quinta-feira, 12 de abril de 2012

CARTA ABERTA À PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF



O SETOR DO LIVRO, LEITURA E LITERATURA PEDE PROVIDÊNCIAS

Senhora Presidenta,

os que assinam esta Carta Aberta o fazem por entender que se esgotaram todas as possibilidades de mudanças nos rumos das políticas voltadas para a área do livro, leitura e literatura no âmbito do MinC (Ministério da Cultura) e FBN (Fundação Biblioteca Nacional). Para nós, é necessário que a Senhora, como leitora e incentivadora destas políticas, conheça de perto o real quadro deste importante e fundamental setor para a construção de uma nação realmente desenvolvida e independente.

Antes de expor nossos argumentos, é importante salientar que as pessoas que assinam este documento militam na área de cultura e foram, em sua maioria, defensoras de sua eleição. O principal motivo que nos levou a apoiá-la, além de outros avanços nas diversas áreas do país, foi o gigantesco salto dado pelo Brasil na construção de uma política de cultura como política de Estado nos dois governos Lula e, mais especificamente, os enormes passos dados na construção de uma política voltada para o livro, leitura e literatura, visando responder a enorme dívida social que o Estado Brasileiro tem com sua sociedade: o nosso grande déficit de leitores.

A Senhora representava a manutenção deste projeto e sua grande possibilidade de fazê-lo avançar ainda mais. Estávamos todos entusiasmados com o momento que o país vivia e confiantes de que o projeto político-cultural seria mantido. Sabíamos que ajustes eram necessários, mas também sabíamos que a manutenção da base e do caminho trilhado até sua posse seria o mais coerente.

Senhora Presidenta, não vamos aqui detalhar os problemas enfrentados na gestão da ministra Ana de Holanda, que vem recebendo muitas críticas de setores que sempre apoiaram os rumos das políticas culturais do Governo Federal desde a posse do ex-presidente Lula. Vamos nos limitar a analisar as questões relacionadas às políticas para o livro, leitura e literatura.

Desgoverno e propaganda

Senhora Presidenta, todo o problema na área do livro, leitura e literatura começou com a intervenção anti-democrática do senhor Galeno Amorim, nomeado presidente da FBN no início de 2011, que se dedicou a desmontar estruturas importantes em nosso setor, a desmobilizar o Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura e a retroceder em conquistas fundamentais, tudo em função de uma desastrosa centralização das políticas na Fundação Biblioteca Nacional.

Alertas para os problemas que trariam estas manobras, diversas moções e recomendações, além de correspondências encaminhadas à ministra Ana de Holanda, e ao presidente da FBN, Galeno Amorim, foram redigidas e manifestadas no âmbito do Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura e do Conselho Nacional de Política Cultural, instâncias do MinC para a participação da sociedade civil. Infelizmente, estas manifestações foram ignoradas.

A centralização das políticas para o setor em um único organismo, a Fundação Biblioteca Nacional, provocou o maior retrocesso que a área viu desde que se iniciou a implantação das políticas públicas para o livro, leitura e literatura. A Diretoria do Livro, Leitura e Literatura - DLLL, que funcionava vinculada à Secretaria de Articulação Institucional do MinC, passou a ser subordinada à FBN e iniciou-se um claro processo de desmonte de sua estrutura.

É preciso salientar que a conquista desta diretoria na estrutura do MinC representou grandes avanços para o setor. Sua mudança de subordinação administrativa gerou um intencional rebatimento político negativo com a paralisia de vários projetos como o PNLL (Plano Nacional do Livro e Leitura) e de uma mudança prejudicial no foco das políticas: antes voltadas para a formação de leitores e agora curvada ao comércio de livros, para atender alguns interesses imediatos do mercado editorial.

Esta mudança de foco atende a demandas antigas do mercado, mas é contraditória à medida que reduz os investimentos nos eixos estruturantes das políticas do setor: a criação literária e a formação de leitores, reduzindo o papel do Estado a agenciar políticas para a formação de uma imensa massa de novos consumidores, atendendo ao apetite desmedido do mercado.

Não temos posição contrária a políticas que dinamizem a indústria e o mercado editorial. O que questionamos é o que se nos revela como miopia política pela inversão de valores: a priorização dos interesses imediatos do mercado, em detrimento justamente das dimensões que dão lastro, sentido e qualidade às políticas públicas nacionais do livro, leitura e literatura: a Formação de Leitores. O que questionamos é a ênfase no livro como mera mercadoria e no leitor como simples consumidor desta mercadoria – e não como cidadão com direito universal de acesso ao conhecimento.

Para comprovar esta mudança de foco, fizemos um rápido levantamento dos investimentos feitos em 2011 e algumas comparações com 2010:

A FBN/MinC investiu no ano passado cerca de R$ 40 milhões no Livro Popular, um projeto para resolver as questões impostas pelo mercado, mais cerca de R$ 4 milhões em feiras do livro, contra apenas cerca R$ 6 milhões em leitura e pouco mais de R$ 2 milhões em fomento à literatura, ainda assim, parcialmente executadas e às custas do congelamento de políticas de sucesso implementadas pelo próprio MinC, e seus órgãos subordinados, como a Funarte, de 2007 para cá.

Em 2010 estavam aprovados e orçados no Fundo Nacional de Cultura (com editais com pareceres favoráveis) R$ 30 milhões para a área do livro, leitura e literatura. O único edital executado foi o de R$ 3 milhões para as pequenas e médias livrarias (que se insere nas demandas do mercado, apesar de o defendermos como de extrema importância, pois está vinculado à promoção cultural nestes espaços, que enfrentam a concorrência desigual das grandes redes). Os demais editais, todos voltados para a formação de leitores, mediadores e área literária foram ignorados pela nova gestão da FBN.

Vale ressaltar que o edital das livrarias foi aberto antes de o senhor Galeno Amorim assumir a FBN (em janeiro de 2011) e concluído a partir de uma pressão exercida pelo Colegiado, demanda assumida pelo secretário de Articulação Institucional do MinC, Luiz Roberto Peixe, e pelo então diretor da Diretoria do Livro, Leitura e Literatura, Fabiano Santos Piúba.

Segundo dados da própria FBN, é possível apurar os seguintes números orçados para a ação das políticas do livro, leitura e literatura em 2011, ainda que não saibamos da sua real execução:

LIVRO

- Edital para compra do Livro Popular: R$ 36,9 milhões

- Gestão do Livro Popular: R$ 1,5 milhão

- Circuito de Feira de Livros: R$ 3,3 milhões

- Gestão e execução do programa Livraria Popular: R$ 2 milhões

- Feira de Frankfurt: R$ 1 milhão

Total: R$ 44,79 milhões

Cabe ressaltar um dado grave: o montante destinado ao Edital de Compra dos Livros Populares é resultado de uma emenda parlamentar do deputado Angelo Vanhoni (PT-PR) que deveria ser executada com a finalidade de modernizar e implantar bibliotecas.

BIBLIOTECAS

- Edital Mais Cultura de Apoio a Bibliotecas: R$ 2,065 milhões

- Modernização da Biblioteca Estadual do RS: R$ 2,362 milhões

- Kits de Modernização de Bibliotecas Municipais: R$ 4,319 milhões

Total: R$ 8,746 milhões

LITERATURA

- Internacionalização: R$ 1 milhão

- Bolsas de Tradução: R$ 256 mil

- Caravana de escritores: R$ 1 milhão

Total: R$ 2,256 milhão

1. O presidente da FBN chegou a anunciar R$ 1 milhão para o programa de tradução, mas foram investidos apenas R$ 256 mil.

2. Não há clareza sobre o que significa o item orçamentário “Internacionalização”

3. O programa de Caravana de Escritores ainda não saiu do papel.

Ou seja, o investimento real em literatura, na verdade, se resumiu a pouco mais de R$ 1 milhão.

LEITURA

- PROLER (Cidadania e Leitura): R$ 2,1 milhões

- Agentes de Leitura: R$ 2,84 milhões

- PROLER (Formação de mediadores): R$ 912 mil

- Pontos de Leitura/Quilombolas: R$ 300 mil

Total: R$ 6,152 milhões

Vale lembrar que:

1. As ações do ProLer foram orçadas em 2010.

2. No programa Agentes de Leitura, havia R$ 5 milhões aprovados pela Comissão Nacional do FNC, mas a direção da FBN retirou R$ 2,16 milhões para o Programa Livro Popular, reduzindo para quase a metade as possibilidades de investimentos no principal programa formador de leitores do país.

3. A FBN coloca na conta cerca de R$ 7 milhões de restos a pagar de 2010 do Mais Cultura do MinC para convênios com os Estados e com as Prefeituras.

O resumo, SENHORA PRESIDENTA, é que para 2011 foram prometidos os seguintes blocos de investimentos, ressaltamos, sem o aval do Colegiado Setorial, e que caracteriza bem a mudança de foco do MinC/FBN nas políticas do livro, leitura e literatura:

- Livros: R$ 44.792.000,00


- Bibliotecas: R$ 8.746.000,00


- Literatura: R$ 2.256.000,00


- Leitura: R$ 6.152.000,00

Em torno de 76% voltados para ações de livros e em torno de 60% desse orçamento para a compra exclusiva de livros. A justificativa para os investimentos em compra de livros pode até ser a de que beneficiarão as bibliotecas, mas uma rápida análise comprova que a necessidade de nossas bibliotecas está muito além da simples renovação de seus acervos, sendo muito maior a necessidade de qualificação e ampliação de seus quadros profissionais (mediadores de leitura), a modernização de seus espaços, a presença de escritores dialogando diretamente com o público e sua transformação em verdadeiros centros culturais e não apenas meros depósitos de livros. Cabe ressaltar ainda que esta compra de livros populares, em boa parte, é feita a partir de estoques não vendidos das editoras (ou seja, edições antigas).

Outro investimento paralisado em 2011 (este não se trata de valores, mas sim de vontade política), definido como prioridade no processo da II Conferência Nacional de Cultura e pelo Colegiado Setorial, trata da institucionalização das Políticas:

- Instituto Nacional de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas

- Lei do Plano Nacional de Livro e Leitura

- Fundo Setorial Pró-Leitura

Há ainda os editais não executados em 2011, previstos no Fundo Nacional de Cultura em 2010:

1) Edital Todos pela Leitura - R$ 11 milhões

2) Edital Cidades de Leitores – R$ 3 milhões

3) Edital de Bolsa de Criação, Difusão, Formação e Intercâmbio Literário - R$ 10 milhões

4) Edital de Produção e Circulação de Periódicos Literários - R$ 3 milhões

Todos estes investimentos garantiriam R$ 14 milhões a mais nos programas de formação de leitores e outros R$ 13 milhões na área de literatura. A FBN/MinC subtraiu esses recursos para direcioná-los todos a compra de livros.

Vale lembrar ainda neste item, que em 2010 foram investidos R$ 4 milhões da Funarte nas Bolsas de Criação e Circulação Literária, programas que foram interrompidos em 2011 (ou seja, mais uma redução no investimento em literatura), com a promessa de retornarem em

2012. Este investimento foi interrompido por interferência direta da presidência da FBN, que gestionou para que estas bolsas fossem retiradas da Funarte.

PNLL – Plano Nacional do Livro e da Leitura

O PNLL é nosso documento de referência, não só por consolidar os grandes eixos do corpo das políticas públicas do livro, leitura, literatura e bibliotecas, mas por ser fruto do esforço dialogado entre governo e sociedade civil, e por ter sido, senão o primeiro, um documento de referência nas políticas culturais, inspirador para outros setores da cultura desencadearem o processo de elaboração de seus respectivos Planos.

A sistematização desse rico processo e seu grau de reconhecimento está bem posta no prefácio do José Castilho Marques Neto, ex-secretário Executivo do PNLL, na publicação PNLL Textos e História: 2006-2010, quando afirma que:

“Com o PNLL e seu desdobramento nos Planos Estaduais e Planos Municipais de Livro e Leitura, que já começam a acontecer desde 2009 em muitos cantos do país, o Brasil pode afirmar que está próximo de conquistar uma Política de Estado para a leitura.

O Brasil alcançou com o PNLL um patamar político e conceitual que é imprescindível para se consolidar uma Política de Estado para o setor, isto é, o desejado consenso entre governo e sociedade tanto no diagnóstico do que é preciso fazer quanto nos objetivos a alcançar para se tornar um país de leitores.

A obtenção deste consenso foi o que mais projetou o PNLL para os países ibero-americanos, tornando-o referência para muitos dos planos de leitura que também se desenvolvem nos países irmãos do continente americano e no mundo ibérico.

Os entrelaçamentos conceituais e práticos da ação do Estado com a sociedade e a indissociabilidade entre a cultura e a educação na formação de leitores são pontos referenciais que o PNLL do Brasil possui e foram intensamente debatidos e assimilados como necessidade da política pública de leitura em inúmeros foros internacionais”.

O PNLL está paralisado desde a saída do então secretário-executivo, José Castilho, em abril de 2011, o que torna o quadro das políticas para o livro, leitura e literatura ainda mais desalentador. Somente em dezembro de 2011 foi nomeada a professora Maria Antonieta Cunha, para substituí-lo. Para piorar a situação, dois meses depois Antonieta foi anunciada como nova titular da DLLL, deixando novamente acéfala a direção do PNLL.

Com a demora na nomeação da substituta do Castilho, a insegurança política gerada e o desmantelamento da equipe, o Plano ficou um ano praticamente paralisado. Em 2010 havia cerca de 700 municípios cadastrados. Além de não haver registro confiável da ampliação dos planos municipais em 2011, o DLLL não consegue monitorar o andamento dos Planos municipais e estaduais em curso.

O aspecto mais transparente desta paralisia pode ser resumido em três exemplos: desde abril de 2011 o site do PNLL não é atualizado, desde dezembro de 2010 não é expedido o boletim semanal do Plano e em 2010 foram realizados quatro cursos para gestores de PELLs e PMLLs, enquanto em 2011 somente um até março e outro iniciado em abril.

AGENTES DE LEITURA

Em 2011 foram formados 164 agentes de leitura nos municípios de São Bernardo do Campo (SP), Nilópolis (RJ) e Canoas (RS).

Os dados do MinC informam que até 2010 existiam convênios que garantiam a ação de 3.877 agentes de leitura em todo o país, divididos entre 9 governos estaduais, 16 municipais e três consórcios intermunicipais.

Fundo Pró-Leitura e Sistema Nacional de Bibliotecas

Outra situação grave, que vale ressaltar sempre, é o completo desaparecimento de pauta do Projeto de lei de criação do Fundo Pró-Leitura (projeto que vinha tramitando com pareceres técnicos e jurídicos consolidados dos ministérios da Cultura, Educação, Planejamento, mas sobretudo da Fazenda, que redigiu a forma e estrutura da Contribuição Social).

Esse projeto surgiu a partir da desoneração fiscal em 2004, pelo Governo Lula, do PIS/COFINS/PASEP para editoras, livrarias e distribuidoras. Em contrapartida, estes setores do mercado editorial se comprometeram e assinaram documentos em torno do compromisso de contribuir com 1% do faturamento anual para o Fundo Pró-Leitura. Os impostos que foram reduzidos a alíquota zero pelo Governo Federal impactavam em média 9% do faturamento da cadeia produtiva. Este processo nunca foi concluído, sempre sofreu oposição do setor produtivo e, coincidentemente com a entrada do referido atual presidente da FBN no gerenciamento das políticas, o debate desapareceu.

Por último, neste arrazoado de informações, também ficou esquecido o projeto de fortalecimento ou revitalização do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP). Apesar dos anúncios de investimentos em bibliotecas, o cenário beira o descaso quando se trata de bibliotecas municipais. Basta analisar o Censo Nacional de Bibliotecas Públicas.

Senhora Presidenta,

quando sistematizamos as informações referentes ao exercício de 2011, fica claro quais foram as prioridades desta gestão. Não somos oposição a este governo, muito pelo contrário, trabalhamos muito, vidas inteiras, para ajudar este projeto a ser implementado no País. Por isso é muito triste ver os rumos tomados pelo MinC/FBN em sua gestão.

É grande a ideia do PNLL: construir programas de base para a formação de leitores, valorizando os agentes de leitura e a centralidade da biblioteca; fomentando a nossa produção literária e a formação de educadores-leitores. O avanço seria inestimável se tudo

isso continuasse no mesmo rumo, e o setor do livro, leitura e literatura daria uma contribuição imensa para a formação da base da nação que tanto sonhamos e tanto desejamos.

Sem o devido investimento em leitores, literatura e livros, jamais daremos o salto de que somos responsáveis: a proteção, garantia e efetivação do Direito Humano de toda a população brasileira ao seu pleno desenvolvimento cultural, educacional, econômico e social, onde o desenvolvimento das práticas leitoras exerce um papel estruturante.

Antônio Cândido, um dos nossos grandes intelectuais, que tanto reflete sobre a literatura como Direito Humano, afirma que esta é “fator indispensável de humanização” e “confirma o homem (o ser) na sua humanidade”, palavras que dialogam com as de Vargas Llosa, quando afirma que “a cultura, a literatura, as artes, a filosofia, desanimalizam os seres humanos, ampliam extraordinariamente seu horizonte vital, atiçam sua curiosidade, sua sensibilidade, sua fantasia, seus apetites, seus sonhos, e os tornam mais porosos à amizade e ao diálogo”.

Portanto, a prioridade na consolidação da política pública do livro, leitura e literatura, como política de Estado e com foco primordial na formação de leitores, na qualificação/ampliação de seus espaços e profissionais e no fomento à criação literária, é fundamental para a formação de sujeitos atuantes na construção de um modelo de desenvolvimento sustentável, pautado nos princípios da justiça e da igualdade.

Por isso, Senhora Presidenta, é que apelamos para sua atenção ao assunto, já que, como salientamos no início deste documento, todas as tentativas de diálogo da sociedade civil com o Ministério da Cultura resultaram em frustração e desmonte de um trabalho construído ao longo de anos.

Nossas melhores saudações democráticas

Nilton Bobato, escritor e professor. Representante da Região Sul no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura, e membro titular do Conselho Nacional de Política Cultural/CNPC.

Edgar Borges, escritor e jornalista. Representante da Região Norte no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura.

Ademir Assunção, escritor e jornalista. Representante dos escritores (Cadeia Criativa) no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura

Rogério Barata, pedagogo, formador de professores-leitores, contador de histórias. Representante da Cadeia Mediadora no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura.

Mileide Flores, livreira. Representante da Região Nordeste no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura, e coordenadora do Fórum de Literatura, Livro e Leitura do Ceará.

João Castro, poeta. Representante dos escritores (Cadeia Criativa) no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura e presidente da União dos Escritores da Amazônia.

Izaura Ribeiro Franco, escritora e editora. Representante da Região Centro-Oeste no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura.

Nêmora Rodrigues, bibliotecária. Representante da Cadeia Mediadora no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura, e presidente do Conselho Federal de Biblioteconomia.

Almir Mota, escritor, editor e produtor cultural. Representante dos escritores (Cadeia Criativa) no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura.

Jasmine Malta, professora mestra da Universidade Federal do Piauí. Membro do Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura – Cadeia Produtiva.

Kelsen Bravos, professor, editor e escritor. Membro do Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura – Cadeia Mediadora.

Benita Prieto, contadora de histórias e produtora cultural. Membro do Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura – Cadeia Mediadora

segunda-feira, 26 de março de 2012

"Enquanto engomo a calça..."

Chegamos ao Século XXI com uma carga enorme de passado. Os Tempos Modernos produziram um caldo de diferenças em permanente estado de choque. O mundo já não evita o caos, adapta-se a ele. A sociedade reclama da violência, mas também a propaga e nela se esconde. Os manicômios, os presídios, os guetos, as algemas conceituais... Todos os confinamentos de corpos e ideias aguardam a próxima rebelião ou a próxima farsa. Do lado de dentro do espelho a esperança faz cara de abandono, mas não se rende. Assim caminha o Brasil para o topo da economia mundial: arrastando correntes medievais. Avançamos, mas ainda estamos submersos nas piores heranças. No entanto, o que assusta e constrange é saber que os incomodados já não incomodam tanto. Existe uma nuvem de interesses na transmutação entre a realidade e a fantasia.


Nosso país é um poço de contrastes. Temos leis avançadas e somos regidos por jurisprudências, omissões e bravatas. Exportamos abundância e abandono. As instituições acostumaram-se ao engodo e à desova de responsabilidades. O fato é que a história está em nossas mãos e se fôssemos eleger os principais desafios do século XXI, ainda encontraríamos as origens da civilização. A infância, todavia, talvez seja o fato mais perturbador e complexo. A condição humana, com suas mazelas, viaja no bonde da história. Mas, o que existe é um nítido sentimento de lentidão. Infelizmente somos desastrados em termos de construção coletiva. O homem é o principal inimigo do homem. Particulariza-se e partidariza-se as circunstâncias. Não há maturidade para o enfrentamento de questões cujas raízes são culturais, históricas, estéticas e antropológicas. Não raro, o bom senso perdeu o rumo de casa e também dorme ao relento.


Apesar do imenso hiato entre o geral e o específico “o novo sempre vem”. Políticas públicas vão sendo testadas, tatuadas na diversidade da raça. Mesmo assim, o fato é que se muda a nomenclatura de problemas que permanecem intactos. Vivemos um tempo inconcluso e de respostas pasteurizadas. O debate público é cínico ou raro. A realidade vai batendo nas portas e janelas, invadindo campos e cidades, pedindo socorro. Existe um cotidiano imenso a ser transformado. Isso não ocorrerá por decreto ou pela força da lei. Afinal, não é de hoje que o machismo mata. A homofobia e o racismo continuam violando direitos sociais e individuais. São nossos os filhos que estão dormindo pelas ruas ou fumando crack num luxuoso décimo andar. Parece que a família decretou falência e transferiu para o Estado uma responsabilidade que é sua. Crianças e idosos esperam por nós na próxima esquina. Eles sabem que “a mão que afaga é a mesma que apedreja.”



(texto publicado no Jornal da Paraíba, 25.03.12)

domingo, 11 de março de 2012

Um corredor para a leitura.

por Lau Siqueira


No próximo dia 15 de março, quinta-feira, a partir das 08:30 estaremos inaugurando uma provocação. Sim, uma provocação. Afinal, consideramos o acesso ao livro o primeiro impedimento para a formação de leitores. A tarefa de desmistificar isso é a nossa provocação. O Corredor da Leitura é uma ação muito simples que acontecerá no corredor da Secretaria de Desenvolvimento Social do Município de João Pessoa - SEDES, localizada no Centro Administrativo Municipal. Todavia é imensa a vontade de, a partir desse Corredor da Leitura, articularmos outras ações de incentivo à leitura existentes na cidade ou noutras cidades. Sejam essas ações bibliotecas comunitárias, salas ou rodas de leitura. Pouco importa. Não estamos criando nada novo. Exceto pela sempre extraordinária vontade de contribuir para elevarmos o nível de leitura na cidade.

O Corredor da Leitura acontecerá da forma mais simples possível. Teremos uma estante num corredor onde circulam muitas pessoas. Sejam funcionários públicos ou usuários dos serviços da Prefeitura. Não haverá qualquer tipo de controle sobre a retirada, reposição ou mesmo doação de livros e revistas. Vamos trabalhar com princípios do engajamento social, da vontade coletiva, da solidariedade sem limites, da partilha como finalidade. A idéia central é que se perca mesmo o controle e o projeto passe a funcionar como uma “bisbilhoteca”, despertando nas pessoas a vontade de levar algo de qualidade para ler em casa. Claro que vai aí uma boa dose de utopia. Mas, o que seria da realidade se não fossem as utopias?

O custo desta ação não existe. Ou melhor: já existiu, mas não propriamente para ser incorporado na história do Corredor da Leitura. Vamos usar uma estante que já existia, feita pela Marcenaria Escola da SEDES. Não queremos ser um campo de desova de livros didáticos ultrapassados, riscados. Queremos trabalhar com bons livros que acabam guardados. A idéia é diminuir a distância entre o livro e as pessoas que por ali circulam. Funcionários e funcionárias ou não. Para tanto, temos contado com boas doações. Um acervo que já aponta para a criação de mais três bibliotecas somente na secretaria. Uma delas no Centro de Referência em Assistência Social que atende a população de rua – o CREAS – POP, outra no Centro de Formação Margarida Pereira da Silva, que atende crianças e adolescentes residentes em abrigos da Prefeitura e uma no Centro Intergeracional Sinhá Bandeira que fica localizado no bairro da Torre.

O Corredor da leitura, portanto, não nasce como um projeto isolado. Nasce vocacionado para uma articulação bem mais ampla que passará necessariamente por experiências referenciais como a Biblioteca Livro em Rodas, projetos como da Escola Viva Olho do Tempo, que pretende distribuir livros em uma carroça na comunidade rural de Gramame, em João Pessoa. Experiências como a da Casa Pequeno Davi, da Biblioteca Comunitária Cactus e outras tantas que surgem na cidade. Na articulação, a Assessoria Pedagógica da Fundação Cultural de João Pessoa, a assessoria de Literatura da Estação Ciência, as instituições interessadas e a assessoria para políticas de leitura da SEDES que ficarão sob o comando do poeta André Ricardo Aguiar e de Rosilene Santana que hoje coordena a Biblioteca Comunitária Antônio soares de Lima na comunidade Tito Silva. Experiências como o sarau Poesia no Hospício, dialogam diretamente com o Corredor da Leitura.

Portanto, provavelmente o que há de novo é a possibilidade de construção de uma política transversal que seja capaz de despertar o espírito crítico e o protagonismo no funcionalismo público e nos usuários das políticas públicas desenvolvidas pela Prefeitura Municipal de João Pessoa. A idéia é que os corredores se multipliquem para que possamos dar vasão às generosas doações de livros que temos recebido. Enfim, estamos prontos para iniciar uma ação que, temos certeza, cabe inteira dentro de qualquer política social, uma vez que desarma o primeiro inimigo da leitura que é o acesso ao livro. Queremos que o acesso ao livro seja pleno e no caso do projeto Corredor da Leitura - que deveremos desenvolver também em outros locais -, sem qualquer tipo de controle sobre a circulação. A idéia central é exatamente perder o controle sobre os livros. Afinal, temos repetido números que revelam uma das grandes contradições brasileiras. Estamos entre os dez países que mais produz livros no mundo. O MEC é o terceiro maior comprador de livros do mundo. Portanto, teremos acervo suficiente para fazer com que Machado de Assis seja mais conhecido de assistentes sociais, psicólogos, pedagogos, artistas, vigilantes, moradores de rua, juízes, educadores, conselheiros de direitos, etc.

O Corredor da Leitura, na verdade, traz uma série de provocações. Uma delas é quanto aos recursos necessários para que o incentivo à leitura seja colocado em prática. Neste caso, o custo para os cofres públicos é zero. Outra provocação se refere ao desmascaramento das “conversas de corredor” que tantas vezes acabam causando abalos na tranquilidade dos mais frágeis. A mais importante, no entanto, se refere ao acesso ao conhecimento que, sabemos, não se resume à informações técnicas, mas principalmente ao que Roland Barthes já detectava na literatura: um instrumento de muitos saberes. Portanto, dia 15 as portas estarão abertas e os livros estarão disponíveis aos que acreditam que o conhecimento não pode ser propriedade privada de ninguém.

terça-feira, 6 de março de 2012

CARTA ABERTA À SENHORA PRESIDENTA DA REPÚBLICA


Em 29 de fevereiro de 2012


À
Senhora
Dilma Rousseff
Presidenta da República
PALÁCIO DO PLANALTO
Brasília - DF


Excelentíssima Senhora Presidenta Dilma Roussef,


Face à presente campanha da operadora Sky nos órgãos de comunicação, que acreditamos orquestrada por agentes do mercado televisivo contra a implantação da Lei 12.485/11, que, a exemplo de legislações de outros países, determina a obrigatoriedade de exibição de conteúdo nacional de produção independente na televisão a cabo, nós, associações profissionais representativas da produção audiovisual independente do Brasil, nos manifestamos perante Vossa Excelência no sentido dos seguintes pontos que cremos ser de natureza relevante na apreciação da questão:


A televisão é o mais complexo e importante veículo de comunicação social. Produz cultura, veicula cultura, é em si cultura. Por meio da programação do que exibimos em nossos aparelhos de TV, domésticos e coletivos, divulgamos nossa realidade, costumes, língua, artes, política, história. A ela deve-se a consolidação e o exercício da cidadania. Por essas razões é bem de interesse público, como tal reconhecido em todo o mundo, e o direito a explorá-la objeto de regulação do Estado moderno.


2. No Brasil, esta função regulatória vem sendo exercida pela ANATEL e agora, com a Lei 12.485/11, compartida com a ANCINE. Com esta lei, não somente passam a estar reguladas as plataformas de emissão de programas e de sinais, como também a origem dos conteúdos veiculados na TV por assinatura, garantindo, assim, ao cidadão o acesso à produção de obras brasileiras realizadas fora dos estúdios das emissoras de televisão.


3. Os princípios da regulamentação norte-americana dos anos 50 do século passado, que propiciaram o fortalecimento de Hollywood, finalmente passam a ser adotados no Brasil. Com isto, cresce nossa indústria do audiovisual e se proporciona ao cidadão o acesso a uma maior diversidade de obras brasileiras. Mais emprego, mais desenvolvimento, mais know-how, mais exportação são gerados pela presença de mais cultura brasileira nas telas do país e do mundo.


4. O que os adversários da Lei 12.485/11 temem é a mudança. É saber que dentro de alguns anos o país pode passar de consumidor a produtor e exportador. É não aceitar que a produção audiovisual brasileira possa participar efetivamente do mercado mundial e tampouco de seu próprio mercado. Algo semelhante ao que ocorreu no início da indústria petrolífera no Brasil.

5. A campanha contra a implantação desta lei tem origem neste comodismo, que atende a interesses que não condizem com um país cuja soberania é hoje objeto de admiração, respeito e reconhecimento em todo o mundo.


6. Capitaneada pela operadora Sky, esta campanha tem como objetivo apenas beneficiar empresas exclusivamente voltadas para a exploração de nosso crescente mercado interno, sem nada oferecer em troca. Por meio de ações judiciais e milionárias campanhas publicitárias assediam com cínicos sofismas a opinião pública buscando influenciá-la contra o direito soberano da nação de regulamentar suas concessões públicas.

7. Buscam confundir “regulamentação” com “censura” e “imposição autocrática”. Buscam desqualificar uma lei, formulada e debatida por cinco anos no Congresso Nacional, que passou por todas as instâncias processuais e foros de discussão democráticos. Buscam identificá-la como fruto do autoritarismo e não como resultado de um grande entendimento nacional. Buscam desmoralizar as agências reguladoras atacando-lhes as atribuições legais e dos que ali estão para cumpri-las.

8. Utilizam-se da concessão que lhes foi atribuída pelo Estado incitando a população contra o Legislativo e contra o Executivo. Trata-se, em suma, de um comportamento incompatível com empresas que atuam num país orientado pelos princípios da democracia, do respeito às instituições, da livre iniciativa e do cumprimento às leis.


9. A regulamentação da Lei 12.485/11 está aberta a todos. Sua implantação aponta novas e promissoras portas e oportunidades de negócios. Deve ser recebida pela sociedade, pelos profissionais e pelas empresas como uma grande oportunidade de participar de uma atividade de crescente importância industrial e cultural. À altura do que queremos para o país.


É assim, Senhora Presidente, que nos dirigimos a Vossa Excelência, cumprimentando-a pelos avanços já obtidos na aprovação e na sanção da Lei 12.485/11, mas, igualmente, reiterando nosso apelo para que se dê continuidade ao apoio do Poder Executivo para a conclusão da regulamentação e implantação destes instrumentos legais de importância histórica para o país.


Respeitosamente,



ABRE – Associação Brasileira dos Realizadores de Filmes de Longa Metragem

Renato Barbieri

renato@videografia.com.br



ABRACI – Associação Brasileira de Cineastas

Rodolfo Brandão

dodo@elipsetvcine.com.br



APACI – Associação Paulista de Cineastas

Rubens Rewald

rrewald@gmail.com



APROCINE - Associação dos Produtores e Realizadores de Filmes de Longa Metragem de Brasília

Manfredo Caldas

folkino@terra.com.br



APCNN – Associação dos Produtores e Cineastas do Norte e Nordeste

Wolney Oliveira

wolney45@terra.com.br



APCBA - Associação de Produtores e Cineastas da Bahia

Jorge Alfredo Guimarães

jorgealfredo@globo.com



APROECE - Associação de Cineastas e Produtores do Ceará

Moisés Pedro Magalhães de Lima

eclipsefilmes@yahoo.com.br



SIAV RS - Sindicato da Industria Audiovisual do Rio Grande do Sul

Henrique de Freitas Lima

hflima@terra.com.br



SANTACINE - Sindicato da Industria do Audiovisual de Santa Catarina

Bhig Villas B?as

bhig@setcom.art.br



CINEMA BRASIL - Instituto Cultural Cinema Brasil

Marcos Manhães Marins

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CBC / Congresso Brasileiro de Cinema

João Baptista Pimentel Neto

cbc.presidente@cbcinema.org.br



Coalização da Diversidade Cultural do Brasil

Geraldo Moraes

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ABD – Associação Brasileira de Documentaristas

APTC ABD - RS - Alfredo Barros

ABD – SP - Celso Gonçalves

ABD - GO - Carlos Cipriano Gomes Junior

ABD - PI - Kleyton Marinho

ABD - DF - André Carvalheira

ABD - MG - Marco Aurélio

ABD - PR - Guto Pasko

ABD - RJ - Clementino Junior

ABD – ES – Alexandre Serafini

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Por uma comuna de leitores e leitoras!

por Lau Siqueira

A vida nos ensina que não é esperando as melhores condições que iremos protagonizar grandes acontecimentos. Algumas das ações mais brilhantes da história da humanidade aconteceram em situações de grande adversidade. A precariedade, não raras vezes, revelou grandes gênios, nos trouxe curas e alegrias repartidas. Mas, cá pra nós, o Brasil é um país um tanto esquisito. As desgraças e os fracassos acabam despertando  maior atenção que os caminhos bem traçados. Em um texto anterior, falo da Biblioteca Comunitária Antônio Soares de Lima na comunidade Tito Silva, em João Pessoa. A imprensa da Paraíba, no entanto, entende que é mais importante noticiar um assassinato nesta comunidade que um fato tão espetacular como a criação de uma biblioteca. Um fato tão grandioso como este, não mereceu a menor atenção nem da imprensa nem da nata qualhada da intelectualidade local. A imprensa se alimenta do estapafúrdio e despreza os sinais de evolução, principalmente nas áreas mais vulneráveis socialmente.  Não é diferente em outras cidades e não há inocência nisso. Afinal, a imprensa dita burguesa se alimenta das diferenças, dos abismos sociais. Um povo com livro na mão assusta mais a burguesia que um povo com armas na mão.

Sempre me pergunto se devemos desanimar ou seguir em frente. Claro que devemos seguir em frente! Primeiro porque não saberíamos agir de forma diferente. Falo aqui de um grupo muito pequeno e muito seleto da nossa sociedade, que acredita que as ações de incentivo à leitura, independentemente da sua dimensão, fazem a diferença na vida de uma cidade, de um estado e de um país. Portanto, se queremos um país leitor, vamos começar pelo nosso local de trabalho, pelo nosso bairro, pela nossa cidade. Certamente que estaremos espalhando boas sementes para o futuro. Certamente que estaremos dando um passo importante para que os investimentos em Educação não se resumam apenas nas garantias constitucionais. Os livros existem. Muitos deles trancafiados em salas fechadas, como se tivessem cometido o crime de despertar consciências e questionar as raízes da ignorância e as sementes da sabedoria.


Posso citar aqui algumas dezenas de pequenas histórias, pequenas omissões. Posso citar também grandes omissões. Coisas que se relacionam com a inanição. Por exemplo, de alguém que possui os instrumentos, sabe como se toca, mas prefere o comodismo do desperdício precioso de tempo. Aliás, o tempo é o que de mais precioso podemos desperdiçar. Mas, não vamos mais perder nosso tempo tão raro com estas aflições. Precisamos fazer boas alianças para inventar novos caminhos. Precisamos caminhar com o que está posto. Nesse contexto, podemos considerar que uma biblioteca comunitária é mais importante que uma Bienal do Livro e mais importante que uma grande e suntuosa biblioteca, porque dá acesso direto aos que mais precisam desse canal de conhecimento. Logicamente que falo aqui de boa literatura e não de desova de livros didáticos com exercícios preenchidos que deveriam, na verdade, ser reciclados para um melhor aproveitamento. Como diz Roland Barthes, a Literatura (maiúscula) possui muitos saberes. Um bom livro, por exemplo, como Robinson Cruzoé, de Daniel Defoe, apresentará ao jovem, além de uma leitura agradável, de uma boa literatura,  lições de geografia, antropologia e história. Tudo num discurso bem construído e de fácil compreensão. Isso não pode ser esquecido nas ações de leitura porque formamos bons leitores a partir de textos sedutores. Logicamente, temos que ser cirúrgicos na escolha de um ponto de partida para uma ação de formação de leitores e leitoras.

Somos um país de contrastes. Não é diferente no mundo do livro. Como já dissemos aqui e em outros espaços, o MEC é o terceiro maior comprador de livros do mundo. O mercado do livro no Brasil é servil e excludente, como qualquer mercado de batatas. A única lógica que o movimenta é a do enriquecimento de um segmento  cada vez mais concentrado e internacionalizado. Mas, nesta análise, o importante é que os livros já existem. Muitas vezes empilhados em salas escuras, cheios de pó e acumulando ácaro. Esses livros precisam ir para o “ bom prejuízo”. Precisamos fazer com que se percam nas mãos de uma juventude que, sobretudo, tem sede de conhecimento e pouco estímulo para alcançá-lo. Por isso, quando nos omitimos em relação ao que existe de real em termos de ações de leitura, estamos entregando o ouro para o sistema. Estamos abdicando da necessária luta armada da palavra.

É tudo tão simples. A prática nos mostrou, principalmente nos últimos tempos, que pequenos gestos podem se transformar em grandes ações. Foi assim que começou, por exemplo, o sarau Poesia no Hospício. Uma ação realizada todas as quintas-feiras com pacientes e impacientes no Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira. Foi assim que nasceu a Biblioteca Comunitária Antônio Soares de Lima. Não são exatamente ações para enaltecer o ego de escritores. São ações militantes para estabelecer laços de igualdade entre pessoas que atravessam períodos de vulnerabilidade, com a possibilidade de boas descobertas. Ou seja: para uma ação de leitura, basta começar. Se alguém espera salas com ar-condicionado, bibliotecárias ou bibliotecários cpmprometidos, computadores de última geração, oficineiros afiados  e eventos de porte para chamar a atenção da mídia, pode sambar no desespero porque o nosso carnaval não é esse. Assim como as bibliotecas comunitárias são mais importantes que os grandes empreendimentos, a circulação do livro é mais importante que as bibliotecas comunitárias. Não podemos esquecer, todavia, que a tradição oral da literatura é o que há de mais consistente em termos históricos. Afinal, Gregório de Matos Guerra, por exemplo, construiu uma obra para a posteridade, sem nunca ter publicado um livro em vida. Os exemplos são muitos. A oralidade está enraizada na história do povo. Infelizmente, vivemos horizontes reduzidos por conta dos preconceitos intelectuais e do baixo teor de compromisso com a literatura e com as ações de leitura nas universidades, onde receber um diploma se tornou mais importante que receber conhecimentos.

Em última análise, precisamos nos perguntar: o que estamos esperando? Os livros existem. O analfabetismo ainda é uma mancha em nossa história. Este é um fato, mas nada é estático. Tudo está em movimento. Tudo muda constantemente.  O poeta Mário Quintana já dizia: “o pior analfabeto é aquele que aprendeu a ler e não lê.” Estamos falando de ações em rede que, certamente, irão desencadear numa anárquica e produtiva semeadura para um novo tempo onde poderemos, num perídio não maior que uma ou duas décadas, nos transformarmos em comunidades bem referenciadas no mundo. Tudo por conta da partilha de conhecimentos. Algo que nos levará a descobrir o povo enquanto sujeito da própria história. Assim, um livro não deveria nunca ser uma propriedade privada. Principalmente aqueles que são comprados com recursos públicos que, cá pra nós, é a maioria da produção editorial brasileira. Um país que é um dos maiores produtores de livros do mundo deverá também ser um país de muitos leitores. As condições objetivas para que isso aconteça dependem de uma vontade coletiva que, sabemos, já existe. Precisamos, pois, estar juntos e agir em rede.

sábado, 11 de fevereiro de 2012


LIVRO, LEITURA, LITERATURA E CIDADANIA
“A literatura é um dos direitos humanos.” (Antônio Cândido)

por Lau Siqueira
A Cidade das Acácias ficou mais bela depois da semeadura que foi realizada no dia 07 de fevereiro deste ano, na comunidade Tito Silva. A Avenida José Américo de Almeida (nas proximidades da lombada eletrônica) recebeu a Biblioteca Comunitária Antônio Soares de Lima, com financiamento do Fundo Municipal de Cultura – FMC e com o apoio imprescindível, do SINDLIMP – Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas de Limpeza Urbana de João Pessoa, Movimento de Luta nos Bairros – MLB, Coletivo Olga Benário e outras parcerias buscadas pela associação comunitária do bairro – CEIFA, especialmente através da sua presidente, Rosilene Santana, uma militante da resistência que ainda se respira nos movimentos populares e nos movimentos de mulheres.
Um movimento social capaz de criar uma biblioteca comunitária é um importante contraponto aos mega-eventos - sabidamente as Bienais e Salões do Livro que fomentam a concentração de lucros dentro do mercado do livro, geralmente deixando nada ou muito pouco para as populações locais.  Menos ainda  para os escritores, escritoras e agentes promotores do livro e da leitura. Portanto, cabe aqui uma breve reflexão acerca do que significa hoje o mercado do livro no Brasil para as políticas públicas de leitura. Nosso país é o décimo maior produtor de livros do mundo. O Ministério da Educação é o terceiro maior comprador de livros do mundo. No entanto o mercado do livro está mais neoliberal que nunca. Silenciosamente foi  concentrando sua  imensa lucratividade em conglomerados editoriais cada vez mais concentrados. Sem alarde, foi permitindo a compra de editoras brasileiras tradicionais como a Editora Moderna, por corporações internacionais. Apesar de tudo, parece que não está acontecendo nada. Portanto, a comunidade Tito Silva recebeu no dia 07 de fevereiro a semente de uma pequena revolução.
No debate sobre  livro e leitura no Brasil esse tipo relação precisa ficar muito evidente. Afinal, é como se não estivéssemos cercados de relações perigosas, de lucros para poucos e perdas para muitos. Que interesses movem os mega-eventos promovidos pelos tubarões do livro? Onde se localiza fomento ao mercado local na grande movimentação de recursos públicos destinados para esses eventos? Que espaço esse derrame de recursos tem destinado para a formação de leitores, incentivo à leitura e fomento à literatura brasileira? O que se pode conduzir em termos de protagonismo para a juventude a partir desses investimentos? Ou seja: qual é a contrapartida do mercado do livro diante de lucros tamanhos amparados pelo dinheiro do povo?  Na verdade, além da evasão de divisas, esses shoppings ambulantes em que se transformaram as Bienais e os charmosos Salões do Livro são fatores de uma grande concentração de lucro em quem já demanda do Governo Federal uma situação privilegiada de enriquecimento, com as facilidades da inadequada e ultrapassada lei 8.666 que rege licitações e contratos.
Seriam tantos outros os argumentos para considerarmos o imenso abismo entre os efeitos de uma biblioteca comunitária numa comunidade pobre de João Pessoa e os bilhões investidos pelos governos federal, estaduais e municipais para sustentar a lucratividade de poucos com a compra de livros, em detrimento de políticas públicas ainda inconsistentes para o livro, a literatura e a leitura. Faltam incentivos à criação literária e aos mercados regionais, na mesma proporção. O que se revela quando o debate transborda é uma inexplicável apatia por parte dos seus segmentos, sempre mergulhados nos interesses corporativos. Na verdade há uma imponente covardia por parte de alguns que temem perder espaços em parcas mesas de debates onde os umbigos e algumas serelepes vaidades acadêmicas são o objeto central do que não movimenta absolutamente nada. É como se estivéssemos tratando como sagrada a profanação da nossa cultura e da nossa educação. No caso dos escritores, as bienais não deixam nada além de alguns trocados na conta de umas poucas figuras repetidas que se revezam nesta imensa farsa.  Para as comunidades, não deixam uma única biblioteca comunitária, um único ponto de leitura...

ANTÔNIO SOARES DE LIMA
Você sabe quem foi Antônio Soares de Lima, personalidade que deu nome à Biblioteca Comunitária da comunidade Tito Silva? Antônio Soares de Lima foi um líder comunitário, recentemente falecido, conhecido como Chuá. Letrado nas lutas populares, analfabeto formal, mas jamais um analfabeto político. Chuá demonstrou toda a sua dignidade ao pedir desculpas à comunidade, pouco antes de morrer, por não saber ler e escrever.  Ele achava que por isso não conseguiu trabalhar mais  pela diminuição daquele imenso abismo social estabelecido no lugar onde viveu. Como cidadão e militante, sabia que a exclusão é o que permite que pessoas vulneráveis socialmente sejam usadas pela falta de escrúpulos de alguns políticos, diante das omissões da sociedade. Na verdade, Chuá morreu sem saber que foi um símbolo também da luta pela afirmação da literatura brasileira, pela cidadania plena, da distribuição de renda que no mercado do livro é algo vergonhoso. Sem contar com os prejuízos intelectuais proporcionados pela comercialização em massa de lixo impresso, leituras alienantes que em nada consideram os muitos saberes contidos na boa literatura. Como dizia o francês Roland Barthes, “a literatura contém muitos saberes”. Mas, parece que isso não está posto no debate que o Ministério da Cultura, a Biblioteca Nacional, fundações e secretarias de educação e cultura buscam desenvolver neste momento da história brasileira, onde as dúvidas superam as certezas. Os avanços são mínimos e os investimentos são distorcidos. Investem no mercado do livro, como se fosse investimento na formação de leitores e na literatura. Estamos longe de uma democracia real, embora alguns setores estejam caminhando nesta direção. Precisamos de um país leitor, de um estado e de uma cidade leitora para que possamos nos desculpar com a memória de Chuá.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012


Poesia no manicômio - uma ação de guerrilha.

por Lau Siqueira

Em maio lancei meu livro, Poesia Sem Pele, primeiro em Porto Alegre, na charmosa Casa de Cultura Mário Quintana, depois em Curitiba, no elegante Broooklin Café e o terceiro lançamento foi em João Pessoa, no pátio do Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira. Depois teve lançamento em Campina Grande-PB, Natal-RN, Recife-PE, mais duas noites de autógrafos em João Pessoa...  Enfim, cada momento esteve dentro de  um contexto específico. Cada lançamento teve a sua particularidade que não cabe comentar agora. Vamos ficar com os motivos e as convicções que me levaram a lançar o livro num manicômio e as razões de continuar lendo poemas do lado de dentro dos loucos muros.

No início do ano eu discutia com a diretora geral do Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira, Dra. Flávia Fernando, um grupo de militantes da luta antimanicomial e funcionários do manicômio, a programação cultural daquela que seria a I Semana Estadual de Luta Anti-manicomial e que teria sua abertura exatamente no dia 18 de maio de 2011, com algumas palestras, debates, com a presença de personalidades nacionalmente reconhecidas e fechando a noite com uma apresentação do Círculo de Tambores e lançamento do meu quinto livro, Poesia Sem Pele.

O entusiasmo militante da diretora do manicômio, uma militante das lutas populares, conhecedora das linguagens da arte, psiquiatra de formação entre outros predicados, me contaminou. Estava na oportunidade ocupando a diretoria executiva adjunta da fundação Cultural de João Pessoa. Então, trouxemos Tom Zé para um show no teatro de Arena do Espaço Cultural José Lins do Rego, o mano Babilak Bah para oficinas de percussão. Babilak, além de artista maravilhoso, dos mais inventivos, desenvolve o projeto Trem Tan Tan, num CAPS (Centro de Atendimento Psico- Social), em Belo Horizonte. Foi tudo perfeito. A Dra. Flávia, com sua sensibilidade extrema, na verdade, se mostrou uma grande companheira de caminhada. Uma pessoa com idéias regidas pela Reforma Psiquiátrica e que abriu as portas do manicômio para os que estavam trancados do lado de fora. Do ponto de vista pessoal era o cenário perfeito para um resgate familiar, sentimental, humano, histórico.

Nos anos 70,  acometido de esquizofrenia e outras moléstias, meu pai foi internado no Sanatório Roxo, em Pelotas-RS. Naqueles dias, eu morava com minha família em Jaguarão, na fronteira leste do Rio Grande do Sul com o Uruguai. Mas, meu pai somente ficou o tempo suficiente para que a família percebesse o que estava acontecendo. Naquela época, submetido aos métodos mais criminosos de tratamento psiquiátrico, meu pai piorou  em pouco tempo. Minha família acabou por resgatá-lo e ele faleceu em 1977, de câncer e com os nossos cuidados. Nunca recuperou a lucidez, mas comecei ali a entender que o internamento no caso de transtorno mental, precisa de outras saídas. Não tenho qualquer dúvida que para essa saída a família ainda é o melhor espaço de convivência  e de tratamento para qualquer pessoa.

Em janeiro de 1978, já residindo em Porto Alegre novamente, comecei a conhecer os caminhos da Reforma Psiquiátrica. Primeiro com o jornal e depois com a revista Rádice, que era uma espécie de porta-voz da luta antimanicomial no Brasil. Conheci a história da Dra. Rose da Silveira e soube do Museu do Inconsciente, criado por ela. Comecei a conhecer nomes como Basaglia e a refletir sobre o fim dos manicômios, como o que tinha servido de “cárcere terapêutico” para o meu velho pai, um homem de origens camponesas, com fortes convicções, íntegro, amoroso, cujo caráter e honestidade eram reconhecidos na cidade e um patrimônio da família. Passei a me interessar por outras leituras na área da psicanálise, também nessa época. Entre as leituras, Reich e uma das suas obras consagradas, o livro “Escuta Zé Ninguém” que até hoje figura entre os livros mais importantes que eu li. Li algumas pérolas da Gestalt, como o clássico “Não apresse o rio, ele corre sozinho”, de Barry Stevens. Certamente que eu jamais pensei em enveredar pela área da saúde mental, profissionalmente falando, ou mesmo politicamente. Mas, como militante de esquerda que era e sou, compreendo que os caminhos para a construção de um mundo mais justo passa diretamente pela compreensão do outro, das diferenças que não nos fazem em hipótese alguma, desiguais.

Passou-se algum tempo e o cotidiano  foi absorvendo nossos passos e continuamos caminhando juntos. Até que a companheira Flávia aceitou mais uma provocação: iríamos resgatar a idéia nascida de uma das  nossas muitas conversas. Daí nasceu o primeiro sarau poético no manicômio, envolvendo poetas, artistas, profissionais de saúde, portadores de transtornos mentais, dependentes químicos em tratamento... Enfim, uma experiência de amor partilhado, de solidariedade, de corações bifurcados e sentimentos livres. Não poderia ter outro resultado. Foi emocionante ler poetas como Lúcio Lins, Drummond, Rodrigo de Sousa Leão, Antônio Mariano, Vasko Poppa e outros e ainda ouvir textos escritos por aquelas pessoas, tão iguais a nós, iguais a nossos filhos e filhas. Enfim,  nossos irmãos. Textos, diga-se de passagem, que mesmo sem tanto valor literário traziam a revelação de alguém que desejava libertar-se de um mundo doente, curar-se de si mesmo, para a invenção de um novo mundo.

Depois veio um segundo sarau que não pude ir e um terceiro que Flávia não pode ir, mas estava lá também o Psicólogo e poeta Rodrigo Vaz e outros artistas, outros poetas, como Vamberto Spinelli Jr, Carlos Araújo e mais a poesia sempre presente de artistas como, Arnaldo Antunes, Ademir Assunção, Viviane Mosé e mais quem pudesse estar ali, como ali estava mais uma vez internado o cordelista Téo que falou poemas de amor e esperança, cuidando assim também de nós que somos, todos e todas, tão frágeis diante da imensa loucura que é esse tempo de velocidades e de canções perdidas nos esteios de um silêncio que não se rende diante de tamanhas gritarias, atravessando séculos sob uma surdez mórbida das muitas civilizações que habitaram nosso mundo.

Essas leituras de poemas no manicômio, provavelmente, foi o que de mais significativo aconteceu nos meus derradeiros dias de 2011. Começaremos o ano de 2012, com a poesia afiada entre os dedos, entre as linguagens que desejam comparecer para confirmar o que Antônio Cândido afirmava: “a literatura deveria ser um dos direitos humanos”. E certamente é um direito e um dever de todos nós que buscamos a partilha como moeda de troca nesta feira de desencantados, onde loucos são os muros, as cercas elétricas, as barricadas contidas em cada olhar no trânsito, nos balcões de negócio da carne e da alma. Em 2012 a poesia, em todas as suas formatações, em todas as suas configurações, em todas as suas energias transgressivas, estará rondando pelos ares, nos fazendo acreditar que é possível sonhar com um mundo mais justo e que as nossas utopias nos ensinarão a seguir nesta caminhada que não tem fim, mas que a cada passo nos faz acreditar que a felicidade é um sentimento solidário, um ato de amor aos nossos defeitos, às nossas falhas aos nossos sonhos de raça e de universalidade, humanos que somos apesar de alguns poucos (e esses sim, loucos) que se acham deuses e, iludidos, calam diante do abismo que é existir, em qualquer circunstância.

NOVO É O ANO, MAS O TEMPO É ANTIGO

Não há o que dizer sobre o ano que chega. Tem fogos no reveillon. A maioria estará de branco. Eu nem vou ver os fogos e nem estarei de b...