quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O HÁLITO DO FOGO E A ANCESTRALIDADE TRANSGRESSORA DE FRANCC NETO

Lau Siqueira

Para quem banca a própria rebeldia diante da banalização do extraordinário, a experimentação sempre significará um salto no abismo. É como se na hora do salto estivéssemos chegando de uma alameda de dois caminhos que costuram eternidades na obra e no artista. Estas são algumas das senhas para a diáspora dos ímpares, dos que munidos de coragem futurista e densidade ancestral constroem o ato de criar novas estruturas para as sensações e demais significados da condição humana. A idéia do Belo, em Hegel, se refere à “manifestação do verdadeiro tomado em sua aparência sensível”. A obra de Francc Neto nos remete à incontáveis leituras, sobretudo, como “manifestação do verdadeiro em sua aparência sensível.”

“Quando possível, respeitada a natureza peculiar a cada uma das artes, tenderá a desaparecer a diferença de atitudes discernida muito bem por Mário Pedrosa entre poeta e pintor concreto: a fenomenologia da composição cederá lugar a uma verdadeira matemática da composição”, segundo Haroldo de Campos. Mas, nem é apenas isto o que está posto para nós, neste momento. O que veremos por aqui se refere ao impacto do oposto, do singular, da arte que suscita num só tempo, a barbárie, a plenitude e uma reflexão ética sobre o mundo e sobre a humanidade, com suas distorções e harmonias.

Impressiona o artista que troca os pincéis pelo maçarico e a tinta até mesmo pelo fogo intenso das fogueiras, para a feitura de uma alquimia de resinas, fuligens, espiritualidade, pigmentos, plotagens, vento, tempo, mais espiritualidade, madeira reciclada... Despido das impropriedades do ego, o artista mergulha num experimentalismo permanente e questionador das misérias microscópicas e macroscópicas do planeta. Parece-me ser desta veia que jorra o suor criativo de Francc Neto, um habitante do espanto e do encantamento, um artista paraibano que aciona seu passaporte para o time dos que tatuaram suas marcas na história da arte.

A madeira extraviada e reciclada, as representações simbólicas do tempo e do silêncio, do corpo humano também. A serragem, a cera de abelha ou de carnaúba, as imperfeições naturais do mundo, furos, riscos, ações de prego e martelo. Também tintas e vernizes, mas sobretudo o fogo é o elemento que coordena a impulsão criativa do artista. Muito fogo sobre compensado numa leitura da barbárie desses tempos corridos que tecem o terceiro milênio. Um tempo que nos atravessa a alma com as impropriedades da civilização. Francc realiza e expõe a amplitude dum universo que transita pela tradição e pela transgressão, sem negações de identidades nem apelos pasteurizantes. Certamente navegando na imersão dos espíritos livres que comandam a experimentação na história viva da arte. Estamos testemunhando aqui uma capacidade de invenção que se traduz para muito além da ancestralidade tecida no fogo, partindo para um estranho dadaísmo, com grande poder comunicativo. Um trabalho que jamais será condecorado pela indiferença.

Doutor em sociologia da arte pela universidade de Tours (França) e em Literatura e Língua francesa pela universidade de Toronto, Derrick de Kerduckhove, numa investigação sobre a nova realidade eletrônica, afirma que “hoje as tecnologias são tão versáteis que nos dão poder para refazer aquilo que chamamos realidade.” Um pensamento que se aproxima por oposição extremada ao sentido da arte de Francc Neto que faz tudo isso apenas com as ferramentas mais primitivas, apostando nas revelações da intensidade, da insanidade, do contraponto à violência como instrumento de uma obra que aponta um gesto primordial numa exposição para quem a arte sempre será o melhor motivo. Afinal, como disse Fayga Ostrower, “criar é um processo existencial.”

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