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quarta-feira, 9 de julho de 2014

O LEGADO DE JOSÉ SIQUEIRA

por  Lau Siqueira


Natural de Conceição, cidade do Vale do Piancó, o Maestro José Siqueira está na memória de poucos aqui na Paraíba. Nenhuma surpresa quanto a isto. Afinal, parece que nos dias de hoje a mídia ensina mais que a escola. A juventude está alheia a Pedro Américo, José Lins do Rego, Sivuca, Jackson do Pandeiro, mas conhece muito bem Aviões do forró e Garota Safada. Aqui e ali tentam amenizar o impacto dessa  avalanche midiática. Tentam até justificá-la. Mas, se trata de um talho profundo na diversidade cultural do planeta. A verdade é que estamos forjando o futuro na base do volúvel, da diluição dos valores históricos, culturais, artísticos. A banalidade vai tomando conta dos nossos dias e muitas vezes até nos sentimos impotentes diante dela. A indústria do entretenimento concentra e dilui a economia da cultura. Algo que já passa de 5% do Produto Interno Bruto Brasileiro fomentado, muitas vezes, por recurso público.

A ampla reforma do Espaço Cultural José Lins do Rego oferece a oportunidade reativarmos a memória do Maestro José Siqueira.  Ainda que na mesma instituição já exista um centro de pesquisas com seu nome. Porém, a dimensão da vida e obra do grande  Maestro paraibano exigem a ampliação do nosso reconhecimento. José Siqueira, seguramente, foi uma das figuras mais relevantes do ambiente cultural brasileiro no Século XX. Tão importante quanto Heitor Villa-Lobos. Regente e compositor de prestígio internacional. Regeu orquestras na França, nos Estados Unidos, na Bélgica, em Portugal, na Russia e em outros países de grande tradição musical. Fundou a Orquestra Sinfônica Brasileira, Orquestra de Câmara Brasileira, a Orquestra Sinfônica da Rádio MEC e viabilizou junto ao então prefeito Miguel Arraes, a Orquestra Sinfônica de Recife, a mais antiga do país. Entre outras instituições, fundou a Ordem dos Músicos do Brasil.

No entanto o que mais encanta é sua obra. Quem escuta “Suíte Sertaneja”, uma peça magnífica para flauta e piano que junta o Baião, o Aboio e o Coco de Engenho, sabe. São sonoridades colhidas com imensa sensibilidade entre os currais de Conceição e as partituras mais complexas da música do mundo. Uma obra viva. Uma invenção erudita da musicalidade sertaneja.  Uma Suíte que, certamente, nasceu para compor a magnífica história da música universal. Um encontro com o sublime. Ou “II Sonata para violino e piano”,  digna, também, das melhores salas de concerto. Mas, a vida segue em frente. Nunca é tarde para exercitarmos a memória coletiva. A história da arte no Brasil tem em José Siqueira um capítulo importante. Algo que foi criminosamente suprimido da memória do povo brasileiro pelo regime militar que se instalou em 64.


Texto que será publicado na página 2 do Jornal A União da próxima sexta.


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