povo é apenas um detalhe para esses senhores.

O texto do colunista social Abelardo Jurema é um tipo de pistolagem como os que ainda violentam a vida na Paraíba. São vertentes do mesmo ódio. Uma violência verbal que se justifica no injustificável. Como difundir uma Cultura de Paz fechando os olhos para tamanha ignorância histórica? Uma ignorância de lado a lado que não leva em conta o quanto é vergonhoso constatarmos tão solenemente que ainda precisamos desmontar a lógica vingativa do poder oligarca. A lógica das poderosas famílias que sustentam ainda hoje as enormes diferenças sociais que fazem da vida nesta bela cidade, não raras vezes, um abismo onde até mesmo o silêncio faz eco. O povo paraibano é infinitamente superior às suas elites e saberá dizer não ao descalabro de termos ainda os interesses e as vaidades familiares, tão simbolicamente ficadas na expressão de quem deveria, sem nada de novo para dizer, por uma questão de bom senso, calar-se diante da grandiosidade da história e de um povo enriquecido pela sua cultura e pela generosidade geográfica do seu território. Os tempos são outros, senhores! Que esse ódio oligarca não embarque um futuro que as novas gerações precisam construir. O Haiti, não é aqui.

Comentários

É lamentável ver que ainda há alguns que, mesmo tendo atitudes como a citada, de tamanha ignorância, ainda são considerados "formadores de opinião".

Querido, um beijo e obrigada pela torcida e pelo lindo comentário lá no blog, que me fez emocionar.
Penso em minha pobre cidade que teve dois monumentos públicos demolidos pelo ódio do administrador e duvidoso censo estético de um diretor de cultura(?).

Como demora a morrer este país moribundo dos coronéis.
Ceci disse…
Tudo indica que a raiva cega o coração. A cara do coronelismo se mascara na imprensa buscando prostituir a cultura? Obrigada pelos alertas diversos no seu texto.
lau siqueira disse…
Dina Melo disse que Burle Marx, antes de subir aos céus, negou três vezes que tenha feito o projeto da Lagoa. E eu acredito nela. Vou retirar do texto.

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