O lirismo futurista na música de Flávia Muniz



Por Lau Siqueira

Impressiona sempre a capacidade de renovação da Música Popular Brasileira. Do universo pop às tradições da Bossa, do Metal ao Baião. Isso quando o olhar se torna mais amplo sobre conceitos de MPB. Não poderia ser diferente uma vez que as novas gerações, desde o Tropicalismo, permanecem cruzando a ponte da tradição aos chamados tempos modernos. Existem artistas que, historicamente, guardam singularidades que nos fazem tecer um olhar mais atento às suas obras e trajetórias. Flávia Muniz é uma dessas artistas. Leva ao palco as palavras mais exatas para o contexto de uma música que evoca, de certa forma, o que brotou no Lira Paulistana e outros palcos vanguardistas. Até mesmo no Tropicalismo, com um acentuado olhar sobre a figura do poeta Torquato Neto. Logicamente, o que vivemos agora é exatamente a configuração de todas essas teias em outro contexto histórico da MPB. Penso que Flávia expressa bem essas transcendências.

Podemos, num primeiro momento, concluir que a palavra é o fator de determinação na música de Flávia Muniz. É exatamente a palavra e os rigores da poesia que determinam a musicalidade de uma artista inquieta, insubmissa frente ao que está esteticamente posto. Estamos diante de uma criadora absolutamente atenta às perspectivas da música mundial que respira fora das engrenagens sufocantes da cultura de massas. Assim, dentro da cena musical brasileira deste início de milênio, Flávia Muniz experimenta o transbordamento através da vertigem de beber em todas as fontes, parindo um som que não guarda segredos de si, pois fornece, integralmente, os mesmos elementos de sedução em cada nota, em cada palavra cantada. Ouvi-la instiga profundamente toda mente afeita aos manjares estéticos de qualquer espécie ou estilo.

Para quem ainda não sabe, Flávia não é estreante. Ela vem de um contexto. Tive a oportunidade de conhecê-la como vocalista da ótima banda carioca, Luisa Mandou Um Beijo. Cujo trabalho, aliás, guarda o respeito de músicos e pensadores bastante expressivos, da MPB. Bons músicos. Bom repertório. Letras instigantes. Na verdade a banda é uma provocação à vanguarda. É como se algo fosse brotar exatamente duma transversalidade provocativa entre o clichê e a experimentação. Entrementes é inegável, também, que Flávia Muniz começa a destacar-se enquanto criadora, na cena musical do Rio de Janeiro e do Brasil. Principalmente por uma inegável personalidade artística que a conduz a um tipo de composição musical que não se rende aos apelos fáceis e, ao mesmo tempo, fecha as portas ao hermetismo estéril. Ela é construtora de um estilo que bebe nas melhores fontes da canção popular brasileira, sem negar a embriaguês necessária das vanguardas, sem abrir mão da possibilidade de construção de um lirismo absoluto e íntimo. Flávia parte de uma construção absolutamente pessoal para empreender uma leitura musical aberta às melhores influências do planeta. Ela habita uma certa plenitude quanto ao conceito de Obra Aberta, de Umberto Eco.

Leitora atenta, dos livros e do mundo, Flávia representa divinamente, em suas composições, o elo entre o poema e a música. Algo que se completa com uma performance de palco que, sem pirotecnias cênicas, guarda um grau elevado de elaboração. Uma elaboração que vem do instinto da artista, logicamente, mas também da sua formação acadêmica na área da Música Popular Brasileira. Ou seja: a artista construiu uma identidade tal que é praticamente impossível que seu trabalho solo não alcance, também, o respeito que Luisa Mandou um Beijo ganhou e, talvez, até mesmo ampliando espaços na visibilidade musical brasileira. A tecnologia, neste caso, favorece a arte. Pela internet é possível ver seus clips em qualquer lugar do mundo. Certamente que a agradável experiência de ouvir essa cantora carioca se espalhará como o vento, pelos mais distantes rincões. Principalmente, despertará a atenção dos que pensam a MPB com um olhar mais contemporâneo, de Cartola à Itamar Assunção.

São muitas as ocorrências que nos fazem pensar a musicalidade absolutamente poética de Flávia Muniz. Suas composições são suaves provocações aos sentidos. É uma música que chega como um alerta, seja ecológico, seja existencial, seja estético. Estamos diante de uma artista que, mais do que tudo, experimenta vestir-se inteiramente com a mesma identidade artística, com a mesma personalidade de encarar o palco como espaço de permanentes experimentações. Especialmente dentro de uma linguagem que é, também, teatral. Muito ainda haverá de se comentar e escrever sobre o trabalho de Flávia Muniz, mas neste momento são as impressões que trazemos aos que buscam informações acerca desta cantora que encanta pelas suas interpretações de extrema singularidade e pelo seu inegável talento como compositora.

Comentários

Erica Maria disse…
eu sou encantada com a música e o lirismo da Flávia. Ela é muito boa!
que continue verdejando, escrevendo, encantando.

sou fã.

beijos!

Postagens mais visitadas deste blog

Mário Quintana: A ABL VIROU UM DEPÓSITO DE MINISTROS

ENOCH É A DANÇA ALÉM DO CORPO.

Em Guarabira tem Café com Poeira – Cultura e Resistência no Brejo Paraibano