A ESTÉTICA DA EXISTÊNCIA

Por Lau Siqueira


A arte tem caminhos surpreendentes. Somos capazes de arrebatamentos com a mesma expressão em diferentes momentos. O mais impressionante é quando conhecemos um trabalho, sabemos da sua dimensão e mesmo assim somos surpreendidos. Somos arremessados contra as paredes da memória. Somos provocados para que aquele aprendizado fique tatuado na alma. Não faz muito tempo que me falaram da Cia. Gira Dança, de Natal-RN. Disseram da sua composição. Falaram das misturas. Mas, nada disseram das expressivas inquietações e das porradas no acaso. Então fui assistir o espetáculo “Sobre todas as coisas”, no teatro do SESI. Uma oferta do projeto Palco Giratório organizado aqui pelo SESC-PB. Não deu outra. Apanhei docemente da minha alegria. Tomei uma surra de vara da minha emoção. ‘Rapaz, toma jeito – pensei. Outra vez chorando em público? Que ótimo!’

Da primeira vez que falaram da Cia Gira Dança juro que pensei se tratar de mais um “trabalho social”. Perdi a vontade porque não vejo pessoas portadoras de algum tipo de deficiência como expressões de incapacidades. Tenho minhas razões. Minha filha é surda. Mestranda em Arquitetura na UFPB. A mãe dela é cega. Professora Doutora da UFPB. O contraponto mora nos meus afetos, portanto. Não aceito alguém com algum tipo de deficiência tratado com pieguice. A pieguice é a forma mais cínica do preconceito. Somos iguais. Compreender nossas diferenças é o melhor caminho para essa igualdade. Observemos a Cia. Gira Dança: são oito pessoas no palco. Cinco delas com diferentes tipos deficiências. No entanto, bastam dois minutos de espetáculo e ninguém mais vê as deficiências. Só vê arte. Só técnica corporal fruto de horas e horas de ensaio. Uma carga imensa de expressividade e, sobretudo, muito talento.

No teatro do SESI reafirmei o que penso sobre a arte e sobre a vida. Afinal, para algumas pessoas a obra mais significante de Van Gogh foi ter cortado a própria orelha. Pobres pessoas. Não têm olhos para a genialidade do artista. Perdem o mel do melhor. É como se ao olhar um quadro vissem apenas a moldura. Jamais se encantariam com o Museu do Inconsciente. O Gira Dança ocupa os palcos com artistas fantásticos. Uns mais altos, outros mais baixos. Uns cabeludos, outros de cabelo curto. O fato é que quando entram em cena a arte fala mais alto. Estão no palco de corpo e alma. Conscientes de cada movimento. Preparados para distribuir porradas com um discurso silencioso de quem tudo observa e tudo escuta. Inclusive as exclusões reproduzidas entre as minorias. Como quem vê melhor depois que cega. Como quem fala tudo após o silêncio. Como quem sorri feliz porque sabe que a arte venceu o preconceito.

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