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quarta-feira, 19 de abril de 2017

A Pedagogia do Afeto

Luizinho Barbosa, um professor fazendo a diferença.
Escrever é um ato posterior à leitura. Portanto, afirma a importância de um aprendizado que começa na identificação dos códigos da leitura. Em cada processo de incentivo à escrita criativa a leitura se faz presente de forma acentuada. Especialmente a leitura literária. Temos consciência do que representa esta relação criativa no desenvolvimento geral da criança e do adolescente. Lacunas que não serão jamais preenchidas em outros momentos da vida. É o conhecido “aqui e agora” da Educação. Portanto, se trata de uma ação que transcende a sala de aula. Representa uma certa pedagogia do afeto. Um ato solidário do mestre para com seus alunos. Uma sedução para o conhecimento e para a expressão deste conhecimento. Um legado que um professor ou uma professora deixa para seus alunos. Uma marca em suas vidas.
A Escola de Ensino Fundamental e Médio Arruda Câmara, em Pombal-PB,  desenvolve esse projeto com seus alunos e alunas através do professor e produtor cultural Luizinho Barbosa. Luizinho é um cidadão que fez da sua própria vida uma escada de partilhas com a comunidade. Criou no seu quintal o único teatro da cidade de Pombal no Sertão da Paraíba. Reparte com seus alunos e alunas os saberes e os sabores da identidade cultural nordestina e paraibana. Ensina a ler livros, a escrever poemas, mas sobretudo ensina o caminho do reconhecimento dos Mestres da identidade cultural.  Ou seja: ensina a ler os livros, mas também ensina a ler o mundo. Segue, portanto as pegadas de Paulo Freire. Os resultados sempre são animadores. A escrita criativa e o contato com a Literatura são legados de humanização dos processos de ensino e aprendizagem.
Ele organizou uma publicação que será lançada em breve, com uma produção coletiva de jovens do ensino fundamental e médio. As temáticas são as mais variadas e o predomínio do verso livre nos mostra que as portas e as influências do Modernismo estão abertas na terra de Leandro Gomes de Barros, o Príncipe dos Poetas, segundo Drummond. O deslumbramento com o mundo, as descobertas amorosas, os desejos de uma vida mais justa, a celebração da amizade. A relação da juventude com a necessidade de expressar sentimentos são as temáticas predominantes. No entanto, a relação com a natureza, o sentimento de responsabilidade com o planeta também está presente.  Tudo cabe no impulso criativo desses jovens poetas e leitores. O Sertão enquanto inspiração temática não poderia deixar de mostrar a sua árida ternura.
Temos aqui, pois, uma pequena mostra de um trabalho que prossegue no cotidiano. Algo que vai impulsionando essas pequenas almas no voo incerto do futuro. No lugar que ainda irão chegar e que a pegada criativa da poesia, certamente, os fará acelerar o passo. O incentivo à escrita criativa é, sobretudo, o incentivo à leitura literária. E como disse o francês Roland Barthes, “a Literatura contém muitos saberes.”  Portanto, o que parece apenas uma publicação de jovens poetas, sobretudo, é um voo para o futuro. Uma guinada de superações e de prazeres infinitos no contato com o conhecimento.  Certamente que nem todos aqui serão escritores. Mas, certamente estamos diante de uma ação educativa para a cidadania.

Sobretudo um ato de amor em uma ação continuada.

Come

sábado, 15 de abril de 2017

Sobre pixo, grafite, arte e cidade

A vida urbana é um livro que precisa ser lido com atenção. Aliás, um livro ilustrado. As coisas que acontecem pelas esquinas, pelos becos, geralmente passam em brancas nuvens. O cotidiano e a pressa de viver oculta muitas verdades. Recentemente, passando pelas Três Ruas, no bairro do Bancários, em João Pessoa, vi uma casa abandonada (quase em ruínas) com uma grafitagem bacana e uma frase muito significativa escrita no portão: “tanta casa sem gente, tanta gente sem casa.” Quem mora por aqui sabe que as casas originais do Bancários são bem estruturadas. Nenhum luxo, mas uma boa estrutura. O conjunto habitacional é de um tempo em que ser bancário era quase um passaporte para a classe média. No entanto, em um lugar considerado privilegiado de um bairro tão cheio de intelectuais, artistas e outros trabalhadores, o impacto de uma intervenção artística numa residência abandonada tem provocado, no máximo, muita indiferença. Entretanto, essa transgressão alerta para um debate necessário. A rua e o ambiente urbano é palco, tela e espaço de publicação. Poemas, frases sensuais, filosofia, protestos políticos, mensagens do crime organizado, mas também e principalmente, signos de uma abundante invisibilidade social. Algo cada vez mais visível, por sinal. Desafios cada vez maiores. Perigos cada vez mais tensos.
Neste caso, o vandalismo foi cometido pelo dono de um imóvel que poderia estar alugado, ou mesmo cedido para alguma instituição, caso o dono não desejasse fazer uso do local. A intervenção artística chegou como denúncia social. A desigualdade não nos basta. Bastaria uma ocupação de sem tetos no local para chegar uma ordem judicial de desocupação. Enfim, este é um resumo desses confrontos cotidianos da modernidade. No caso, a grafitagem no local transforma as ruínas em mensagem sobre uma realidade que precisa mudar. Além do patrimônio que se cria enquanto arte sem fronteiras, ou sem galerias, como queiram. Segundo me informa o Giga Brow, trata-se de uma obra do artista Joint da PDA. Provavelmente sequer das pessoas que fazem caminhadas matinais por ali prestam atenção na profundidade da frase escrita. Sequer estão atentos para o que consideram sagrado: a propriedade privada que, desta forma, se coloca em questão. Mas, não vamos aqui discutir a origem da propriedade privada. Continuo entendendo que, em diversas situações, o abandono incomoda muito menos que a ação transformadora.
Mas, vamos dar um rolezinho noutra margem. Vamos que vamos, mas sabendo que vou escrever sobre coisas das quais não tenho certeza alguma. Não creio que o pixo possa ser visto apenas como vandalismo e seus agentes possam ser condenados como vândalos. Mesmo que muitos possam e queiram ser apenas vândalos. Mesmo que muitos sejam a apenas expressão desarticulada de uma revolução silenciosa. O pixo é a voz do silêncio. Mais que isso: é também a transgressão do silêncio. A fala de uma geração acostumada ao abandono e aos vandalismos do sistema. O pixo é quase sempre uma expressão da feiura das cidades. Uma feiura que se revela, por exemplo, no aumento da população de rua. O que está nos muros, está também nas calçadas. Já grafite pode ser uma intervenção artística muito interessante. Estetica e socialmente mais palatável que o pixo. Mas, pode ser também a pintura infantilizada e malfeita, eivada de clichês. O fato é que ao se apresentar como linguagem urbana, o pixo se oferece também como instrumento de comunicação para a invenção artística. Cripta Djan, o pichador mais influente de São Paulo, ajuda a entender o que o movimento do pixo (com X mesmo) pensa sobre arte, política e a diferença entre pixação e grafite. Para ele, o pixo é o que existe de mais conceitual na arte contemporânea.
O que eu quero dizer com todas as letras é que nem todo grafiteiro é artista e nem todo pichador é vândalo. No entanto, todos são transgressores. Como Salvador Dali foi um transgressor. Como Maiakovski foi um transgressor. Como Tristan Tzara que com o Dadaísmo, colocava todos os transgressores no bolso. O debate generalista que se forma em determinados grupos, obedece apenas o padrão estético da classe média brasileira que se incomoda com o pixo, da mesma forma que se incomoda com o morador de rua. De certa forma atéaceita e gosta do grafite. O cidadão não quer saber o porquê das coisas. Pedir para que reflita sobre a origem da questão é pedir demais. A classe média vive de imagens construídas num olhar que não lhes pertence. Num modelo existencial construído ideologicamente como se fosse um jazigo das estruturas milenares do poder político.
Esses conflitos retratam de maneira fiel a realidade social brasileira e, de certa forma, até mesmo mundial. A forma como as pessoas se veem umas às outras. A forma como se relacionam. Sejam essas pessoas grafiteiros, pichadores, artistas ou gerentes de multinacional. A forma como se relacionam é que vai ou não fazer a diferença. Por exemplo, sempre soube que existe um pacto moral entre grafiteiros e pichadores. De certa forma acho que existe, pois nunca vi um pichador transgredindo uma grafitagem. São os códigos da rua. Seja uma intervenção meramente social ou inequivocamente artística. Sim, porque devemos compreender que alguns artistas maravilhosos como os que temos por aqui, Shiko, Giga Brown, Marquinos Perfect, Cibele Dantas, Thayrone Arruda e outros e outras se firmaram na arte tendo o grafite como linguagem. Hoje, me parece, transgrediram a própria linguagem. Não são todos iguais. Cada qual soube construir sua identidade artística, um estilo. Ou seja: o indivíduo com o seu talento pessoal transgrediu a própria opção coletiva. Isso é ruim para o grafiti como expressão? Acho que não, pois arrastou toda uma tribo para a visibilidade e ainda consolidou nos salões um discurso que é das ruas. Mas se há um pacto solidário, de não agressão ao espaço conquistado, entre grafiteiros e pichadores, o mesmo não ocorre com outras modalidades de arte.  Especialmente da arte pública. Por exemplo, o monumento ao Cavalo Marinho feito pelo artista plástico Wilson Figueiredo e localizado em frente a UFPB, está pichado.  A estátua de Jackson do Pandeiro, recentemente, recebeu uma intervenção em tinta que algumas pessoas identificaram como lágrimas, para minimizar o impacto de uma intervenção que não guarda o mesmo respeito entre pichadores e grafiteiros, guardadas as devidas tretas.  Existe, portanto, algo a ser debatido. Algo precisa ser dito. Continuo entendendo uma obra de arte como um ser independente até mesmo do seu criador. Algo que precisa ter sua integridade preservada. Do outro lado temos um Dória da vida, cheio de estupidez, achando que limpa a cidade despejando sem teto e cobrindo pichações e grafitagens. Que tal ampliarmos esse debate? Sabendo que as respostas necessárias para o momento, não poderão jamais ser conclusivas.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Entre o Lajedo e a Palavra - lá vem a VIII FLIBO

Por Lau Siqueira




Boqueirão é uma cidade da Paraíba situada no Cariri. Uma cidade cheia de possibilidades, onde em breve a transposição do Rio São Francisco trará mais que água para a Cidade as Águas.  Terra das Crocheteiras e  das redes. Geografia generosa onde a beleza das pedras e a generosidade do povo são e sempre serão a matéria primordial para a maior e mais importante feira literária da Paraíba. Falo da FLIBO – Festa Literária de Boqueirão, comandada pela ABES – Associação Boqueirãoense de Escritores e que este ano deverá homenagear Chico Buarque. Evento literário que foi se atrevendo nas proposituras de uma política pública em torno do livro e da leitura. Ação pedagógica que nos lembra Roland Barthes, quando diz que a “literatura contém muitos saberes”.  Um marco na economia criativa da região. Seja pela ação contínua, seja na opção pela autonomia. Uma produção que nasce e se mantém na sociedade civil. Mesmo que precise das parcerias. Aliás, sempre necessárias com os governos municipal, estadual e até federal. Logicamente que muitos outros.

Muito mais que isso. A FLIBO vem se firmando através dos diálogos que passam principalmente pela sala de aula, no encantamento das novas gerações com a literatura e com os livros. Inclusive pelos bons frutos que ações desse tipo provocam na qualidade da ensino. Algo, aliás, indiscutível. Todavia, não para por aí. Traz para si o debate intelectual e ainda sabe extrair as melhores sementes para um plantio de boas referências da cidade, do Cariri e da Paraíba. Claro que este ainda não é o entendimento da grande maioria. Há os que duvidam. Aliás, cada vez menos. Foram muitos os avanços nos últimos sete anos. Mas, a FLIBO tem servido também como espelho para outras vocações da região. Principalmente no âmbito da Economia Criativa. Tudo numa cidade acostumada com a tradição rural e seus frutos. A FLIBO há muito extrapolou Boqueirão. Começa de forma segura a extrapolar a Paraíba. Vem como um olhar crítico para as cidades que teimam em desistir das suas vocações para apostar em eventos midiotizados que retiram da cidade uma soma enorme recursos e deixam pouco mais que latinhas de cerveja espalhadas pelo chão.


A VIII FLIBO traz um diferencial. Tanto pelo que já frutificou quando pela sua capacidade de reinvenção. Está inserida, também,  dentro de um roteiro de turismo cultural que haverá de ser traduzido  como um dos mais socialmente saudáveis. Dialoga com o patrimônio arqueológico da região. Especialmente no Lajedo do Marinho, onde as pedras disputam com as palavras a poesia da ancestralidade. Este ano, em agosto, acontecerá a oitava edição ininterrupta da FLIBO – um evento que se transformou numa confluência de boas energias. Uma vivência pedagógica que passa pelas escolas, mas também vai à praça, ao açude, desfila pelas ruas da cidade numa marcha que alerta com alegria para o que realmente importa que é a força da comunidade. Ombro a ombro, realizando o sonho de servir e servir-se da vida com inteligência e sensibilidade. Certamente a compreensão dessa lógica deve germinar onde as dissonâncias imperam.