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quinta-feira, 5 de junho de 2014

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A VIOLÊNCIA

Por Lau Siqueira


Foi pelas redes sociais que recebi o depoimento comovido de um amigo. Um verdadeiro soco no fígado. A realidade e suas vísceras expostas. Ele falava de um adolescente de 14 anos que foi assassinado por outro adolescente em plena tarde de sol, na periferia de João Pessoa. Segundo meu amigo, a briga que era de bairro contra bairro agora é de esquina contra esquina. Amigos de infância, quase crianças, estão se matando. A verdade é que há muito essa tragédia deixou de ser um assunto  policial. Essa matança virou produto e fomenta audiências no país inteiro. Criaram uma disputa macabra por visibilidade. Este é o pano de fundo do abismo social que nos cerca. Não há uma única ação positiva com a juventude que mereça visibilidade. O sangue escorrendo na calçada sempre fala mais alto. A criminalidade consolidou suas linguagens.

A violência se espalha pelo país. Não está apenas nas grandes cidades, mas nas pequenas e médias. Na zona rural, também. Está na sala de aula. Tem respaldo vigoroso na banalização midiática. Nas redes sociais é escancarada a apologia ao crime. João Pessoa tem sido apontada como uma das cidades mais violentas do país. O fato mobiliza os discursos mais cínicos. Aqui se trata a violência também como moeda política. Todavia, há alguns anos já assistiamos um juiz sendo aposentado por comandar uma rede de roubo de automóveis. Temos um histórico de estruturação do crime organizado dentro das corporações institucionais. Apesar de todas as vedações, a voz de comando se consolida dentro dos presídios. Não se fala nisso. Os investimentos estaduais amenizam, mas não resolvem porque a ciminalidade promove migrações regionais. Também não se fala nisso.


Todos conhecem o enraizamento do mal. O Brasil é um dos países mais violentos do mundo. Mas, estranhamente a violência não é um debate nacional. O debate é fragmentado, estadualizado, municipalizado. Se discute no varejo, apenas. A origem do problema não está em pauta.  Não poderemos falar em combate à violência, enquanto a matança continuar sendo a sobremesa do almoço e o café da manhã em programas com 100% de audiência nas prisões. A violência virou referência de visibilidade enquanto o debate vai sendo mascarado em mentiras como a redução maioridade penal. Uma proposta que penaliza apenas quem já é penalizado pela vida. A opinião desinformada e preconcentuosa superou a informação. Continuamos carentes de políticas públicas eficientes e continuadas. Enquanto isso, os movimentos sociais estão apáticos. Atrapalhados com as disputas pelo poder. Enquanto isso, a sociedade civil organizada parece render-se civilizadamente à modernização da barbárie.

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