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Mostrando postagens de 2011

“Aqueles poemas que se amontavam em versos.”

por Lau Siqueira
A poesia estebelece laços e nós na vida de um escritor. As distâncias se tornam mínimas e não raras vezes as proximidades afastam certezas. Todavia este não seria este o início de um necessário mergulho no caos das nossas certezas? Há uma desigualdade profunda que nos torna profundamente iguais quando o assunto é poesia e mais ainda quando o fato é a publicação de um livro de poemas. Estamos, pois, diante de mais um silêncio de pedras nesta leitura do livro do paranaense Júlio Almada.

Não é muito diferente para qualquer poeta brasileiro publicar e lançar um livro neste momento de profundo desprezo do mercado editorial pela produção contemporânea. Também precisamos reconhecer que publicar deixou de ser, há muito tempo, algo extraordinário. Cada livro de poemas lançado é uma imensa guerrilha para o autor. Tanto no que se refere ao investimento gráfico quando ao que é mais árduo ainda: o reconhecimento dos pares e de uma crítica literária que, ao contrário da poesia, não…

A brutalidade da beleza

por Lau Siqueira A beleza não é a viga dos encantamentos, apenas. A beleza é o domínio dos abismos da mente e do corpo. Seja num artista, seja num espectador - por mais desatento que seja. A beleza é um espetáculo de cores e escuridão, de sons e silêncios, palavras e pausas. Segundo Hopkins, a beleza é difícil e segundo W. J. Solha é brutal. Não importam aqui os conceitos surrados ou novos. A verdade é que nas poucas palavras deste artigo não será possível definirmos o que foi a belíssima obra construída por diversas mãos, corações e mentes numa dedicação consagradora aos 70 anos de um dos mais completos dentre os grandes artistas brasileiros, W. J. Solha.
Não sei que registro foi feito das duas apresentações de “Cantata Bruta”, uma realização da FUNJOPE e da FUNESC em homenagem ao escritor, sonhador, artista plástico, cidadão íntegro, escritor, ator e outras faces da mesma face no multi-artista homenageado. Na verdade foi uma homenagem às artes porque Solha também participou enquanto c…

E POR QUE PUBLICAR EM TEMPOS DE PENÚRIA?

Por Lau Siqueira
Sinceramente, talvez eu não saiba responder com precisão a pergunta e duvido muito que possa dizer alguma novidade sobre essa questão que me foi colocada para debate na Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, edição 2011. O tema está escancarado para muitas abordagens. Existirão, certamente, muitos pontos de vírgula. Vamos tentar resumir a ópera num passeio sobre o que tem sido publicar especificamente poesia no Brasil. Também não há como aprofundar por aqui, mas há como buscar um diálogo com os diversos contextos que o tema propõe. Depois da internet a poesia não pode mais viver de lamúrias, muito menos se queixar de penúria. É verdade que as grandes editoras parecem pouco interessadas na poesia contemporânea, mas também parece verdade que a poesia contemporânea aprendeu a sobreviver sem as grandes editoras. São realidades que se distanciam cada vez mais. O mercado do livro no Brasil está muito mais interessado em Bruna Surfistinha que em poetas contemporâneos. J…

A leitura enquanto direito social e as políticas para o livro no Brasil.

Por Lau Siqueira Na abertura da XV Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, a presidenta Dilma Roussef falou do programa de popularização de livros que será apresentado nos próximos dias pelo Governo Federal. “Queremos ter uma ação que fomente a produção e comercialização de livros mais baratos”, falou a autoridade máxima do país. Um discurso que, aliás, muito nos orgulha porque certamente está na leitura enquanto política pública, uma das chaves para darmos um salto nas políticas sociais. Não há dúvidas que o governo brasileiro deu passos importantes em direção à construção de uma sociedade leitora, de 2003 para cá. Todavia, como era de se esperar, o mercado do livro é um manto de silêncios estrategicamente constituídos. Por exemplo, a isenção de impostos sobre o livro – obra do presidente Lula – já deveria ter derrubado os preços naturalmente. Mas isto não aconteceu. A imensa quantidade de livros adquiridos pelos governos federal, estaduais e municipais também deveriam ter ga…

Antes que Agosto acabe.

por Lau Siqueira

Os eventos de literatura têm proliferado pelo Brasil afora, talvez, como em nenhum outro momento da história. Até mesmo pequenos municípios brasileiros começam a ganhar um certo destaque. Se é bom que assim seja, não temos dúvidas. Mas que isso pode melhorar é a nossa melhor certeza. Um dos maiores desafios é fazer com que esses eventos deixem de ser meros encontros de escritores e de meia dúzia de apaixonados leitores, geralmente, movidos por razões mais midiáticas que propriamente literárias. Aqui em João Pessoa não é diferente. O Agosto das Letras entrou na programação cultural da cidade em 2006, deixando de acontecer em 2008 e retornando nos anos posteriores com um formato mais denso, mas ainda assim com os problemas comuns a maioria dos eventos literários espalhados pelo mundo.


No interior do Rio Grande do Sul, provavelmente, esteja sendo realizado o mais importante evento de literatura do país. A Jornada Literária de Passo Fundo não deixa de ser um grande encontro…

Hercília Fernandes e as iluminuras do silêncio

Lau Siqueira
A poesia sempre percorre caminhos incertos. Comunga com as coisas invisíveis, com as gotas minúsculas de orvalho na manhã das folhas. A poesia desnuda e disfarça para mostrar-se no etéreo e na eternidade das canções que nos guiam pelos caminhos do mundo. Como um pássaro do amanhecer, desdenha do ritmo num canto que se harmoniza com as cores do arrebol. Numa fotografia de fatos imperceptíveis, cada autor vai construindo a sua identidade. “O estilo é a fisionomia do espírito”, como nos disse Schopenhauer em A Arte de Escrever. É bastante complexo definir estilo. Mas, a verdade é que veremos neste livro os contornos definidores de um espírito criativo (ou um eu lírico, como queiram) que resiste e se mostra em cor e ritmo, em musicalidade e imagem definida na feitura de cada verso.
A poesia de Hercília Fernandes percorre os passos incertos da linguagem com a certeza dos que saltam por sobre os abismos, sem medo de voar. Aliás, como toda poesia que se espalha para além das pala…

Por que lancei meu livro num manicômio?

por Lau Siqueira
Algumas coisas não têm explicação. Ainda assim, nada impede que tenham uma história. Até agora lancei meu livro, Poesia Sem Pele, em lugares distintos e três cidades diferentes. No dia 5 de maio foi em Porto Alegre, na Casa de Cultura Mário Quintana. Um lugar extremamente poético que já abrigou durante anos, enquanto Hotel Majestic, o poeta Mário Quintana. Naquele belo Centro Cultural muita coisa estava acontecendo. No mesmo momento e local estavam lá Antônio Cícero, Zeca Baleiro, Anônio Nóbrega, Victor Ramil e outros artistas, com atividades em outros espaços. Ainda assim vendi razoavelmente meu livro. Uma bela edição do selo gaúcho Casa Verde. Mas, não era isso o que importava porque o meu objetivo não é vender livros nem criar momentos de badalação. O extraordinário para mim foi lançar um livro na minha terra amada, no meu pampa. O extraordinário era ser reconhecido pelos que fazem literatura na minha terra, depois de tanto tempo ausente. Na tarde seguinte, fui para…

Mário Quintana: A ABL VIROU UM DEPÓSITO DE MINISTROS

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Por Lau Siqueira
Em janeiro de 1987 eu estava em Porto Alegre visitando a família com minha filha Mariana ainda bebê, Mayra na barriga da mamãe Joana Belarmino, na época repórter do Jornal O Norte e hoje professora de Teoria da Comunicação da UFPB e Doutora em Semiótica.
Eis que fui iluminado por uma daquelas idéias que eternizam um momento. Convidei Joana para entrevistar o poeta Mário Quintana que acabara de completar oitenta anos. Exatamente na tarde do dia 16 de janeiro pegamos o busão na esquina e partimos para o centro da cidade para aventurar esse encontro com o poeta. Munidos um pequeno gravador e um enorme entusiasmo. Sequer uma máquina fotográfica. Chegamos no Porto Alegre Residence e pedimos para falar com o morador do apartamento 805. Falamos pelo interfone com a secretária de Mário que disse que teríamos apenas meia hora. Com o coração aos pulos subimos até o apartamento do poeta onde nos esperava a secretária que, coincidentemente, tinha sido minha colega de trabalho num…

II FLIBO afirma vocação cultural de uma Paraíba que pensa e faz

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por Lau Siqueira
Não apenas as pessoas. Também as comunidades, as cidades, os estados, os países... Tudo que pulsa no mundo busca afirmar alguma vocação diante de um futuro cada vez mais competitivo e tribalizado. A cidade de Boqueirão, com a realização da sua II Feira Literária (II FLIBO) aponta um novo caminho, um novo modo de desenvolvimento que pode e deve esternder-se à outras cidades do interior paraibano. Não são poucas as provocações históricas que sinalizam nesta direção. Isso nos faz, também, acreditar que a questão central do conceito de sub-desenvolvimento está na forma colonizada de pensamento que nos foi imposta década após década. O pensamento do outro, o sentimento do outro, o costume do outro... ou melhor: a educação da Europa; o cinema americano; a literatura francesa; a música inglesa; a tecnologia japonesa... Quanto mais distante mais valioso, ainda que seja este um valor bastante duvidoso tantas vezes. Nesta forma sub-desenvolvida que alguns preferem por se tratar …

O carnaval das letras.

Núcleo Blecaute realiza pelo segundo ano consecutivo um significativo encontro literário
por Lau Siqueira A palavra colombina e a palavra pierrot acumularam singularidades em suas fantasias para as cinzas deste carnaval 2011. A cidade de Campina Grande, nacionalmente conhecida por realizar o Encontro Para a Nova Consciência no período momesco misturou aos debates esotéricos, às manifestações religiosas e às cultuações do xamanismo, um ousado empreendimento de jovens literatos da Rainha da Borborema. Foi a perseverança e a credibilidade do Núcleo Blecaute de Literatura que possibilitou pelo segundo ano consecutivo um evento que remete ao futuro discussões sobre a literatura feita na terra de Augusto dos Anjos e José Lins do Rego. Idéias e conceitos estéticos, políticas públicas para o livro e para a leitura, articulação entre eventos literários paraibanos, novas tendências da literatura paraibana... Debates qualificados e oportunos que impulsionam a literatura paraibana para o mundo.
O “I…