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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Flávia Muniz - o canto além da voz.


por Lau Siqueira
A Literatura Brasileira nos remete aos tempos infinitos. Tempos que não começam nem terminam num código estabelecido. Aliás, toda boa literatura é atemporal, como sabemos. Talvez daí venha a minha parcial discordância com a necessidade de catalogação dos escritores, por geração. Há que se perceber a literatura como um rio e seus afluentes. Por isso, não quero analisar este primeiro livro de Flávia Muniz, à luz da já denominada Literatura 00. Ou seja, a literatura que começa a despontar no século XXI. Exatamente porque não creio que as Teorias da Literatura funcionem como um tipo de autópsia do texto. Por um bom motivo: não se faz autópsia de organismo vivo. E a Literatura é um organismo vivo, antes e depois da escrita.

Cantora e compositora de boa cepa, transitando com personalidade na Música Brasileira Contemporânea, Flávia realiza a metalurgia dos seus textos numa poesia que poderia muito bem ser revertida ao estado de miniconto. Segundo o escritor gaúcho José Eduardo Degrazia, as prosas de Baudelaire representam o eixo fundamental na teoria do miniconto. Ao contrário do que pensam alguns, miniconto não tem limite de frases ou mesmo parágrafos. Pode ter uma única frase ou uma lauda. Flávia sabe muito bem em que terrenos da linguagem está circulando. Sabe ainda do mundo onde mergulha suas emoções mais densas, mais afeitas aos impactos naturais da palavra. Sabe que na literatura como na vida o direito à escolha é determinante e, algumas vezes, fatal. Das melhores palavras nem sempre se extrai os melhores caminhos. Por isso, Flávia vai conjugando uma literatura que dialoga cenicamente, plasticamente e musicalmente, com a palavra.

Seu texto desponta carregado de significado. Denso que só uma estrela no céu de dezembro. Vai despertando assim para as leituras mais atentas, ávidas por novas descobertas. Um trabalho de muitas artesanias e acostumado a beber nas melhores fontes. Sejam elas contemporâneas ou clássicas. Temos aqui uma literatura que não se contém diante das distâncias e passa a cumprir uma estética de adensamento do vazio existente entre os diversos pólos criativos da mente. Enfim, um texto de leitura agradável e ritmo instigado. Como se o “maculelê” do verso ousasse a batida do eixo, no itinerário da imagem que se cria a partir dele. Flávia Muniz desafia paradigmas e estabelece, também, a sua própria teoria a partir de uma prática que se mostra nas suas escolhas para a construção do texto.

Definitivamente, esta escritora não sofre do mal que Antônio Cândido chama de “ilusão antropocêntrica”. Seus textos esmiúçam a condição humana, trafegando da filosofia à poesia, do masculino ao feminino. No emocional e no racional. Tudo está contido na expressão do significado e da forma de organizar as palavras. Ela se reconhece múltipla e multiplica suas possibilidades ao demonstrar o que isso significa enquanto foco natural de uma narrativa. Quer um exemplo? Veja este fragmento: “Desvendando os mistérios do homem que sou, procuro manter-me quieto. Sou fotógrafo de almas. Observo humanos: esquinas de gente e olhar de gente. Mão e antebraço antes mesmo de nomes. Solidariedade: meu lugar de palavra e oração. Ajoelho-me no sal da Terra.” (ESCRITOS ESPIRAIS NA ROTA DO AMANHECER, II). Essa noção de espaço deu à Flávia uma definição de que as literaturas são o que as solfeja.

Portanto, eis uma literatura que reconhece, mas não se curva aos cânones. Tem autonomia e proclama seus próprios rumos elaborando frases curtas, de forte impacto acústico e ritmo acelerado. Bebe em Borges (com certeza) certo telurismo fantástico, absolutamente urbano e futurista. Ela nos chega num momento em que as mídias tradicionais estabelecem uma luta corporal, de vida ou morte com a cibercultura, tornando-se parte dela. “No século XXI, todo texto se torna um arquivo virtual”, nos diz N. kathetrine Hayles, em “Literatura Eletrônica – Novos Horizontes para o literário” (UPF Editora). Ela faz parte de uma geração que estabeleceu um novo tipo de relação com o saber em qualquer setor da vida racional ou transracional. Algo atemporal e ao mesmo tempo, enraizado num ponto equidistante entre o passado e o futuro. Um bom exemplo do quanto os jovens escritores e escritoras brasileiras estão construindo a memória de uma literatura que revela nomes expressivos, mas jamais demonstrou sinais de falência.

“Para morder estrelas deve-se espanar a poeira do peito e afiar os dentes em pedras de amolar facas. Andarilhos das noites, descalçamos o chão dos céus. O sol é maior que a Terra. O infinito é maior que o sol. Os humanos carregam pequenas certezas. A dor hermana e funde o núcleo do ser – ele espreguiça.” O livro de Flávia Muniz, Vilarejo – pergaminho do fogo, revela uma escritora que soube estabelecer-se entre o delírio criativo e a ciência de compor um texto de reconhecida substância literária. Estamos diante de uma leitura que poderá ser realizada com todos os olhares que determinam a nossa condição de gente. Uma literatura que esmurra o comodismo de repetir fórmulas prontas, buscando consolidar-se nos próprios e múltiplos rumos.

(Prefácio do livro Vilarejo - pergaminhos do fogo, da escritora, cantora e compositora carioca Flávia Muniz)



sábado, 5 de dezembro de 2009

O pop e o rock dos PoETs - Entre Manuel Bandeira e os Beatles

Lau Siqueira

A tradição musical do Rio Grande do Sul tem fornecido nomes importantes para a história da Música Brasileira que é, em suma, uma congregação de diversidades. Poesia e melodia para as possibilidades da cibercultura e do que vinga a partir dela. Isso tudo, num pampa mio que não é nada mais nada menos que a terra de Elis Regina, Lupicínio Rodrigues, Nelson Coelho de Castro, Edu da Gaita, Bixo da Seda, Jaime Caetano Braun, Nei Lisboa e, agora, também dos PoETs. Um grupo que nasce de um berço esplêndido: o acaso e suas provocações e que surpreende por, talvez, não estar preocupado em surpreender. Um grupo que agrada pela música e pela palavra, muito certamente por não estar preocupado em agradar. Poesia é palavra que vem do grego. Tem a ver com fazer. O poeta é o que faz. O poeta é o que soma virtude e atitude e faz linguagem. Nos PoETs, a origem de tudo é a poesia. (Permitam-me, não se trata de um grupo, mas, de uma tribo.)

Os caras já surpreendem, pela formação. São três poetas da melhor qualidade que no palco e no CD, entretanto, não reproduzem praticamente nada das suas obras em livro. (Ou, quem sabe, absolutamente tudo.) Ronald Augusto, Ricardo Silvestrin e Alexandre Brito, acompanhados por músicos do primeiro time, ousaram desafiar todas as teses e retorcer o eterno tumulto que há quando se tenta estabelecer fronteiras entre poesia e letra de música. Não vou entrar nesta seara, mas, fica a necessária provocação para um debate futuro. Eu já conhecia e admirava o trabalho dos três poetas. Conhecer o CD e poder curti-lo na diversidade do meu gosto pessoal, me permite, por exemplo, ter tido o prazer imenso de ouvir várias vezes o disco, curtindo muito sempre, mas terminar de escrever este texto ouvindo o piano de Arthur Moreira Lima interpretando Piazzolla.

Na verdade, confesso que me surpreendi muito positivamente com a capacidade dos caras em unir qualidade e swing pop em um CD que é pop, mas também é rock, também é MPG (Música Popular Gaúcha)... Como se tudo fosse fruto de uma Milonga tocada por Hendrix. Poesia é isso? Penso que é (também). Afinal, poesia é música. (E, como diria Décio Pignatari, algum gênero das artes plásticas.) Certamente que pautados antropológica e antropofagicamente pelos Beatles e por Manuel Bandeira, os PoETs passam a figurar no cenário musical brasileiro como expressão do que pode ser ouvido em Alegrete-RS ou Santarém-PA, com o mesmo nível de sedução do público e de instigação positiva do ouvido mais apurado, mais crítico. Há uma enorme complexidade em um trabalho, aparentemente, simples. Já participei da produção de grandes eventos, com artistas de calibre. Sempre me interessou muito mais as reações do público, nestes casos. Em relação aos PoETs, vejo que prepondera a capacidade de comunicação das letras e a beleza das melodias. Considerando que se trata de três poetas com uma obra literária, individualmente, bastante singular e, sobretudo, interessante sob todos os aspectos. No entanto, musicalmente os caras alcançam tamanho nível de sedução estética que chamam a atenção no primeiro acorde, dos ouvidos mais sensíveis aos mais desatentos.

Um pouco mais sobre eles? Bem, Ronald Augusto, certamente figura entre os poetas mais complexos e interessantes da nova safra brasileira. Escritor, compositor e crítico publicou, entre outros, o excelente “No Assoalho Duro”, pela Éblis. Ricardo Silvestrin também é um excelente poeta. É professor de literatura, editor do selo AMEOP. Publicou “O Menos Vendido”, pela Nankin (que torço para ser o mais lido). Alexandre Brito é poeta, editor da AMEOP, músico e produtor cultural. Um mano que duela incessantemente com as palavras e seus ritmos. Os três formam os PoETs. Certamente que todos têm currículos bem, mais intensos e imensos, mas cabe aqui apenas um breve perfil desses três artistas que bailam em palavras e melodias. Pelo jeito ainda sobrou tempo aos três para uma articulação de primeiro time, criando esta banda de poetas que o Brasil precisa conhecer para, de prima (como se diz), ouvir sem parar e gostar muito, sabendo que inteligência, em qualquer área, é o melhor legado do artista.

O CD “Os PoETs” nos traz de volta uma reflexão acerca do que é, realmente, novo na Música Brasileira Contemporânea. Nos tempos de Mariana Aydar, Tulipa Ruiz, Gilberto Gil, Zeca Baleiro, Chico Cesar e outras feras, cabe um tanto assim de ufologia. Parece que estamos longe dos busca-pés vanguardistas que estabeleciam a necessária tensão entre a arte e a atenção de uma sociedade desigual, escandalizada, não exatamente pela vanguarda, mas pela diferença. Pelo questionamento ao gosto estabelecido. Margarida Patriota escreveu com propriedade em “Modernidade e Vanguarda nas Artes” (Oficina Editorial), “as vanguardas se emasculam numa sociedade que as acata”. Os PoETs, surgem também de uma releitura disso tudo, mas, sobretudo, de uma contemporaneidade que se descobre a cada passo, a cada pássaro na garganta. Nos tempos de agora o exato é catar germe no trigal, onde tudo é vida e prolifera. Afinal, até do mangue, sai arte. Caso contrário, o Brasil e o mundo não teriam conhecido Chico Science.

Despreocupados com a rotulação da música que fazem, os PoETs iniciam uma trajetória na música brasileira que, sem permissão de Nostradamus, podemos vislumbrar enquanto promissora do ponto de vista do mercado musical brasileiro e transformadora do ponto de vista da qualidade musical. Há uma empatia imediata com a audição do que esses meninos estão a compor lá pelas bandas de Porto Alegre. “Música bacana e letra legal”. É a fórmula para a sedução de um público que, certamente, está crescendo e se tornando fiel a cada instante, seja pelos canais cibernéticos, seja pelo tom frenético dos shows, seja pela credibilidade artística de três poetas da melhor safra gaúcha, numa varredura de conceitos que nos faz pensar como DJ Dolores: “que som é esse”?


Dois vídeos dos PoETs:

http://www.youtube.com/watch?v=jhNErVc3Ga0

http://www.youtube.com/watch?v=A_2FcuPknjc

sábado, 21 de novembro de 2009

A Feira do Livro de Porto Alegre entre os interesses do mercado e os da sociedade



Lau Siqueira

Há 25 anos não pisava na Feira do Livro de Porto Alegre. Um hiato bastante significativo para uma observação diferenciada de quem foi testemunhando as transformações cotidianas deste grande evento. Fui habitante assíduo daquele espaço. Visitante diário. Um “rato de feira”, como se diz. Se bem que sempre preferi ser apenas mais um ácaro. Na época não me parecia necessário refletir sobre os destinos da Feira, uma vez que eu era apenas um consumidor das minhas parcas possibilidades. Mesmo assim, notei que naquele tempo era possível encontrar Proust e Balzac nos balaios, coisa que nesta minha última visita pareceu absolutamente improvável. Até porque o gigantismo da Feira impediu uma investigação minuciosa em duas tardes de intenso “fuçamento” em balaios e stands.

O que me parece um primeiro e lamentável equívoco é observar-se a Feira do Livro de Porto Alegre apenas do ponto de vista do interesse econômico dos livreiros. Sim, a venda dos livros pode mesmo ter despencado 17%, conforme afirma a Câmara Riograndense do Livro. No entanto, dois aspectos precisam ser observados. O primeiro deles é a fuga do controle dos livreiros sobre a economia gerada pela Feira em seu entorno. Ou seja: precisamos observar o boom na área da economia criativa da cidade durante o evento, coisa que somente os incautos e os espertos entenderão que se resume à venda de livros. O segundo ponto a ser observado é comum na maioria dos eventos literários: a marginalização do autor e do leitor. Ou seja, o pecado da gula dos livreiros me parece que vem provocando um acentuado desprezo pelo início e pelo fim da cadeia produtiva do livro. Se isso é grave? É letal para um evento com a tradição da Feira do Livro de Porto Alegre.

Entrementes, não me parece que esse seja um problema específico da Feira do Livro de Porto Alegre. Ano passado, na Bienal do Livro de Fortaleza, participei de um debate com o “manda-chuvas” do Programa Nacional do Livro e da Leitura, José Castilho, sobre a circulação do livro no Nordeste. Tudo com um interesse, a princípio, radicalmente direcionado aos livreiros. Mais uma vez ao início e ao fim da cadeia produtiva do livro restou apenas o direito de levar um “cascudo”, em caso de questionamento. Foi o que aconteceu quando levantei o fato e recebi uma resposta bastante monossilábica e enjoada do Dr. José Castilho. O papo estava encerrado sem ter começado. Entrei na lista de discussões pela internet, acerca do mesmo tema, oriunda desse mesmo encontro de Fortaleza. No entanto, notei que os debates persistiam na filosofia da minhoca (sem cabeça e sem rabo). O autor e o leitor são detalhes insignificantes na lógica do mercado livreiro. Este fato me parece estranhamente consumado e lamentavelmente ignorado tanto pelos escritores quanto pelos consumidores de boa literatura. Podemos conferir, por exemplo, a insignificância de queixas nos Procons, contra livrarias e distribuidoras. E isso é péssimo porque qualquer mercado somente aceita o ajuste da marretada no cofre em nome dos direitos de cidadania.

Outras observações eu faria, mas ao abordar esses extremos, mesmo de forma jocosa (e não menos séria), o que eu quero dizer é que os problemas da Feira do Livro de Porto Alegre não são exclusivos deste magnífico evento que se sente sufocado pelo próprio gigantismo atingido. Todavia, devemos entender que é a própria visão do mercado do livro brasileiro que sofre de um retraimento devido ao pecado da gula do empresariado do setor. Por exemplo, a Feira do Livro foi sendo espichada até o Cais, certamente que com nenhum objetivo de afundar no Guayba. No entanto seus organizadores esqueceram que estavam, com isto, subtraindo de forma pouco inteligente o espaço de estacionamento dos consumidores. Desta forma, ou a clientela da Feira precisava escolher o tipo de assalto a ser submetida antes de cair nos preços pouco convidativos dos stands. Ou deixava o carro a mercê dos preços extorsivos praticados pelos estacionamentos do centro de Porto Alegre, ou aventurava-se deixando-o, por exemplo, no Alto da Bronze ou Parque da Marinha, arriscando-se em uma caminhada absolutamente insegura num centro charmoso, mas lamentavelmente abandonado pelas políticas de segurança pública.

Se não pensarmos que nada disso possa ter influência na queda das vendas, então podemos embarcar na canoa furada das opiniões vazias, como algumas que li nos jornais. Umas apontando para o conforto de comprar livros nas grandes redes de livrarias acopladas aos shoppings, outras citando até mesmo o “lamentável” progresso cibernético. Houve quem afirmasse, em um jornal local, que “há dez anos tinha conexão discada e que agora acessa tudo no Google”, como argumento à queda nas vendas dos livros. O mais lamentável disso tudo é que esse tipo de argumento pode levar uma reflexão sobre a Feira do Livro para um rumo inimaginável, historicamente falando, em termos de cultura livreira numa terra de grandes escritores como é o Rio Grande do Sul.

Parece-me coerente observar que a organização da Feira, assim como a maioria dos eventos literários, trata o autor (principalmente os emergentes), praticamente como intrusos e aproveitadores do mercado e os leitores, como uma massa a ser conduzida para os mais vagabundos caminhos da leitura fácil. Até porque o leitor crítico, ou seja, o amante da boa literatura é bastante chato e exigente. Não quanto a qualidade do ar rarefeito disputado pelas multidões da Feira, mas quanto a qualidade das obras à venda. Neste aspecto, sinceramente, achei mais cultural ser atendido pelos simpáticos atendentes do tradicional Cachorro do Rosário. A quantidade de stands da Feira, infelizmente, pouco respondeu em relação às necessidades básicas dos amantes da boa literatura. Em alguns, nunca vi tanto lixo impresso reunido. Parece que se optou mesmo em transformar a Feira num grande açougue de palavras. Não me pareceu importante refletir sobre a qualidade do produto oferecido. Me contaram que até mesmo os Jabutis e os Açorianos eram matéria rara (eu mesmo, nem vi).

Por outro lado, os stands das universidades gaúchas optaram por desconhecer completamente a realidade do tradicional público da Feira, optando pela exposição esmagadora dos chamados “livros técnicos”. Nas que visitei encontrei livros até mesmo de Educação Física (o que é muito bom), mas retratavam a completa desconexão da produção livreira das universidades gaúchas com a emergente produção teórica e criativa da terra de Moacyr Scliar, Carlos Nejar, Luiz Fernando Veríssimo e Donald Shuller. (Só para citar alguns dos grandes nomes gaúchos que orgulham a Literatura do Brasil.) Claro, impossível num contexto assim, repercutir o que vem sendo produzido pelos novos escritores gaúchos. Muito especialmente pelos de qualidade inquestionável. Esses, parece que já nem acreditam mais nas instituições e, muito menos, no chamado mercado do livro. A aventura dos blogs parece bem mais atraente que o Muro de Berlim das grandes editoras.

Portanto, analisando um evento como este, concluo que não há qualquer aposta do mercado do livro na Literatura. Mesmo os autores consagrados foram banidos dos planos deste lucrativo mercado. Isso não é privilégio da Feira do Livro de Porto Alegre. As vendas despencaram 17%? Sim, mas que tipo de reflexão isso pode gerar? Uma completa e covarde capitulação diante da lógica do mercado e do mau uso do conhecimento gerado pela cibercultura? Como diria, talvez, Pierre Levy, o consumidor da Feira do Livro de Porto Alegre ou de qualquer outro evento do gênero espalhado pelo país, ainda é “o mesmo homem que fala, enterra seus mortos e talha o sílex. Propagando-se até nós, o fogo de Prometeu cozinha os alimentos, endurece a argila, funde os metais, alimenta a máquina a vapor, corre nos cabos de alta-tensão, queima as centrais nucleares, explode nas armas e engenhos de destruição.” Portanto, não venham justificar a queda na venda dos livros com balelas desgastadas e de reflexão suprimida. Afinal, é o próprio modelo selvagem do capitalismo da Feira que está em franca decadência. Em alguns países, como a Austrália e a Inglaterra, a economia criativa (ou seja, a economia do conhecimento) transformou-se num vetor de desenvolvimento. Tony Blair chegou a criar o Ministério das Indústrias Criativas (sem chaminés) para gerir um setor que já domina 8% do Produto Interno Bruto Mundial.

A única saída para um evento do porte da Feira do Livro de Porto alegre é a Literatura. Da tradição à vanguarda. Dos clássicos aos contemporâneos. Parece que faltou cardápio num ambiente de intensa “degustação literária” como a praça da Alfândega. A produção emergente, a cena atual, precisa ter lugar de destaque e não apenas o cumprimento de agendas espremidas. Finalizo com o cochicho de Cavalheiro, um militar aposentado que, diante do stand (maravilhoso) da Caixa, o Degustação Literária, durante a palestra dinâmica de Laís Chaffe, recitou Olavo Bilac no meu ouvido e se queixou: “os grandes escritores foram banidos da Feira. O que resta de Literatura nessa Babilônia é muito pouco.” Isto vindo de um homem que testemunhou o nascimento da Feira, precisa ter algum eco entre a confraria dos patronos que a Câmara Riograndese do Livro concebe como único fórum legítimo para este debate. Um debate, aliás, que precisa ser maior que o sufocamento ao qual a Feira foi submetida devido à supremacia dos interesses imediatos dos livreiros. Livreiros que, aliás, não se preocupam minimamente com os mínimos detalhes, como o treinamento dos seus vendedores. As vendas despencaram? Sim, mas o que é que havia de atrativo aos consumidores? Livro não se compra por quilo. Pelo menos isso os livreiros deveriam entender.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A aventura mínima de Laís Chaffe e Marcelo Spalding



Lau Siqueira
O livro Minicontos & muito menos teve sua tarde de autógrafos no dia 12 de novembro, na Feira do Livro de Porto Alegre. Em todos os sentidos os seus autores buscaram a lógica dos pássaros: o máximo de canto no mínimo de corpo. Barbaramente ilustrado por Alexandre Oliveira, o livro de Laís Chaffe e Marcelo Spalding é apresentado por um design gráfico bastante criterioso chamado Auracebio Pereira. Tudo isso embalado pelo projeto editorial Casa Verde que já podemos considerar bem sucedido. Somente a série Lilliput já alcança seu quinto volume. Numa proposta conjugada, Marcelo e Laís desafiam a teoria errante que cerca a história do miniconto. Lembro que, também em Porto Alegre, ano passado, ouvi José Eduardo Degrazzia levantar a hipótese de serem as prosas poéticas de Baudelaire, a possível origem desse gênero instigante.

Partindo do raciocínio de Degrazzia podemos observar que o miniconto se aproxima mesmo da poesia em alguns aspectos. Principalmente quanto a impossibilidade de realizarmos uma leitura linear, tanto em um quanto em outro gênero. Na verdade, o miniconto também nos exige uma leitura em rede, algo que transporta o leitor na busca de uma completude, seja em leituras anteriores, seja em observações sobre a própria vida. Refletir sobre miniconto, nos carrega até o pensamento de Roberto Acíseo se Sousa em Teoria da Literatura (série princípios, Ed. Ática): “o que problematiza pela primeira vez a literatura é a própria literatura.

Assim, lendo este livro podemos afirmar que o que problematiza a teoria do miniconto é o próprio miniconto. Especialmente no caso específico de Laís e Marcelo. Pelo que pudemos perceber num primeiro olhar sobre a obra, a despeito das acentuadas diferenças de estilo, ambos vão construindo pequenos ensaios em textos curtíssimos (ou nem tanto), de profunda qualidade literária. Sobretudo pela imensa capacidade de causar espantos até mesmo no leitor mais atento, mais inclinado ao mergulho nas infinitas possibilidades de uma narrativa. Entre outras coisas, esse Minicontos e muito menos nos revela a vigorosa capacidade de renovação de uma literatura que já produziu nomes como Érico Veríssimo, Mário Quintana, Moacyr Scliar, João Gilberto Noll, entre outros que preencheriam uma referência bastante substantiva dentro da História da Literatura de Língua Portuguesa.

As pequenas pancadas narrativas de Laís Chaffe, ora lúdicas, ora líricas, reveladoras de uma ironia suavemente machadiana, conjugada com uma tonalidade bastante descritiva do discurso jornalístico, abrem um dos lados de um livro de múltiplas faces. Uma escrita que nos trás pérolas como “Genuflexório”: (“- Irmã? / - Sim, padre? / - Não aconteceu nada aqui, está bem? / - Louvado seja Deus Nosso Senhor. / Amem.”). Crítica social, crítica de costumes, revelações da natureza humana. Tudo num texto muito bem composto em sua própria nudez. Por outro lado, parece-nos um natural contraponto o texto de Spalding, sugerindo-nos um olhar transversal que ao mesmo tempo integra, dando uma idéia de conjunto (como se cada miniconto fosse um parágrafo de um mesmo texto), ao mesmo tempo que tumultua a possibilidade de uma leitura lógica (ou seja: é isso e nada disso). O autor vai tramando, na verdade, um corte diferencial até mesmo de uma frase para outra. Ou na mesma frase: “Quando acordou, já não estava mais lá” (talvez este seja um dos menores contos do mundo).

Podemos afirmar que houve uma natural afinidade entre Laís Chaffe e Marcelo Spalding, para a construção de um livro que se consolida tanto pela qualidade gráfica quanto pela complementaridade dos autores, em textos mergulhados numa compreensão comum de um gênero que sugere sua própria afirmação no jogo das transgressões mútuas. Desta forma podemos arriscar uma assertiva quanto a feliz conexão de dois estilos bem distintos, com identidades estéticas definidas, que vão nos jogando na volúpia de uma teoria do miniconto que se traduz na própria obra, abrigando um perau cuja própria condição íngreme vai propondo um conjunto de sensações que não se rendem à mesmice. Tudo isso transbordando de dentro de uma tradição literária que se sustenta no questionamento dos seus próprios processos de busca na sedução do leitor. De nada mais precisa a nova Literatura brasileira para afirmar-se no tempo.

Não estamos inventando nada. Na travessia do século XIX para o século XX, dizia-se que os estudos da literatura ancoravam-se nos aspectos mais científicos, onde o texto pouco importava, uma vez que havia uma determinação de explicar a literatura através das circunstâncias vividas pelo autor e suas ambientações inventivas. Neste início de século XXI, por alguns bons motivos, podemos especular a possibilidade de um texto ser, ao mesmo tempo, objeto de criação e de reflexão sobre ele mesmo. Por isso, Laís Chaffe e Marcelo Spalding podem estar inaugurando aqui uma nova era, uma nova perspectiva teórica para o miniconto. Elementos não nos faltam para a construção de um ensaio a esse respeito.
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Adquira o livro Minicontos e muito menos, pelo site da Editora Casa Verde: http://www.casaverde.art.br/ . Literatura gaúcha contemporânea de qualidade.

domingo, 25 de outubro de 2009

O lirismo futurista na música de Flávia Muniz



Por Lau Siqueira

Impressiona sempre a capacidade de renovação da Música Popular Brasileira. Do universo pop às tradições da Bossa, do Metal ao Baião. Isso quando o olhar se torna mais amplo sobre conceitos de MPB. Não poderia ser diferente uma vez que as novas gerações, desde o Tropicalismo, permanecem cruzando a ponte da tradição aos chamados tempos modernos. Existem artistas que, historicamente, guardam singularidades que nos fazem tecer um olhar mais atento às suas obras e trajetórias. Flávia Muniz é uma dessas artistas. Leva ao palco as palavras mais exatas para o contexto de uma música que evoca, de certa forma, o que brotou no Lira Paulistana e outros palcos vanguardistas. Até mesmo no Tropicalismo, com um acentuado olhar sobre a figura do poeta Torquato Neto. Logicamente, o que vivemos agora é exatamente a configuração de todas essas teias em outro contexto histórico da MPB. Penso que Flávia expressa bem essas transcendências.

Podemos, num primeiro momento, concluir que a palavra é o fator de determinação na música de Flávia Muniz. É exatamente a palavra e os rigores da poesia que determinam a musicalidade de uma artista inquieta, insubmissa frente ao que está esteticamente posto. Estamos diante de uma criadora absolutamente atenta às perspectivas da música mundial que respira fora das engrenagens sufocantes da cultura de massas. Assim, dentro da cena musical brasileira deste início de milênio, Flávia Muniz experimenta o transbordamento através da vertigem de beber em todas as fontes, parindo um som que não guarda segredos de si, pois fornece, integralmente, os mesmos elementos de sedução em cada nota, em cada palavra cantada. Ouvi-la instiga profundamente toda mente afeita aos manjares estéticos de qualquer espécie ou estilo.

Para quem ainda não sabe, Flávia não é estreante. Ela vem de um contexto. Tive a oportunidade de conhecê-la como vocalista da ótima banda carioca, Luisa Mandou Um Beijo. Cujo trabalho, aliás, guarda o respeito de músicos e pensadores bastante expressivos, da MPB. Bons músicos. Bom repertório. Letras instigantes. Na verdade a banda é uma provocação à vanguarda. É como se algo fosse brotar exatamente duma transversalidade provocativa entre o clichê e a experimentação. Entrementes é inegável, também, que Flávia Muniz começa a destacar-se enquanto criadora, na cena musical do Rio de Janeiro e do Brasil. Principalmente por uma inegável personalidade artística que a conduz a um tipo de composição musical que não se rende aos apelos fáceis e, ao mesmo tempo, fecha as portas ao hermetismo estéril. Ela é construtora de um estilo que bebe nas melhores fontes da canção popular brasileira, sem negar a embriaguês necessária das vanguardas, sem abrir mão da possibilidade de construção de um lirismo absoluto e íntimo. Flávia parte de uma construção absolutamente pessoal para empreender uma leitura musical aberta às melhores influências do planeta. Ela habita uma certa plenitude quanto ao conceito de Obra Aberta, de Umberto Eco.

Leitora atenta, dos livros e do mundo, Flávia representa divinamente, em suas composições, o elo entre o poema e a música. Algo que se completa com uma performance de palco que, sem pirotecnias cênicas, guarda um grau elevado de elaboração. Uma elaboração que vem do instinto da artista, logicamente, mas também da sua formação acadêmica na área da Música Popular Brasileira. Ou seja: a artista construiu uma identidade tal que é praticamente impossível que seu trabalho solo não alcance, também, o respeito que Luisa Mandou um Beijo ganhou e, talvez, até mesmo ampliando espaços na visibilidade musical brasileira. A tecnologia, neste caso, favorece a arte. Pela internet é possível ver seus clips em qualquer lugar do mundo. Certamente que a agradável experiência de ouvir essa cantora carioca se espalhará como o vento, pelos mais distantes rincões. Principalmente, despertará a atenção dos que pensam a MPB com um olhar mais contemporâneo, de Cartola à Itamar Assunção.

São muitas as ocorrências que nos fazem pensar a musicalidade absolutamente poética de Flávia Muniz. Suas composições são suaves provocações aos sentidos. É uma música que chega como um alerta, seja ecológico, seja existencial, seja estético. Estamos diante de uma artista que, mais do que tudo, experimenta vestir-se inteiramente com a mesma identidade artística, com a mesma personalidade de encarar o palco como espaço de permanentes experimentações. Especialmente dentro de uma linguagem que é, também, teatral. Muito ainda haverá de se comentar e escrever sobre o trabalho de Flávia Muniz, mas neste momento são as impressões que trazemos aos que buscam informações acerca desta cantora que encanta pelas suas interpretações de extrema singularidade e pelo seu inegável talento como compositora.

sábado, 17 de outubro de 2009

As oligarquias decadentes e seus ódios repugnantes


Por Lau Siqueira

Impressionante o artigo "A cidade de todos" publicado pelo colunista social Abelardo Jurema Filho, no Jornal Correio da Paraíba. Desta vez Abelardo extrapolou ao ocupar a coluna "Opinião" para demonstrar sua repulsa ao belíssimo monumento dedicado ao romance A Pedra do Reino. Uma justa homenagem da Prefeitura ao escritor paraibano Ariano Suassuna, nascido exatamente no Palácio da Redenção. A obra é assinada pelo consagrado artista plástico Miguel dos Santos e está instalada na Lagoa do Parque Solon de Lucena, num cenário de paraíso. O artigo é lamentável sob vários aspectos. Principalmente porque não se trata de uma crítica estética, mesmo que inocentemente fundamentada. O texto limita-se a demonstrar o ódio familiar que alimenta o “coronelismo fashion” que ainda domina alguns dos setores privilegiados da sociedade paraibana. Um ódio que se esparrama pelos becos. Por motivos não menos lamentáveis, o conservador Ariano não pronuncia o nome da capital da Paraíba. Parece que nem o tempo está sendo capaz de banir tamanha estupidez.

Inquestionável o valor da obra de Miguel dos Santos. Inquestionável o resgate de Ariano Suassuna para a cultura paraibana. Mas, o ódio oligarca que perdura por esses tempos modernos é um atentado ao bom senso. Afinal, com tanta violência permeando nossos dias, a cultura de paz precisa ser lembrada. Especialmente pelos formadores de opinião. Lamentável que pessoas públicas continuem disseminando um ódio histórico que em nada envolve a memória do povo. Um ódio que semeou através dos tempos uma única coisa: o atraso político e econômico do Estado. Não que seja preciso negar os episódios que culminaram com o assassinato de João Pessoa e levaram à morte uma das mais instigantes personagens da história do Estado, Anayde Beiriz. Certamente um nome que ainda perturba o sentimento medieval disfarçado em “mágoas de família” e que de tão enraizado, ainda perturba corações e mentes. O mais grave de tudo é que, mais uma vez, sobrou para uma obra de arte. Um totem que foi postado exatamente no chamado Cartão Postal da cidade com o objetivo de resgatar uma história que vem sendo, através dos tempos, sumariamente suprimida pelos interesses mesquinhos de uma elite que não se sustenta em idéias e princípios, mas em interesses muito particulares e ódios incendiários.

Incapaz de dimensionar a importância da obra exatamente pelos motivos acima expostos, Abelardo demonstra a sua incapacidade enquanto homem de imprensa ao se referir ao trabalho de Miguel dos Santos (artista que orgulha o povo pessoense), como “algo de gosto duvidoso”. Por que não explicita seu gosto? Seria digno entrarmos aqui num debate estético. Afinal, a arte existe exatamente para despertar o sentimento crítico e lúdico do povo. Uma arte que não provoca, não merece espaço na história. Por isso a obra de Miguel dos Santos em homenagem ao escritor paraibano (nascido numa capital que ainda não se chamava João Pessoa) ganha cotidianamente um fôlego novo para que uma nova ordem social e política seja estabelecida. Um tempo em que o ódio familiar não seja determinante no comportamento político de segmentos parasitários do poder.

Resgatar a cidadania paraibana de um dos escritores de maior consagração no Brasil e no exterior deveria ser algo inquestionável, uma vez que não raras vezes se diz que o povo paraibano ainda tem problemas de auto-estima. Por outro lado, apesar de ter retomado uma certa relação de amor com a Paraíba, Ariano ainda precisa se livrar de um acúmulo de ranços que já não nos dizem nada. Não há mais espaço para um ódio tão violento ainda expressado publicamente desta maneira. Os tempos são outros. A população é outra. A cidade é outra. Não importa o nome. Não sou favorável à mudança do nome. Mas, não sou favorável também que se jogue na lata de lixo da história, 424 anos de história, somente para acariciar a vaidade e a soberba de uma elite que, não raras vezes, nos envergonha por suas atitudes. Esse ódio atrapalha a Paraíba. E como atrapalha! Principalmente porque se reproduz nas micro-oligarquias que dominam politicamente o Estado. Um poder pouco democrático que a cada eleição coleciona cadáveres por sucumbir no jogo das idéias e do interesse público. O povo é apenas um detalhe para esses senhores.

O texto do colunista social Abelardo Jurema é um tipo de pistolagem como os que ainda violentam a vida na Paraíba. São vertentes do mesmo ódio. Uma violência verbal que se justifica no injustificável. Como difundir uma Cultura de Paz fechando os olhos para tamanha ignorância histórica? Uma ignorância de lado a lado que não leva em conta o quanto é vergonhoso constatarmos tão solenemente que ainda precisamos desmontar a lógica vingativa do poder oligarca. A lógica das poderosas famílias que sustentam ainda hoje as enormes diferenças sociais que fazem da vida nesta bela cidade, não raras vezes, um abismo onde até mesmo o silêncio faz eco. O povo paraibano é infinitamente superior às suas elites e saberá dizer não ao descalabro de termos ainda os interesses e as vaidades familiares, tão simbolicamente ficadas na expressão de quem deveria, sem nada de novo para dizer, por uma questão de bom senso, calar-se diante da grandiosidade da história e de um povo enriquecido pela sua cultura e pela generosidade geográfica do seu território. Os tempos são outros, senhores! Que esse ódio oligarca não embarque um futuro que as novas gerações precisam construir. O Haiti, não é aqui.

sábado, 10 de outubro de 2009

Economia criativa e o futuro das cidades


Por Lau Siqueira

Às vezes precisamos dizer o óbvio. Então, vamos lá: somente a inteligência poderá nos salvar da miséria. Pronto, está dito. E sigamos em frente: toda transformação política e social se dá, de forma majoritária, na estrutura dos sistemas econômicos. Sem mexer na ordem econômica, nada muda. Começo assim esta reflexão também por um motivo óbvio. O debate cultural brasileiro, a partir da gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura, vem sendo instigado pelas potencialidades da economia da cultura em nosso país. Um setor que já ocupa 8% do Produto Interno Bruto Mundial. No Brasil, a cultura sozinha gera 5% dos postos de trabalho e paga salários acima da média nacional.

Convidado para facilitar uma mesa sobre cultura e economia criativa na II Conferência Municipal de Cultura comecei a pensar sobre este conceito tão novo. Lembrei logo de Monteiro Lobato que, em termos de criatividade empreendedora, foi um mestre. Na década de trinta eram poucas as livrarias brasileiras. No entanto, o escritor não se rendeu diante do desejo de ver sua obra distribuída pelo Brasil. Então, conseguiu o endereço de mais de duas mil casas comerciais. Eram mercearias, farmácias, armazéns e outros estabelecimentos. Escreveu uma carta circular com a seguinte pergunta: “Você quer vender também uma coisa chamada livro?” E assim começou a distribuir sues livros para todo o país.

Portanto, as grandes redes de supermercado e as bancas de jornais que também vendem livros, não estão fazendo outra coisa se não seguir os passos de Lobato. Essa questão me veio na memória logo após o convite da Fundação Cultural de João Pessoa, por uma questão muito simples: como reagir diante de dificuldades tão imensas? Não se trata apenas de expor um novo conceito de economia, mas de recolher idéias que sejam absolutamente transformadoras. Como provocar, também, um debate que não esteja somente guardado em propostas para uma conferência estadual e outra nacional? Na verdade, interessa que a Conferência Municipal de Cultura não apenas envie propostas. Sobretudo é preciso sacudir a roseira e propor a permanência do debate local acerca das questões que envolvem direta e indiretamente os interesses de artistas, produtores e demais profissionais da área da cultura.

Antes de pesquisar o conceito, percebi que a provocação era bem maior. Os artistas, setor majoritário nessas conferências, estariam sendo provocados para uma ação transformadora da ordem econômica. Principalmente pela certeza que não são apenas os artistas que estão sendo provocados, mas setores ligados à cultura e até então excluídos do debate econômico. (Como se aos artistas apenas interessassem as questões estéticas.) Parti para uma breve pesquisa e descobri outras obviedades. A proposta é muito mais ampla e o interesse não é nenhum pouco corporativo. Os incautos que se liguem. O país busca alternativas para a superação dos seus problemas neste início de milênio. É preciso abandonar o lugar comum da competição predatória marcada pela antropofagia capitalista. Desenvolvimento não pode ser sinônimo de destruição. Ou seja: se trata de algo que pode e precisa dialogar com idéias já estabelecidas de desenvolvimento sustentável e economia solidária, por exemplo. Esta pode ser uma das linhas do debate. A economia da cultura, portanto, passa a ser um dos principais vetores de uma transgressão da lógica do capitalismo mundial.

Em relação à Economia Criativa propriamente dita, os conceitos abundam. Dizem que tudo nasceu na Austrália no final dos anos 90 e se desenvolveu de forma mais elaborada na Inglaterra do primeiro ministro Tony Blair. É algo que se refere ao conhecimento e à produção intelectual de um modo geral. Compreendi melhor quando li o que escreveu o editor chefe do Business Week, Stephen B. Shepard: “Assim como a moeda de troca das empresas do Século XX eram os seus produtos físicos, a moeda das corporações do Século XXI serão as idéias. A Economia Industrial está rapidamente dando lugar à Economia da Criatividade. Vantagens competitivas desfrutadas por grandes empresas no passado são agora totalmente disponíveis para novas empresas em formação, graças à enorme disponibilidade de capital e ao poder da Internet. Com a globalização ainda num estágio recente, a Internet promete afetar as corporações muito mais nos próximos 20 anos do que foi possível fazê-lo nos últimos 5 anos. Nós não esperamos nada menos do que uma transformação radical dessas organizações num cenário em que a economia global privilegiará a criatividade, a inovação e a velocidade.” Também um professor norte-americano chamado Richard Florida, da Universidade de Carnegie Mellon, chamou a atenção. Ele adota o conceito da “Economia Criativa”, abordando questões educacionais e sócio-culturais. Mr. Florida desenvolve um conceito bastante amplo de Economia Criativa. Algo que envolve todos os profissionais e setores que oferecem serviços baseados no conhecimento. É isso ou deve ser isso que deve nortear o debate na Conferência e fora dela. Na verdade, a economia da cultura começa a ficar robusta diante do fantasma da globalização. Aqui no Brasil já é 5% do PIB. Um índice alto, mas que ao mesmo tempo nos revela uma coisa também óbvia: onde está esse dinheiro? Por que pensar a cultura somente a partir dos índices de governos? Qual o papel das políticas de cultura na transformação social? Estamos diante de um grande desafio, na verdade. Não há receita de bolo. Estamos apenas preparando a massa. Em última análise, voltamos a perceber o quanto Monteiro Lobato era mesmo um visionário. Também neste período ele escreveu o livro O Presidente Negro, prevendo que numa disputa entre um homem branco e uma mulher branca, um negro seria presidente dos Estados Unidos. No mesmo romance, ele já previa a transmissão de dados. Portanto, sigamos em frente! Quem sabe não descobrimos mais coisas relendo “As Reinações de Narizinho”?

sábado, 26 de setembro de 2009

A poesia como ponto de partida.


Por Lau Siqueira
Nos últimos anos tenho acompanhado razoavelmente o debate acerca da importância da poesia, enquanto gênero literário. Em 2005 recebi uma provocação do Festival Recifense de Literatura. Fui “intimado” pelo poeta Pedro Américo, para falar sobre poesia e mercado. Na época, um período bastante atribulado da minha vida profissional, somente pude dar atenção ao assunto uns cinco dias antes da palestra. Fiquei um tanto atônito porque não existiam referências, praticamente. Encontrei apenas um texto de Geir Campos, de décadas e décadas passadas. Pois não é que em “Carta aos Livreiros”, o poeta relatava exatamente o mesmo drama vivido pelos poetas do século XXI, em relação mercado editorial? Acabei escrevendo um texto para orientar a minha palestra, que acabei publicando na revista Discutindo Literatura e em alguns sites.

Existe aí uma questão que tem me instigado bastante. Apesar de ser um gênero considerado não comercial, os fatos nos mostram que a poesia é um dos gêneros mais lidos. Do ponto de vista do mercado editorial, os poetas desafiam os best Sellers através do tempo. Por exemplo, ninguém lembra quem eram os Best Sellers da época em que Baudelaire circulava pelas ruas de Paris. No entanto, o poeta francês continua vendendo nas livrarias do mundo inteiro. A coleção “Melhores Poemas”, da Global Editora, apresenta índices invejáveis de vendas. Somente o poeta Mário Quintana vendeu bem mais de 100 mil exemplares. Na margem do mercado, os cordelistas da Paraíba, num dos últimos festejos juninos da capital, chegaram a vender 800 exemplares em único final de semana.

A recente pesquisa, já citada por mim no blog Pele Sem Pele algumas vezes, “Retratos da leitura no Brasil”, editada pelo Instituto Pró-Livro, em parceria com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, traz dados atualíssimos (de 2007) e impressionantes. A pesquisa foi coordenada por Galeno Amorim, ex-secretário de cultura de Ribeirão Preto-SP e editada também sob sua orientação, com textos de dez especialistas. Entre eles, nomes de conhecidos como Moacir Sclyar. Esta pesquisa aponta a poesia entre os cinco gêneros preferidos dos leitores. Considerando-se entre esses gêneros o romance, os livros didáticos, os livros religiosos e a literatura infantil. Também segundo a pesquisa, seis poetas aparecem entre os 25 autores brasileiros mais lidos no país. Vinícius de Morais é o quinto autor na preferência dos brasileiros, somente para se ter uma idéia de uma lista que traz nomes como Monteiro Lobato (o primeiro de todos), Machado de Assis, Ariano Suassuna, Paulo Coelho, Bispo Edir Macedo, Clarice Lispector, etc. Não contabilizo aí o paraibano Ariano Suassuna como poeta, apesar de escrever poemas e ter na sua obra, segundo ele próprio, uma forte vertente poética.

Em recente entrevista ao programa Letra Lúdica, da TV UFPB, falei sobre o livro Retratos da Pesquisa. No entanto, notei que o editor do programa o poeta paraibano José Antônio Assunção, forçava a barra para que eu falasse mais e mais dos números impactantes da poesia na pesquisa. Então, desenvolvemos muito mais uma boa prosa sobre o tema que sobre os desvendamentos da pesquisa enquanto diagnóstico da leitura no país. Observamos, por exemplo, que o jovem é o grande leitor brasileiro. De um modo geral, observa-se também que há uma empatia da juventude para com a poesia. Basta ver o imenso sucesso editorial do Livro da Tribo entre os jovens brasileiros, publicado anualmente pela Editora da Tribo(SP). Poetas como Paulo Leminski, Alice Ruiz e até mesmo Augusto dos Anjos, aparecem nitidamente na preferência da juventude.

Onde quero chegar?
Se algo podemos comemorar nos últimos anos é exatamente a multiplicação de certa “militância” favorável às políticas de leitura. Militância esta que tem sido encontrada tanto no setor público, quanto em iniciativas particulares. Podemos citar entre estas, a de um catador de papel em São Paulo que montou uma biblioteca com mais de 16 mil títulos, num prédio abandonado. Detalhe: os livros foram todos apanhados em lixos residenciais. O projeto Dulcinéia Catadora, também em São Paulo, trabalha oficinas de artes plásticas, leitura e edição, a partir da poesia, principalmente. São inúmeros os exemplos brasileiros que nos levam a acreditar que a poesia é um dos principais vetores para uma política nacional de incentivo à leitura. Uma ação transformadora que não deveria se limitar ao repasse de verbas, mas fundamentalmente, às possibilidades de articulação intersetorial e transversal, principalmente das áreas de educação e cultura.

Isso significa, logicamente, uma ousada transgressão ao que existe hoje em termos de política educacional. Roland Barthes já dizia que a Literatura contém muitos saberes. No entanto, segundo Afrânio Coutinho no Livro Notas de Teoria Literária, “o ensino da Literatura deve emancipar-se da história e da filologia, campos verdadeiramente distintos (...)”. Ele diz também que, “a Literatura vem sendo ensinada por professores, na maioria de português, de mentalidade predominantemente filológica, a Literatura é tornada um subsídio da língua, confundindo-se análise gramatical com análise literária, análise sintática com análise estilística.” O que estamos propondo é uma inversão nessa lógica para que a Literatura desfrute de um espaço próprio, trabalhando muito mais intensamente o que realmente nos interessa: o prazer da leitura. O caráter estruturante das políticas de leitura, seguramente, elevará os níveis de ensino. Afinal, um bom leitor dificilmente será um mau aluno.

Logicamente que temos aqui uma série de vontades íntimas. A maior delas é nos transformarmos em um continente de leitores. Não tenho a menor dúvida que a poesia cumpre, nesse aspecto, um papel introdutório de toda uma política pública para o Livro e a leitura. A boa poesia seduz o leitor para qualquer gênero literário. É muito mais fácil, por exemplo, um leitor de poesia entender obras como Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, ou mesmo Ponto de Mutação, do Fritjot Capra. Pelo imenso grau de popularização da poesia, não estaríamos inventando a roda, mas fazendo-a andar mais rápido, como se diz por aí. Aliás, não podemos esquecer que a roda já está andando. Por exemplo, devemos reconhecer que há uma geração de professores nos cursos de Letras do país inteiro, trabalhando a literatura contemporânea em sala de aula (não apenas poesia). Ainda que predomine o conservadorismo acadêmico. Recentemente ouvi de um amigo que um professor iria fazer sua tese de doutorado sobre a sua poesia e foi desaconselhado por ser o meu amigo, um poeta desconhecido. Portanto, há muito que se avançar ainda em termos de “mudança de hábito”. Mas, as cartas estão na mesa e, não se enganem os incautos, o jogo já começou.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Ponto de Cem Réis – apenas uma opinião.

Por Lau Siqueira

Confesso que não me causam perplexidade alguma as reações acerca da restauração do Ponto de Cem Réis. A maioria, convenhamos, fruto de uma passionalidade tardia, ainda referente ao último pleito eleitoral. Mas, o despeito não merece contraponto. Deixemos de lado. Respeito, no entanto, algumas opiniões questionadoras do ponto de vista estético. Então me ponho a pensar: como seria uma simples e pura restauração daquele espaço nos moldes, digamos, da intervenção dos anos 70? O trânsito na Duque de Caxias seria reaberto?

Fotografias históricas do Ponto de Cem Réis nos anos 30 e as fotos da grande reforma realizada nos anos 70 nos fazem crer que o que está posto para aquele ponto da cidade é exatamente a sua adequação às necessidades dos tempos. Afinal, não está em questão a imensa trasformação que se deu nos anos 70, em relação à origem da Praça Vidal de Negreiros, o popular Ponto de Cem Réis, datada de 1924. E isso não está em questão porque as necessidades urbanísticas da cidade do início do século XX realmente eram outras. Portanto enterramos aí o primeiro mito.

Fotografias antigas nos mostram que nos anos 30 o trânsito dos bondes era determinante quanto as necessidades funcionais do local. Já nos anos 70, eram os automóveis que davam as cartas às intervenções urbanas. Entretanto, em muito pouco tempo houve uma defasagem desse modelo. A prova disso foi o fechamento do viaduto Damásio Franca e a preservação daquele espaço para a circulação de pessoas. Tudo dentro de um ambiente da mais pura degradação, diga-se de passagem. Isso nos faz pensar no óbvio. (E como é imprescindível, tantas vezes, pensar no óbvio!) Logicamente que os saudosistas não reivindicam os bondes e o charme provinciano da velha Parahyba do Norte. Resta, portanto, essa realidade que se arrastou através dos anos no mais puro abandono. Abandono, logicamente, sustentado no silêncio de muitos dos que agora “protestam” contra a preservação transformada do Ponto de Cem Réis, sem levar em conta que nada mais havia do aspecto urbanístico da sua origem, datada de 1924. Sem levar em conta, inclusive, a sua total inadequação para aquela região da cidade no formato que estava posto.

Os novos tempos, todavia, nos fazem pensar uma cidade na sua integralidade. É certo que a memória deve ser preservada. Contudo, poucos ainda lembram e muitos sequer sabem que no lugar da Praça Vidal de Negreiros, popularmente conhecida como Ponto de Cem Réis, exatamente onde hoje existe o Parahyba Pálace, havia a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos que desapareceu na primeira intervenção. O que foi feito nos anos 70, pelo arquiteto Mário Di Láscio mostrou-se, com o tempo, de uma beleza inadequada ao uso do espaço. A alça do viaduto Damásio Franca, por exemplo, ligando a avenida Padre Meira à rua Duque de Caxias, tornou-se rapidamente inútil e seu fechamento foi inevitável. Para que se entenda o que é o Ponto de Cem Réis hoje, precisamos lembrar no que havia se transformado. No entanto, não se poderá pensar em preservação e revitalização do Centro Histórico da terceira cidade mais antiga do Brasil, sem que sejam criadas as condições necessárias para isso. Cabe ao poder público nas suas três esferas, por exemplo, criar os estímulos. À iniciativa privada cabe a visão de futuro, investindo nos locais onde as possibilidades de lucratividade já são evidentes.

Por outro lado, devemos reconhecer que João Pessoa padeceu durante décadas da ausência de espaços adequados para a realização de manifestações e eventos públicos. Cada grande comício era um transtorno. Os grandes shows, por sua vez, não poderiam ser realizados no lugar mais democrático da cidade por absoluta inadequação do espaço. A Festa das Neves degradava-se através dos tempos e causava horror aos habitantes do bairro do Roger, com seus parques monstruosos, seus bêbados mijões, ou mesmo as barracas dos ambulantes em completo desacordo com a arquitetura do belo Centro Histórico. Até mesmo para que a Festa das Neves sobreviva com suas tradições, o novo espaço deve ser celebrado. Um breve deslocamento deverá torná-la menos danosa aos moradores e comerciantes, especialmente da rua Visconde de Pelotas.

A verdade é que a cidade ganhou o seu primeiro espaço livre para a realização de eventos culturais e manifestações populares. Finalmente temos um largo. Um espaço onde a democracia é a principal linguagem. Se está tudo maravilhoso? Logicamente que não. O prédio do INSS continua abandonado e, mais uma vez, invadido por famílias “sem casa”. O Parahyba Pálace, hoje alugado ao Governo do Estado, carece de pintura, pelo menos. A mesma coisa acontece com o Edifício Nações Unidas e outros prédios do entorno que, convenhamos estão mesmo pedindo providências dos seus proprietários. Outra intervenção no calçadão da Duque de Caxias, já foi anunciada pela Prefeitura. Logicamente que a iniciativa privada se sentirá estimulada a investir e em breve o visual da área será outro.

No mais, não me consta que o Sol fosse mais brando em meio ao abandono ao qual estava submetida a Praça Vidal de Negreiros. A bela arquitetura local, apesar de abandonada, foi valorizada com a nova intervenção. A sua revitalização é urgente. No entanto, se trata de uma área que precisará ser retomada pela população, com a convicção de estarmos em 2009 e não mais na década de 30, de frágil lembrança para tantos. Ou mesmo nos anos 70, quando a cidade também era outra.

Para finalizar, a estátua de Livardo Alves não representa outra coisa se não o respeito e, principalmente, a celebração da cultura e do povo paraibano. Livardo, compositor de alguns dos sucessos da música nordestina, era um dos símbolos do parlamento popular em que naturalmente se transformou o Ponto de Cem Réis em todas as suas fases e, certamente, nesta nova etapa da vida pessoense. Sua lembrança, em bronze, eterniza o romantismo de uma região da cidade que soube cumprir seus ciclos. Mas, que transformação radical não causa espantos? Muito especialmente nos espaços urbanos, onde tantas vezes a degradação gera apegos doentios. Na verdade, espaços abertos assustam quem teme a força de um povo que caminha para o futuro. Muita história ainda haverá de ser escrita pelo povo pessoense no novíssimo e belo Ponto de Cem Réis.

Indicação de leitura: Percepção e memória da cidade: o Ponto de Cem Réis (1)Jovanka Baracuhy C. Scocuglia, Carolina Chaves e Juliane Lins - http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp349.asp

sábado, 12 de setembro de 2009

O prazer da leitura e a coragem de mudar o mundo

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Por Lau Siqueira
Não são raras as vezes que me pego pensando no que se deixa de fazer com a pálida alegação da falta de recursos financeiros. Algumas experiências colhidas ao longo da vida me provaram que para algumas das questões mais significativas para um ser humano e para a sociedade, não é preciso recurso algum. O que precisamos é de atitude. O principal recurso é a nossa vontade. Uma das experiências concretas que me faz pensar assim é a existência da Biblioteca Cactus. Uma instituição comunitária criada e mantida por duas mulheres, Nina e Edeusa, em Mandacaru, um dos mais tradicionais bairros populares de João Pessoa. Para montar o acervo, certamente, Nina e Edusa, contaram a com a responsabilidade social do maior sebo da América latina, o Sebo Cultural com sede na cidade. De lá para cá elas vem aumentando o acervo, articulando atividades que mantém viva uma das maiores e mais importantes Bibliotecas Comunitárias do Nordeste. Experiências assim abundam pelo Brasil, sem muita visibilidade, mas esbanjando coragem. Aqui e ali chegam histórias que impressionam e me fazem pensar nos oportunistas de carteirinha que mexem os quadris em suas articulações, atrás das “facilidades” dos recursos públicos para a execução de projetos culturais e educacionais de consistência duvidosa.

Tomei conhecimento de outra experiência que também me impressionou bastante. Um catador de papel, em São Paulo, conseguiu reunir mais de 16 mil títulos catados no lixo residencial da cidade. Ele montou uma biblioteca num prédio abandonado, onde atende milhares de adultos e jovens que, certamente, a partir da leitura vão traçando uma nova perspectiva e um novo horizonte para as suas vidas. Boas experiências abundam pelo país. Aqui em João Pessoa, os projetos Tome Poesia e Tome Prosa, coordenado pelo poeta Antônio Mariano, provoca a leitura de poemas e textos em prosa no bar Noites Cariocas. Já a atriz Suzy Lopes mantém o projeto Café em Verso e Prosa no Empório Café, um dos mais agradáveis bares da praia de Tambaú. Nara Limeira, mestre em literatura e mestre na vida, conduz o projeto Palavra Plantada no agradável Parque Arruda Câmara. Projeto semelhante é mantido pela poeta Idalina de Carvalho, em uma praça de Cataguases-MG. Em São Paulo, Andréa Schmitz mantém o blog “Nosso Clube de Leitura” e um grupo de leitura na região onde vive. Nestes dois primeiros parágrafos fiz questão de citar alguns projetos grandiosos que não dependem de recursos financeiros de qualquer ordem para uma existência de absoluta consistência e coerência. Então me pergunto: o que impede avançarmos ainda mais, sabendo como sabemos que a leitura gera cidadania?

Somos um país com 16 milhões de analfabetos absolutos, ainda. Isso representa 9% da população. Brasileiros e brasileiras de até 15 anos ou mais que não conseguem sequer pegar um transporte público, sem ajuda de terceiros. Não quero ser catastrófico. É inegável que estamos avançando. Mas, tudo precisa ser pensado milimetricamente em termos de políticas públicas para, no mínimo, os próximos 20 anos. Não penso que possamos erigir políticas e comportamentos transformadores, em tempo mais curto. Se não pensarmos e não agirmos agora, nossos netos viverão a barbárie em toda a sua plenitude.

Num olhar mais atento para os percursos da história, observamos que na última década do século XIX, enquanto o Brasil contava com 87% de analfabetos, a França tinha 90% do seu povo devidamente alfabetizado. A Inglaterra, em 1900, possuía 97% da sua população alfabetizada. Introduzo esses dados para que compreendamos melhor os aspectos culturais da leitura em nosso país. A nação que colonizou o Brasil, Portugal, possuía de 20 a 30% de alfabetizados neste mesmo período. Também os países que traçaram as linhas mais densas da imigração brasileira, como Espanha e Itália, contavam com 50% de analfabetos. Na formação desse quadro, lá pelo século XII, “para ser culto era preciso ter fé.” As universidades eram clérigas. O que acabou produzindo os mendigos mais eruditos da história da humanidade. Os que não se adaptavam à “carreira” religiosa e aos caminhos apontados pela Igreja acabavam perambulando pelas ruas. Como o poeta francês François Villon, considerado um dos precursores do romantismo, nascido em 1432 e sumariamente desaparecido em 1463.

O livro retratos da leitura no Brasil, organizado por Galeno Amorim, ex-secretário de cultura de Ribeirão Preto-SP, resulta de uma pesquisa que nos deixa bastante animados em relação ás políticas de leitura no Brasil. Nos últimos anos temos visto um significativo avanço em diversas regiões. Certamente que ainda temos um longo caminho a percorrer. Precisamos estrutura os avanços em dois dos principais pilares das políticas sociais: educação e cultura. O professor Galeno empreendeu uma experiência referencial em Ribeirão Preto, criando um sistema de bibliotecas públicas. Aqui em João Pessoa, o ano de 2010 vai ser marcado pela inauguração da sua primeira biblioteca pública municipal. Um feito extraordinário para uma cidade de 424 anos de existência. Antes arte do que tarde, já dizia Pedro Osmar.

A pesquisa coordenada pelo professor Galeno nos revela alguns dados animadores e outros assustadores. Por exemplo, é animador o fato de ser Monteiro Lobato o autor mais lido pelos brasileiros. No entanto nos preocupa ser Paulo Coelho o segundo colocado. Isso revela que a leitura, no Brasil, é considerada como geradora de um tipo de status. Geralmente as pessoas procuram os títulos mais vendidos e não os melhores livros. Também é animadora a presença de seis poetas entre os 25 autores mais lidos. Mas, entristece sabermos que o Bispo Edir Macedo é mais lido que Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz e Clarice Lispector. É certo que estamos num bom caminho. No entanto surpreende-nos negativamente o fato de ainda contarmos com tantas vacilações em relação às políticas públicas para o livro e para a leitura. Ainda não se reconhece a importância estratégica dessa importante fonte de conhecimento que, na verdade, serve como suporte para qualquer política pública. A leitura possui importância estratégica para as políticas de desenvolvimento sustentável, por gerar uma melhor compreensão da realidade. Por gerar cidadania. As tentativas na área algumas vezes são confundidas até mesmo por “certa qualidade de escritores”, como a possibilidade de editar livros sem acesso ao mercado editorial. O que é lamentável sob todos os pontos de vista. Porque, em geral, se trata de autores que não valem uma publicação. O que deve ficar claro é que as políticas de leitura devem ser voltadas ao leitor e não ao escritor.

Repetindo aqui Roland Barthes, “a literatura possui muitos saberes”. Logicamente que os códigos da leitura não se referem apenas à literatura. Muito menos da boa literatura ou, ainda, aos livros apenas. Não nos referimos aqui aos suportes em um artigo que será publicado virtualmente, em um blog. A realidade é que o livro mais lido no Brasil continua sendo a Bíblia. Ainda bem! Se trata de uma obra de importância inquestionável até mesmo para os “ateus-espiritualistas”, como eu. Sua linguagem carregada de simbolismos é referencial, não tenhamos dúvida, enquanto caminho para uma leitura de qualidade. O que nos surpreende positivamente, também na pesquisa aqui mencionada, é o fato de algumas regiões apresentarem um índice de interesse pela poesia, superior ao interesse pelas leituras religiosas. Isso serve como alerta aos educadores. É fato que a Poesia é porta de entrada para o leitor lúdico e crítico. Não é de graça que se trata de um gênero que conta com a preferência da juventude.

Claro que enquanto temos pessoas empenhadas e, de certa forma, introduzindo o interesse pela leitura enquanto política pública estruturante - até mesmo de uma nova ordem econômica - temos professores como um rapaz chamado Túlio, aqui em João Pessoa. Um “educador” que se notabilizou tristemente por chamar Clarice de Chatice Lispector, no espaço sagrado de uma sala de aula. Isso em uma das mais caras e conhecidas escolas particulares de João Pessoa. Ou mesmo estudantes de Letras que “odeiam” literatura, sustentando esta estupidez, inclusive, em comunidades na rede de relacionamentos, Orkut. Isso nos mostra o quanto é revolucionário defender com veemência o contraponto, nas universidades, nas escolas, nas associações de bairro, nas ONGs, nas ruas...

Está mais do que na hora da Escola Pública (também a escola privada, por que não?) assumir definitivamente o seu papel neste doce e transformador empreendimento. É preciso que se desenvolvam cada vez mais as práticas pedagógicas promotoras da leitura enquanto prazer e não enquanto obrigação de ofício. O papel da escola é fundamental nesse aspecto. Programar políticas de leitura é o que de mais pedagógico pode ser empreendido pelas gestões públicas comprometidas com a formação cidadã das comunidades. Um homem e uma mulher de boa leitura, certamente saberão os melhores caminhos para, tenham certeza, salvar o mundo de uma catástrofe social, econômica, bélica e, sobretudo, humana nas próximas décadas. Para isso não podemos depender dos governos. Estando ou não dentro deles. Como dizia Vandré, “quem sabe faz a hora”.

Nota 1 – A maioria dos dados aqui apresentados foram extraídos do livro Retratos da leitura no Brasil, publicado pelo Instituto Pró-Livro em parceria com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, sob a coordenação de Galeno Amorim, diretor do Observatório do Livro e da Leitura, primeiro coordenador do Plano Nacional do Livro e da Leitura entre outras coisas (o currículum do homem é enorme).

Nota 2 – Registro aqui a minha solidariedade ao poeta paraibano Sérgio de Castro Pinto que teve trechos inteiros do seu livro, Longe daqui aqui mesmo, resultado da su tese de doutorado sobre Mário Quintana, usurpados por uma professora da Universidade de Caxias do Sul. Citar a fonte das nossas pesquisas corretamente é uma questão de honestidade intelectual.

sábado, 5 de setembro de 2009

A antropofagia do próprio texto – voltando ao tema

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por Lau Siqueira



O contraponto é sempre o melhor sumo do diálogo, no jogo asseado das idéias. Já escrevi para revistas de circulação nacional, sites, jornais e blogs. Aqui e ali lia alguém comentando a respeito. Na verdade, concordar ou não com algo escrito por outra pessoa pode ser considerado normal. Sempre considerei isso como alimento das minhas idéias. O que, convenhamos, não é muito normal é quando o autor do próprio texto acaba não concordando com o que escreveu e publicou. Não é esse exatamente o caso, mas pensei nisso quando recebi e-mail do escritor e professor Ítalo Moroconi acerca de um texto que divulguei no meu blog Pele Sem Pele e distribuí para alguns e-mails da minha lista de endereços eletrônicos, recentemente. Na oportunidade me referi a professores que não apenas desconheciam, mas abominavam a literatura contemporânea.

Na verdade não era exatamente isso que o texto abordava. Esse elemento foi pinçado pelo escritor que contestou, afirmando que no Rio e São Paulo existem muitos professores atentos à produção contemporânea. Não duvido. Eu sei disso. Na verdade, este não é um privilégio do Rio e São Paulo que, convenhamos, nunca foi e agora mais do que nunca não é mais o centro nevrálgico do pensamento brasileiro. Existem professores em Minas (e eu citei Anelito de Oliveira), aqui na Paraíba (citei Amador ribeiro Neto), no interior de São Paulo, no Pará e em muitos outros lugares, atentos à produção contemporânea. Infelizmente, também, existem aqueles que simplesmente abominam qualquer movimento em direção à literatura contemporânea. Este é um fato inquestionável. Entrementes, não era este o foco do artigo. A menos que eu tenha perdido meu próprio foco.

Eu abordava a produção contemporânea a partir da internet e seus veículos. Não citei, mas, por exemplo, muito me impressionou um poema de Luciana Marinho no meu Orkut. Por falar nisso, Luciana é professora do curso de Letras da Universo, em Recife. Uma universidade particular onde a literatura contemporânea também não é ignorada. Estarmos vivenciando uma relação midiática cujas reações são imediatas e o peso que isso tem na própria produção literária. Foi exatamente isto que aguçou meu pensamento. Para citar mais um exemplo, recentemente escrevi o prefácio do livro “Solacio”, da poeta Valéria Tarelho, de São José dos Campos-SP. O livro vai sair em edição nacional, pela editora Landy, dentro da coleção Alguidar, organizada pelo poeta Frederico Barbosa.

Minha reflexão partia de conversas com amigos na própria internet. Valéria, por exemplo, escreve poemas há sete anos apenas. É uma leitora voraz dos clássicos, uma pessoa culta, mas também é leitora da produção que circula na internet. Até mesmo a produção inédita como a sua. Será que isso não teve e não tem influência alguma na sua poesia? Duvido muito. Para os poetas que freqüentam o Orkut e o twitter, por exemplo, estes são também excelentes instrumentos para a veiculação de boa poesia e idéias sobre poesia. No meu Orkut, por exemplo, afloram textos de Helberto Helder, Nuno Júdice, Hopkins, João Cabral e outros poetas. Presentes deixados por amigos e amigas, cuja sensibilidade não foi suprimida pela tecnologia. São meus amigos de Orkut, nomes representativos da poesia brasileira contemporânea, como Ricardo Silvestrin, Ronald Augusto, Cláudio Daniel, Frederico Barbosa, Antônio Mariano, Lucila Nogueira, a própria Valéria Tarelho e outros bons poetas da rede e da cama de palhas da realidade. Este artigo, bem como o anterior, tem como veículo o blog Pele Sem Pele e algumas colunas que possuo em sites, como El Theatro (http://www.eltheatro.com/).

Na verdade, creio que precisamos estar atentos ao que está em movimento. A internet, com certeza, revolucionou os métodos de divulgação da literatura contemporânea. E sem desconstruir o que os cordelistas já faziam há cem anos ou mais. Até mesmo as grandes editoras e as grandes redes de livrarias usam a web para a afirmação dos seus negócios e para a ampliação da sua lucratividade. Mas, não era exatamente a isto que eu me referia. Logicamente, sem a pretensão de esgotar o assunto num artigo de duas laudas e meia, no máximo três, um assunto de tamanha densidade e relevãncia, eu abordava a repercussão desse processo na própria linguagem poética do século XXI. Este é o fato central do meu raciocínio que, posso concordar, talvez não estivesse muito bem colocado. É certo que abomino a ignorância como método de estudo. O fato de alguém estudar Camões, por exemplo, não o impede de conhecer e admirar, por exemplo, as vanguardas que despontavam em regiões fora do eixo. Cito aqui a importância quase desconhecida do Rio Grande do Norte para a poesia de vanguarda brasileira, nos anos 60, 70 e mesmo nos dias de hoje.

Penso que a evolução da linguagem poética deve-se, muito especialmente, à capacidade de atenção dos pensadores desta produção aos menores movimentos da língua e seus afluentes na cadeia produtiva do conhecimento. Recentemente li uma reportagem sobre a influência do chamado “internetês” no ensino da língua portuguesa. Ou será que alguma espécie de germe erudito impede os professores de língua portuguesa do ensino fundamental, principalmente, de avaliar o fato de seus alunos passarem boa parte do dia no MSN, escrevendo coisas como vc tc de onde? (você tecla de onde?). É certo que as pesquisas ainda apontam opiniões desfavoráveis ao enriquecimento da língua com fatos desta natureza. No entanto, sinto uma vontade enorme de questionar as pesquisas (78% é o índice desfavorável) se não houver uma capitulação ao internetês. O que seria mais prejudicial ao estudo da língua portuguesa? O internetês ou a supressão do estudo do Latim nas escolas brasileiras?

Logicamente que outras oportunidades deverão me remeter ao tema que, cá pra nós, muito me agrada pela sua capacidade de convulsionar o pensamento. Quando se trata de pesquisa da linguagem poética (ou de qualquer linguagem artística), não se pode suprimir absolutamente nada. Mesmo as questões ditas abomináveis. Neste tempo de velocidades no qual estamos mergulhados, muito especialmente as certezas são questionáveis. As verdades absolutas são atestados de incompetência teórica. Idéias calcadas em preconceito de qualquer espécie, penso eu, não combinam com o distanciamento histórico (e não estético) das idéias de Aristóteles, Longino e Horácio. Estamos praticamente concluindo a primeira década do século XXI. Posso estar enganado, mas tenho visto ainda uma preocupação despreocupada das universidades com o pensamento contemporâneo. Ou pelo menos, penso que a universidade continua com a velha mania de produzir para seus próprios ambientes. Não sei se isso é bom ou ruim, mas a produção do pensamento contemporâneo já não possui tanto assim o campus como limite geográfico da produção intelectual.

Antes que me submetam a uma pregação metodológica, este texto - tanto quanto o anterior -não tem pretensões ensaísticas. Apenas levanto uma lebre sem pele sobre as agonias que perpassam um mundo que vive hoje outros dramas, outras inquisições. Uma delas é a abolição do pensamento enquanto vetor principal para o trem da história.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

As teias geométricas de Dênis Cavalcanti

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Lau Siqueira


Toda obra de arte traduz seu próprio tempo. No entanto não há, para a obra de arte, um tempo linear. Como diz o poeta Manuel de Barros no Livro das Ignorãnças, “Não sei mais calcular a cor das horas. As coisas me ampliaram para menos”. Assim, numa primeira leitura da obra do artista plástico paraibano Denis Cavalcanti já se revela a atitude racional, precisa, rigorosamente futurista, vocacionada às imensidões do acaso. O artista constrói uma equação devotada ao mergulho num rio de mutações cores e formas. Na imprevisibilidade de um salto seguro que se traduz na ambivalência e nas especificidades do fator humano.

O artista convulsiona e ambienta suas influências de modo a construir a singularidade de uma linguagem capaz de amparar a permanência do abstrato. Todavia, espelha-se na concretude de uma era de velocidades, onde a arte que se cumpre vai também compactuando com a mais densa sensibilidade. Mas, que outra função teria a arte que não a de aflorar as imensidões e cometer as incertezas que permitem o ato inventivo? A perenidade, portanto, risca seus mapas na íris de cada leitura, de cada olhar com suficiente alcance para os desenredos da imaginação. E assim Denis Cavalcanti vai tecendo suas evocações ao silêncio. Entrementes, o que se revela é a plenitude de um grito. Na verdade uma obra que nos traz ao mesmo tempo o posto e o seu oposto.

Estamos diante de um artista cujas metáforas construídas nos remetem às emoções mais densas e ao mesmo tempo às premissas de uma ausência absoluta. Um vácuo onde a permissividade libertária une o veio criador aos relatos de uma reengenharia do tempo. Um lugar onde apenas o desconhecido é linear. Denis desobstrui as insígnias do que poderia enquadrá-lo, por exemplo, num neoplasticismo. Ele respira um hábito criador que se estende do clássico aos infinitos conduzidos pela experimentação permanente. Coisa que se reconhece no hálito de toda boa arte de vanguarda, num tempo que o próprio tempo determina.

Texto de apresentação do livro e site do artista plástico paraibano Dênis Cavalcanti.

sábado, 29 de agosto de 2009

Antropofagia e linguagem poética no século XXI

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Por Lau Siqueira

A poesia que vem sendo produzida nesses tempos de blogs, sites, orkut e twitter começa a revelar características muito particulares. A internet desencadeou um processo que ainda está em fase de assimilação pelos pensadores da história e da teoria literária do nosso tempo. A princípio, havia uma inexplicável desconfiança e um parcial desinteresse em relação a esses meios por parte significativa dos escritores. Muito especialmente pelos poetas.

Nos primeiros momentos houve uma tentativa de desqualificar esta produção. Como se a facilidade de veiculação e a interatividade da internet somente permitisse a divulgação de poetas de águas rasas. Certamente que havia um fundo de verdade nisso todo. A internet servia e ainda serve para divulgar muita coisa de qualidade bastante duvidosa. Nos primórdios da rede, as desconfianças eram muitas e a mitificação da nova mídia nos remetia sempre às reflexões de Umberto Eco e seus apocalípticos e integrados.

Em pleno agosto de 2009, me pego pensando nisso em frente ao meu computador. Naturalmente, com uma necessidade enorme de compreender esse processo e refletir um pouco sobre a influência que essa verdadeira revolução nas mídias tradicionais possa ter provocado não apenas na forma de divulgação da poesia, mas também e principalmente nas perspectivas para a construção de uma nova linguagem para a poesia.

A verdade é que o virtual passou a se aproximar com maior intensidade do cotidiano, confundindo-se com ele exatamente através da escrita. Para Pierre Levy, “a tela informática é uma nova ‘máquina de ler’ o lugar onde uma reserva de informação possível vem se realizar por seleção, aqui e agora, para um leitor particular. Toda leitura em computador é uma edição, uma montagem singular.” Segundo o próprio Levy, seria um erro fatal considerar o computador apenas uma máquina de escrever e de ler. Existe toda uma cultura sendo formulada através dessa nova forma de conhecimento.

Na verdade o que se pode perceber é que no meio de um lixo acumulado e natural, produzido por milhões de seres humanos sedentos de expressar publicamente suas angústias (e confundindo isso com poesia, tantas vezes) foi transbordando uma poesia de qualidade, densa, amparada no respeito às tradições, mas também sem medo de experimentar e não ser exatamente como o que já se dava por estabelecido na circunstância poética brasileira e pelo mundo afora.

Para desmistificar esse rolo compressor inicial, eu pergunto: que mal faz um mau poeta ao escrever versos ruins? Ou que mal há, por exemplo, em publicá-los nos sites e nas ainda existentes listas de discussões sobre literatura e poesia? Certamente que nenhum. O bom leitor haverá de saber selecionar os bons textos. Há, com certeza, uma seleção natural e os poetas, sejam eles novos ou já reconhecidos, foram e continuam sendo naturalmente peneirados. Agora não mais pelos cânones e pela crítica fardada. Quem começa a dar as cartas é, também, esse mau poeta que, muitas vezes, acaba sendo um bom leitor.

Podemos observar com certa clareza que existe um fato novo na poesia contemporânea que precisa ser analisado com maior profundidade. Os poetas que foram surgindo, muito especialmente após o início do século XXI, são poetas que também são leitores da poesia que circula na rede. Isso gerou algo extraordinário, pois aniquilou as “verdades absolutas”. Ser louvado publicamente por A ou B possuía um valor inestimável que hoje já começa a gerar profundas dúvidas. Não que isso tenha aniquilado a crítica. Muito pelo contrário. Agora basta ter um blog para que o exercício da crítica possa receber as atenções devidas. Ou seja, em tempos de capitalismo selvagem, aumentou a concorrência e só se estabelece quem tem competência. Até mesmo a pseudo-crítica peçonhenta ganha a oportunidade de trocar de pele, de se renovar.

Poetas que nunca publicaram um livro impresso ou mesmo os que somente conseguiam publicar edições com distribuição regional, passaram a disputar palmo a palmo os espaços e as atenções dos críticos e leitores do país e do mundo. Uma disputa que os coloca em pé de igualdade com nomes que vinham sendo incensados de forma pouco justificada pela mídia burguesa. Tanta vez pagando caro para ter livros distribuídos nacionalmente (com pouca racionalidade) pelas grandes redes de distribuição.

Agora as coisas estão em maior ou menor escala, no mesmo ponto de partida. Passamos a perceber o surgimento de poetas que são, na verdade, leitores e leitoras da produção poética de ilustres desconhecidos que abundam na rede. Com alguma qualidade alguns, com muita qualidade uns poucos e uma grande maioria com pouca qualidade. Ainda valem, logicamente, as indicações dos grandes mestres. Essa nova lógica não exclui a tradição. No entanto, naturalmente, cada um de nós foi tecendo as próprias leituras e com elas infringindo todos os códigos do comodismo pálido de uma cultura acadêmica dominante. Tudo precisou ser novamente observado, analisado, pesquisado e, finalmente digerido por todos. É claro que isso não determina o fim da cultura acadêmica, mas certamente que a coloca na obrigatoriedade de refletir sobre ela mesma.

No ensaio “Poesia nova – uma épica do instante”, em “O poeta e a consciência crítica” (Editora Perspectiva-SP, 2008), Affonso Ávila escreve um pouco sobre tudo isso. Segundo ele, “a situação atual da poesia no Brasil reflete, entre afirmações criadoras e perplexidades críticas, a mudança radical de concepção do fato poético que, nos últimos dez anos, se operou em nosso país. Essa transformação, intimamente vinculada à modificação mais abrangente das estruturas de conscientização de nosso povo, não se restringiu a um fenômeno de linguagem como parecerá à primeira vista. Suas implicações são mais profundas e traduzem simultaneamente, uma nova atitude do poeta diante da realidade que suscita o ato criando e a adequação do seu instrumento ao imperativo das modernas técnicas de comunicação”.

Além de ser uma das mais representativas expressões da arte de vanguarda no Brasil, Affonso Ávila nos remete a reflexões que certamente deverão retorcer os ferros da crítica tradicional, mesmo aquela que usa a internet não como um poderoso instrumento interativo, mas como mais um veículo para difusão de uma tendência da “política literária”. Todavia, lamentavelmente, abrindo mão de receber a imensa carga de informações da novíssima produção poética e crítica que aflora também a partir das universidades, embora extrapolando limites geográficos e metodológicos.

A nova poesia, portanto, passou a contar não apenas com a sua natural evolução a partir da perda total do controle das informações pelos “babalorixás”, mas também com a análise lúcida de pensadores e teóricos da poesia que, na verdade, sempre estiveram mergulhados para muito além do nosso tempo. Como Affonso Ávila, Amador Ribeiro Neto, Anelito de Oliveira e outros poucos que sabem que a poesia não sobreviveria se todos os olhares estivessem fixados no passado. Aqui na Paraíba, por exemplo, existem “doutores” que se negam a reconhecer inclusive a produção literária do século XX. Isso me faz ter dúvidas acerca do mau cheiro exalado pelos banheiros do CCHLA. Seriam necrotérios?

Infelizmente, boa parte dos estudiosos da poesia não passa de funcionários públicos preguiçosos que não ousam sequer realizar uma única leitura conseqüente da evolução da linguagem poética. Para eles, a cena atual não existe. Triste dos que pensam assim. Morreram para um mundo que os torna naturalmente desnecessários. O que se conclui é que a nova poesia é leitora dela própria. Pratica naturalmente a antropofagia oswaldiana que designou os destinos de um modernismo que não estancou na semana de 22. A nova poesia foi beber nos mestres, certamente. Mas, não cometeu o suicídio de desconhecer o surgimento de novos horizontes a partir das janelas abertas pelo futurismo deflagrado no final do século XIX, pelas vanguardas. O caminho é continuar experimentando, arriscando, buscando compreender o presente. Traduzindo de forma mais apurada as idéias de José Paulo Paes: “somente não envelhece o que já nasceu velho.”

sábado, 22 de agosto de 2009

O que é que o governador Maranhão tem contra a cultura?

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Por Lau Siqueira

Na verdade, não foi nenhuma surpresa a saída do artista plástico Flávio Tavares da Subsecretaria de Cultura do Estado. Afinal, somente os acomodados não se incomodam com circunstâncias comprovadamente criadas por mera pirotecnia política. A insatisfação de Flávio no governo era de uma pulsação impressionante. Artista de amplo reconhecimento e cidadão exemplar, Flávio Tavares deve ter percebido que a mentalidade do governador em relação às políticas de cultura permanecia exatamente a mesma dos seus dois primeiros governos.

De perfil conservador, o arcaico José Maranhão já fez escolhas acertadas para dirigir a cultura do Estado. Não se pode negar. Isso no caso de Flávio e, anteriormente, do poeta Sérgio de Castro Pinto. Entretanto, também Sérgio percebeu que tinha um nome a zelar e que as políticas de cultura estavam desvinculadas das ações prioritárias do marqueteiro Zé, o proclamado mestre de obras. Entre Sérgio e Flávio, nos seus três períodos de governo, Maranhão encontrou o nome adequado para o seu nível de mentalidade. O também artista plástico Chico Pereira. Chico notabilizou-se por chamar os artistas de “mendigos” e por conduzir a consagrada inanição do Estado no setor. Foram anos de mediocridade, pedantismo e parcos investimentos. Mas, não há nome que represente melhor a relação do governador Maranhão com a cultura da Paraíba.

Quando da indicação de Flávio Tavares cheguei a ficar um tanto quanto esperançoso. Em primeiro lugar porque jamais torço contra. Segundo porque Flávio (assim como Sérgio) é, em todos os sentidos, um exemplo de dignidade e inteligência na terra de Augusto dos Anjos. Uma das melhores antenas da nossa raça. Pensei até que talvez as coisas tivessem mudado na cabeça dura do governador, nos últimos anos. Afinal, eu próprio em 2006 participei do guia eleitoral maranhista, através do meu partido, o PSB. Lembro que fomos convidados a participar. Predominava, naquele momento, o desejo de avançarmos dentro do governo do Estado em direção a construção de políticas públicas. Eram inegáveis os avanços na prefeitura. Fomos, então, “mostrar a cara” no guia. Entregamos nossa proposta ao então candidato que, assim, assumia um compromisso público que, certamente, agora vai para o tambor de lixo da história.

Lembro muito bem que levamos dois ônibus lotados de artistas plásticos, escritores, atores, músicos, produtores, segmentos como hip-hop, cultura popular e outros. Pensei que lá chegando encontraríamos os partidários do governador para juntos realizarmos a gravação. Ledo engano. Não havia uma única alma consagrada da espiral maranhista. Fomos nós e apenas nós, socialistas, que gravamos o programa eleitoral do então candidato José Maranhão. Ainda assim acreditei que a demonstração de força com aquela mobilização, sensibilizaria o nosso então candidato.

Quando da escolha de Flávio Tavares, cheguei até mesmo a pensar que tínhamos dobrado o conservadorismo do ex-senador. Cheguei a acreditar que Maranhão havia, finalmente, reconhecido que a cultura tem um papel estratégico, inclusive na economia e na construção de políticas transversais e intersetoriais. Afinal, um setor que movimenta 5% do Produto Interno Bruto brasileiro não pode passar despercebido num governo minimamente democrático e que tenha compromisso com o desenvolvimento integrado e sustentável. Em Toronto, no Canadá, as estratégicas econômicas se orientam a partir da política de cultura. Em Paris, a cultura é um dos pilares da economia. Até quando a terra de Ariano Suassuna suporta ser relegada ao estágio de colônia de Pernambuco? Para mudar a vida é preciso mudar de atitude, transformando a mentalidade imposta pelo neo-coronelismo.

Não quero aqui declarar nenhum arrependimento por ter participado e incentivado a participação de artistas e grupos de cultura na eleição de 2006. Afinal, as políticas de aliança são importantes estratégias para o avanço do campo democrático e popular. Não devem jamais ser confundidas com adesismo se conduzidas de forma madura e transparente. A participação política dos artistas e dos fazedores de cultura de um modo geral é uma questão de cidadania. Como dizia Gramsci, “viver é tomar partido”. No entanto, percebo agora o quanto o governador Maranhão exige-nos uma reação. Nem mesmo com o seu vice-governador, Luciano Cartaxo, sendo também um produtor cultural a visão maranhista para a cultura foi alterada. O mais interessante é que o abalo que qualquer governo teria com a saída de um quadro imprescindível como Flávio Tavares se dá exatamente no momento em que é anunciada a criação da Secretaria de Cultura. No entanto, para quê criar uma Secretaria de Cultura se o governo se empenha em consolidar uma “subpolítica” de cultura? O injustificável descaso do governador, certamente, tem sérias implicações no processo de desenvolvimento do Estado. Um bom mestre de obras deveria compreender que não é exatamente com marqueting de cimento e cal que se produz desenvolvimento.

Logicamente que não trago aqui um discurso de imparcialidade. Nunca fui imparcial. Não acredito em imparcialidade. Sempre tive lado. Afinal, somos produto das nossas escolhas. Pautei minha vida inteira na construção de ideais estéticos, do ponto de vista da arte e políticos, do ponto de vista humano. Também não quero dizer que o governador Cássio Cunha Lima tenha sido generoso com a cultura. Muito pelo contrário. Cássio praticamente desmoralizou o FENART, um dos mais importantes festivais de cultura do Nordeste. Maranhão ratificou essa desmoralização. Iguala-se a Cássio ao cancelar o FENART 2009 e anunciando o FENART para o ano eleitoral de 2010. (Isso se chama oportunismo patológico)

Com todas as limitações impostas pelas regras do poder público, entre erros e acertos, o fato é que a Prefeitura Municipal de João Pessoa avançou na democratização das políticas da cultura a partir de 2005. Não quero dizer aqui que atingimos o Ponto G das nossas necessidades. O fato é que estabeleceu-se um processo de inclusão nunca antes vivenciado. Sobrou gás, inclusive, para uma relação de proximidade com o interior do Estado. Não foi por acaso que, em 2008, estivemos em Cajazeiras e Sousa, apresentando as ações da Fundação Cultural de João Pessoa, a convite do Fórum de Cultura do Alto Sertão. Também em Campina Grande, onde a política de cultura tem se resumido ao “Maior São João do Mundo”, participamos de debates com o segmento cultural. Logicamente que isso foi o reflexo de uma ação desenvolvida por um grupo de militantes e não por prestígio pessoal. Lembro que em Cajazeiras, os artistas destacavam duas políticas sólidas da Prefeitura de João Pessoa: o Empreender-JP e o Circuito Cultural das Praças. Em Sousa, no meio do debate um artista levantou e disse: “isso só vai acontecer por aqui quando Ricardo Coutinho for o governador.” E agora, José? O sonho está apenas começando.

Agora é pagar para ver. Nossa esperança está no setorial de cultura do PT que, neste momento, passa a assumir a responsabilidade de abalar a mentalidade medieval de um governador que, provavelmente, acha que política de cultura se resume na liberação de recursos para os artistas. Não, governador! O objeto de uma política pública de cultura não é o artista, mas a memória (passada e futura) do povo. O grande desafio é conjugar tradição e modernidade, integrando a cultura nos processos de desenvolvimento. Mas, cá pra nós, precisamos definitivamente reconhecer que os artistas são os principais parceiros para a implementação de ações que visem edificar o espírito crítico e lúdico nas futuras gerações. Ou seja: o espírito transformador que haverá de melhorar a nossa sociedade. Acolher, incluir, criar, trabalhar, superar. Estes são alguns dos verbos que movimentam a cena e que do discurso maranhista parecem ter sido suprimidos. Na prática, sumariamente aniquilados.

A nossa esperança permanece intacta. Todavia, quando falo de esperança não falo de inércia. Falo de uma esperança que constrói e que busca estabelecer uma relação das três esferas da área pública (municípios, estados e união), com a sociedade civil e com a plenitude cidadã. É lógico que isso não é fácil. No entanto, como diz o poeta Chacal, “só o impossível acontece. O possível apenas se repete.”

Para finalizar, destaco a elegância com a qual Flávio Tavares soube se retirar da cena, desligando sutilmente os aparelhos de uma agonia. Flávio deu para todos nós, um exemplo de dignidade e coerência. Que este ato cidadão do artista não passe impune pelo nosso aprendizado. Nem pela composição e pelas diretrizes dos próximos governos. O que nos preocupa é que não se trata de um governo novo, mas de um governo que já passou oito anos ignorando completamente os processos culturais na terra de Sivuca e Jackson do Pandeiro.

domingo, 26 de julho de 2009

Parrá – a elegância do ritmo.




Lau Siqueira

A boemia pessoense ainda preserva seus mais alinhados personagens. Principalmente no anonimato turbulento das ruas da Cidade Antiga. Na Ladeira da Borborema guardamos boas memórias do poeta Manuel Caixa D’água. Nos escambos temporais deste início de século, ainda há quem nos faça sonhar com a velha Parahyba do Norte - “morena brasileira”. A eterna Cidade das Acácias. Um lugar onde os sagüis pululam pelos resquícios da Mata Atlântica e onde as prostitutas retomam o simbolismo histórico da luta pelo reconhecimento da profissão. Assim a cidade vai se organizando politicamente no movimento das águas e dos tempos. Convulsionando uma urbanidade que nasceu nas margens de um rio para desaguar nas memórias do futuro.
Foi numa cidade assim, ali no Roger - mais exatamente na Rua Anísio Salatiel número 60 - que nasceu Severino Ramos de Oliveira. Isso foi no ano de 1938. Ainda na primeira infância o irmão lhe conferiu o apelido de Parrá, sem saber que estava realizando um batizado artístico. Nascia um personagem da cultura de uma cidade absorvida, naquele momento, pela era do rádio. Um tempo em que as ondas médias e as ondas curtas determinavam o todo poderoso veículo da comunicação popular. Um talho de modernidade no provincianismo de uma cidade que presenteou o Brasil e o mundo com personalidades importantes da cultura brasileira. Como o cidadão do mundo, Ariano Suassuna. Um litorâneo de alma sertaneja. Um homem que trafega sua existência nas raízes da expressividade cultural do povo nordestino. Tudo dentro de uma rotina de invenções. Numa plasticidade de cores e ritmos. Elementos para o cenário de uma vida dura que gerou a alma delicada dos seus artistas.
Parrá representa o glamour e o estigma de uma geração que construiu os maiores referenciais da chamada Música Popular Brasileira. Na verdade, uma geração que abriu as comportas para o nascedouro da MPB enquanto conceito, dentro da universalidade natural da música de qualquer região do planeta. Um tempo de grandes ritmistas como Jackson do Pandeiro que esteve para a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, na mesma proporção que Parrá esteve para a época de ouro da Rádio Tabajara, aqui na Paraíba. Com absoluta convicção do seu destino, Parrá soube traçar (na base da “marmota”, tantas vezes) os seus próprios caminhos. Sempre com a simplicidade de um homem que fez da música a sua forma de transcendência no tempo. Preservando-se enquanto menino, em cada leitura do mundo que o cerca. Tudo isso compõe o inventário de uma vida que não guardou espaços para a tristeza, mesmo que estas tenham sido tantas e muitas vezes, tão profundas.
Parrá está situado na história da música nordestina, entre os grandes nomes do seu tempo. É certo que não teve o seu trabalho reconhecido lá fora, principalmente no vigor da juventude. Até porque muito pouco saiu da Paraíba. Principalmente porque nunca saiu do Nordeste. Somente este detalhe apartou o cantor de um reconhecimento público muito semelhante aos artistas que foram consagrados nacionalmente pela mídia, abrindo os olhos do país para a efervescência cultural da Paraíba. Mesmo assim, Parrá influenciou e influencia as novas gerações de músicos paraibanos. Com sua elegância, com suas convicções estéticas, com suas marmotas, com sua alegria perene e sua dignidade. Ele faz parte de um grupo seleto que reúne nomes como Livardo Alves e outros que, mesmo sem sair da cidade, conseguiram uma consagração e um reconhecimento raro para os chamados “santos de casa”. Parrá não é e nunca foi santo. Todavia, está na área e “obra milagres” - como se costuma dizer por aqui - com a inventividade da sua arte. Sua natureza é criativa e musical. Um artista que soube eternizar-se na memória da cidade. Seja pela sua simplicidade conjugada com sua irreverência, mas principalmente pelo seu inquestionável talento e pela organicidade da sua atividade intelectual.
Logicamente que se torna um tanto quanto redundante ressaltar as influências jacksonianas. Aliás, essas influências do grande mestre de Alagoa Grande chegaram também para Alceu Valença, Zé Ramalho, Lenine, Zeca Baleiro, Chico Cesar e até mesmo aos roqueiros conterrâneos do Rei do Ritmo da banda Jackson Envenenado, de Alagoa Grande. Mas, com Parrá, foi diferente. Não se trata apenas de uma influência. Trata-se da absorção geral de todos os mimos, trejeitos, manejos e traquejos de uma tradição rítmica bem nordestina e, sobretudo, genuinamente paraibana. Algo que esteve representado na existência artística de Jackson, mas que também está em Parrá, Biliu de Campina e outros artistas importantes desta terra de grandes artistas. Este é o diferencial que coloca o nome de Parrá sempre na vanguarda quando o assunto é Jackson do Pandeiro. E é exatamente isso que diferencia o nosso Severino Ramos de Oliveira. Não seria ele um cover do mestre. Falando assim, num tom bem nordestino, o morador da Rua Anísio Salatiel número 60, no Roger, seria a mais perfeita “parêa” musical e existencial do velho Jackson do Pandeiro.
Na cena musical contemporânea do Estado, o cantor e compositor ainda resiste ao lado de grupos como Burro Morto, Chico Correa, Cabruêra, cantores como Escurinho, Erivan Araújo e Gláucia Lima que, com certeza, souberam e sabem beber na fonte inesgotável que é a musicalidade deste artista cujas levadas e cujo suingue transpiram no cotidiano da cidade, de onde ele sempre arrancou o barro, o fogo e a água, para esculpir canções que marcaram a história musical do Nordeste. A musicalidade de Parrá está muito mais viva que nunca!
Em 2006, na festa de aniversário da cidade, a homenagem foi para Jackson do Pandeiro. As escolhas da Fundação Cultural de João Pessoa não poderiam ser mais exatas. A Orquestra de Câmara Cidade de João Pessoa, criada e regida pelo maestro argentino radicado na cidade, Gustavo de Paco, tocou 11 músicas de Jackson. Todas interpretadas de forma impecável pelo irreverente Parrá. Um show de competência e identidade cultural. Na verdade aquele show representou certo redimensionamento da relação entre a música erudita e a música popular. Naquele momento, Parrá se mostrava digno da consagração na memória do seu povo. O público cantava entusiasmado os sucessos de Jackson, como se o show fosse com o próprio. O Canto da Ema, Sebastiana, Um a Um, Forró em Limoeiro e outras. Naquele momento Parrá selava em sua carreira um reconhecimento que vinha sendo, injustificadamente, sonegado. Em um show realizado anteriormente, no São João, ele fez uma declaração pública que vale como alerta para os gestores de cultura que não se preocupam com a preservação da memória dos seus artistas: “eu estava morto e vocês me ressuscitaram”, disse Parrá. Na verdade, Parrá, a cidade é que andou entorpecida, desmemoriada, fora do eixo... Você representa o espírito e o corpo de uma cultura que não se rende, independentemente da sensibilidade de quem a governa. Uma cultura de resistência que transita soberanamente entre a tradição e a modernidade.