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Mostrando postagens de 2009

Flávia Muniz - o canto além da voz.

por Lau Siqueira
A Literatura Brasileira nos remete aos tempos infinitos. Tempos que não começam nem terminam num código estabelecido. Aliás, toda boa literatura é atemporal, como sabemos. Talvez daí venha a minha parcial discordância com a necessidade de catalogação dos escritores, por geração. Há que se perceber a literatura como um rio e seus afluentes. Por isso, não quero analisar este primeiro livro de Flávia Muniz, à luz da já denominada Literatura 00. Ou seja, a literatura que começa a despontar no século XXI. Exatamente porque não creio que as Teorias da Literatura funcionem como um tipo de autópsia do texto. Por um bom motivo: não se faz autópsia de organismo vivo. E a Literatura é um organismo vivo, antes e depois da escrita.

Cantora e compositora de boa cepa, transitando com personalidade na Música Brasileira Contemporânea, Flávia realiza a metalurgia dos seus textos numa poesia que poderia muito bem ser revertida ao estado de miniconto. Segundo o escritor gaúcho José Eduard…

O pop e o rock dos PoETs - Entre Manuel Bandeira e os Beatles

Lau Siqueira

A tradição musical do Rio Grande do Sul tem fornecido nomes importantes para a história da Música Brasileira que é, em suma, uma congregação de diversidades. Poesia e melodia para as possibilidades da cibercultura e do que vinga a partir dela. Isso tudo, num pampa mio que não é nada mais nada menos que a terra de Elis Regina, Lupicínio Rodrigues, Nelson Coelho de Castro, Edu da Gaita, Bixo da Seda, Jaime Caetano Braun, Nei Lisboa e, agora, também dos PoETs. Um grupo que nasce de um berço esplêndido: o acaso e suas provocações e que surpreende por, talvez, não estar preocupado em surpreender. Um grupo que agrada pela música e pela palavra, muito certamente por não estar preocupado em agradar. Poesia é palavra que vem do grego. Tem a ver com fazer. O poeta é o que faz. O poeta é o que soma virtude e atitude e faz linguagem. Nos PoETs, a origem de tudo é a poesia. (Permitam-me, não se trata de um grupo, mas, de uma tribo.)

Os caras já surpreendem, pela formação. São três poeta…

A Feira do Livro de Porto Alegre entre os interesses do mercado e os da sociedade

Lau Siqueira

Há 25 anos não pisava na Feira do Livro de Porto Alegre. Um hiato bastante significativo para uma observação diferenciada de quem foi testemunhando as transformações cotidianas deste grande evento. Fui habitante assíduo daquele espaço. Visitante diário. Um “rato de feira”, como se diz. Se bem que sempre preferi ser apenas mais um ácaro. Na época não me parecia necessário refletir sobre os destinos da Feira, uma vez que eu era apenas um consumidor das minhas parcas possibilidades. Mesmo assim, notei que naquele tempo era possível encontrar Proust e Balzac nos balaios, coisa que nesta minha última visita pareceu absolutamente improvável. Até porque o gigantismo da Feira impediu uma investigação minuciosa em duas tardes de intenso “fuçamento” em balaios e stands.

O que me parece um primeiro e lamentável equívoco é observar-se a Feira do Livro de Porto Alegre apenas do ponto de vista do interesse econômico dos livreiros. Sim, a venda dos livros pode mesmo ter despencado 17%, c…

A aventura mínima de Laís Chaffe e Marcelo Spalding

Lau Siqueira
O livro Minicontos & muito menos teve sua tarde de autógrafos no dia 12 de novembro, na Feira do Livro de Porto Alegre. Em todos os sentidos os seus autores buscaram a lógica dos pássaros: o máximo de canto no mínimo de corpo. Barbaramente ilustrado por Alexandre Oliveira, o livro de Laís Chaffe e Marcelo Spalding é apresentado por um design gráfico bastante criterioso chamado Auracebio Pereira. Tudo isso embalado pelo projeto editorial Casa Verde que já podemos considerar bem sucedido. Somente a série Lilliput já alcança seu quinto volume. Numa proposta conjugada, Marcelo e Laís desafiam a teoria errante que cerca a história do miniconto. Lembro que, também em Porto Alegre, ano passado, ouvi José Eduardo Degrazzia levantar a hipótese de serem as prosas poéticas de Baudelaire, a possível origem desse gênero instigante.

Partindo do raciocínio de Degrazzia podemos observar que o miniconto se aproxima mesmo da poesia em alguns aspectos. Principalmente quanto a impossibilid…

O lirismo futurista na música de Flávia Muniz

Por Lau Siqueira

Impressiona sempre a capacidade de renovação da Música Popular Brasileira. Do universo pop às tradições da Bossa, do Metal ao Baião. Isso quando o olhar se torna mais amplo sobre conceitos de MPB. Não poderia ser diferente uma vez que as novas gerações, desde o Tropicalismo, permanecem cruzando a ponte da tradição aos chamados tempos modernos. Existem artistas que, historicamente, guardam singularidades que nos fazem tecer um olhar mais atento às suas obras e trajetórias. Flávia Muniz é uma dessas artistas. Leva ao palco as palavras mais exatas para o contexto de uma música que evoca, de certa forma, o que brotou no Lira Paulistana e outros palcos vanguardistas. Até mesmo no Tropicalismo, com um acentuado olhar sobre a figura do poeta Torquato Neto. Logicamente, o que vivemos agora é exatamente a configuração de todas essas teias em outro contexto histórico da MPB. Penso que Flávia expressa bem essas transcendências.

Podemos, num primeiro momento, concluir que a palavra…

As oligarquias decadentes e seus ódios repugnantes

Por Lau Siqueira

Impressionante o artigo "A cidade de todos" publicado pelo colunista social Abelardo Jurema Filho, no Jornal Correio da Paraíba. Desta vez Abelardo extrapolou ao ocupar a coluna "Opinião" para demonstrar sua repulsa ao belíssimo monumento dedicado ao romance A Pedra do Reino. Uma justa homenagem da Prefeitura ao escritor paraibano Ariano Suassuna, nascido exatamente no Palácio da Redenção. A obra é assinada pelo consagrado artista plástico Miguel dos Santos e está instalada na Lagoa do Parque Solon de Lucena, num cenário de paraíso. O artigo é lamentável sob vários aspectos. Principalmente porque não se trata de uma crítica estética, mesmo que inocentemente fundamentada. O texto limita-se a demonstrar o ódio familiar que alimenta o “coronelismo fashion” que ainda domina alguns dos setores privilegiados da sociedade paraibana. Um ódio que se esparrama pelos becos. Por motivos não menos lamentáveis, o conservador Ariano não pronuncia o nome da capita…

Economia criativa e o futuro das cidades

Por Lau Siqueira
Às vezes precisamos dizer o óbvio. Então, vamos lá: somente a inteligência poderá nos salvar da miséria. Pronto, está dito. E sigamos em frente: toda transformação política e social se dá, de forma majoritária, na estrutura dos sistemas econômicos. Sem mexer na ordem econômica, nada muda. Começo assim esta reflexão também por um motivo óbvio. O debate cultural brasileiro, a partir da gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura, vem sendo instigado pelas potencialidades da economia da cultura em nosso país. Um setor que já ocupa 8% do Produto Interno Bruto Mundial. No Brasil, a cultura sozinha gera 5% dos postos de trabalho e paga salários acima da média nacional.

Convidado para facilitar uma mesa sobre cultura e economia criativa na II Conferência Municipal de Cultura comecei a pensar sobre este conceito tão novo. Lembrei logo de Monteiro Lobato que, em termos de criatividade empreendedora, foi um mestre. Na década de trinta eram poucas as livrarias brasileiras. No …

A poesia como ponto de partida.

Por Lau Siqueira
Nos últimos anos tenho acompanhado razoavelmente o debate acerca da importância da poesia, enquanto gênero literário. Em 2005 recebi uma provocação do Festival Recifense de Literatura. Fui “intimado” pelo poeta Pedro Américo, para falar sobre poesia e mercado. Na época, um período bastante atribulado da minha vida profissional, somente pude dar atenção ao assunto uns cinco dias antes da palestra. Fiquei um tanto atônito porque não existiam referências, praticamente. Encontrei apenas um texto de Geir Campos, de décadas e décadas passadas. Pois não é que em “Carta aos Livreiros”, o poeta relatava exatamente o mesmo drama vivido pelos poetas do século XXI, em relação mercado editorial? Acabei escrevendo um texto para orientar a minha palestra, que acabei publicando na revista Discutindo Literatura e em alguns sites.

Existe aí uma questão que tem me instigado bastante. Apesar de ser um gênero considerado não comercial, os fatos nos mostram que a poesia é um dos gêneros mais…

Ponto de Cem Réis – apenas uma opinião.

Por Lau SiqueiraConfesso que não me causam perplexidade alguma as reações acerca da restauração do Ponto de Cem Réis. A maioria, convenhamos, fruto de uma passionalidade tardia, ainda referente ao último pleito eleitoral. Mas, o despeito não merece contraponto. Deixemos de lado. Respeito, no entanto, algumas opiniões questionadoras do ponto de vista estético. Então me ponho a pensar: como seria uma simples e pura restauração daquele espaço nos moldes, digamos, da intervenção dos anos 70? O trânsito na Duque de Caxias seria reaberto? Fotografias históricas do Ponto de Cem Réis nos anos 30 e as fotos da grande reforma realizada nos anos 70 nos fazem crer que o que está posto para aquele ponto da cidade é exatamente a sua adequação às necessidades dos tempos. Afinal, não está em questão a imensa trasformação que se deu nos anos 70, em relação à origem da Praça Vidal de Negreiros, o popular Ponto de Cem Réis, datada de 1924. E isso não está em questão porque as necessidades urbanísticas d…

O prazer da leitura e a coragem de mudar o mundo

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Por Lau Siqueira
Não são raras as vezes que me pego pensando no que se deixa de fazer com a pálida alegação da falta de recursos financeiros. Algumas experiências colhidas ao longo da vida me provaram que para algumas das questões mais significativas para um ser humano e para a sociedade, não é preciso recurso algum. O que precisamos é de atitude. O principal recurso é a nossa vontade. Uma das experiências concretas que me faz pensar assim é a existência da Biblioteca Cactus. Uma instituição comunitária criada e mantida por duas mulheres, Nina e Edeusa, em Mandacaru, um dos mais tradicionais bairros populares de João Pessoa. Para montar o acervo, certamente, Nina e Edusa, contaram a com a responsabilidade social do maior sebo da América latina, o Sebo Cultural com sede na cidade. De lá para cá elas vem aumentando o acervo, articulando atividades que mantém viva uma das maiores e mais importantes Bibliotecas Comunitárias do Nordeste. Experiências assim abundam pelo Brasil, sem muita vi…

A antropofagia do próprio texto – voltando ao tema

.por Lau Siqueira

O contraponto é sempre o melhor sumo do diálogo, no jogo asseado das idéias. Já escrevi para revistas de circulação nacional, sites, jornais e blogs. Aqui e ali lia alguém comentando a respeito. Na verdade, concordar ou não com algo escrito por outra pessoa pode ser considerado normal. Sempre considerei isso como alimento das minhas idéias. O que, convenhamos, não é muito normal é quando o autor do próprio texto acaba não concordando com o que escreveu e publicou. Não é esse exatamente o caso, mas pensei nisso quando recebi e-mail do escritor e professor Ítalo Moroconi acerca de um texto que divulguei no meu blog Pele Sem Pele e distribuí para alguns e-mails da minha lista de endereços eletrônicos, recentemente. Na oportunidade me referi a professores que não apenas desconheciam, mas abominavam a literatura contemporânea.

Na verdade não era exatamente isso que o texto abordava. Esse elemento foi pinçado pelo escritor que contestou, afirmando que no Rio e São Paulo exis…

As teias geométricas de Dênis Cavalcanti

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Lau Siqueira
Toda obra de arte traduz seu próprio tempo. No entanto não há, para a obra de arte, um tempo linear. Como diz o poeta Manuel de Barros no Livro das Ignorãnças, “Não sei mais calcular a cor das horas. As coisas me ampliaram para menos”. Assim, numa primeira leitura da obra do artista plástico paraibano Denis Cavalcanti já se revela a atitude racional, precisa, rigorosamente futurista, vocacionada às imensidões do acaso. O artista constrói uma equação devotada ao mergulho num rio de mutações cores e formas. Na imprevisibilidade de um salto seguro que se traduz na ambivalência e nas especificidades do fator humano.

O artista convulsiona e ambienta suas influências de modo a construir a singularidade de uma linguagem capaz de amparar a permanência do abstrato. Todavia, espelha-se na concretude de uma era de velocidades, onde a arte que se cumpre vai também compactuando com a mais densa sensibilidade. Mas, que outra função teria a arte que não a de aflorar as imensidões e comet…

Antropofagia e linguagem poética no século XXI

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Por Lau Siqueira

A poesia que vem sendo produzida nesses tempos de blogs, sites, orkut e twitter começa a revelar características muito particulares. A internet desencadeou um processo que ainda está em fase de assimilação pelos pensadores da história e da teoria literária do nosso tempo. A princípio, havia uma inexplicável desconfiança e um parcial desinteresse em relação a esses meios por parte significativa dos escritores. Muito especialmente pelos poetas.

Nos primeiros momentos houve uma tentativa de desqualificar esta produção. Como se a facilidade de veiculação e a interatividade da internet somente permitisse a divulgação de poetas de águas rasas. Certamente que havia um fundo de verdade nisso todo. A internet servia e ainda serve para divulgar muita coisa de qualidade bastante duvidosa. Nos primórdios da rede, as desconfianças eram muitas e a mitificação da nova mídia nos remetia sempre às reflexões de Umberto Eco e seus apocalípticos e integrados.

Em pleno agosto de 2009, me p…

O que é que o governador Maranhão tem contra a cultura?

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Por Lau Siqueira

Na verdade, não foi nenhuma surpresa a saída do artista plástico Flávio Tavares da Subsecretaria de Cultura do Estado. Afinal, somente os acomodados não se incomodam com circunstâncias comprovadamente criadas por mera pirotecnia política. A insatisfação de Flávio no governo era de uma pulsação impressionante. Artista de amplo reconhecimento e cidadão exemplar, Flávio Tavares deve ter percebido que a mentalidade do governador em relação às políticas de cultura permanecia exatamente a mesma dos seus dois primeiros governos.

De perfil conservador, o arcaico José Maranhão já fez escolhas acertadas para dirigir a cultura do Estado. Não se pode negar. Isso no caso de Flávio e, anteriormente, do poeta Sérgio de Castro Pinto. Entretanto, também Sérgio percebeu que tinha um nome a zelar e que as políticas de cultura estavam desvinculadas das ações prioritárias do marqueteiro Zé, o proclamado mestre de obras. Entre Sérgio e Flávio, nos seus três períodos de governo, Maranhão enc…

Parrá – a elegância do ritmo.

Lau Siqueira

A boemia pessoense ainda preserva seus mais alinhados personagens. Principalmente no anonimato turbulento das ruas da Cidade Antiga. Na Ladeira da Borborema guardamos boas memórias do poeta Manuel Caixa D’água. Nos escambos temporais deste início de século, ainda há quem nos faça sonhar com a velha Parahyba do Norte - “morena brasileira”. A eterna Cidade das Acácias. Um lugar onde os sagüis pululam pelos resquícios da Mata Atlântica e onde as prostitutas retomam o simbolismo histórico da luta pelo reconhecimento da profissão. Assim a cidade vai se organizando politicamente no movimento das águas e dos tempos. Convulsionando uma urbanidade que nasceu nas margens de um rio para desaguar nas memórias do futuro.
Foi numa cidade assim, ali no Roger - mais exatamente na Rua Anísio Salatiel número 60 - que nasceu Severino Ramos de Oliveira. Isso foi no ano de 1938. Ainda na primeira infância o irmão lhe conferiu o apelido de Parrá, sem saber que estava realizando um batizado artí…