sábado, 29 de dezembro de 2012

NA SOMBRA DO TAMARINDEIRO

por Lau Siqueira

Quem já visitou a cidade de Sapé - berço das Ligas Camponesas e das lutas por Reforma Agrária – percebeu a representatividade do nome de Augusto dos Anjos. Natural daquele município, mais precisamente do Engenho Pau D’Arco, o poeta está presente na praça, no Centro Social Urbano, na cantoria dos violeiros e principalmente no indisfarçável orgulho do povo sapeense. Afinal, não é pouca coisa residir na terra natal de um dos ícones da Poesia de Língua Portuguesa. Todavia, alguma coisa ainda está fora da ordem. Por exemplo, não fosse a sensibilidade e o “interesse pessoal” de um grande intelectual paraibano chamado Odilon Ribeiro Coutinho, sequer o velho tamarindeiro existiria. Mesmo sendo   ancoradouro da infância e inspirador de alguns dos mais populares versos deste poeta que foi eleito o “Paraibano do Século XX”. Com aproximadamente 300 anos esta árvore já estava condenada, mas resiste por ter sido tratada a tempo.

Atualmente, para chegar ao famoso tamarindeiro é um transtorno. Procura-se uma chave não sei onde, atravessa-se um quintal de não sei quem - esquivando-se dos cães - para então usufruir da magia frondosa de uma das árvores mais famosas do mundo. Semelhante é o abandono do lago que banhou a infância e juventude do poeta. Hoje, apenas um refúgio assoreado de ressecadas lembranças. Afora isto, sobraram as ruínas da Usina Santa Helena e o Memorial Augusto dos Anjos. Este sim, um prédio restaurado e com algum acervo. Poucos mas, atentos e atenciosos funcionários. Um patrimônio restituindo à história, a antiga casa de Guilhermina - “mãe de leite do poeta”. Em frente à Usina Santa Helena, pouco conservada, temos a capela onde o poeta foi batizado. Um patrimônio considerável e que pede atenção. Há um grito no ar repercutido por alguns poucos sonhadores, como Carlos Aranha, Jairo Cezar e Chico Viana.

Em torno da memória de Augusto dos Anjos, Sapé poderia estar desfrutando de uma fatia generosa da sua economia da cultura. Logicamente que seria necessário um olhar mais atento dos governos e da iniciativa privada. Algo que transcenda o simples aporte de recursos financeiros. São urgentes algumas ações criativas para a valorização dos produtos com a marca registrada do poeta. Sejam licores ou sucos de tamarindo. Seja na valorização do patrimônio artístico e do artesanato. Sapé é uma cidade de muitos artistas. Possui uma cultura forte, amparada nos versos pré-modernistas de Augusto. A cidade respira as lutas e a cultura do seu povo. Riquezas que jamais poderão ser negligenciadas pelos roteiros turísticos. Falta muito pouco para que este município descubra sua melhor vocação e transborde para o mundo. Não há nenhum segredo nisso.

 
Artigo que será publicado amanhã, último domingo de 2012, no Jornal da Paraíba (edição impressa e digital)

Nenhum comentário:

NOVO É O ANO, MAS O TEMPO É ANTIGO

Não há o que dizer sobre o ano que chega. Tem fogos no reveillon. A maioria estará de branco. Eu nem vou ver os fogos e nem estarei de b...